REZA BRAVA

REZA BRAVA

“…disponho-me, então, a passear pelo labirinto do não, pelas trilhas da mais perturbadora e atraente tendência das literaturas contemporâneas; tendência em que se encontra o único caminho aberto à autêntica criação literária; que se pergunta o que é e onde está escrita e que vagueia ao redor de sua impossibilidade e que diz a verdade sobre o estado, de prognóstico grave, mas sumamente estimulante- da literatura deste fim de milênio.
Apenas da pulsão negativa, apenas do labirinto do não pode surgir a escrita por vir. Mas como será esta literatura…”

Vila Matas

O que temos aqui, senhores leitores? Acaso necessitamos acreditar piamente no que nos é narrado? Especialmente quando se trata de uma ficção literária? Acaso devemos sempre suspeitar da esmola ao santo quando o santo são os leitores? Meu papel aqui é convencê-lo de que irá ler um romance, mas, não é um aviltamento às formas rígidas de tais estruturas?
Na primeira parte, o que temos é uma narrativa contada em cartas para vários destinatários com textos anexos e outras estórias em paralelo, no entanto, o leitor reconhece a estrutura como narrativa pela linearidade das cartas (percepção que inicialmente não se supõe do destinatário, mesmo que este tenha eventualmente convivido com o narrador, tenha ou não saudades dele; não é ele o convidado ao ouvir o que se quer dizer).
Depois desta pequena subversão do foco narrativo, e da condição dúbia do narrador, há a segunda parte, que trata do cativeiro do mesmo, que pretende se justificar por meio de ilações delirantes dentro do cárcere. Lembranças que fazem uma alteração na sintaxe e talvez no ritmo.
Porém, em seu jogo tácito e pernóstico, não se sabe se ele se constrói homem a partir da mulher ou se o contrário pode se verificar como algo válido. Nada que é devidamente justificado sai do mundo gratuitamente, mas, aguardem.
Se gostarem de ter outra leitura ou leitura nenhuma a menos que fosse uma soma ou um apanhado de textos recolhidos e compilados de maneira a não terem sentido algum, estejam à vontade.

PRIMEIRA PARTE

ALGUM ESTUDO DE SOLFEJOS

“… a melodia era bastante comum para que se permitissem liberdades que Ronald não teria consentido quando Satchmo cantava Yellow Dog Blues, e porque no hálito que Ronald lhe soprava na nuca havia uma mistura de vodca e Sauerkraut que agitava espantosamente Babs. Do altíssimo ponto onde se encontrava, numa espécie de admirável pirâmide de fumaça e música e vodca e Sauerkraut e mãos de Ronald, permitindo-se excursões e retrocessos, Babs condescendia em olhar por entre as suas pálpebras úmidas e via Oliveira no chão, com os ombros apoiados na parede, contra a pele esquimó, fumando e já perdidamente embriagado, com um rosto sul americano ressentido e amargo…”

Julio Cortázar

Este livro é essencialmente um livro de contos e cartas com pequenos ensaios que se propõem a burlar seus próprios códigos, podendo ser visto também como um conto apenas e/ou simplesmente, tão somente, um romance. Sem muitas regras de alteração das vozes narrativas (acaso escrevemos livros apenas para leituras dispersas ou não poderíamos também propositalmente dispersar a narrativa a fim de exigirmos o contrário, ou seja, a atenção do leitor?)
Por vezes, o texto em prosa, cria em sua forma de narrar, uma ambientação propícia ao leitor (esta ambientação é meramente um recurso que o texto cria para iludir-se juntamente com o leitor de que aquilo que é contado não é descrito para o leitor exclusivamente, pelo menos a princípio.)
Estas representações, apenas corroboram para que o texto se afirme como ficção, desta forma. Perdemos, totalmente, um melhor senso para discernirmos estas coisas de nossas realidades (se é que ainda precisaríamos disto.)
Portanto alguns textos aqui que possuem maiores atribuições sobre algumas realidades acerca da loucura, são embutidos, sem nenhuma cerimônia, a outros que, pelo menos, pretensamente, são diferentes.
O resultado pode ser mesmo um alfarrábio de esquisitices, mas, destinadas a denunciar o estado da realidade entre as ficções como o maior dos absurdos, a maior das loucuras.

Então este fui eu que ainda sou qualquer coisa, querendo. Desejando e não sabendo mais sequer de si.
Que direi da constituição das coisas e do mundo? Que direi da realidade? Sinto que eu, este atravessador de estórias, não tenho direito de falar da realidade. A não ser que para meu próprio senso de decência, a realidade é algo tão inverossímil quanto a tudo que ela me tem roubado pelo preço de eu construir minha memória, e ter ansiado que boa parte dela não fosse o que fora, como tivesse sempre sido narrada pelo meu universo próprio de algozes.
Pois sim, inventemos!
Eu saio pela tangente de uma circunferência que só faz enlouquecer, porém volto aos circunlóquios por questões de desequilíbrio.
Aí eu vejo a fortuna: estes semblantes esquecidos pelo tempo que os construiu e depois os absorveu a um estado de completo aniquilamento.
Aí eu os guardo em esquinas não menos ingratas com referência ao que suponho que eles sejam.
Seria também ingratidão escrever que a forma indigna destes sopros é o fato de eles não terem mais compleição para gritos ou para verdades. Terem um lugar no mundo apenas para serem a ficção que já são e o suspiro derradeiro depois das badaladas do relógio ou ao fim de uma viagem longa?
Se o tempo for mesmo esta distração torpe para o que flui em pensamentos nossos, que são ao mesmo tempo renúncia e resistência, ao que deveremos justificar a vinda do ladrão ou ao triplo chamado dos galos que sempre quis negar que conhecemos a vida, e que temos a consciência que as coisas amanhecem.
O que são estas estórias senão uma tentativa de burlar esta vigília tão incerta quanto as suas próprias vontades de vingar e de romper o tempo com o gume dos oceanos e seu duplo: este grande céu, já sem nuvens ou chuva? Este grande céu que por nossa discordância parece ser um anteparo nesta sala de espera entre o medo, o escárnio dos deuses ignorados e animais alados a relincharem a nossa desventura.
Mas o que são estas coisas? Estórias? Engodo? O que é isto que me tira o sono e me faz mentir descaradamente o que realmente sou e o que sempre desejei para a ideia da realidade e, no entanto, sou coagido a acreditar?
Ora, somos! Ora cosmos ora qualquer outra abstração sem garantia de ganhar forma.
Existe uma máquina engendrando soluços e me cooptaram para narrar isto.
Eu escolhi entender o engenho do mundo devolvendo a ele esta desfaçatez. Eu escolhi jogar aos monjolos minha estória de algo que parecemos desvelar como se fosse imperdoável o fato de velar o zelo com o qual somos tolhidos de uma estória que não podemos tentar ser, ou tentar vivê-la.
Qual é esta habilidade dos espíritos do tempo que nos entorpecem com eternidades, promessas, e a imensa força do que não podemos mudar, mas a boicotamos? Persuadimo-nos pelo fato de que nós mesmos que a boicotamos.
Pois sim, eu conto estórias na tentativa de não me esquecê-las delas, com a probabilidade nefasta de me tornar também uma estória, esquecida. E de até desejar isto. E de até pensar que é vã a tentativa de pensar nisso quão brevemente! Quão brevemente!

Ouro Branco, 02 de abril de 1979.

Querida Senhorita Dee Dee,

Tenho pensado muito naquele outono, a respeito de ficarmos à soleira do Hotel San Marino, observando pequenos redemoinhos de objetos que não eram desprezados nem por nós nem pelo vento.
Asdrúbal vai bem e disse chegar de mudança (desta vez a derradeira assim diz ele).
Pensar que o resto da família vai estar novamente reunida traz uma ideia de voltar aos erros, como tu mesma me disseste.
Ele é um cara inteligente, porém, intolerante. Ah… Ele e sua medicina de tranquilizantes para meus gatos, isto sim é algo intolerante!
Acontece que passeei pela alameda central ontem: aquele prédio do antigo reformatório ainda abandonado. A única coisa que denota vida ali é o atrevimento das plantas ocasionais (e alguma erva daninha é claro).
Havia deixado minha Polaroid no porta-luvas, sairia sem dúvida uma foto impressionista. Monet iria ter pintado meu espanto ao vê-la assim, como se não fosse natural…
A arte como tu dissera no largo são bento é algo tangível apenas quando a paixão apavora ou “abandona o estado de sentir fome e torna ao seu cativo o estado de mendicância do espírito”.

Penso estas coisas à beira das árvores nuas a volta da igreja de santo Onofre, que fazem pensar terem me borrado os ouvidos quando repicam procissões e dobram óbitos aqueles malditos sinos. É como se eu tivesse nascido aqui, em Ouro Branco. Desde que papai aqui enterramos (desde que Sofia perdeu o juízo) sinto as torres deste templo cravadas em meu abismo órfão.
Mamãe nos apareceu assim sorrateiramente com a pretensa figuração de praticamente uma carpideira. Não chorava, mas tornava lamento em ladainha e foi assim que Asdrúbal acabou a expulsando precocemente de casa.
Sim ele queria se ver livre para seu estudo de clarinete, o sopro que Sofia passou a imitar era uma polifonia interessante para audição felina do meu querido e recém-chegado Hubbard, que, aliás, presumo, deve também sentir tua falta.
Está velho, não arisco como antes, mas, ainda de olhos lépidos, ainda uma lápide de mistério e desleixo…
Pois é, Asdrúbal terminou seus estudos no Rio, e como tu previste: “quando ele chegar à conclusão que seu jogo é apenas de desistências voltará com o rabo entre as pernas.”
Mais uma vez os sinos tocaram (para minha mãe desta vez).
Assim como você a conheceu, tenaz. Tinha um semblante obstinado a purgatórios. Não tive tempo e por isso durante muito tempo desejei apenas infernos a ela.
Hoje é um pouco diferente, que Sofia vai sistematicamente à missa ou ao asilo, e que descobri a ciclovia para a estrada de são Rafael. Algum sopro ali me detém de mediocridades.
Mesmo que desde cedo eu soubera que mamãe vendeu algumas identidades, na ciclovia eu adquiria quais me viessem ao caso. Dee Dee, é uma obra prima do José Afrânio (conseguiu finalmente ser prefeito antes que o assassinassem, e projetou a ciclovia)

A orla de são Rafael, eu e Sofia brincávamos ali, lembro-me de ter lhe contado que um dia empoçamos um siri rei da praia por que o mar havia trazido Arnaldo. Este que tu não conheceste. Mas, que sabes que afanou minha irmã (aquela cara de boa praça). Virou mesmo notícia em toda a Praça João Feitosa quando desapareceu depois de ter causado em todos diversos equívocos. Disse a todos que era irmão de Maria Risca Pedra, devia mesmo ser, maldito seja Arnaldo que houvera de lamber todas as urinas que sua louca irmã mijou nas ruas.
Tio Antônio me disse ter notícias dele, em mar de garças, disse que tinha virado sapateiro, haja benzedura para tantos pés meu deus!
Parece-me que perdi todo o fôlego que são Rafael tem me dado.
A certa altura da ciclovia tem afastado ao longe um ermo que é de onde te escrevo.
Pois que das pedras reconheçamos mais uma vez Rodin, já Camille, deixemos de reserva para as pétalas.

Sofia não vive mais em casa. Arranjou um modo de orar que virou nômade!
Os clarinetes e os tranquilizantes prestes a voltar (nada contra eles, porém contra seu dono). Realmente, para Asdrúbal, clarinetes e remédio só tinham ele como senhor de seu ministério.
Esta administração, ou melhor, esta “posologia de entraves” é que me atrapalha para que ele me faça sua “anamnese”, estou farta!
Olha que estou do cume do monte onde se tem a visão mais bonita de Ouro Branco. Às vezes, Ouro Branco tem poder e insígnia de universo (e você sabe quando… penso que Hubbard também).
Ele agora ensina estas abstrações comuns a nós duas a dois companheiros Wintom e Davis.
Vejamos quando nosso Benny Goodman voltar, de vez quando prefiro que esta não seja a última volta, prefiro que isto tudo vire um eterno circunlóquio (como nos terços de Sofia).
Queria saber como vai Robert, o tio preferido que eu não tenho entre os que me dizem ser, bem como tia Ingrid sua amável esposa em meio à poesia e novelos, por fim estas cores opacas de Europa, que me fazem inventar o vento de minha tristeza.
Queria saber se ainda trabalhas como enfermeira e se ainda tens o hábito de criar coelhos na cozinha, ainda deves preparar bons cookies para tia Ingrid com sua voz que parece ter acabado de ler Oscar Wilde. Por falar nisto, queria saber se gostaste do exemplar de Cortázar que lhe enviei ano passado.
Para fecharmos este preâmbulo literário: aqui em Ouro Branco, os dias passam ao sabor de um Joyce.

Temos ainda o cinema aqui! Esqueça o James Dean, precisas conhecer o Glauber! Terra em Transe foi realmente algo que aconteceu! São. O transe de muitos cânhamos nossos!
A polícia tem vindo atrás de muitos por aqui. Falo de plantas, mas também falo de homens, poderíamos estender a conversa a pássaros e cães num futuro nem tão impossível ou improvável de se imaginar. Eles andam a censurar todos os timbres, andam a criar porões. Kerouack é realmente idílico, face de estes acontecimentos.

América, este lugar insólito.

Dee Dee queria saber se quando trouxeste minha mãe para cá não me omitiste nada, vem ao meu destinatário muitas cartas nada gentis para ela, nossa finada interlocutora de quinze anos atrás.
Há um senhor, Donald é o nome dele, querendo vê-la urgentemente, precisava saber se eram dele aquelas cartas que receberas quando papai falecera e ficavas sem jeito de me falar…
Este senhor, Donald, pudera ter tido qualquer relação com mamãe em seu suposto exílio que eu não poderia saber naquela época, mas agora algumas coisas precisam vir à luz.
Voltaste a Londres sem ela, e sem mim (o que na época poderia ser mais importante).
Desculpe-me a arrogância, pois eu sabia que estavas apaixonada como sou até os dias de hoje.

Pois bem. A Donald, o meu desprezo! Mas, o que ele traz de ti, o meu pesadelo mais doce, toda a atenção do mundo!
Venha a mim, Dee Dee, com ou sem este velho rabugento (mesmo que sejas seu parente é isto que aparenta ser em sua escrita de Walt Whitman).

Não podemos mais nos corresponder apenas por Caetanos Velosos e em London London.
Preciso saber o que anda andando por baixo destes seus pântanos e destas suas anáguas (que daqui as sinto em amônias) estas anêmonas e águas vivas em seu universo Sylvia Plath…

Preciso que afogues cada palavra que este Donald escreve em meu clitóris, entenda-me!

Ouro Branco, 14 de maio de 1979.

Olá Alana, saudades.
Andei triste ultimamente, algo parece agir contra minha vontade (perdoe-me a soberba, mas, sou como qualquer outro que quer ver sua vontade feita).
Não, não virarei uma justiceira, mas não queria colecionar os desaforos que venho recebendo…
Internaram Sofia mais uma vez, foi semana passada. Atordoara-se um pouco com a vinda de Asdrúbal. Este que é outro que sempre pergunta por você. Diz sempre que não há dedos melhores para o piano que os seus…
Ora, convenhamos que ele os apreciasse para outras finalidades também.
Não sei o que tanto te agradou naquela grande vergonha roxa, a mim nunca me causou nenhum desvario ou delírio de puta velha, comigo nunca foi assim.
Fiquei sabendo da morte de Coltrane, eu sabia que morreria de idade, aquele bafo velho nunca me enganou.
Sebastião Cabeleira anda tendo um dos melhores que vi por aqui, não sei se se lembraria dele. Sei que se chegasse a sua mão este fumo nunca se esqueceria. É um tapa e pronto! Imagino Coltrane te lambendo sob esta lira de orgasmos idílicos, estes espasmos etílicos. Ah Sebastião Cabeleira! Bem aventurada sua plantação!
Queria muito que viesses, Alana!
Não apenas para abrandar um pouco o Asdrúbal: anda tendo ideias revolucionárias que, segundo tio Antônio, já chegaram aos ouvidos do Sargento Julião, este que sempre anda por aí querendo pegar os outros com a calça nas mãos.
Decerto não se simpatiza por ele desde que expulsou minha mãe de casa.
Surpreende-me o fato do sargento saber que meu marido teve minha aquiescência para assim fazer e que ele, um homem de chumbo, tivesse realmente desejos afetivos para com a minha mãe.
É bem verdade que ela voltara da Inglaterra com todos os arquivos queimados e que Asdrúbal não fez o que fez por qualquer discordância ideológica. Talvez até mesmo a repulsa que eu sentia por ela no início, mais o tivesse motivado. Tomamos então, esta atitude e, algum tempo depois, supus que era esta a maneira que ele encontrara para que eu me aproximasse dele.
E você bem sabe que quem se aproximou dele foi você.
Minha única mágoa nesta história é: porque justo ele Alana! Foste um homem que eu tivera um dia amado ficaria orgulhosa por você!
Tenho asco dele, Wintom e Davis já estranham o comportamento de Hubbard. Esta orientação dos gatos como um oráculo de desastres.

Tens viajado muito com Kafka e Dostoiévski, suponho. Este maná que escondes entre as pernas parece carregar a culpa de todos os homens. Transmutações sempre foram de castigos em frutas demasiadamente doces. Assim as escrituras dizem ser a perdição.
Confesso que me perco em seus subterrâneos de dramaturgia do leste europeu e seus vestidos verdes.
Mas, o caso que te digo é que sacrifiquei meu prazer em ti por todas outras dores de te ver deitando com o homem que conheço por ser dos mais cafajestes.
Volte por que eu te prefiro e volte por que ele também te prefere. Em nome desta resina verde que te sustenta, em nome de um Beckett ou de um Elliot, das lambidas de Coltrane Que te sopraste o melhor caminho para o delírio.
Em nome da minha mãe, que em ti, achou uma mulher verdadeira. Em nome de meu pai que te alimentou as fantasias quando tentou te violentar. Em nome de todos os escárnios de Sofia que sempre te amou sem nunca admitir.
Por ter alertado a Tio Antônio que Arnaldo não prestava. Tio Antônio, o mesmo que também achava que meu pai não prestava. Por você, Alana, que presenciou todos estes martírios entre reconciliações e mortalhas, todas estas idas e voltas, um caminho em círculo que me levou à Dee Dee, me levou à loucura, por exemplo.
Volte que tenho planos para você! Tenho premonições de ventania.

Ouro Branco, 23 de julho de 1979.

Querida tia Amarílis,
Deixaste tio Antônio muito cedo e dizes-me que ele era deixado de si. Bradou se pela última vez este homem que conheci ao dizer que te amara todo um inverno de solidão.
Incrível como nossos homens são amados apenas por nós mesmas. Ah… Tia Amarílis, pude ver a amargura do mar quando sorriste teu sorriso de despedida para todos nós.
Nossa louvável linhagem masculina. Digna do nosso respeito cristão. Digna de dogmas que eu sei tia Amarílis, que sua paixão por Alana, não aceitava;
Foste ser uma mulher de lã e botões comportados, alpendre de jardim recatado com uma contida cadeira predileta a bordar.
Deixaste os lábios lancinantes das rosas sem espinho e sem gozo. Deixaste lascívias para seus escarnecedores morando no som das conchas das praias de são Rafael.
Era aquele sal vindo de fora do continente a beijar nossas saias de Billie e Gal;
Éramos todas muito insaciáveis, tia Amarílis, tio Antônio era um homem de silêncios, de lacônias.
Éramos realmente outra coisa como Torquato Neto. Mas foste para um exílio Geraldo Vandré…
Somos todas hoje um bordado de helenas desavisadas do fim da espera.
Assim como a mutação das rochas também é algo natural, entendo os ciclos de Asdrúbal, que desta vez se mantêm tranquilo na companhia de tio Antônio. Finalmente me parece que o sopro de seu clarinete lhe esmoreceu os machismos. Assim como, inevitavelmente defendo-o agora também o falo com seu ex-marido (o que não te destitui de minha afeição).
Justamente por isso te escrevo, talvez pudesses passar um tempo conosco, trouxesse também Luigi Tenco, com seu aprendizado de cânticos.
Ainda considero seu livro Tratado Musical em Mi Bemol algo num nível Baudelaire.
Ainda anda escrevendo sonetos suponho.
Toda sua vanguarda não a eximiu de apreciar os motetos na Praça João Feitosa (quando da semana santa ou mesmo depois, mais tarde, no terreiro).
Reconcilio-me com as águas de são Rafael, na ciclovia e ainda tenho muitas saudades de Dee Dee faz nove anos que não a vejo, aquela cabeleira ruiva entre as pernas.
Incessantemente Asdrúbal vai e vem, conheço sua maresia refizemos a casa e os planos infinitamente, só hoje consigo ver algum esboço de paz de espírito em seu semblante.
Conheceu um homem, Altamiro, que cata lixo. Confessou-me que vê um pouco de si nele. Entender futuros é um delírio essencialmente masculino, a nós, cabe intuir.
Sim sua culinária de alho poró e broto de feijão me pede Ella Fitzgerald ou Paulinho da Viola quando vai limão (vinagre e picles são mais lisérgicos)
Cessaria todas as querelas se Dee Dee me dissesse quem é este tal Donald que te falei.
Você, tia, concunhada nada tem a ver com isto.
Mas este mistério cheirando estelionato pede vaginas mais experientes.
O homem tem desejos insanos, depravados, alguma psicose minha mãe lhe provocou…
Conheces muito bem Alana e sabes que não anda tendo paciência para estas coisas, se trancou no engano de Leminski ser hermético. Já eu, igualmente prolixa e promíscua.
Este Donald tem o fogo na escrita, às vezes penso nele como sem roupas e com bigodes tingidos de nicotina.
Penso e peso que Asdrúbal não teria mais ciúmes de ti. Altamiro lhe ensina generosidades além de seu tempo. Sinto que já é capaz de me deixar cuidando dos instrumentos enquanto fosse procurar Alana.
Tem sido um inverno de conhaque e chocolate, penso em ti. Tem sido um tempo de pensar em ti e em suas ressalvas antitérmicas.
Pensar tem me custado ultimamente muito dienpax.
Madrugadas vão silenciosas encontrar o mistério que gastamos a vida para dormir, para exercitar a morte e suas aniquilações congênitas.
Teria sido ultimamente um tempo de fazer a vida mais calmamente, não fosse a presença tão viril deste verbo Donald.

Altamiro veio à minha casa com outro homem, Aníbal, que pescava. Asdrúbal tinha
Ido comprar umas verduras do outro lado da baía, demoraria todo o tempo do convite dos dois, fui. Chamaram-me para um trabalho na pedra de santa Marta.
Diziam que iam tirar quebrantos em algo quiromancia. As raízes e o fogo, um exorcismo que o universo ainda tem os trabalhos do parto. Parto de alvoradas, diziam Altamiro e Aníbal, homens de folhas e chás, unguentos, lamentos e parcimônia ao praguejar.
Homens oblíquos como aqueles desde sempre muito me interessaram, supus que começavam a interessar meu marido. Pela primeira vez senti que estivesse a traí-lo.
Mas de súbito veio-me definitivamente a ideia que nunca estive com ele, mas, que por isso mesmo ele dera-me esta liberdade sempre.
Ali, na pedra de santa Marta, fui a consumação das cinzas, fui a liquefação daquele desejo de dois homens de minha breve intimidade.
Assim foram, depois de todos os emplastros, de todo aquele lastro de gametas calmos.
Os dois assim me tiveram assim silenciosa consciência de ser coisa besta, de ser fermentação de brevidades da alma, este líquido que tece a concordância dos encaixes ou de entraves indeléveis, indissolúveis, indissociáveis.
Este é um mistério que se abstêm com pernas bambas, compassos soltos, fragmentos de música como fossem os espermas na urina recente.

Asdrúbal voltara encontrando-me em espreguiçadeira de mãe em meio à insolência matinal de Hubbard e a imitação Wintom e Davis.
Pularam das redes da varanda quando, sem falar uma palavra, pegava mais uma vez o clarinete.

Absorvi aquela música pelas entranhas, pelo fumo que sopra os deleites, língua e palhetas, língua e bocetas. O som ejaculava das lapelas daquela clarineta, daquele chapéu panamá, lembranças de Iaiá, minha mãezinha d’água que era iemanjá. Quimera clave de sol e lá… Um silêncio elucubrando devaneios. Conjeturando, confabulando, ensaiando desmaios.

Decidi que era tempo de viver em paz, que fosse página virada Dee Dee e também Donald, este caralho em forma de ficção!

Voltei a pensar em meu pai.

Depois foi Alana que chegou. Para abrir as pernas pro Asdrúbal e comer dos meus quitutes ao som de Janis Joplin, às vezes, atrás de Sebastião Cabeleira: o pai do mel.
O pai do melaço que nos lubrificava a percepção das virilhas e nos compunha redondilhas ao trago ébrio das canções.

Ouro Branco, 3 de agosto de 1979,

Caríssima tia Alba,

Espero que esteja tudo bem em São Paulo, também espero que sua botica encontre novas fragrâncias.
Sua sensibilidade Marcel Proustiana me diz que estás prestes a elaborar outros perfumes.
Já eu, me cansei da literatura francesa (não que tenham apenas narizes grandes).
É que me veio à mão um manuscrito de um senhor de Mar de Garças chamado Aristides Bocamorta. Dizem que ele passa a vida a cultivar pássaros e observar borboletas e colher pimentas e outros condimentos naturais numa capoeira naquela cidade de águas paradas.
Voltando aos franceses, a franqueza de seu Aristides é alguma coisa análoga à Antonin Artaud.
É muito preciosa sua tentativa de perfumar o mundo com boticas pré-ciosas do óleo da poesia de um Rilke para mudar um pouco a geografia e como os homens a percebem
Peço que leia o senhor Bocamorta e terás a confirmação que observar borboletas ou retirar perfume das coisas não é nem um pouco um ato inocente.
Existem tantos poetas que preferem agir como Drummond, Que Aristides Bocamorta me soa mais natural e mais visceral, posto que seja um autodidata falando verdades, espero que gostes!
Alana chegou e se distrai com Asdrúbal, enquanto deixa Aníbal e Altamiro falando sozinhos. Pois que se falam para mim ou falam sozinhos ou falam para uma pedra.
Deixemos esta compreensão para Hubbard e seus dois aprendizes.
Espero receber notícias logo!

ARISTIDES BOCAMORTA:
1 AS POSSESSÕES DO MUNDO:

O mundo da grande indústria finou-se em seus dias contados. Os homens estão a infernizar os ratos deste porão, chamado ocidente. Não há como negar a covardia de sentarmos em nossos rabos sujos, bem em cima de nossas democracias.
A cultura das bundas foi como uma febre antes da hecatombe e, no meio dessa confusão, assistimos ao bom cinema iraniano esquivar-se do aiatolá e ao escárnio na boca do hemisfério norte.

É esta a contemporaneidade que a ciência de Freud nos ensina como nós a negamos.
Embargos diplomáticos, bioética, eutanásia, terrorismo… Outras coisas que inflamam os sermões. Outras pastilhas de cianureto para a América.

Algo muito antigo como a encenação é hoje burlado por quem propriamente encena e não se percebe assim fazendo, a quem pertence este engano! Os parlamentos ainda proclamam engodos muito depois de Kafka e Orwell. Por onde transitam as possessões do mundo depois que as sentimos roubadas de nós!

Ora nos vendem ideias românticas de que estamos no tempo de confirmar a então promissora ficção científica do século vinte. Ao passo que devemos afirmar senão as androginias, mas, esta aurora de chumbo a subverter a libido.

Subverter deixará a página policial e estará no segundo caderno. Pois que meus amigos alheios de sua perversão chamem-me de puritano. Pois que assim não fazem outra coisa a não ser afirmar o que digo do mundo.

Vejam como exemplo de hoje, a tão obvia ambiguidade do antissemitismo.
Qualquer indivíduo além de ser a representação de sua opinião (e isso, a meu ver, é o que a arte tem de melhor) é também a representação de quem o declara livre.

Liberdade.

Talvez, seria realmente melhor nos privar dela antes que outrem o faça. Neste ato estaria contida a renuncia ao mundo sem a premissa do reino de outro mundo.
Corporações mantêm aparências em cremes emolientes, sabonetes esfoliantes e causas pretensas.

As urgências são o melhor negócio e os negócios são os melhores anúncios. Esperemos Balaão e seu rebanho de bestas falantes: opinião virou óculos de sol e vestido.

Antes que me peguem pela vertigem da sintaxe eu subo até o cume para gritar:

As ideias vêm como o anzol a nos fisgar para a vida das dúvidas. Eis que estou aqui, nas possessões do mundo, no chão do oceano e no mar da crosta, em meio a prateleiras confusas: os barrocos, os budistas e os trotskistas, meus amigos de incompreensão.

A frente das periferias tomará o leme das políticas e bagunçará a pauta do noticiário, andarão rejeitando todos os relicários de vários cristianismos e profanando as tumbas dos helenistas.

As praças e os populares são o que os acadêmicos descrevem para os sucessores de Noés. Nosso IBGE e o advento de Darwin.
É a humanidade sempre mensurando o impacto dela sobre ela mesma. Regurgitando a liberdade da qual se alimentou com vinho de despacho, hóstia ou Buffet Catarina.

São como armadilhas, as possessões do mundo. São muros por que são quintais, são bombas por que são muros e são quintais por que são terra.
Terra que sempre foi objeto de lua, objeto de sol. Platão ligou a vitrola e os homens entenderam antropocentrismo, depois etnocentrismo… Já no final da festa contentam se com o egoísmo apenas, companheiro e redentor. (assim, se ganha amizade com o fisco e os oficiais de justiça).

A fluoxetina é um fenômeno natural da pesquisa. Enfim pesquisam problemas.
A marca que as possessões do mundo nos deixa é a marca da utopia. Às vezes se dispersam em ejaculações e movimentos sindicais.

Diluem-se as possibilidades de fraternidade na massa faminta e na multidão a esmo
As brechas são a dialética da loucura. Esta que começa a arrastar os filósofos por seus cabelos brancos.

O tempo nos diz para passarmos por ele mais depressa e pensando menos e preocupando menos com contradições. Um dia saberemos se o que nos acomete agora como anarquia e orgia (este alumbramento de nossos confins).
Será realmente a oportunidade de redimir nossos lapsos e nosso azougue para com os lapsos e azougues.

Liberto meus fetiches e ainda pedem que eu seja o mais desleixado o possível neste delito.
São os deleites do corpo na cidade de estanho.
A pele e o amianto se roçam em ar dor. Há uma parede de lodo em meu sexo, uma sílica no pulmão viscoso.

Seremos, por fim, tabeliães de nossa própria mentira. Escreveremos os inventários mais absurdos em nome do desejo da posse, seremos testemunhas do próprio crime de viver e simular sua ciência.

A concordância com os desafetos da carne penso eu ser justificável para tornar as possessões algo mais destituído de suas insígnias, de suas misérias.

Pois que as mazelas do corpo só a morte deseja.
Pois que as perfeições da matemática dos mesmos também só à morte são endereçadas.

Brado estas palavras, acreditem, para defender certa libertinagem, mas, que se introduza em sua ceia o existencialismo, tão caro aos signos mais poéticos.
Saber da solidez da pedra e da agrura de pisá-la não a redime da poesia e do escracho, ambos neste tempo nosso.

Reservamos às pedras às vezes poesia, mas, sempre explosivos. Hoje, podemos ter uma relação mais sincera com as pedras.
Alguns tendenciosamente dizem que tudo veio a partir do magma, tudo veio de nada, é isto! O verbo veio de sopro, que já era alguma coisa, e estava no mundo desde o chimpanzé à pedra polida (a história é uma coisa injusta, estamos escrevendo sobre o que serão injúrias em nossos túmulos).

Pois que no verbo testemunhou-se a paixão. E dentro dele perfurou-se boca e narina.
Depois, fez-se música, e fez-se algodão. Assim as possessões do mundo começaram numa faixa de terra que é hoje o continente africano.

Inevitavelmente tudo que tem sido posterior a estes adventos são arbitrariedades e improbabilidades. Precisamos estar certos de nossas dúvidas.
Como se estar no mundo não fosse tão desimportante como é para os monges no Tibete,
E nem tão valioso quanto àqueles que querem o retorno do califado.

Paradoxalmente, o som das cidades no mundo é decupado apenas pela faculdade mental da loucura. Assim como escrevem em seu chão e suas paredes, uma história inenarrável, pois é feita com a amônia que tinge tudo o mais de dinheiro.

O interesse, na semântica da loucura ganha leituras de devoção por possuir a maturação e a morte num só tempo de verbo.

2 HEMORRAGIA

Sim, nós humanos raciocinamos.
Nostradamus inaugura empirismos que não mais carecemos.
Hoje, a loucura é o principal argumento da razão. Não teríamos outro objeto nas mãos a não ser pedra e loucura.
Descartes, do alto de sua penumbra: penso, logo existo…
Seria como dizer hoje: penso e preciso de prescrição médica.

Além das invectivas, a loucura pede diálogo com os loucos mais recentes. Sim, aí está Zaratustra. O pudor é algo banido da pós-modernidade que é a interlocução da própria insanidade.

O absinto de nossa pré-história embebeda o homem moderno que pisa na lua, mas, tem sede de petróleo.
Nossas cidades projetadas para clonazepan são uma hemorragia de gasolina construindo desditos adulterados. De verdades absolutas em verdades absolutas mentimos descaradamente e o tiro sempre sai pela culatra.

De um sobrado da Rua dos Douradores Bernardo Soares sentiu o mundo. Já eu, prefiro a taverna dos românticos.

Os investidores internacionais são a tecnocracia enquanto expectoramos ácido sulfúrico.
Não precisamos deles assim como não produzimos mais prolactina ou estrogênio.
Nossos amigos de vermelho supõem que os donos do mundo especulam ideias e confabulam pensamentos.
Antes eles tivessem esse senso.
Assusta-me pensar no pragmatismo das ações dos donos do mundo.
Antes eu fosse (como todos podem pensar) um apocalíptico.

Talvez tenha me tornado um bruxo por tentar compreender o mundo e saber que nada pode ser feito…
A humanidade tem a tecnologia que julga ser suficiente para sua proliferação pacífica, mas, não passamos de uma praga, um desequilíbrio que Alberto Caeiro previra.

Deixássemos árvores como sendo apenas árvores e rios apenas rios, tendo assim diagnóstico mais condizente com a força da gravidade.
Mas, a máquina que movimenta a cidade e seus semáforos quer mais espaço.

Assim o mundo quis expandir a cidade.
Assim o dinheiro faz do ser humano um maratonista de sua própria derrota.

Os confins do mundo ainda aguardam outra civilização, esta que tornaria a cidade mais viável e menos louca de pisadas ligeiras e passadas largas para sua incerteza.

Definitivamente, não faremos isto! E tudo vai fartar-se, será o colapso do homem (e não o do capitalismo). Este não tem nada a ver com nossas pretensões de a ele aliar sem lermos o que ele escreve.

Temos este contrato conosco, este acordo tácito que faz do manicômio um lugar louvável, e o mundo sim, é este lugar de covardes emudecidos ante a ignorância.

Não há céu nem inferno que mereça tantas bestas.
Há um mundo inteiro, de dor, mas um mundo inteiro a disposição de argumentos em favor desta loucura que escarnece. Para este escarnecer, precisamos atentar para o proselitismo das pessoas que deitam sobre seus pesadelos e saem para passear com seus cães.
Antes este faro comedido fosse vencido por falta de biperidenos.

Vermífugos são necessários, para melhor entendimento, funcionaríamos melhor com o verbo e, na falta dele, a bolsa de valores sempre subirá.
Em tempo, não alfabetizaria soldados, e sim, flores e urubus.

3 A SEMÂNTICA DAS CORUJAS

As digressões e a parcimônia estão a serviço da obscuridade. Não se assumem das sombras este povo que de tanta penúria não esconde mais sua hipocrisia.
Clarice observou bem este estado viscoso segundo GH.

A comunhão com a terebintina de nossas falsas aparências é a moldura para este quadro de horrores cuja face grita um silêncio inadmissível.

É tudo um burburinho antigo de rosas desidratadas. E este meu manifesto é minha compleição para pólvora e refino de tabaco.
As associações ao anti-psicótico não diluem o mercúrio cromo em meu sangue de pujança.

Labutamos sempre o perfume da noite, esta que acolhe o orvalho casulo de mistério.
O acaso não nunca se confunde com a barbárie das ogivas (como se não fosse suficiente a barbárie da arte).
Correndo por pocilgas e subterrâneos, conspira um mundo que não existe.

Exangues de compreensão os sentidos aceitam o ópio da peleja que mora debaixo dos rios e dentro das seivas de veneno. A botânica da loucura gira os astros com o devido langor de suas quimeras.

Meu soro aguarrás dilui o látex de novos dias, mareja e dilata minha visão. Meu fôlego sopra tempestades nos assentamentos e campos minados. Da bonança às enchentes os homens resolvem o gesto violento do verbo sol quente.

Estamos embriagados.

Qualquer quimera de hoje será amanhã julgamento.
E as vontades da loucura não são imunes à falta de critério para tal.
Mesmo com seu hímen de bromélia brotada.

Esmorecemos o orgasmo das massas com televisão e matrimônio.
Os sacramentos povoam a boca infalível do místico e o domingo (além de pensamentos obscenos e incestuosos) também para o perdão.

Perdoem-me, portanto, as lascívias deste pequeno burguês proto-fascista que, inexoravelmente prosseguirá suas querelas. Suas porraloquices de quiromancia.

Um cânhamo de palavra macia refaz-me as vistas na superposição idílica do horizonte
Algo ilícito e etílico consegue me alcançar a madrugada.
Adquiro a semântica das corujas

Ouro Branco, 14 de setembro de 1979.

Senhores,

Queria lhes apresentar a escrita de Altemar Tanhendé, homem perseverante, de fé, realizador da cidade de São Martinho das Penas Largas, idealizador do festival de inverno de Mar de Garças e do Jornal Tribuna de San Miramar. Raramente podemos falar de um homem como ele hoje em dia.
Ajudou tio Antônio em sua emancipação e a abrigar tio Adamastor em Bem Posta (os motivos eu desconheço, mas, certamente bem intencionados) além de nos ajudar aconselhando Sofia e Ayres. Garantindo-nos a todos que Arnaldo se mantenha distante.
Também escreve o senhor Tanhendé e num dia de bastante cansaço, me revelou uns textos, pois estava entediado por demais com editoras que só queriam “maquiar a escrita como produto final, produto rentável.”. Ora, todos que escrevem já lidaram ou ainda vão ter que lidar e quem sabe cada dia cada vez mais com estas “questões de mercado.”
Pois neste dia, Altemar me propôs com estes manuscritos um escrever de forma bruta e sem concessões a mediocridades a contestar os hermetismos simplesmente por contestar, aliás, me disse ele naquele dia, que estava de saco cheio das pessoas ou grupos sindicais, estudantis que questionavam como era de se esperar, mas, que estaríamos perdidos se, ao final, entregássemos o poder depois de reconquistado a eles que não sabiam o que ofereciam no lugar.
A solução parece estar cada vez mais onerosa, pois, dizem querer governos democráticos onde as democracias estão servindo justamente a quem está contra o povo. Um tipo de solução parecida com a da Europa oriental bem como do resto do hemisfério norte parece não nos caber e o substitutivo talvez não exista.
“E que não me venham os otimistas: pois então inventemos! Deem a maior fatia do bolo e vejam como as invenções se tornam as de sempre!”
Em tempo, antes de lhes mostrar sua escrita, digo que Altemar Tanhendé nunca fumou um baseado, mas é viciado em psicotrópicos.

Com vocês,

APOCALIPSINTAXE

Varanda é nau de esquecimento, as fuligens vão pegando jeito de estória; balançam plantas com firmamentos de gravidade, pêndulo sempre foi este objeto de procurar brisa, perfurar uma dúvida a esmo, até chegar ao estado aceitação; obtém-se ignorância, um instrumento que mede o tempo em banalidades, próprias do ermo dum espelho,
Próximo de solidão em polaroides, existe uma face que sempre mostra, e nunca vê;
Moscas vêm desbaratar conclusões, ninguém adquire tranquilismos de sobreaviso;
O fotolito empresta cor para substantivos, o resto é estar doente dos olhos; de antemão.
Ofereço sorriso na minha desgraça, a vida é besta, e eu não quero molestação; um rosário dependurado, praga pelo avesso, preguiça, preguiça e meia, depois duas horas,
Chão de estrelas, hora de ângelus, arcângelus no pavio Fiat-lux, preguiça, preguiça e meia, Bya Bluft;
Desejo e chinelo de dedo nunca permanece de combinação, desvario atravessa os anoitecimentos, em unha encravada; tem coisa que vira de te ser descalço mesmo, até ser cansaço que ganha cinzentos, alguns cruzeiros, algumas cruzadas, novas; outros quinhentos; espuma não faz questão de pé, questão de ordem: aglutinação é horda;
Carece separar pé de frieira de um sapato, separar creolina de um cabelo emperucado, santo, santo; dia santo, ponto facultativo, pau que nasce oco é pau Brasil
Hosana rei Hosana há; carece separação sonho de futuro, deixai vir a mim os absurdos,
Eu trato é de desfazer infâncias, eu trato é de século vinte um, cidadão comum, indigente alcunha Severino, retirante codinome Macabeia, eu trato é de abolir oníricos;
Pode ser que um rosto seja silhueta, forma status conteúdo, perspectiva claro escuro, status quo, perspectiva diabetes, as rugas mostram o retrato em signo tempo consumado, chaga anúncio de pretéritos; Lacan ou Freud constata-se inscrição colorida na face solitária; carteiras de identidades, monolitos daltônicos, sono estéril delata questões de gozo; deflagra preferências por dúvidas, escolhidas a dedo, e por meio de desaforos;
É preciso descobrir a cor, que esteve em eternidades, transformá-la em soluço, espasmo, brisa breve; o perfume contém a memória; é subentendido que lembrar faz composição de outra cara refletida nas suposições de ser humano; o signo ali é outro tipo de egoísmo.
Queremos lá em possessões, mas não habitamos aqui; aqui é lugar de desconhecimentos, aqui, chão de ovos, clara e gema, clarividência; aqui problema.
Já a candura decanta leite de algodões, uma flauta doce delira violeta, é uma questão etílica, ébria de cios; perambular os entrechos da flor, e uma coroa de asas; tudo vibra sensação utopia café com pão, luz na janela; ninfa costuma visitar devaneio às nove horas, quando for assim, estique a ossatura em descanso; suspender preocupações, dizendo-as pequenas, serve pra não ficar doido, empobrece;
A carne e a pétala ganham fronteiras tênues, o despropósito é um orixá sedutor de Valquíria, as formas curvas dificultam a edição, exercita isto em outras matérias;
Editar café, margarina, editar cigarro, editar pão, viajar na maionese;
Penetrar os orifícios da imagem, nomeá-la visgo de mundo, musgo de vindas; idas sem volta, imagem maionese sem foco, alcançar esta flacidez;
Da fumaça o fundo do vidro quebra prismas, novas formações rochosas, coloridas;
O rigor da metáfora não acompanha o ritmo da bruma, o desleixo da flor chega a ponto de indecência; névoa de encobrir carnavais e procriação, criatura de equívocos, inventamos desta feita o contraste; tudo já continha em rosa cálida, ferida rosácea brotou bromélia, sedimento redundou ametistas em minha lavra de enganos; do corte ao sumo da sorte; mas o temporal não possui solvente de rochas, não trabalha em transprocesso, o vendaval diluiu folhas ao chão em mutação roçar o filtro de estrelas,
Lambi o céu, estava agridoce; descobri o véu, era um azedume de alvuras;
Salmoura, oxidação, ferrugem mesmo, trazida do ozônio carbono matéria crua;
Lixo de radiação, vacina para poliomielite, trigo mutado para traço linha solta;
A propriedade metálica entrelaço, entreliga; metal pesado, mercúrio cromo subindo em decibéis da axila, ultrapassando fronteira de febre e mourão, metal pesado;
Junção alumínio e latão; a fibra do junco; o tétano, o tutano da paisagem retirada do concreto, a pedra armada; o tango tétrico mais pra lounge, este trópico de ocres, estes acres, equador, este trigo equalizado em trator, a terra dividida, cristãos e muçulmanos;
Acerca que te cerca, do pasto que pastamos; a farpa dos arames, o fardo que transportamos, coroa de latifúndio; argamassa para enfeitar o templo de vendilhões, o comércio de vergalhões;
Este fluxo de multidões, muco membrana dez corações, fluido seiva quente, artéria aguardente; aguarrás água viva natureza morta, querosene, combustão depakene em chágaras amargosas; prazer em diluir, prazer em coagular, conhecer outra biologia é trânsito de ideia na veia, lambida no ouvido sem comprometimento; escorro liso em vielas apropriado de primeira pessoa; deflagrou tromba d’água de primeira conjugação;
Morreu com segundas intenções de ressuscitar; o dia; refazer o dia em doces dietéticos;
Declinar infinitivos com histeria de palanque, uso abusivo de ex-votos; e de benzodiazepínicos; ressaca pascoal, cinza de carnaval, quaresma, tensão pré extração de ciso; horto das oliveiras, Andy Warhol menstruado;
Sódio vitamina engov, plataforma asa solta; none sense de nascença; música e ocaso, história romântica; san Francisco, cigarro san marino; semântica fonética, a mesma bichice de sempre; vertigem e mentira, perna curta, João sem braço; eu vou usurpar os santos, suas catequeses mudas, seus códigos de censura, vou desnudá-los na vitrina;
vou doutrinar; vou chapar na bodega e ver o acontecido, vou ouvir algo; ou algo parecido; teor de apoteose, psicose de apocalipse; outro evento na coluna social; Nostradamus e jornal nacional; nós mamamos poesia seminal; entrei na campanha da fome, mudei o nome dos métodos para fotografar ventos; trabalhar inventários canteiros esquecimento; não dá mais pra entrar; em detalhe;
São mortalhas, as ogivas, investidas invectivas, é uma digressão; azeite de pólvora, nas estrelas do hemisfério sul, incenso ouro e mirra, e Jesus não entende mais os muçulmanos; oriente médio muitos anos, são duas torres, uma igreja com sinos alerta laranja; esta mecânica de sanções, logística de Dalilas; o ministério da saúde adverte, pensar causa impotência; o ministério da eucaristia recomenda, comungar de abstinência; o verbo se fez carne, o meu verbo possui desinência matinal; escavar o signo estrela da manhã; podá-la o orvalho, cristal liquefeito do sono; desgraças alheias na rede; pescar indignidades, bunda utilidade pública; conheci um homem que pescava versos, e os devorava fritos; com o óleo das palavras; deu no Washington Post;
José é feito de pedra, no tempo dele pedra evoluiu para ter bico e pena, só não tinha asa direito; ou seja, José se fazia galinha ou papagaio, no tempo das bombas; alpiste pousava desavisado líquen, depois passou para ter pólipos, depois passou para crente;
Passou para ter pólen; passou para pregar Jesus cristo na cruz; José era pedra crucifixo de lua cheia; fazia proselitismo em si bemol, compunha adágios em ré menor; regia as nuvens em ai, rezava, pegava na oração em oh meu deus; pedra oratória pegar com deus; pedra envernizada com José de júbilo, betumada de unção goma laca; gema Lacan, gume hortelã; alfazema e avelã; ovo semente pedra José;
Porque parece que são versos, é isso que me vem de almíscar; parecem páginas vento falando; filigranas de sal em liga mercúrio e amônia, filamentos espessos de estanho; parece que lhe arranco um livro inteiro; porque parece que me livro; qualquer coisa; parece, livra-me da prosa em círculo, ata-me em meio a rosas e me mostra como é por baixo, o fosso de seus algures, os algozes do seu osso, as agruras do ofício, as quenturas de dentro, a dentadura por fora; ossatura de puta velha, anágua de alvura, suja a candura; porque parecem poemas, e no final estelionato, porque parece poesia, no final só bravata; ventura paixão delírio, rosa de unguento, porque parecem flores, amianto, porque amacio as rochas, porque parece chama;
Eu quero molhar com saliva a província, preparei o incêndio na garganta, quero lamber as paredes, engolir o poente e sonrisal; teria um Tejo entre o sorriso, um beijo na noite;
O açoite dos dias no mormaço de gentes, uma orla de nadas, vagando entre cães bernes chuvas e lampiões revisitados; toldos fracassados pela tarde prosa mole; lacônias, entre sabores chão, lampejo algodão, tarde envelhece céu; da boca da noite o quebranto; o fumo, bebida quente, torresmo; salmonela e paçoca; eles comungam confins; eles resmungam aviões no apocalipse; eu vejo a trama desveredar na esquina, estes homens são lua; cantilena mendicante;
Sofrimento é do humano; sorte virada de banda; de diferente contrário, sortimento é da gente mesmo assim; que é feito ao de inventariar; fazedouro de escriturar o mundo, a morte; a finidez da coisa é foz nascida; infinidez é Dona Geralda; não cansou de nascimentos; estocar a previsão, prover o futuro; botar mantimento na casa; tem caderno de contabilidações, calcula o tempo pra fora do ver, pois que ver é pra dentro; viver tem que ser amidável; tem que apolpar o pão do trigo; tem que aprenhar da terra pra saber de mantimento; tem que beber noz moscada sem questão de cabimento; fica sem jeito vender sortições que num fosse iniciar provimento;
A prosa vinha da fissura; a rachadura alimentava; até universo expandir numa esquina;
Era um totem de porta e janela, com signo céu de cores; era coloração de prisma; no meio da tarde; morta de eternidade; eram as tumbas que soluçavam a paisagem; às vezes retirada debaixo dos rios; às vezes leito de cólera; às vezes copo de leite; às vezes outra flor, no desenho do musgo; a parede pictorava, lembranças para que esquecesse; o tempo é um romantismo que devemos estancar; infâncias pedem uma viscosidade de assusto; escolhamos os muros; eles irão nos escoltar ao purgatório cotidiano; mornando as ignorâncias;
A vacância das almas pousou ali, sem descontentamentos; num prédio de luz fria; o tempo passa azul de éter nos fungos; veja a dor no amarelo, entre a calma da noite;
E a vigilância aflita da mesa, do prato, esperando bocas sem fome, e disparatadas; o som do dia remoça filosofias; rompem do silêncio; as serras da funerária, marcenaria; fabricação própria, de módulos de morte; nódulos de carne e corte; na parede que assiste séculos, como sessão da tarde; sabor taciturno; morbidez na garganta;
Espelho cuida filtrar água, reflexo cuida invenção de miríada; flauta de langores; aquieta a poça transfiguração, com vento, tudo delata esse crime; imagem; imagem impunemente; miragem; miragem punho por punho, dente por dente; lentes, lupas; masturbação ejaculação; elucubrações de cor, vontades destiladas; desejos, versos de pau oco, santo de barro; andar Andorra; paisagem ilhas canárias; transe de lua míngua na água enchente; dança em superlativos; o perigo saneamento básico; sacudir manilhas e ilhas e ilhas; maravilhas e manáguas, manada legião de Oxossi;
Ilíadas ilhadas, Dantes e agora, Homeros resquícios, classicismo; a água do tempo inundou Veneza e Venezuela; ali cantei aquarela, de Brasil querela; o magma esculpiu Pompéia; aquela ideia quimera, Macabeia; travessia Garanhuns São Paulo; ou San Tiago de Compostela; verde vagar; da Mesopotâmia passando por partes de África; homens são a China; mulheres é outro mistério; inventar mais pragas para a terra na barriga; depois divórcio; é uma poesia de martírio; é um crucifixo por um punhado de dólares; por um punhal de beijos; século vinte entre Grande Sertão e Aldous Huxley;
MacBeth, Borges; um gume que só eles anteviram; no final, eu só queria frases de efeito, entendeu; agora vem teoria e licor, eu queria só sangue mesmo; sangria desatada;
Agora tem um piano parafinado, todo desafinado; mesmo assim doutrinou a todos, num palácio; música velada na chama do silêncio; eu tenho que silêncio é gritar de outro modo; subjuntivo, por exemplo; onde houver piano e parafina, que eu só pare pra mijar;
Um dia, um Joyce, um suco de laranja mecânica; melância de melancia derretida; era à tarde; Ulisses tinha unhas grandes, riscava um tecido de algodão; divertimento em clave de lua; vindoura; vigente em casa de saturno; era na quinta casa à direita; parecia quinta da boa vista, número oitenta e cinco; o homem que foi domingo; eles eram muitos cavalos; uma biblioteca míope; uma sangria em Alexandre; uma Alexandria em fogos;
Pirotécnicos; Ulisses gostava de pirocópteros; no mundo vigora Michel Foucault; agora é Walter Benjamin; agourando vaticano; era ocidente em vaticínios; latrocínios; lei federal lei municipal; Ulisses; um dia; no sofá; no quintal; alheio a qualquer madrigal; alheio a sonetos; foi uma psiquiatria esta insônia;
O que sei lá que sei lá; o que sei lá que me dá; neste leito de miséria; neste leite de Tirésias; essa seiva de inícios; este colostro colossal; zigoto zodiacal; que sei lá que sei lá; que sei lá que me dá; três sustenidos; na armadura de clave; suspensos na pauta; reunião de condomínio; o que sei lá que sei lá; que sei lá que sei não; que não é o que não pode ser que não, que não pode ser que nem; já é; o que sei lá que me dá; o que sei lá que me dão; sem medo, sem palavrão; o que será que Ceilão; o que será que leiloam; nos mercados futuros; o que sei lá da lei loas; camaleoas e tigresas; o que sei lá que me voa; que solta e me livra;
O homem empresta papéis à sua estória; e se esquece; de ser outro que também o é; o foi; o homem empresta dinheiro ao seu desejo; respira frustrações e brinca tragédias; o papel é pardo; ele encadernou seu fardo; encardiu-se; desaforos relatados; protocolados; despachados numa vara; juizado de causas pequenas; vara; cajado são Judas; causas impossíveis; firma reconhecida em cartório que o valha; porque o homem não resolve papel; entulha; rubrica este engodo; que o escrivão tirou do falatório; vê se adianta esse imbróglio; para a próxima repartição; itinerário em repetição; a cidade já te viu tantas vezes homem; descansa um pouco; acidez cítrica invade a tarde de suas lembranças; descansa homem;
É essa impostura que conta; vale no final é forçar sintaxe; forjar o sentido das coisas; dar um troco pros capitalistas; colonizando mentes; em ficções fajutas; é uma desobediência equivocada; que obedece a quem não consegue ver; ou interagir; com.
Vamos dar nossos trocados ao mundo caduco; Drummond; Joaquim Nabuco; Ruy Barbosa; Cleópatra pra variar o gênero; somos bons meninos; boas meninas; não merecemos o mundo; sabemos; precisamos nocautear algo; talvez precisássemos de álcool; ou sermos nós os nocauteados; não passemos no mundo assim tão impunemente;
Violentemo-nos com a poesia; esta que derruba nossa condição provisória;
Água é neutralidade da cor; os barcos pousam primários; feitos de tríades definidas;
É uma cópula de barcos; na ânsia do lago artificial; colorindo solidão e grito; pausa e atrito; boia o sexo verde turvo; sobre carpas e lodo; um musgo submerso acalma os sons; madeira tocada rangendo; um clarinete iniciante beija a paisagem entrelíquidos;
Outras imagens etéreas; ruma aos remos; o tempo espera o braço; remar; estragar poesia bucólica; algo Bukowski; os pombos conjuram a vinda de Vincent; não vinha Dali; Vênus Yaras; sereias; vinha um gosto gume orelha; aquela centelha; parque municipal;

Ouro Branco, 25 de setembro de 1979.

Grande amigo Altemar Tanhendé, o homem que come pedaços de fé, como vai esta força aí em São Martinho das Penas Largas? Fiquei sabendo que o senhor está elaborando um projeto de periódicos para a região, boa sorte! Estamos como nunca precisando de iniciativas como esta, do contrário, perdurará a censura em nosso país: que explode seus estilhaços pelos exílios, viva a anistia!
Também soube da instalação do sanatório municipal em San Miramar, lamento! Sabe como é Sofia minha irmã, mas não concordaria nunca em esta ser a saída ou a resposta definitiva para a questão da loucura, fosse assim, os quartéis seriam hospícios, que somente o senhor me leia!
Existe um amigo peculiar, Juca Dendê, doce como uma jabuticaba e poeta ácido como Ana Cristina César! Envio alguns fragmentos de sua obra (que foram muito difíceis de conseguir: ele é muito tímido) e logo presumirá o impacto que sua obra pode causar, e lhe digo já podemos falar que há uma obra de Juca Dendê que precisa ser descoberta, quem sabe não potencializamos isto?
Donald? Continua escrevendo para minha mãe esporadicamente e nem tanto à miúdo, aliás, as sujeiras são das grandes, grandes indecência deste filho da puta, Dee Dee que me perdoe. O senhor sabe que mesmo se este tarado for parente dela eu saberia separar as coisas.
Penso que tenho algumas pendências com Asdrúbal e Alana e só depois veria um advogado para o caso, estes tempos são mesmo difíceis. Não vão querer encrenca com gringo eu sei!
Mas eu queria poder esmagar com as próprias mãos o escroto depravado deste velho (pois o suponho velho) se não for feita a justiça para honra de minha mãe.
As cartas são suficientemente difamatórias e por si só são provas da falta de caráter de seu emissor para com uma morta latino americana que esteve em suposto asilo político que, mesmo tendo vivido um tórrido romance com tal homem, tal velho rabugento eu diria, tarado chupador de bocetas, nada modificaria o tom demasiadamente caluniador e de injúrias que trariam até à própria mãe se viva fosse, aliás, eu penso que da tumba deve reclamar, mas, para os vivos a lápide é o objeto mais silencioso.
Poderia relatar isto aqui numa delegacia de polícia em Londres, te garanto! Mas veremos! Também não iria me opor a uma eventual volta de Dee Dee ao menos que para uma visita rápida, me entende?
Porém Altemar acho que já o incomodo, o intuito também era enviar os anexos de Juca Dendê que aí estão.
Queria que chegasse um tempo em que disséssemos todos: sobrevivemos!

Com atenção,

Valparaíso não dava mais para Juca dendê o ar que ele precisaria ter para consumar a própria vida em obra. A cidade era uma montanha de tolos e néscios, de beócios decrépitos e mulheres destinadas à calúnia alheia brotando como flores das mucosas abertas na mais pura das inocências maturando como as mais duras das indecências que apenas bocas pequenas ousavam praguejar, vez em quando pestanejava tanto Matilde que Juca Desolou-se de todas as tristes estórias de putas como se fossem suas.
Foi quando travou entendimento com Dimas Mendes e obteve conhecimento que este era tocador de sinos, que dobravam os sinos a cada óbito daquela cidade estrangeira por sua dor, por sua mão calejada, ele, Dimas Mendes, o arauto das mortes em torres de igreja, mais frequentemente na matriz de Santo Onofre, justo ele, o padroeiro dos bêbados e transviados que não fizera muito por Valparaíso sua vizinha maldita e desdita. Foi de desaforada ventura que Juca Dendê soube que o filho do trombeteiro de depois das extremas unções de Bispo Julião, também tal como o pai chamado Dimas estudava prometido para se tornar o regente da corporação musical da cidade e, que quando formado regente do batalhão de oficiais do corpo da Polícia Nacional de Itapacorã, seria recebido com pompa e circunstância pela prefeitura para tomar posse do cargo de regente e patrono da banda local.
Seu pai explicava para Juca que para o intento de pretender tal ofício, o filho tinha que estar ciente das histórias que contavam desta secular instituição arte de nosso patrimônio cultural imaterial e histórico que era a corporação. Então havia muitos casos antigos e igualmente estranhos pelos fatos narrados e pelos tempos idos.
Dendê não titubeou e rumou para São Martinho das Penas Largas de onde tomaria uma balsa até o largo de Santo Onofre, já no município de Mar de Garças, já avistando o capão da magnólia e as quatro bicas. Onde ia ter com Dimas, o filho do trovão das mortes, pretendente a regente da corporação musical Nossa Senhora do Desterro de Mar de Garças, a propósito de saber das narrativas que lhe foram entoadas pelos antigos, os detentores do verdadeiro patrimônio vivo, as testemunhas oculares da história da banda.
Juca Dendê com seu faro de jornalismo de sentimentalidades pretendia escreva um livro sobre estas estórias. E acho que ele ainda o fará.
Tive que narrar este breve acontecimento, pois, na sua partida de Queceaba para Mirimpejipe, Juca deixara alguns de seus escritos que, antes que saiam outras estórias, torno públicos pelo instrumento de minha influência.
Com vocês, Juca Dendê, o jornalista e poeta de sentimentalidades de Itapacorã.

Possuo um personagem muito inadequado, suponho-o irredutível, ou que fosse um rochedo estoico, embriagado. Não tinha convivência afetiva com os outros seres de sua espécie, no caso, a humana. Vivia meticulosamente em sua vida adulta uma espécie de exagero, presumo insuportáveis e calamitosamente histéricas suas intervenções
s em um mundo civilizado cada vez mais por ele em xeque mate de sua megalomania, no seu tabuleiro insistindo maquinações em jogos viciados. Xadrez de seus pijamas que o deixam ainda um tipo de patriarca reticente com autoritarismos bisonhos e a ironia de não ter descendência exceto um cão. Construía ao longo dos anos sólida argumentação de verdades absolutas e, de maneira caprichosa, um legado de perseverança doentia, mas, com a velhice, seu deboche sisudo e habitual de outrora se tornara uma ameaça constante e de difícil distinção entre o visionário e o colérico, no entanto, seus últimos anos o deram uma força absurda na capacidade de tolerar, esperar, praticar atividades delongadas, metódicas, e de certa paciência, embora a discordância nunca deixar de ser hábito, passou a cultivar também a ironia e o humor negro e a pontualidade britânica, entretanto, com pouco já se exaltava com imprevisíveis oscilações de humor. Seu raciocínio lógico e abstrato numérico, seu gosto por física e filosofia e por projetar pequenos aeromodelos, a esta época, já eram coisas que o afastavam do mundo e assim, a morbidez da vizinhança, haja vista que isto acontece em toda parte, não encontrava argumentação necessária para decretar como, do ponto de vista dela, algo insano ou mesmo criminoso. Adquiriu o costume de colher pimentas com metodologia própria que prezava pela demora na escolha. Muito menor esta estranheza que estas outras coisas todas anteriores, mas, a simpatia de outrem é sempre algo difícil e há que sempre se medir este zelo, pois, quase sempre se trata de algo oneroso para que se mantenha e perdure. Meu personagem sequer fez o mínimo movimento neste sentido. Fotografava. Gostava de fotografar, mas não tinha ilusões a este respeito. Escrevia. Escrevia bem, mas não tinha grandes pretensões quanto a isto também. Sua visão cética do mundo por vezes ficava pertinente e lhe caía bem por ora. No entanto sempre lhe caberiam alcunhas com tons de casmurrice ranzinza e antipática. Eu honestamente escrevo coisas bem mais suaves, porém, todos os meus textos que me soam apocalíticos e com certa tendência a revoluções anárquicas abolicionistas e libertárias, tanto quanto elucubrações, ilações delirantes e enumerações caóticas, eu sistematicamente atribuo a ele, este personagem que, julgo eu, sem estas intervenções seria apenas mais um campônio exótico de minha obra quando o que acontece é justamente o contrário. Sua oratória às vezes pomposa, mas muito eloquente me deu ideias necessárias ao que minha doce armadilha de ilusões tem como novidades. Assim talvez compomos um mosaico hermético para compreensão própria e para descaso com os alheamentos aos quais toda obra se submete ou na teoria está sujeita a se submeter. Enfim, este personagem me permite romper com o mundo em uma super-filosofia que já encontrou todas as respostas e não depende mais de qualquer tipo de coexistência pacífica. É a plena afirmação do homem que transfere à humanidade toda culpa em estar a existir. É o perigosíssimo egoísmo da insanidade, um pouco de todos e talvez de tudo. É a livre ambição dos tudos do mundo

Serapião Antunes

Eu possuo uma personagem que não carrega nada em abnegações, portanto, não posso me abdicar de suas possessões menores tampouco abandoná-la em sua desfaçatez de um jogo bem distante de alguma sedução ou coisa que a valha. Em seu jugo de trapaças, à sorte e ao relento da própria farsa, não farei isto. Não farei isto, pois me pareço com ela em subterfúgios quem sabe até maiores que os dela. Não posso me culpar tanto. Exceto a mim enquanto detinha ideais religiosos com o bispo que vigia a cidade. Onde os fatos acontecem? Narrativa? Labirinto? Ou mentira em sua forma binária de prosa? Acho que caí literalmente no conto do vigário.
Encanta-me muito como ela escreve bem, em prosa e poesia, e assimila em sua obra que já julgo própria embora duvidosa na medida da forçosa crença em sua verossimilhança ou exatamente no oposto. Num duplo que é contrário. Próprio ao ermo dum espelho. Deste modo, são feitas superposições assimétricas e incongruentes de linguagem que se estendem numa linha aparentemente infinita apontando para a expansão do universo com sua obtenção de perfídias descaradas e sua atenção para quaisquer malevolências, numa convalescência desta imperfeição de cosmos espelhada. Trata-se de uma imposição de imposturas e de uma justaposição de mensagens metalinguísticas. Interessa-me saber qual é o jogo dela com a morte, única certeza, que, para ela, parece também ser única verdade possível, em sua vida repleta de mentiras e enganações.
São metáforas coaguladas expelidas da vida como um tumor ou uma vesícula em pedras, um anel em pedras de ônix cujos dedos sempre prestes à poesia têm unhas roídas e cutículas engolidas com a fome da ânsia e a falta de ar. São objetos que provocam mentira ou engano causando males na garganta de antibióticos diuréticos de antipsicóticos como doces dietéticos. Como o éter da ilusão das hóstias culpadas e acusadas de serem corpo e ressuscitarem em nós antes das fezes viscosas.
Enfezadas mucosas enfiadas com seu próprio caos de aliterações delirantes feita de poesia, aliás, esta personagem de um pequeno poema com questionamentos pequenos e bem simples em um congestionamento entre dois nomes. Assim dei vida a ela e praticamente morri nela. Feita de poesia, correndo e deitando como leito de rio caudaloso que deságua em pororocas descoloridas e desemboca em um oceano doce, agridoce, água doce, água viva, talvez. Corais e moluscos, recife. E se fosses a Paraíba e saudasses o saudoso poeta com a saudade pleonástica deste tempo?
Ah! Ai que quero uma vida monástica para esquecer Julião agora que meu pulmão dói muito e que me falta o fôlego e que estou a escarrar e a cuspir sangue.
São suas hóstias Julião! Que deus o tenha em todos os infernos!

Clotilde Alvarenga

Personagens eu não possuo. É tudo uma estória apenas. Somente estória, parecida com todas as outras. Todas as outras estórias são uma só estória. Afastadas de mim, como se vê eucaliptos ao longe no horizonte de uma estrada onde andar nela incomoda como andar à chuva.
Há em minha cidade um campo de vendilhões subjugando pequenos camponeses ( como em qualquer outro lugar do mundo) enxertam matrizes de mudas de hibisco umas às outras para que se obtenha novas colorações deste advento que chamamos pétala, obtém-se assim, novas flores hermafroditas.
O conceito de enxertar hibiscos é o conceito de sexo de vegetais. É o mesmo conceito que utilizo para enxertar textos: prosa e poesia em narrativa, estória. É um conceito de sexo vegetativo e de vertigem labiríntica, onde repetição também é uma espécie de divertimento musical com estribilhos.
Eu caio nas entrelinhas, eu perco a linha, reencontro-a e me confundo depois nas vinhas da ira, nas idas e vindas sem critério desta lira, depurando séculos e demônios exortados. Para tornar possível algo que não sei o que é, mas que se mostra e desconhece em si sua parcela de impossíveis, seu quinhão de improváveis e sua imensidão inviável como uma vida humana. Tenho boa fé e dou fé. Cumpra-se.

Juca Dendê

A arte é mesmo um idioma de todas as possibilidades de pantomima, ou seja, é uma prática de incorporar discursos imitando-os e incomodando-os reciprocamente em códigos de signo.
Linguagem, gestual, matéria. Um rito sumério. Um grito sumário, posto que estamos a falar de superposições metafóricas em detrimento do que temos de elementar enquanto figurativo, pictórico, parte constitutiva da realidade, teoricamente, o tempo se encarrega de tratar estas representações como pitorescas obsolescências e a impostura é uma objeção convalescente, conivente com rupturas, comovente como partituras, coincidente como rachaduras às hachuras do desenho traço solto, linha breve. É tudo esta infâmia desonesta a onerar almas e cofres públicos.
E qual seria nossa condição subjugada pela estória europeizada da civilização cujo fantasma dorme enfadonho na lápide dos mitos helênicos e das novas democracias de petróleo: tudo sólido em estado água suja?
E qual é o óleo de cores que enterrou nossa última figuração humana na eternidade gozosa da abstração das formas transfiguradas em sangue coagulado, possível fim da matéria à exceção das cadeias de carbono?
Equações de incógnitas fossilizadas assim como pinturas rupestres e pedra lascada. Pedras rolando de zepelins de chumbo às portas do nirvana, o resto é álgebra pura e capitalismo. O signo como coisa e a coisa como signo na lógica da matéria, a linguagem do papel calando as bocas que ao profetizarem narravam como nas epopeias. Mesmo que tudo, inclusive a arte, fosse uma ilusão necessária à sobrevivência. Vejam que o déjà-vú sempre triunfa na derrota e no fracasso. Tomarei mais uma pílula. Deve ser apenas o andar das horas neste cadafalso. Uma metonímia de deus diabo. Eu não estou a narrar de modo convencional, talvez seja algo próximo à insanidade. Numa representação à margem da nudez humana, diante de seu templo desvelado pela discrepância dos séculos. Eu narro. Desflorados os engenhos, desarvoradas as arquiteturas, eu engendro uma estória. Minhas reminiscências também o fizeram acompanhada da mítica legenda milenar que é a figura geométrica da circunferência e provavelmente muitas vezes com a chama de uma fogueira ao seu centro, ao dia ou à noite. O mundo ganhou os polígonos e os paralelogramos, mas a despeito de tudo eu narro, em epifanias inaugurais, em catadupas finais, estas são as cartas do meu jogo, com consequências catastróficas a mim e iminências desastrosas à minha pessoa.

P.S.: num verão de torrencial fim de mundo… Num índex de demônios fortuitos meu estilismo encerra infernos… ad libtum, ad absurdum…

Eu sou uma fraude. Qualquer algo fraudulento em estado coisa ou coisa alguma. Caminhando num processo de diluir memórias. Um rio lamacento rumo à sua foz de estanho. Algo. Ou algo parecido. Dissolver este ar cênico onírico de repetição de mesmos. Ar cínico de repartição pública. Eu sou moral e sílica em escola pública e cristianismos proselitistas de outras escolas escolásticas. Eu sou a mentira de perna curta do João sem braço. Cheirando o sumo da rama de murta hare rama. Rua ramalhete, bilhete violado, vinho estragado, violão desafinado, hare krisna, eu sou uma coisa ou qualquer outra coisa. Em estado de nada. Esperando tradução. Eu sou obrigado por você a um estado de gratidão por estar grato obrigado. Sujeira obscena e produtos de limpeza. Eu sou uma reprodução necessária de segundas feiras numa vazante caudalosa com bateia de olaria de Niemeyers ressuscitados em oblíquos e obtusos séculos seguintes e este é meu estilismo de incongruências assimétricas. Segundo Nostradamus, seguindo a seita de judaísmos cristãos, segundo o primeiro Maomé depois de Osama, muito depois. Eu sou meio inominável mesmo, mas semeio a ventura da cegueira sentindo seu mamilo no fundo de um quarto escuro, no canto de um quarto escuro. Decantando a mão na brecha da vulva. Sou qualquer coisa ou caso de subjugação incurável e inequívoco. Entro em sintaxes fora das milongas, numa semântica delongada, românticas arapongas e gralhas silvestres em arapucas. Enviuvei-me em uma chapada campestre e anulei-me da peste dos homens, dos detestáveis homens de bem, mas, eu doutrinei o rio que corta sua paixão com gumes de carpa com lumes de harpa com balas de canhão com balas de hortelã com rifles de arpão e petiscos de avelã, um mantra que se entoa inócuo às tardinhas, um tango tétrico de trágicos portenhos embebedados da terebintina da província cisplatina, azul celestial, azul brejeiro, ai este azul com ais de fronteira. Bons ares e sabonetes líquidos perto das torneiras, um Paraguai de itaipus reluzentes e seminais, ah minha lavoura de hibiscos enxertados de matrizes brasileiras! Ah meu engano como próprio método! Meu compêndio de ideias, meu absurdo vazio de lastros, meus desastres desventurados e logo após os emplastros. Desatinos desembocando na cancela do porvir risonho das carpideiras, no devir medonho das verônicas sextas feiras. Aleluias alaúdes e Alaídes, sambas decupados, atentados ataúdes Ataídes de ataduras, rachaduras hachuras de composições rochosas de mito zeus de mito deus que invento como uma mulher de pernas abertas a parir o universo e a fazer a vontade pérfida dos arcanjos decaídos, declinando infinitivos com histeria de palanque. Ah, José Modesto poderia ser o próprio Lázaro condenado e confinado a refinar pasta base neste embuste sul americano, estas empáfias do tempo com a dor no amarelo do sol de Holanda sem elos nem chicos nem tejos, sem bocas nem beijos, nem dicionários, nem vernáculos próprios a desaguarem na ilha de quaisquer fantasias. Vou ejacular cachoeiras, pois sol jaz. Lá vai. Fazendo se sumido, sustenido errado, fá bequadro, pã! Música das esferas estrelas de poentes estrelas decadentes, divinas cadências nas rimas dos astros da noite de minhas janelas de madeira, de madeixas. Até os canteiros de funcho e cansanção. Sou natural qualquer coisa natural. Contente. Triste, mas, contente. Allegro molto. Manufaturei muitas realidades ao acaso analgésico dipirona sádica. Na tradição anal, no sexo oral. Labutei muitas lamúrias, pelejei com muitas penúrias o telúrico som das penumbras da alma, dos subúrbios ideológicos de meu pensamento marginal, alijado de mim mesmo, aleijado e sem anistias, homenageado com muitas homilias de minha morte que morreu sem mim e ficou vagando a esmo próximo a vagão de trem puxando cimento que não volta mais. Matéria de caos nas mucosas, perversão nas penínsulas inteiras, matéria de argamassas lunares, sonares, subversão de pêndulos de esquecimento, estas redes onde se deita com as quais se pesca em todos os calipsos mares de marajós e marajás de eldorado de carajás em suma, apocalipses, solentinames. Estes continentes próximos a Europa em uma resina de seivas inaugurais e múmias neandertais. Meu glossário de rabiscos, meu alfarrábio de esquisitices, meu empório de embornais antigos, meu império de atlas em cordel e bordéis, meu bandolim quebrado. Meu velório de tios na varanda, minhas naus de perdições! Eu sou eu em estado magenta em estado de exceção. Reverberação de desleixos, espelhamento de desditos, ecoar de desaforos, no langor de um deserto quaresmeiro ligeiramente umedecido. Este sou eu evocando navalhas, triturando mortalhas. Enjeitando outras genitálias. Masturbando Somálias em exegeses furtivas, deitando nos naufrágios, nos apanágios, na cruz do ofertório, na lápide pós-moderna do eterno desalento, no acalanto e no falatório luz vermelha fim de noite fim de festa. Minas tetas profanadas fim da farra, boi encantado, boi fubá, boi tatá, bumba meu boi, garantido, bomba já foi. Minhas bocetas abortadas pela ereção matinal. Pelo café, pão e jornal, missa e missal, rapé, matiné e portugais, meus mais e meus menos no signo da manhã. Recomeço. Começo os engodos um a um na fileira dos esquartejamentos, na soleira dos apedrejamentos, na amargura da rua das condenações, no pelourinho picadeiro de excentricidades e exotismo pau brasil e alheamentos, alumbramentos. A vontade das mães mortas, a vaidade dos cães mortos, o orfanato do gênesis, a partilha de bens, o livro das revelações, a arca de noé, o inventário da loucura, a besta de balaão sorrindo para as bromélias dumas damas camélias, para a rosa mística dos sonâmbulos, a luz ia da coxia para iluminar Ofélia, Ilíada ilhada. Eu sou um ecossistema burocrático e ambiguamente bípede, rupestre, bipolar, de sensações novas, porém rudimentares, no sedimento breve da pétala, no sentimento leve das ninfas, valquírias de ufanismos românticos e tardios: o verdadeiro temor dos homens com flores amarelas e gravatas floridas, medrosos. Ontem a noite caiu como um império Etrusco, como cai o pano e planetas começam a cochilar em seus coxos mochos e vis num sono eterno num teatro de vampiros, numa ópera de fantasmas claudicantes, miasmas ofegantes, jubilosos biombos refratando a panaceia desta nação de pandemônios, plutônios e urânios enriquecidos, platônicos e ucrânias enfraquecidas, a coleção de crânios e gerânios de Hamlet, saxônicos e a terra prometida, maçônicos e a terra prometida em tumbas escondidas. Cabul, Las Vegas, desengano parecido ao meu, desengano ateu, amanheço hoje os cálices profanados, amanheço hoje o registro da barbárie nestes tristes psicotrópicos, nestes equívocos neurolépticos, tísicos cânticos, luas incas, físicos quânticos, ancas nuas. Eu sou um painel vivo com o cardápio cobrando o preço exorbitante do banquete que é a ilusão do viver, no salão de festas, eu valsando com a hipocrisia, com minha agonia com luzes emprestadas e sujo de nuvens e limpo de vermífugos, em plena apoteose, no teor pleno e barroco do século vinte e um, num advento ancestral da ruptura com as reminiscências que irrompem do chão o bronze que sopramos o labirinto em filigranas, em filamentos espessos de sêmen pelos ladrilhos que se agarram aos azulejos verdes das paredes mortas, realejos verdes, benfazejos, benfeitoria de alfazema e almíscar, al jazera al Qaeda e outras cosmogonias, enumerações caóticas, águas amnióticas, sais, estes líquidos de vidro: anáguas. Arraias subterrâneas, anêmonas subcutâneas, invasões turvas de oceano na carne farta e crua, com algodões. Mastro de umbu e pau de embuia, urucum e pau de sebo. Eu vou embora para o mar. Eu vou ficar um pouco depois eu vou embora, eu parti para as músicas de mala e cuia. Raio que me parta estes pressupostos. Eu sou som. Eu sou vida de som em outro lugar. Eu sou vida de som em outro tempo. Eu sou som ao seu lado. Sem fatos suficientes a narrativas tampouco mistérios. Eu sou uma amêndoa a regurgitar os anseios do século arrastando o sopro até o lamaçal, entre o cume e o gume, entre a sorte e o corte. Eu sou este mundo falacioso sem estórias nem ficção, desejo pó e mais nada, nada absolutamente, encerro tudo, emudeço-me, descerro a pálpebra o trinco e as tramelas, cesso teologias, os postulados geométricos, tales de mileto, talhas de soneto, findo com filosofias, desconfio que termino na conta das dúvidas, imperfeito qual dízima, pedindo para terminar em outra imagem, em outra forma, ou então, em todo caso, pudéramos refazer tudo, na refazenda da gramática dos doces de leite. No fastio da linguística das gotas amargas, no enfado das desinências e flexões do verbo carne em chágaras grandes, na morfologia da madrugada, amanhecendo, como um doce de lítio, clareando, na etimologia destas palavras, numa precisão cirúrgica de cortes epistemológicos. É a vida. Que pede mais vida e raiva. É a lama é a lama. É a vida.

A morte é o manto que vela todas as injúrias, todas as calúnias de amor, agora caladas, escutam seu silêncio ensurdecedor e indefinidamente eterno, calmo, qual leito de um rio, como um leito de rio, quieto a cristo como um leite de rito, o vinho das cegueiras antigas hoje ganha um breve manto a encobrir a insígnia do vivente que não mais a tem por legítima. Ninguém há de reclamar seu afanar na noite sem nuvens. Nenhum ser açoita a finitude e permanece digno, seu vigor é um consentimento próprio para cessarem com os continentes inteiramente incapazes e impotentes de tamanha dor e, mesmo assim, recomeçar todas as guerras já findas além de reivindicar para si a transcorrência de todas as outras batalhas que ainda estão por vigorar de maneira tão incerta. Nos campos não ouvem pranto algum exceto o pavor em morteiros ao longe das mães e das viúvas e dos filhos do mundo já nascidos com os semblantes da vergonha coletiva característica do século que nos arrasta e está também a arrastar o fato de ser inviável narrar qualquer coisa de qualquer lugar sob qualquer maneira, desde a alegria mais incontida de uma paixão ou mesmo o absurdo dos genocídios diários. Tudo tão comum assim como o é também nas ficções que estas são piadas de mau gosto, não conheço as razões por estarmos tão próximos a esta condição e pior, estarmos já vivendo dentro desta prerrogativa de insólitos ares, justamente para não se poder mais narrar coisa alguma? O que quer que seja estão a dizer que os idílicos bálsamos e os sândalos venenosos não podem mais nos inebriar, pois seria desta feita um engodo? E em lugar disso sangue e mentiras pomposas e descaradas? Tragam-me Cesário Verde e então se não vier o sono me deem logo destas pílulas. De antemão aviso, trarão um sono pesado, mas não duradouro, sempre estou desperto bem cedo, sempre assisto as vitórias diárias do sol. Meu redentor e meu pai. Bem vindo a esta fresta desavisada de minha janela. Tu que revezas meio mundo em obra e descanso. Sê bem vindo, pois hoje estou de costas para a noite, e assim sempre tem sido. Traga-me um sorriso que hoje ao teu reino te entrego o meu amor, cansado, morto, cansado do mundo e do amor, cansado. Auroras e alvoradas ouçam-me! Entrego a vós meu amor, livre das trevas do mundo e de mim mesmo, dando às costas à escuridão. Mas ainda parte constitutiva de suas doenças eu rogo, vem à claridade e permito o dia novo também aos desgraçados como a mim, ladrão de mantos alheios na bruma da noite que não é minha, morrer diariamente ao sol jamais será coisa inglória.

NOTA DO HEMISFÉRIO SUBSOLO

A razão ergueu todos os pilares da doença no mundo. Principalmente, a razão ergueu a loucura. Com efeito, lançou as inconveniências às feras e as chamou dos mesmos nomes e as vestiu com a mesma veste e má reputação.
Enfim, o objeto da razão é desqualificar tudo que está de fora dela. No entanto ela não se nega ao não cessar este processo civilizatório, por vezes, por muitas vezes ao contrário do que se pode chamar de racional.
A evolução humana depende de fortes engrenagens que a luz da lógica nos oferece. Mas somente as usamos para nos assassinarmos.
A mão que opera uma máquina, ou que procede cirurgias, em nome do pensamento se fez e sempre se fará (embora autoritária).
As primeiras autoridades instituídas no mundo estão por cair. Pois, de onde elas permanecem não passam de encenação. É este teatro, esta representação das falácias repetitivas que alimenta as rebeldias. Mas estas também ainda não aprenderam a deixar de comer do próprio veneno. Já foram sacramentadas em outros autos. Portanto, já estão ou sempre estiveram no mundo. O máximo que podemos discorrer sobre este assunto é que foram tentativas românticas.
O que enfim aplica-se ao romantismo e à razão ainda não se revelou. Estes se retroalimentam de seu próprio processo de construção de consensos.
É uma celeuma! São coisas tão idiotas que escrevem e quem concede delegar poder a outros idiotas que concederam juntos.
Não há debates permanentes e, mesmo não havendo, sua interrupção é a tática mais simples para estrangular o desejo insano e furioso das massas. O que há são os consensos medíocres e a tirania vergonhosamente disfarçada e maquiada.
As autoridades estão conferidas a quem anda vendendo ilusões capazes de dialogar com o passado do indivíduo e potencializar nele seu equívoco de liberdade.
Preços e planos enganosos. Ofício de enganos. Esta é a razão e sua capacidade supersônica de resolver um impasse criando outros três.
Assim, em escala algorítmica, evolui esta dinâmica e os seres humanos adéquam-se ao caos.
Enquanto pensamos que alguns promovem caos e muitos outros se submetem ao caos, estamos cegos às propostas de enxergar a inversão desta balança.
Fazem também o exercício de saber que houve em genocidas generais suas famílias e seu sono (o sono é um estágio de respirar entregue como o sândalo ao machado).
O natural então é achar que esta grande força que nos move à insanidade é involuntária.
Esta de fato deve ser uma dúvida de homens de boa fé, o que não quer dizer que ela tenha sequer uma virtude.
A virtude não é mais o que se faz a partir do que se pensa e sim o que se faz daquilo que se pode fazer.
Se este verbo poder fosse conjugado em todos os tempos, modos, flexões, desinências e pronomes pessoais, não seria má ideia. Tirar um pouco da liberdade em nome do bom senso, existe muita ironia… E ela nunca resolverá a falta de bom senso. Aliás, a ironia é uma inteligência de virtudes más.
Maldade é saber o quê? Saber tudo?
Bondade é saber o quê? Saber pleno?
Quem sabe mais que faça suas apostas!
Saber tudo é saber o quê?
Bondade e maldade que há em nós mesmos?
Saberíamos de nós o tanto quanto o mundo nos sabe e nos interpreta o outro?
Faríamos frente a isto se descobrirmos um pouco mais do sujeito?
Iludimo-nos ainda com a ideia de libertarmo-nos da sociedade?
O capitalismo vigente incorporaria esta visão pra si uma vez que a ache pertinente e aplicável?
Isto já ocorreu?
Ou passaríamos a acreditar o refúgio como num contexto único (se viesse atrelada a uma doutrina, por exemplo)? As doutrinas que não são religiosas segregariam mais e defenderiam mais intolerâncias. Simplesmente por não precisar de algumas adequações ao seu discurso e vinculá-lo apenas ao progresso? As democracias atuais favorecem ou prejudicam as pessoas no que se refere ao direito de exercer a alienação inerente ao espírito?
São tantas leis hoje… Não seria difícil não se desviar de todas elas?
Quanto à sua honestidade esta será contestada quantas vezes o acaso quiser ou então, pelo princípio da causa e efeito, este que nunca iremos compreender.
Acreditar em destino ou nas predestinações passa ser um alívio cômodo, pois as leis que regem esta destinação, só punem com o objetivo de educar (a redenção cristã ocidental é um congresso de almas bastante educadas).
Nenhum o homem é capaz de contradizê-lo mais que o ato de ter sido ele próprio quem mandou soltar Barrabás.
O problema é que essas leis, inegavelmente, determinam a possibilidade futura da pessoa humana. Somos crianças brincando com a pólvora. Ou são cruéis ou são somente imaginárias (presumíveis da mesma fúria por sinal), contudo, se deus e as religiões são nossas ficções favoritas. Por que maldiremos o mundo?
Minha invenção faz parte de um projetar de ser imune ao tempo em que minha carne perece.
As imagens prosseguem dando a humanidade um tom de esperança publicitária. Um tom que deturpa questões de gosto, de estética, e é só isso que entra em nossos embates mais sinceros. Às almas malditas resta a abstração do inferno.

E a arte hein?… Parece ter novamente encontrado o caminho da resistência.
Por inúmeros fatores sociológicos, antropológicos e econômicos esta resistência que traduz o estado de gritar ante a inércia, felizmente, não tem nada a ver com o positivismo dos anos 1960, 1970, onde uma utopia se vislumbrava através de movimentos artísticos libertários de paz e amor ou de contracultura.

Esta ideologia encontrou apoio nos movimentos socialistas dos povos latinos americanos, por exemplo, e, no Brasil, uma esquerda que se construiu com as bases do sindicalismo e todas outras coisas como guerra no Vietnam e opressão em Bangladesh.

Esta geração seja beat, ou seja, hippie ou luta armada mesmo conviveu com a cabeça atribulada de seus pais ao ouvirem noticias das duas guerras pelo rádio. Realmente acreditou se em era de aquarius, meu deus!

Falhamos em sermos classe média, falhamos em Machado de Assis.

Os segundos cadernos nada podem fazer para o oriente médio enquanto a academia só pode estudar Flaubert. Nem mesmo estes autoritários esquerdistas, ora se confundem com cristãos ora homens bomba.

Tudo miserável que é produto da cidade não é senão fruto do capital é verdade, ora, pois que salvem as baleias, ou façam reportagens emocionantes sobre a superação do povo brasileiro, mas, por favor, não pensem que isto vai nos convencer.

Dramaturgias são um ópio antigo assim como futebol, pois que nos alucinemos como os populares no carnaval, por uma cultura mais que democrática, uma cultura de afirmação.

Irã Iêmen Líbia Egito todos os aparelhos de disponibilização midiática que mostrem o mundo cru, o mundo dos anseios do povo, não este mundo editorial falido.

Pela primeira vez podemos fazer história se a vontade de justiça ecoar pelo globo livremente, fora das conveniências da grande imprensa.

Não cola mais ouvir a Gal ou o Bob Dylan, o hip hop (estas iniciais não ficam maiúsculas e até tem o grifo vermelho da ortografia errada) tem as verdades o resto é decorativo.

A vida está na favela. Já o resto representa a falácia do conteúdo de seu anonimato contribuinte casmurrento que maldiz tudo só por que não atrasa sua conta de telefone e limpa a bosta do cachorro no passeio.

Ah os burocratas e os tecnocratas, que eles revejam seus ideais, não dá mais para aplicá-los ante a violência a qual se submetem todos.

Se vocês querem todos algo novo: não ouçam estes vendedores de desgraças falseadas, não ouçam a polícia, ouçam a única coisa que é legitima em nossas cidades: a arte na favela. Esta sim é resistência, esta sim tem identidade cultural, esta sim disponibiliza sua produção em meios verdadeiramente democráticos.

Que estes meios derrubem a falta de invenção dos outros que nada mais são que casca e propaganda.

O interesse das corporações precisa ser burlado, ou os governos entendem isso ou sucumbirão.

I

O ovo, assim como o conhecemos, poderia também ser uma esfera que errou em elipse… Mas, nada que sai do plano da circunferência ganha facilmente a unidade da medida orgânica. Neste caso, é preciso romper a casca. Os corpos maciços conferem a si mesmos a absorção de todo o resto.
Já o ovo com os lados de dentro e de fora, prescinde ruptura para mostrar ao externo a mesma amálgama que presume seu dentro.
Se há rompimento, o ciclo se inicia interior. Ao contrário do que se pode pensar, isto não se opõe à ideia maciça e também recebe pulsões de fora como fagulha de sua laboriosa tarefa interna e de aparente inércia calcificada.
É o trabalho chocante da cloaca, fornecendo calor à sua obra mais significativa.
Nem a cloaca nem o ovo supõem deus ou Darwin.
Talvez lá onde seja centro, onde não é canto, percebem-se milagres.
E os frutos do ovo terão patas. E, durante algum tempo, seguirão a sua cloaca de origem e suas orientações. Até a época da feitura de outros ninhos. Templos da maturação das gemas e da transformação das cascas.

II

A ilha se vê no espelho desde a sua eternidade. Seu pendão firmou em terra quando racharam o oceano. E o brasão continha a força de dissipar as ondas, a espuma do mar fermentava no solo de sua fortaleza. Infindáveis eventos ocorriam em seu chão, os séculos sempre se fazem com sangue e os filhos do sangue permanecem em seu território cantando muitas epopeias. No passado deste lugar de trovas pitorescas e abismos que se jogam ao choro dos banjos, rosários intermináveis se contam a perder de vista e estilhaçam das mãos dos monges que, em mil queixas, vão terminar em fissuras do tempo das rochas e do banzo ancestral dos totens.
Bandeiras de outras confecções ventavam em barcos, velas se acendiam no negrume e era o mesmo costume da senzala, o mesmo presságio do vinho ao vinagre, do trigo ao fungo, do pó ao pó, com a mediação dos punhais.
Assim é a história dos homens. Mas, a terra que se fez morada dos pés, começa e termina no hiato das águas, no hiato do espelho.

III

Os dois lados da ampulheta, antagônicas representações da areia, capturada em recipiente de proporções simétricas e impenetrável. Não há norte ou sul, acima ou abaixo, superior ou inferior. Supõe-se ambiguidade na antítese e antiguidade na síntese.
Um carteado de duas peças, ora o mal é bem e quando é assim, o bem é mal. Ou o encher é esvaziar se o esvaziar é encher.
Uma carta assume, irremediavelmente, o oposto da outra. Elas ambas possuem uma unidade em todos os dualismos.
Esta é a bússola e o espelho em resumo. Vejam este simples instrumento, complexo, dinâmico, ou o contrário? É necessário apenas virá-lo e depois virá-lo novamente, faça isto quantas vezes quiser. Verás que o que acontece é sempre o mesmo e, por mais que quiséssemos todos, nada mudaria.
Ora, se esta representação se repete, Newton tem razão (quando um começa, o outro acaba, quando um desce o outro sobe) isto é óbvio, mas, não tanto quando o tempo acaba ou quando trocamos as funções do jogo. O que acontece então? Ele se repete para distrair-nos do fato de que não existe tempo.

IV

Permanece o cheiro vivo e úmido do seu olho, perfurando meu vestido, indo encontrar meus seios, em suposição de mamilos arrepiados, irradiados por desejos que irrompem os botões insistentes, da seda que se aquece e queima, cria-se o hábito da memória de sua silhueta, na deformidade do ímpeto e do contemplar minhas ancas, seus braços descobrem a assimetria no ato descriterioso de me despir, a gana do olho laminado de instinto cintila inquieta, e quer os sinais da minha entrega, sopram fôlegos da minha garganta em desencontro de olhar melhor o verbo no qual sua conjugação se encaixa no coito, na consumação dos tratos, o olho está na fotografia e salta no estalo de gemer suspiros, nunca descritos, sob pena de o corpo findar na surdez das palavras, juras de amor e disparates.

V

Aquela mulher estava possessa. Como poderiam me roubar um fagote neste fim de mundo? Resolveu voltar até o borracheiro que ficava perto de Palmeira dos Índios, onde havia passado antes. Olha eu vou revirar isso aqui! E ria o borracheiro: como é que é mesmo? Fagote? Faz-me rir!
Naquela altura Juliete Daytona já prometia passar com a carreta por cima da birosca…
Quando aparece um bêbado dizendo: A sua luneta já deve estar em São Bernardo, nas mãos de Antenor Fortuna. Juliete não entendeu de início, pois ela conhecia Antonico.
Antonico era dono de um “Centro Cultural”, na prática um boteco onde agenciava prostitutas e juntava algumas quinquilharias como se o “espaço” fosse também um museu, um antiquário.
Não é luneta é fagote seu traste! Mas quem tirou ele da minha boleia? Sim, pois Antonico não foi. O bêbado se viu na obrigação de se explicar o que havia visto Antenor estava com uma mulher. É Maria Calambau sua quenga…
A carreta de Juliete Daytona sai quase atropelando o borracheiro e o moribundo.
No caminho para São Bernardo.
Juliete recebe uma ligação teve que atendê-la no acostamento.
Era Osíris Bartolomeu Ortega, seu excêntrico namorado, músico de orquestra e apaixonado por Juliete. Ele a chamava de Ju ranca-rabo, Ju ranca-toco, etc.
_ Ju
_fala meu rei
_donde estás?
_é… Cuiabá
_olha tô ligando pra dizer que não precisa do fagote mais.
_ah meu deus!
_por que você já passou em Brasília?
_não! Mas como você conseguiu?
_através de tal Antenor Fortuna, lá do nordeste, ele leu meu classificado e me ligou, acredita?
_ah… Sei
_e outra coisa, vem recheado de maconha Ju.
_enfia no…Tu tu tu…….

VI

Se fosse gente acho que ele seria um existencialista! Questionaria até a mãe!
Olha Raquel acho que seu café está pronto.
_ mas Matilde, não sei como você aguenta tanto mau-humor!
_tenho comigo amizades. A propósito cães não são racionais.

Emiliano tinha chegado mais tarde do trabalho. Matilde vê se você me passe dois bifes, o jogo já vai começar.
Os bifes estavam cheios de nervo e Emiliano uma pilha de nervos também. A faca gasta o fazia ter que esforçar muito para partir a carne imaginou poder dispor deste esforço eliminando o cão que o olha pedindo uma parte com os olhos piedosos.
Sai daqui! Matilde tira esse bicho da minha sala o jogo já começou!

O cão desobedeceu A Matilde e permaneceu na sala, assustado latiu: era gol do time adversário. Emiliano chutou o animal com força e raiva e este mordeu seu pé.
O marido pediu a companhia da esposa para irem ao centro de saúde, mas ela preferiu levar o cão a uma clínica veterinária.

No meio da caminhada empacou o cachorro, Matilde tentava conversar com ele.
Vamos… Vai ser bom! Se houver algum problema, trataremos. OK?
Logo então nosso cão seguiu a primeira cadela (ele que não gostava dessa espécie de “pet footing” nas praças, só as usava para as necessidades e arrumar confusão).
Mas desta vez, de pirraça, seguira a cadela, que, para o contentamento de Matilde, entrou na mesma clinica.

Tudo bem com o cachorro.

Emiliano voltara do posto de saúde na mesma hora em que Matilde chegou.
Emiliano: o médico disse que temos que observá-lo durante dez dias
_isso nós não fazemos todos os dias? Disse Matilde.
_que mau-humor Matilde!
_mau-humor o seu Emiliano!
_mau-humor desse cachorro seu!
_mau-humor seu Emiliano. Te troco por ele.
_pois assim seja!

No décimo dia Emiliano voltou pra pegar as últimas mudas de roupa. Alguma coisa diferente com o cão?
_assiste, como está vendo, a sessão da tarde todos os dias e não atende sequer um aceno meu isso seria algo a relatar ao seu médico?
_não, não claro que não.
Então é isso né?
_é então é isso!
(o cão late)
VII

“She show me her room
Isn’t too good Norwegian wood”
Beatles

Ela me chamou para descer as escadas. Descemos. Ela estava com um embrulho de frutas e lá embaixo havia um liquidificador. Eu que até então nunca tinha experimentado manga… Manga maçã e gengibre. Era este o suco.

De fora do saguão imenso, tem uma imitação de praça com assentos e iluminação, tem também logo na direção do portal de vidro que dá acesso à área externa, um banquinho de costas para quem entra (ou sai?).
Logo suspeitei que fosse ela. Com um vestido do jeito que ela gosta: de fundo branco, com estampas opacas e pálidas para sustentar a leveza de sua pele clara, seria mesmo ela? Examinei-a de costas para mim: o cabelo preto e ondulado, o cotovelo esquerdo na parte superior do banco e a mão esquerda na nuca, as pernas elegantemente cruzadas no sentido oposto, esbanjando charme inclinando o eixo de seu corpo em uns quarenta e cinco graus. Evidencia-se assim a beleza de seu corpo esbelto.
Enquanto eu via aquela mulher de costas, julgando ser ela. Julgava também duas coisas:
1 se fosse ela, e se ela tivesse percebido meu avanço tímido seguido do meu recuo, ficaria aborrecida.
2 ela roubava toda luz do lugar (naquele instante já media o tamanho do meu desconcerto).
Decidi que era preciso saber se realmente era ela sentada, avancei novamente, mas, de um jeito em que só eu pudesse ver seu rosto, mesmo que de maneira enviesada.
Pronto, não era ela. Seguido de um súbito alívio pensei: eu ainda tenho uma eternidade.
Eu ainda tenho uma eternidade pra falar de manga maçã e gengibre, já ela, não sei.

Ouro Branco, 23 de novembro de 1979,

Tio Adamastor,

Saudades da sobrinha! Queria vê-lo antes de se aposentar, pois imagino a dor da perda…
Ravi me parecia ser um anjinho mesmo iluminado… Rosa não poderia mesmo ter feito o que fez! Não se culpe pelo acontecido! Não vá para Bem Posta! Estamos te esperando aqui… Tio Antônio quer vê-lo, presumo que seja para curtirem um fumo de rolo e colocarem tudo em dia…
Cuidado com o conhaque demais e também a aguardente. Penso que Asdrúbal gostaria de jogar cartas contigo e nossa amiga Alana tem o desejo de finalmente cumprir a promessa de conhecê-lo.
Não ando tendo notícias de Dee Dee, mas, peço que não tenha ciúmes do tal Donald (deve ser um sujeito desequilibrado).
Estou mandando algum dinheiro para que possas vir nos visitar assim que possível.
E também lhe envio um manuscrito de sua prima Adelina (ainda escrevendo como ninguém) ela que aqui idealizou no personagem Zequinha Bilico seu sonho de paz. É isto que lhe desejo agora…

Zequinha Bilico tinha o desejo que o sol me aquecesse. E que eu conseguisse isso num banco de praça com orvalhos amanhecidos desse jardim contendo o verbo esperar. Tinha a vontade que abríssemos um livro em volta de árvores. E que recebessem nossa respiração sob forma de luz.
Zequinha Bilico queria a esperança palpitando palavras boas e que pudéssemos dizer que tínhamos saudades do nosso futuro. Nosso futuro de brisa e descanso.
Pretendia que seu sorriso fosse afago. Pretendia abrir as janelas e não saltar.
Zequinha Bilico gostava do céu, mas, não desprezava o chão. Ele queria que respeitássemos as pedras.
Tudo nos servia de formas (mesmo quando formos).
Eu vou respirar este perfume, pois ele se desmancha como um suspiro de quem, por um segundo, compreende existência.
E não exigiu dela mais que isso. Desmanchar da vontade o medo. Esvair da beleza seu segredo que nos foge de compreensão.
Zequinha Bilico deseja-me flores como quem as beija e as lança na espuma do oceano, na sua parte mais continente.
Tal qual marejam o globo e os olhos, as folhas no chão e a confusão das formigas.
A generosidade natural das relvas é seu aprendizado poético:
Ar dor nesta brisa de unguentos resolvendo os homens.
Arte fato numa quentura dos adventos com cândida sujeira
Arte ofício, ladainha rebentando de noite solene.
Hora, ofício, escândalo que exprime saudades derramando bálsamos.
É de piano a água que trago entre os braços.
De amantes, topázios, adágios, contágio por látex de tinhorão.
Verde vagar as árvores gritando silêncio.
De soluções iniciais.
Deste lado na bruma de um cânhamo duvidoso
Com solo de fertilidade com lágrimas.
Com sumo brotado das polpas e das gemas escurecidas.
Haja untar o trigo e o tabuleiro
Amam então o ofício de chamar leite pelo pranto.
Cantarem mim e o sândalo das revoluções
Corpo exangue, cio e sacrifício, redenção e gozo.
Amem!
Sol
Lá se vai.

“O homem verdadeiro é o homem de dentro. O que se olha do pé descalço na folia simples. Na terra, por ter sido arada por ele em enxadas, em mãos tratadas pela capina. Confirma-se em ser o ventre de suas eternidades. Assim é o homem interior cujos pudores provincianos vingarão como lisura de caráter.
Sua retidão altiva é própria de velório, é típica de procissões. Seu intuir é a laboração de sabedoria singular, silêncio plural. Não consente em calar. Seu calar é sinal de contrário, é polêmica. Rumina o procedimento, o andamento, o andor em cortejo triste.
Homens de dentro calados contrariam um continente inteiro.
E o mar sempre lugar de dissoluções é onde a peleja do chão se aniquila. Sua pujança são olhos pasmados, aí há o consentimento.
Como ignorar o fato de o homem trafegar.
O horizonte não se finda. Nem na goiabeira, nem na pedra grande, o horizonte é fora da visão. Sal e água nas mãos é translucidez.
O nada é traduzido em belzebu, o barco sem remo, a tristeza sem rumo… O vento traz destinos que não são mais compreensão.
Eis a roda do mundo!
Mas o entendimento ainda é rio, pedra cortada, madeira talhada. Paz é fumo de rolo a esmo.
Em nenhum salitre quaisquer de seus homens entenderia destas profundezas centrais e agruras equatoriais. Não enquanto houver luz e o carvoeiro trouxer sua escuridão ao dia.
Na boca da noite minha boca pequena se cala.
Galo haja para cessar silêncio.”

Zequinha Bélico

Ouro Branco, 23 de dezembro de 1979.

O mundo é mesmo lugar pequeno. Existem apenas alguns bilhões de seres humanos com sentimentos e aspirações muito parecidos. Todo o mundo sofre, todo o mundo chora, mas, não perde a capacidade de sentir felicidade, e de acreditar nesta palavra, de até dar pulos de alegria ou chorar agradecido por algo provavelmente com dificuldade em conseguir.
Basta supor que, por exemplo, alguém na Ásia tem os mesmos interesses por coisas que também nós nos interessamos. Mas, muito provavelmente, não partilharemos estes anseios nunca! Mas, basta o fato de saber que há pessoas sentindo frio enquanto sentimos também. Basta saber que há pessoas que estão lendo o mesmo livro, ou que estão descobrindo a mesma música, ou estão desejando o mesmo prato.
Aprendi que constatar isto, ou seja, que as dores e sabores da vida são praticamente os mesmos em todos nós. Faz com que deixemos de sentir solidão, por exemplo.
Tanto que às vezes eu também deixo de sentir solidão.
Solidão é algo que todos temem. Medo é algo que todos temos. Saber que, mesmo na solidão, não estamos sozinhos e nunca estivemos, e que na África, ou na América do norte, existe alguém a pensar este pensamento, exatamente como ele é, como ele se constitui e toma forma e torna bondade. Isto nos conforta. Isto nos faz mais fortes.
Supor estas coisas deve fazer com que amemos melhor a quem amamos e a amar também aqueles que ainda não conseguimos amar.
Devemos acreditar sim que o amor nos faz melhor, nos faz em um mundo melhor. Mesmo que sejamos imperfeitos, que tenhamos defeitos e não consigamos exatamente e certamente amar a todos. Isto de fato não acontece sequer em alguma utopia, seja ela de quaisquer ideologias. Mas, não devemos cultivar ódio, devemos melhorar no amor sendo sinceros com quem deseja nossa companhia e a tem como alguma coisa valiosa, sendo honesto com nossos sentimentos e, se possível, nos defendermos dos males sem causar o mesmo aos outros. Esta é uma generosidade possível em cada um de nós. Acredito que ninguém que sinta fome não sentiria gratidão a quem desse a ele comida. Acredito que quem mora na rua agradeceria a que lhe oferecesse uma cama e um teto.
Acredito que quem está desesperado saberá retribuir a que lhe dá a mão. Acredito que quem sofre por amor o próprio amor o reconfortará no futuro. Acredito que quem não teve ou não tem um pai ou uma mãe poderá perfeitamente ser um bom pai ou uma boa mãe.
A vida não se cansa de não deixar a gente sem novas chances, novas oportunidades, mesmo que tenhamos andado muito, errado muito… basta acreditar, que outros caminhos sempre aparecerão.
E se desejarmos e não conseguirmos. Virão outros depois de nós e conseguirão, em nome de todos que tentaram antes. Assim como as águas não se cansam de ir para o oceano e as plantas não se cansam de germinar.
A vida acaba rapidamente. Muito mais rápido que o brilho de uma estrela. Muito mais rápido do que quantas vezes o sol clareará nossas cidades. Precisamos acreditar. Precisamos exercitar coisas boas. Ter vontade de lutar para ter condições mais dignas de viver, não somente para nós mesmos.
Precisamos dar ouvidos ao que não conhecemos, sermos juízes destas coisas, sermos nossos próprios juízes sem que não deixemos de aprender que devemos cada vez menos, julgar outras pessoas.
Ora, tudo isso é cristianismo? É! Mas é também todos os credos. Isto é a humanidade ainda querendo erradicar seus absurdos apesar de tudo.
Viver é lutar para continuar vivendo. Continuar respirando. Ter pão. Ter sonhos.
Ora, isto tudo é de graça? Se for de graça foi doado por alguém. Se não for de graça devemos satisfação a alguém, por estarmos aqui.
Não podemos afirmar que deus existe, mas, se quisermos, podemos acreditar…
Eu ainda não cheguei a minha conclusão sobre o assunto, mas, sobre esta minha dúvida honesta, sincera é a vontade imensa com a qual acredito na vida.
E desejo-lhes boas festas!

Ouro Branco, 5 de janeiro de 1980.

Querido amigo Agamenon,

Escrevo já sabendo que seu caso com Juliete Beltrão vai na mesma: você apaixonado e ela sem saber, ela ao sabor do absinto e você decupando tudo isto em poesia.
Recebi as fotos de sua série de esculturas, espero que consiga expô-las quando abrirem novos editais.
Sei que deves estar também apaixonado pela Elis, como canta esta mulher!
Sei que sabes que este país está explodindo.
Peço que antes que abandonemos nossa sujeição a pequenos burgueses de Cassavetis ou mesmo Godard (quando convier) e nossa afeição por bebidas baratas e fumos duvidosos como se fôssemos ainda adolescentes.
Todo nosso civismo até hoje apenas soou como paixões juvenis.
Estamos velhos Agamenon, apenas os anos chegam novos depois nos matam sem nos sabermos com a mesma esperança. Descobrir isto não me faz nem um pouco mais idílica…
Saiba que Juliete deve saber disto antes que nós, pobres intelectuais pensando-se malditos, não passamos de homens e mulheres bem ou mal criados.
O novo ouro do Brasil, como previra Drummond, está por vir.
Encontrei-me com este homem Altamiro, um catador de lixo, pudera o ouro estar justamente no lixo. É tudo condizente com o que vivemos hoje.
Altamiro recolhia lixo na boa viagem. Em 75 houve uma enchente que afetou a casa de Chico prosa, que de tanta desgraça partiu-se embora. Altamiro apanhou alguns volumes que sobraram da biblioteca deste homem prosa…
Ao conhecê-lo nas águas de são Rafael e na pedra de santa Marta, ele me disse de sua predileção por Jean Paul Sartre e Júlio Cortázar.
É o que fica obvio em sua escrita que lhe envio datilografada de seus garranchos,
São quatro contos fantásticos e um exercício dramatúrgico que me soa como uma diluição de “Entre quatro paredes”.
É um fôlego novo para reinventarmos e livrarmos de velhas figuras.
Sim, Juliete tem seu sopro de argila, posto que Altamiro me tem em ressacas de são Rafael!
Um beijo!

NOME 1

Desde sempre, Monteiro quis ter um cavalo. Sua afeição por estes animais vinha da ânsia insignificante do signo infantil. Monteiro possuía a estética em desenhá-los, com sua disposição muscular, proporções e o porte elegante dos equinos e também quando potros.
Monteiro morava em um subúrbio de tristes luzes cinzentas cujo verniz de suas madeiras, de suas mobílias tinha o brilho do óleo das coisas sem nome que se perdem na aguardente.
Quando houve uma oportunidade, ele adquiriu um cavalo, incitado pelo desejo de cavalgar ventanias. Em sua montaria, obteve boa oratória. No trotar de seu cavalo, aprendeu boa retórica.
Monteiro passou a desbravar rebanho galopando com suas palavras. Seu tio não concordava com sua doutrinação à sela e arreio. Não adiantou, Monteiro, montado, conquistou a vizinhança e o que ela pensava.
Com mais este desgosto, seu tio definhou até sonhar do sono em finitude. Monteiro, seu único herdeiro, ficou com sua vistosa residência.
Além da fachada central, havia uma construção retangular de dois andares, onde se espalhavam os aposentos, pousando no descanso de um pátio a céu aberto com um lago artificial.
O cavaleiro decidiu derrubar a estrutura da fonte de água, quebrou o concreto e deixou crescer um pasto para seu cavalo amado.
Corajoso, ele avançou em suas conquistas, comprou terras que circundavam seu prédio e passou a incentivar seus seguidores a virem morar em suas propriedades, em nome de uma nova prática religiosa.
Todos eles aceitaram, mesmo sem ter noção alguma sobre qual conduta iriam responder, apenas questionaram por que Monteiro não comprava outros cavalos.
Este prontamente determinou a proibição de mais cavalos, não em suas terras.
No entanto, todos eram unânimes em felicidade advinda da bondade dele. No entanto, o ilustre cavaleiro era dono absoluto de sua própria felicidade. Afinal, Monteiro comungava da alegria de seu cavalo. Que, afinal, pastava e balançava do rabo as moscas.
Monteiro, sabiamente, observou todas estas bem aventuranças e concluiu que já era tempo de instituir o primeiro rito de seus cultos de rara autenticidade. Pensou isso, por bem, sabendo da alegria de seus fiéis.
Sugeriu delicadamente que seus súditos pastassem junto a seu cavalo. Não houve discordância. Todos sabiam que era muito importante pastar.
Muito sutilmente e bastante ponderado, consultou seus apóstolos se eles não achariam correto pastar à direita do cavalo. Todos entenderam com profunda resignação e muito respeito
Com todo cuidado, perguntou a todos se pastar à esquerda do cavalo poderia ser considerada uma heresia, pois era preciso que todos soubessem que pastar à esquerda poderia causar uma punição severa. Portanto Monteiro logo comunicou isto a todos porque não queria punir ninguém.
Todos acharam sensata e maravilhosa a ideia.
Todos estavam plenos de bons sentimentos enquanto pastavam.
Nem por isso, Monteiro deixava de recomendar, todos os dias, prudência ao ato de pastar.

NOME 2

Nunca imaginei que um dia eles pudessem vir. Chegaram. Aqui já estavam. Tanta saudade desde não conhecê-los. Especificamente, o senhor P. e a madame G. . O senhor P. tinha no timbre de sua voz uma dignidade de usar paletós verdes.
Madame G. era uma pérola em sua gargantilha. Presumi que ela deveria gostar de espumantes.
De maneira que assim supus os dois, provavelmente um casal que apreciasse bons charutos e também cachimbos.
Madame G. estava cansada, parecia que vinha de longa jornada. Não consegui conceber o conteúdo do que trazia em suas malas, mas, certamente havia pequenos frascos de perfume entre os vestidos. Seu cansaço sugeria aparatos mais densos que perfumes e vestidos em sua bagagem.
Ofereci à madame G. quarto e sono, naturalmente aceitos.
O senhor P. tinha uma aparência gasta, um sofrimento antigo na barba descuidada. Um júbilo ofegante entre os olhos e as rugas da face. Logo constatei que o senhor P. sentia vontade de que falássemos de futebol. Passamos a falar de futebol.
Enquanto isso, madame G., fazia uma leitura interior de sua presença ante os objetos que ainda a estranhavam. Percebi que madame G. procurava sintonia, e às vezes encontrava. De fato, harmonia é uma coisa mais natural ao gênero feminino.
Nunca imaginei que eles viessem. Vieram. O barracão do cortiço onde eu moro se alegrou com as cores de madame G. e os timbres do senhor P.
Depois de algum tempo, devidamente instalados, observei várias vezes, madame G. na sacada, que dava acesso ao pátio, que por sua vez, dava acesso à rua.
Madame G. convenceu o senhor P. a me convencer de que precisávamos derrubar a escada e, que, no lugar do pátio, construíssemos uma piscina.
Em nenhum momento pensei que isto poderia atrapalhar os outros moradores. Pois eles eram muito respeitosos. E em nenhum momento cogitei a hipótese de contrariar o senhor P., este que era tão gentil e cordial. Construímos a piscina e tiramos a escada.
Agora, além de jogar cartas, podíamos exercitar saltos ornamentais.
Contudo, algum tempo depois, o senhor P. começou a olhar para a piscina com um tom um tanto quanto melancólico. Preferi respeitar o senhor P. em suas reflexões consigo. Logo ele resolveu convencer madame G. a me convencer de que precisávamos criar jacarés na piscina, precisávamos de um pouco mais de extravagância.
Levei em consideração que outros moradores tinham boa índole e não iriam fazer oposições. Concluí que não poderia desapontar madame G.. Pobre madame G. tão sensível e solícita! Então comprei um casal de jacarés e os coloquei em sua nova morada.
O tempo passou e os jacarés procriaram, já contavam sete, quando madame G. ouviu no rádio o anúncio da apresentação da orquestra local, no centro da cidade.
Ela ficou muito triste, pois, não podíamos nos deslocar. Se pulássemos na piscina seríamos devorados. Fiquei muito compadecido com a lamentável situação de madame G. e peguei uma escada emprestada com o vizinho para que ela pudesse sair pela janela.
Já eram onze jacarés quando o senhor P. decidiu usar do mesmo expediente para sair atrás de madame G. que, até então, não voltara.
Hoje são vinte e nove jacarés na piscina. Se eu não tivesse que alimentá-los a todo o momento, certamente recorreria ao método da escada pela janela para saber notícias dos dois. Estou com muita saudade deles. Estou deprimido.
Sinto a falta deles, é como se eles nunca tivessem vindo.

NOME 3

Alcebíades estava farto, tinha que descansar de novo, ele não se preocupava com gravatas ou sapatos apertados. Procurava não. Nem sapatos nem gravatas. Havia outros nãos mais imperativos. Preocupava-se com o calor e com a bagunça de objetos espalhados na mesa de sua sala. Era isso que assolava sua madrugada. Nunca tentou tranquilizantes ou whisky. Esses seus momentos eram só vasculhar gaveta.
Ao tentar abrir uma, escorregou e caiu com o olho direto na maçaneta. Foi um êxtase repleto de vazio na lucidez, que o fez abrir os olhos novamente e, com a mão na cabeça, levantar.
Alcebíades percebeu o caruncho debaixo do assoalho do armário em vazão caudalosa. Adotou o precaver de pisar o pé cauteloso. Estes rios de caruncho são perigosos.
Ele hesitou um pouco em descer a escada. Preferiu fazê-lo sentado, prevendo a correnteza, procurava o corrimão.
Tudo era caruncho em queda livre. Ao chegar ao térreo, apoiou suas mãos contra a parede e encontrou uma imensa poça de caruncho na soleira da portaria. Nesta hora sentiu medo de ser levado pela corredeira, não era apenas uma mera preocupação em não molhar a barra da calça com caruncho.
Quando Alcebíades abriu o portão, é que ele viu a enchente. Um senhor altivo e circunspecto fez menção de lhe direcionar o gesto. Era Baltazar que andava cuidadosamente pelos canais alagados tentando se equilibrar. Muitos já tinham se afogado, quando Baltazar chamou Alcebíades para ajudar os homens que construíam diques de pedra para estancar as inundações.
E foi assim que fizeram uma cidade de pedra para minimizar os infortúnios.

NOME 4

A senhora C. era muito agradável. Seria uma injustiça pensar nela lembrando apenas de seus horrores. Pois justo ela tão simpática e delicada!
A sua família não seria capaz de cometer este engano. Aliás, não seriam capazes de cometer engano algum a seu respeito. Apesar de tantos terrores na existência da senhora C.
Aproveitando o advento de sua morte, os familiares da senhora C. agiram, mais uma vez, com isenção. Procuravam, todos eles, o que fosse melhor para ela, para seu cadáver.
Uma vez que a senhora C. tinha pavor da ideia de consumação por meio de vermes subterrâneos, e essa ojeriza foi transmitida sistematicamente a seus filhos, não havia nada mais adequado que respeitar o medo dela, bem como o medo de todos, agora presente no corpo esvaído da mãe. Acharam melhor não enterrá-la.
Depositaram seu corpo numa urna aberta em cima de uma mesa numa das antessalas. A intenção era, além de respeitar o medo da mãe decrépita, entender este mesmo medo que a senhora C. inocentemente tentou não incutir em seus filhos abandonados.
Resolveram então, entre si, estudar a morte, um curso intensivo sobre a morte. Através da dissolução do corpo da senhora C., seus entes poderiam repensar sobre seu temor original acerca da finitude. Poderiam também, projetar suas aflições de quando deixassem de respirar, observando a decomposição de seu corpo. Era a única maneira de saber o que lhes ia acontecer um dia.
Mas, seus filhos sabiam exatamente que não poderiam compreender o ato praticado por eles, como egoísmo ou ignorância.
Era como se mãe, deitada solenemente em urna lhes desse a última lição:
Como deixar de viver.
Procuraram então uma metodologia na observância da evolução dos estágios e também dos fenômenos que viessem a conhecer e estavam ávidos em conhecer
Isto que chamaram dissolução completa do corpo.
O fato de descobrirem que os corpos não se dissolvem por completo e o que se anula demora em anular os deixaram desconcertados.
A primeira providência após o método foi esterilizar toda a casa e implicitamente se desinfetarem.
No princípio tentaram sentar-se à mesa, onde repousava a mãe, durante as refeições. Com o tempo foi impraticável repetir o ritual. Mas bem que tentaram borrifar a antessala com amoníaco. Vã tentativa.
O mau cheiro e a aparência tenebrosa da senhora C fez com que vedassem o cômodo e isolassem todas as suas frestas e fendas.
Antes ainda deixaram um vidro impermeabilizado para que pudessem dialogar com a eternidade daqueles restos.
Aquilo assolou a todos de tal forma que, ao final do processo, sofreram muito para chegar a alguma conclusão.
Mas enfim, combinaram todos vender a casa da senhora C para que eles, os filhos,
Pudessem contratar os serviços de seguros funerários que previssem a cremação.

O MANTRA INEFICAZ DA TARDE

PERSONAGENS:

SENHORA QUE ESTAVA DORMINDO: gorda e de camisola verde ligeiramente transparente
MULHER PERDIDA: usa um blazer vermelho e uma calça brim preta e sapatos de salto alto pretos que ela traz nas mãos
CRIANÇA SÁBIA: é representada por um anão com voz ligeiramente afeminada e usa uniforme do exército

CENÁRIO: possui um fundo com fotografias editadas com fundo em prisma que são projetadas em slides que vão do verde ao amarelo e do amarelo ao sépia à medida em que os atores representam

TRILHA: estereorragia (somente para quando as personagens dizem ouvir o mantra ineficaz da tarde, que é o silêncio em si

Mulher perdida- Ah… Enfim, luz! Mas, onde estou?
Criança sábia- Onde estiveste não havia luz?
Mulher perdida- Oh menino! Não caçoe! Sabe como sair daqui?
Criança sábia- Não, não sei. Mas, mal chegou já queres sair? De onde vieste? Por sua vontade de voltar deve ser um bom lugar, conte-me!
Mulher perdida- Criança! Não tem a idade suficiente…
Criança sábia- Não sabes, mas tenho a idade de todos os homens e de todos os mundos!
Mulher perdida- Qual o teu nome?
Criança sábia- Ainda saberá meu nome ele está dentro de ti
Mulher perdida- Tudo bem, menino espirituoso! Adentrei-me em corredores intermináveis um findava aí começava outro, tudo na penumbra, eles pareciam estender até a linha do juízo final.
Criança sábia- Corredores intermináveis… Entendo.
Mulher perdida- Não, não entende.
Senhora que estava dormindo- Calem-se não estão vendo que eu estava dormindo! Acordaram-me! Estive dormindo este tempo todo e esquecendo-me de mim mesma, aí veio a presunção estúpida de vocês dois! Acordados inutilmente…
Mulher perdida- Quem é esta senhora?
Criança sábia- esta senhora estava dormindo e eu não a atrapalhava, mas, você veio e…
Senhora que estava dormindo- Aí veio você, mulher perdida, atribular ainda mais minhas lamúrias. Preferiria dormir, mas já que me acordaram ouvirão sempre o meu escárnio! Não vi nada no mundo que não merecesse meu escárnio exceto o sono!
Tudo que me tornou estúpida é mais estúpido que tudo que eu digo.
Criança sábia- Agora ela não parará de nos infernizar…
Senhora que estava perdida- Não mesmo, toda a humanidade merece a agonia. Vocês são hipócritas, tentam fugir da agonia, fingem não saber que não há saídas! Como é o nome desta senhorita que se veste tão mal?
Mulher perdida- Sou uma mulher perdida
Senhora que estava dormindo- Ora deixe de se lamentar! Estamos todos perdidos!
Criança sábia- Não, não digamos isto, nós…
Senhora que estava dormindo- cale-se peste!

Senhora que estava dormindo- Diga-me, mulher perdida, como andam os homens?
Mulher perdida- ah! Os homens, às vezes acho que respiro por causa deles não é possível imaginar a vida sem eles, não viveria sem sexo! Por falar nisso, onde eles estão?
Senhora que estava dormindo- Não sei. O que sei é que agora que acordei, daria tudo para abrir as pernas para o primeiro que aparecesse…
Mulher perdida- A senhora está sendo vulgar.
Senhora que estava dormindo- Não estou. Sei das mulheres como você. Esconde a indignidade de espírito no decote dos vestidos pretos ou vermelhos estou falando de luxúria.
Mulher perdida- a senhora está sim, sendo vulgar!
Senhora que estava dormindo- Não mais que você, conheço-te bem, sua promiscuidade em seu perfume de mau gosto em seus óleos hidratantes… Veja, o sexo é natural, como estava dizendo, é só abrir as pernas!
Mulher perdida- E, afinal o que é ser vulgar? Já não importa não é mesmo?
Senhora que estava dormindo- estava falando de homens, e afinal o que é ser homem? Também não importa!
Criança sábia- ah… Mulheres… Não sabem que a luxúria não vem de lugar algum senão delas mesmas, de dentro delas, acaso sabem o que é ser mulher?
Mulher perdida- Cale-se criança tola!
Senhora que estava dormindo- Acho que agora passaremos a falar de mulheres.
Mulher perdida- Sim mulheres.
Senhora que estava dormindo- Nenhum homem saberá o que é ser mulher…
Mulher perdida- Bingo!
Senhora que estava dormindo- o que não é vantagem alguma
Mulher perdida- Achei que poderíamos começar a nos entender…
Senhora que estava perdida- Você vê alguma vantagem em achar que entende alguém?
Mulher perdida- Nenhuma, especialmente com pessoas como você!
Senhora que estava dormindo- É o que fazem todos, acham que acham o certo…
Criança sábia- enfim chegamos a uma conclusão: mulheres não se entendem!
Mulher perdida- e quem se entende, seu asno?
Criança sábia- Um dia vocês saberão talvez este seja o motivo de estarmos aqui, para exercitar nossa compreensão.
Senhora que estava dormindo- Se eu pudesse ter sono com as bobagens que diz este menino…

Criança sábia- Porque a senhora não tenta dormir novamente?
Senhora que estava dormindo- Na verdade garoto estou acordada há milênios, esta é a sensação que tenho.
Criança sábia- Mas, não estavas dormindo até agora há pouco?
Senhora que estava dormindo- Não neste lugar.
Criança sábia- Pois eu aguardo ansiosamente o dia em que eu dormirei no leito de minha finitude, o dia em que dormirei minha eternidade.
Senhora que estava dormindo- Pobre Infante! Na há aqui este sono.
Criança sábia- Sei que gostas de zombar as boas almas, mas, como ousas blasfemar a tal ponto?
Senhora que estava dormindo- Sonhe menino, sonhe seu pesadelo ele é tudo que temos aqui. Enquanto isso podes dormir.
Criança sábia- Não é assim que quero dormir!
Senhora que estava dormindo- Como queres dormir menino?
Criança sábia- com os pássaros e com as nuvens.
Senhora que estava dormindo- Não seja por isso, este pesadelo também os têm.
Criança sábia- Ora! Porque pássaros e nuvens habitariam pesadelos?
Senhora que estava dormindo- Por que os fizemos eternos!
Criança sábia- Ouça uma coisa que durma então somente a senhora!
Senhora que estava dormindo- Mudei de ideia filho.
Criança sábia- Então não atrapalhe meu sonho com sua insensatez!
Senhora que estava dormindo- Então estás dormindo?
Criança sábia- Não, não durmo.
Senhora que estava dormindo- Há quanto tempo não dorme?
Criança sábia- já não me lembro.
Senhora que estava dormindo- Então durma!
Criança sábia- Não, não durmo!
Senhora que estava dormindo- Está vendo, é este o pesadelo, talvez seja por isso que estamos aqui.
Mulher perdida- Ei! Estão atrapalhando minha masturbação, hein!

Criança sábia- Elas não se convencem, elas precisam estar convictas comigo! Precisamos nos afinar! Precisamos compreender este lugar! Esta condição absurda, abissal. Elas não me ouvem. Elas precisariam me ouvir. Eu precisava convencê-las…
Mulher perdida- Menino! Menino! Venha ver o que eu encontrei!
Senhora que estava dormindo- Grite mais, mulher perdida!
Mulher perdida- Acaso a senhora estava dormindo senão venha logo você também!
Criança sábia- Vamos! Senhora que estava dormindo vamos! Vamos ver o que a mulher perdida encontrou.
Mulher perdida- Vejam achei esta corda…
Senhora que estava dormindo- Pronto! Agora se enforque!
Mulher perdida- Olhem bem…
Criança sábia- parece estender até a linha do juízo final, como nos seus corredores intermináveis mulher perdida!
Mulher perdida- Sim, quem sabe encontraremos meus corredores!
Senhora que estava dormindo- estou aterrorizada se seguirmos a corda, poderíamos estabelecer um vínculo com o nosso passado.
Criança sábia- acho que sim.
Mulher perdida- não! Agenor não me perdoa mais!
Senhora que estava dormindo- sim, seu marido! Se assim for nunca te perdoará
Mulher perdida- e a senhora? Existe alguém que a perdoaria?
Senhora que estava dormindo- nem eu mesma me perdoo meus três filhos se foram na enchente enquanto tomava cachaça na esquina.
Criança sábia- E eu só quero ver novamente os preceptores!
Mulher perdida – preceptores? Onde os viu?
Criança sábia- sou órfão, eles me criaram aqui, me ensinaram tudo…
Senhora que estava dormindo- e desde quando eles foram embora?
Criança sábia- desde quando me deram a tarefa de velar pelo seu sono
Senhora que estava dormindo- há quanto tempo eu dormia?
Criança sábia- eles me ensinaram a não contar o tempo
Mulher perdida- se puxarmos a corda talvez tenhamos algumas revelações sobre os corredores e os preceptores, vamos?
Senhora que estava dormindo- Vamos!
Mulher perdida- pois bem, vamos puxá-la, a senhora tem dificuldades de locomoção, mas aparenta ter força. Você é criança, mas contamos com sua vontade. Já eu sou uma mulher frágil, mas meus desejos são os desejos de um leão, vamos.

Criança sábia- estamos tentando já faz algum tempo, e em vão. Sugiro que, ao invés de puxarmos a corda, a sigamos para vermos até onde ela nos levará.
Mulher perdida- aleluia! Uma criança sábia!
Senhora que estava dormindo- amém!
Mulher perdida- como eram os preceptores?
Criança sábia- eram bons e se vestiam de preto.
Mulher perdida- e o que eles faziam?
Criança sábia – apenas me educavam.
Mulher perdida- junto com você, além deles, havia outros?
Criança sábia- diziam que eu era o primeiro.
Senhora que estava dormindo- estou exaurida, não consigo mais caminhar!
Criança sábia- estou com muita sede!
Mulher perdida- estão desistindo?
Senhora que estava dormindo- acho que já desistimos.
? – boa tarde!
Criança sábia- afinal, é tarde?
? – é tarde!
Mulher perdida- quem é você? Pode nos explicar o que acontece aqui?
?- sou um inquisidor e vamos dar início ao interrogatório
Senhora que estava dormindo- e como isso se dará?
? – se dará com os três, cada qual separadamente.
Criança sábia- começarás por qual de nós?
? – por você, peço às outras criaturas que se afastem.

?- então pequeno, por que supõe que está aqui?
Criança sábia- acho que estou passando por um processo de expurgo. Algo que, em minha breve existência…
? – existência?
Criança sábia-ainda não me entendo bem e acho que se bem entender e interpretar este
Lugar. Estarei em progresso com minhas indagações reflexivas
?- indagações?
Criança sábia- não tenho medo em dizer estas coisas.
?- medo?
Criança sábia- sim, acho que não.
?- vá, teu quinhão espera por ti!
Criança sábia- mas é só?
?- sim, por favor, chame a senhorita.
Mulher perdida- pois não senhor?
?- diga-me senhorita o sentido que reconheces em estar aqui.
Mulher perdida- Nenhum, sinceramente nenhum .?- nenhuma sinceridade?
Mulher perdida- Só me aumentam as perguntas
?- para que perguntas?
Mulher perdida – por que isto é um absurdo! Tenho impressão que isso nunca acabará que nunca terei respostas!
?- acha que irá acabar se houver respostas? Em todo caso encontrará respostas?
Mulher perdida- encontrarei?
?- sim
Mulher perdida- devo chamar a senhora que encontrei dormindo?
? – sim
Senhora que estava dormindo- aqui estou podemos começar?
? – sim
Senhora que estava dormindo- então comecemos!
?- o que a senhora acha daqui?
Senhora que estava dormindo- acho que tudo que deveria ser é. E acho que tudo que deveria estar de alguma forma, se faz presente também.
? Faz-se presente?
Senhora que estava dormindo- sim.
?- vá.
Senhora que estava dormindo- espero contar com a sua complacência.
?- sim.
Mulher perdida- inquisidor!?
Senhora que estava dormindo- ouçam, ouçam este som que parece sair de um cenário!
Criança sábia- é um mantra!
Mulher perdida- é o mantra ineficaz da tarde!
Senhora que estava dormindo- belo título senhorita!
Mulher perdida- até quando o ouviremos?
Criança sábia- até quando durar nossa eternidade.

EM OUTRA AMBIENTAÇÃO

Criança sábia- eu trouxe o pão.
Senhora que estava dormindo- ah! Esse moleque não se cansa de me acordar.
Mulher perdida- quantos pães você trouxe?
Senhora que estava dormindo- que pergunta! Mulher perdida!
Mulher perdida- claro! Preciso saber! Se dois, se três, se quatro…
Senhora que estava dormindo- somos três!
Criança sábia- trouxe cinco.
Senhora que estava dormindo- vejam que fim de mundo!
Criança sábia- olha! Vejam!
Mulher perdida- está chovendo na roseira?
Criança sábia- não. O cão que saía pelos fundos entrou pela porta da frente.
Senhora que estava dormindo- infames vocês dois! Ora! Se ele saía pelos fundos…
Mulher perdida- o quê?
Senhora que está dormindo- não está chovendo na roseira!
Mulher perdida- o que isto significa?
Senhora que estava dormindo é a música do…
Criança sábia- ele nunca havia entrado pela porta da frente!
Mulher perdida- há algo de errado nisso?
Senhora que estava dormindo- af! Vou voltar a dormir.
?- vejam! Vejam! Vejam que fim de mundo!
Mulher perdida- o que é isso?
? – vejam! Vejam! Que fim de mundo! Bem na porta da sua casa!
Senhora que estava dormindo- af! Vou voltar a dormir.
Criança sábia- não seja tola!
?- vejam! Vejam! Que fim de mundo! Bem na porta da sua casa! Três abacaxis por um real! É só hoje! Vejam! Vejam…
Mulher perdida- é o mantra ineficaz da tarde, criança sábia?
Senhora que estava dormindo- af! Vou voltar a dormir.

Ouro Branco, 10 de janeiro de 1980.

Um senhor me abordou na rua para fazer ressalvas: vocês jovens intelectuais, presumivelmente todos de esquerda vão chegar ao poder e com certeza arruinarão o país, pois vocês só sabem vociferar contra nossos males e não saberão combate-los nem verão que eles perdurarão e continuarão a serem os mesmos até que chegue a vez de vocês. A maneira com a qual seus argumentos batem nos poderosos é uma perversão triste, se não há saída agora quando o tempo for chegado será preciso inventar que foram achadas as saídas sem estas as serem propriamente. Vocês são uns tristes inveterados que arrumaram justamente estas ditaduras sul americanas para justificarem este nosso banzo tropical que abate a soleira de nossas portas com a alcunha de “modernismo brasileiro” ora, arregacem as mangas ou este país continuará contando sempre as suas tragédias sociais que vocês jovens tanto detestam, mas que pensam que praticamente todos nós as vemos como conveniência para não deixar o poder, aliás, uma boa desculpa para continuar os desmandos, vocês estão redondamente enganados! Façam alguma coisa ou quem irá maldizê-los será o próprio tempo!
Depois que ouvi estas palavras parei para pensar. Fiquei estagnada durante uma semana e meia e não pude nada fazer. Sim! Nossas razões se justificam apenas em muitas tristezas! Até que rabisquei estas linhas:

ÔNUS

Estou velho. Perdi-me no calor e nos dias destas rochas. Restou a senhora viúva de Severino, o alferes que em campanhas antigas nos defendeu, e com bravuras.
Sua viúva me encomenda o registro de notas de seu grupo de anciãs que no tear ganham um jeito.
Tecendo histórias veladas… Queria romper com este memorial de ofícios, inúteis depois de constatados todos os enganos.
Nossa ilha, também por sua compleição topográfica e seu recolhimento na arbitrariedade dos cartógrafos, tornou-se um monumento para si mesma. E um trabalho de socar grãos.
O tempo se transformava lentamente em cinzas cereais de uma dissolução de braço e pilão.
Outrora, tive ocupações diversas. Como geômetra, fui responsável pela construção de nossos aquedutos, fui também coletor de impostos (quando do registro das atividades mineradoras) detinha os conhecimentos de um antigo ourives.
Redigi muitas demandas para a Coroa e para sua ânsia em regulamentar as leis com objetivo principal em punir quem não estava de acordo. Neste ponto, não tive remorsos.
Afinal, havia lido muitos dos códices da Coroa e sentia-me honrado em interpretar suas deliberações.
No entanto, a tarefa que mais me agradou foi ornar algumas de nossas cidadelas (em suas paredes de rocha) relevos de nossa escrita e de valores que os séculos encarregavam a mim de propagá-la quem sabe, a outras civilizações.
Diziam de profecias que até então não aconteceram. E eu sabia que assustaríamos o resto da continuação da existência e alimentaríamos dos seus gostos por medos e objetos de fantasia.
Outro tempo virá brevemente. Logo, nossa sociedade estará extinta e novas sabedorias examinarão nossos vestígios, ruínas e tragédias.
Haverá enfim um tempo em que todos os outros tempos serão estudados e diagnosticados o legado de cada um.
Temo que quando chegar esta hora será tarde demais.

Simeão cuidava de nossa balsa. Não navegava por carontes, mas, trazia peregrinações de outros infernos. Era o tempo das guerras. O pequeno canal que ele cruza em oito frações diárias, tinha uma desrazão que não se media com sol ou lua.
Nem o templo do outro lado, imaginando as novidades do calendário do céu noturno, poderia mensurar a força daquele monstro que movia aqueles errantes em sua balsa.
Muitas indagações travei com Simeão. Já neste tempo de silêncios. Víamos, ao balançar das águas em quietude, o dançar da balsa despovoada sem achar resposta alguma às dúvidas de beira do açude.
Gramíneas alertavam para o tempo de gestar, para o tempo de criar raízes, era a vida tentando um modo mais fácil.
Simeão pensava na leveza e no descompromisso que estas hastes, no seu vínculo com terra dentro. Ensinava que era preciso crescer para dentro, porém não precisavam alcançar profundezas como buscavam as árvores, pois não havia outro Hades senão o interior (antes das pragas).
Esta vegetação diferente, rasa, alastra sem preocupações de chegar a alturas e não percorrer o chão era outro arranjo no espaço.
Sim Simeão! O chão ainda é o elo. O ventre que nossas revoluções traíram. O elo não era para ser água. Esta apenas se diverte em nosso chão, deitada e rolando, indiferente, oferecendo ao chão o fecundo. Que seus filhos recusaram, e é este o motivo da inércia de sua balsa!

Nossa Queroneia só trouxe amargura. Algum tempo depois, o ministro conseguiu um acordo com as terras estrangeiras. Ninguém duvidaria das habilidades diplomáticas de Amantino, e todos acreditavam que a volta dos corpos traria novamente a dignidade ao nosso povo.
Já em nosso território, aqueles restos mortais amontoados nos porões das naus feriram de morte a população. Surgiriam outras tragédias.
Adelaide, governadora de uma província, iniciou uma inconfidência que chamava de libertário levante. Uma nova investida oceânica, entre os adeptos, muito burburinho e revolta, a insurreição começava a ameaçar os pilares do reino.
Como em todas as rebeliões, havia muitos interesses em jogo, obscuros e velados.
Ninguém saberá afinal quem assassinou Adelaide. Mas, homens ligados a Amantino foram incisivos em acusá-la de separatista.
Com isto, o ministro perdia prestígio. Até ser acusado de arquiteto do atentado à governadora.
Em meio a naus que chegavam com cheiro de morte, Amantino foi encontrado, suicidado no cais do porto.
O imperador não conseguiu conter a desordem e a guerra civil.

As chuvas castigaram muito o vilarejo das cercanias de Manoel Cipriano. Seu cultivar de grãos e áreas limpas dos gafanhotos abastecia quase toda a ilha. Todas as provisões alagadas serviram em primazia aos ratos e depois aos homens famintos. Manoel Cipriano nunca mais se refez da doença de sua terra e o que acontecia eram os ecos de seu banjo cansado.
Depois de algum tempo de pântanos o ministro Amantino providenciou subsídios para que Cipriano aproveitasse os brejos com plantio de arroz. A cultura deu certo, mas Manoel Cipriano, ao invés de comercializar toda a colheita, a distribuiu entre os pedintes náufragos atravessando longínquas terras encharcadas.
Amantino não o perdoou e enviou cento e quarenta homens da guarda da coroa confiscarem suas terras, Manoel deixou seus domínios com seu banjo e outro objetos poucos. Juntou-se aos errantes.
Cipriano consultou mais uma vez Inácio (que previa o tempo através da constituição das flores e das aparências de caules e folhas).
E Inácio lhe disse que na semana próxima viria uma tempestade de iminência e moléstia.
Cipriano então construiu de juncos uma canoa e entregou seu banjo a Simeão. Foi dissolver-se na revolta do oceano em sua canoa ataúde e em suas águas eleitas em chuva.

Simeão, atordoado com tanta desgraça, e com a ida desafortunada de Manoel Cipriano, decidiu entregar o banjo doado a ele a um luthier chamado Torquato.
De início, Torquato não vira muita coisa no banjo. Mesmo assim, não o ignorou por completo. Até que percebesse nele, em suas cravelhas, hieróglifos talhados.
Torquato pediu que Simeão me chamasse para decifrá-los.
Tratava-se de um fragmento de uma das lendas de criação da ilha. Que dizia do despertar do Uno quando dois anjos caídos lhe trouxeram uma harpa. O Uno tocou-a e o Criador desceu numa fenda do firmamento e o recomendou, passo a passo, o que deveria fazer para fundar e povoar uma ilha, o Uno assim o fez.
Torquato abismara-se a ouvir esta história que desconhecia. Com muito interesse por ela, passou a fabricar uma série de banjos com as mesmas inscrições. Intitulou esta série de Banjos Cipriano.
O luthier não viveu muito tempo, seus pulmões em tabaco não deixaram. Portanto não viu sua criação ser contrabandeada por fortunas. Um prejuízo enorme ao fisco real.
Os banjos Cipriano encontrados em nossa terra eram apreendidos, assim como fizeram com as terras cujo dono tinha o mesmo nome e, justamente por sua história se tornar quase uma lenda, valorizava tanto este objeto de discórdia.
A corte tinha muitos fiscais, quase todos corruptos, o que fazia com que os banjos rapidamente voltassem ao mercado. Coisa que Torquato nunca imaginaria.

Com o suicídio de Amantino, o imperador não tinha recursos para conter a horda, no meio dela, havia um desertor da guarda chamado Átila. Ele seguiu com os revoltosos para o sul. Para que seu comboio firmasse lá, suas bases de operação.
O imperador enviou um agente especial para subornar ou torturar os rebelados famintos.
As tropas sabiam então, que Átila rumara para o sul. Foram ao seu encalço com todas as guarnições para exterminar o bando.
Átila promovia saques aos burgos e fazia escravos seus reféns. Mas, numa ofensiva frustrada, foram pegos. A infantaria matou quase todos. Os sobreviventes se auto-degredaram. Muitos militares também morreram nesta campanha.
A partir daí, os presos viraram escravos da coroa.
Exceto Átila, que foi alvejado por flechas e pedras. Em seguida, seu corpo foi arrastado por sete cavalos durante o percurso de sete milhas.
O imperador se viu com um pouco mais de alívio. Certamente isso não o isentou da culpa de que, se Amantino fosse vivente, teria contornado a crise com menos sangue e maior impacto político.

Ezequiel Quintão era um habilidoso caçador de antílopes. Morava ao norte. Quando da minha visita às charnecas de lá, o conheci com um banjo Cipriano que ele encomendara de Torquato.
Quando o caçador se aproximou o saudei e entre a conversa estava a dizer que conheci Torquato. Ezequiel se mostrou muito receptivo. Quando lhe contei a história de Manoel Cipriano, convidou a entrar em sua morada e mostrou-me outro banjo que havia comprado no mercado negro, mais especificamente de um dos seguidores de Adelaide.
Para financiar seu levante.
Mas quintão não era confiável tanto assim, isso constatei quando ele me mostrava um terceiro banjo, contando que havia subornado um capitão para adquiri-lo.
Seu temperamento duvidoso ainda ia além, ele não sabia dedilhar uma nota sequer em seus instrumentos! O que Quintão fazia era confeccionar invólucros para os instrumentos com o couro de suas caças
Ofereceu-me um. Eu disse que era perigoso retornar com um banjo Cipriano, mas aceitei uma coberta de couro de antílope.
De mais a mais, nos dizemos mutuamente, diálogos desimportantes. E, para concluir, sou um homem sem saudades. Todavia lembrar-me-ei desta estada como algo que quisesse relevância.

Demétrio era um carrasco medonho, tinha a aparência de uma besta, uma fera do hades, o cão dos indigentes. Executava os traidores do império com gana e injustiça, assim era como todos o conheciam.
Sua fama amedrontou a todos por ele ter decapitado seu irmão gêmeo sob a acusação de tráfico de banjos Cipriano.
Seu pai, indignado, salpicou veneno no almoço do carrasco. Daí em diante, não tivemos ninguém a executar esta função.

Damasceno, o pescador, além do pescado, sabia também o dialeto dos invasores. Foi muito útil para Severino quando enviava informações ao seu brasão de onde rumariam os mercenários.
Tal habilidade e o sigilo com o qual tinha que exercê-la o renderam uma péssima reputação. Quando não era ignorado com o desprezo que merece a traição, era alvo de atentados de patrícios que não sabiam quem exatamente ele era. Seu sopro fazia soprar as ventanias para movimentar seu pendão para que fizesse tremer todo o inimigo.
Foi com esta bravura que desvencilhou das maledicências sem ostentar o tesouro de suas virtudes e honestidade de suas falhas.
Quase um torpor em seguir em frente, parecido com seu gesto diário de alçar as tarrafas ao mar e à sorte incerta dos peixes.
Mas, quais destas coisas fazem diferença na vida de hoje. Apesar, é claro, do sumiço dos cardumes.
Ter tido sapiência de pescador e de chefe de estado, ao mesmo tempo em que, até o mar sem vida hoje o castiga.
Que vida hoje tem este mar?
Avançando, recuando… Ensaiando uma praga que os verbos dos bárbaros conjugavam em seu conhecimento, como destituí-los de ação nesta inércia?
Na enseada. Numa pedra, fui ter com o Damasceno. Fui ter com ele quando sua fama de algoz tinha naufragado como tudo o mais aqui!
Por mais que, corriam estes boatos e não desse a eles atenção, por ser eu preocupado com meu modesto posto de burocrata. Via ele sempre pescando, em suas jangadas de própria confecção. E é assim que o vejo até esta atualidade, tentando fazer com que eu entenda que interrogações não são tão nobres quanto se pensava.

Simeão e o Damasceno conversavam a beira do cais. Nunca me esquecerei deste dia! Catarina se atarefava no cozer das massas de trigo escassas. Detinha em meu peito um temor, aquele presságio coagulado na garganta. Não pude me conter nas paredes de minha casa. Fui ao encontro deles. Fui ao encontro do cais.
Sabia-se que militares queriam por fim a aquela querela sem rumo. A palavra genocídio ou a expressão crimes de guerra, não eram pronunciadas pelo povo humilde.
Mas todos eram a boca pequena nas esquinas.
Poucos eram da opinião de que, por mais que fosse importante um poder mais organizado, este não se faria sem hecatombe e por isso, seria inaceitável.
Chegando ao porto me disseram que Cleto, o imperador, tinha sido deposto. E que seu destino foi ter encontrado asilo em um monastério.
Fazia tempo que meus amigos seletos tinham a sincera menção de não mais se surpreenderem com quaisquer das coisas, estas ou outras.
O mar estava sereno.

Estou cansado Catarina. Minhas ideias se oprimiram com cavalos de trote elegante e a opulência do porte pomposo das lanças desta revolução. Estou cansado e deram-me este titulo. Alcunharam desta importância de dentro destas imponentes fortalezas que ergueram de cima de nossa servidão. De não ter outra opção senão chorar o nosso sangue.
Estou velho Catarina, e agora querem que os acompanhe em mais uma expedição. Catarina, um general me encomendou que eu escrevesse uma epopeia… Oh Homero!
Não tiveste náusea a narrar tanto mar e tanta morte? O que farei Catarina?
Teu filho irá com eles. Eu não irei. Antes de partir, faço questão de ouvir sua sentença em condenação. Sei que não importa com o título que perderei. Afinal, te perderei também e o que me vale o titulo de Senhor de Rosários. Aguardo pacientemente a sentença com a pena que hei de cumprir. Hei de cumprir seu juízo Catarina!

Ananias partiu na terceira nau. Entre os marinheiros daquela embarcação, estava o general Agildo Apolinário, que havia me proposto o texto dos feitos grandiosos desta jornada.
Na primeira caravela, foi o general Leôncio Borges, um excelente cartógrafo que descobrira, a noroeste, terras a desbravar.
Por fim, no ultimo navio, embarcou o marechal Benedito para sua batalha inglória.
Já eu, abriguei-me na tenda de um curandeiro, o qual me instigou a maneira que interpretava os fatos. Quis duvidar, mas, terminei por findar minhas hesitações. Passei a apenas concordar com aquela sabedoria exótica.
Recomendou seguir ao leste (onde estaria seguro) para estar seguro do meu próprio espírito.
Não soube de Ananias ou Catarina. O tempo tratou de roer meus sapatos e minhas dúvidas. Concluindo que não haveria solução em ter respostas. Decidi regressar, sem qualquer medo que me viesse acontecer. Estava pronto para a possibilidade de apedrejamento.

Os generais não voltaram de empreitada desmedida. Ananias também não voltou. Não tive coragem de rever Catarina. Acho que tive decência em não revê-la. E o temor do apedrejamento não se consumou. Apenas minha vergonha me consumia.
Em uma ilha à deriva, sem governo, queria descansar, não posso, não consigo.
Queria enfim, apenas acatar o que era do senso comum.
Chegava-se, a saber, que a paz é um estar que não precisa do estado, porém, não precisei dele e não tenho paz. E é esse pretérito que me assombra o remorso nas narinas como éter.
No mais fui bem recebido após o exílio. O povo que restou, de maneira resignada, aceitou meu gesto não como de covardia, mas, como renúncia.
Sobre minha alcunha, não me confere mais o argumento de explicitar minhas atribuições. Senhor de Rosários! Seus deveres, honrarias ou responsabilidades são encargos e privilégios que já não me dizem respeito.
Sou uma ficção que não desejo representar.
Quero apenas representar desejos mais simples, estes que cabem em devaneios breves e fortuitos.

Acácio e Ananias eram amigos, ambos oficiais do Barão das Demandas, agora devem jazer ao relento, ao final da batalha derradeira. Ou devem flutuar no imenso oceano. Em todo caso, falo de águas e sangue, pólvora e naufrágio. Falo de estarem à deriva, em sua última investida, suas últimas ofensivas. Estas lutas não têm destinatário.
Na casa de Acácio, encontramos um banjo, um Banjo Cipriano.

ÔNUS B

Percorrer imagem é trajeto de dentro
De fora da carne em seu estado cândido
Transfigurado pelo sol nos poros
Jorra uma bromélia ainda constituída em germe
Do chão anteparo de tanta angústia
Germinando a saudade que espera o orvalho
E na semente a carne gordurosa das esperanças
E o cerne das intolerâncias
Chãos verdes sempre estiveram a serviço da nostalgia
Cresce dor com itinerário de cessar
Qualquer coisa que fosse boa ou vã
Qualquer coisa que me lembre da broa com sumo de hortelã
No começo da estória dos meus logradouros
Um fio de ovos tece o cio dos dias
Eu sou alguma coisa que dourou o pensamento na refoga
E que me cozinhou um legume
Por toda a estória de pai mãe
Pai cuidava da canoa
Mãe garoava na gente
Rios e gotas de chuva habitam minha memória
E lembranças que só fazem de serem inventadas
O vestido vermelho de Patrícia
Era vermelho
Não importa de qual cor era

Josefa escala a noite em suas bodas de música tonal

Naquelas noites de janeiro me veio Aníbal me preencher os vazios, os mesmos de Alana e Asdrúbal em seu leito que se tornara eterno aos meus cuidados.
Havíamos recebido a notícia da morte do tio Adamastor através de tio Antônio, que nos contou que não sobrevivera do acidente num ônibus que saía de Tamanduá para Bem Posta em estrada chuvosa.
Aquelas coisas acontecidas ao finado tio eram por mim narradas ao Aníbal que tinha uma sensibilidade de urso hibernando.
Não bastasse ter descoberto Altamiro, veio-me Aníbal, semanas depois, com uma novela, um folhetim que escrevera sobre meu tio.
Realmente um comovedor relato!
Altamiro e Aníbal verdadeiramente preenchem o vazio dos orifícios do espírito neste ofício vagabundo da alma. Arte fatos de lacunas nas quais começo a me formar por gases e fluidos espessos e obscenos. Estes poetas em meu corpo, apenas mais ou menos.

Desventurança

Adamastor iniciava a leitura como fazia religiosamente naquelas manhãs entre mofos (internos e externos). A diferença, desta vez, era que ele não havia acordado bem e, na dúvida, se era ou não uma passageira dor de cabeça… Quando se lembrou de uma das últimas vezes em que tinha escrito. Naquela ocasião era de madrugada e ele escrevia compulsivamente, sem se lembrar de que o chuveiro estava estragado. Ao final de todo êxtase, Adamastor então se regozijou tomando um lento, frio e prazeroso banho.
Tentando recapturar aquele momento, pôs-se a escrever fechando assim a velha e amarelada edição da antologia de Jorge Luis Borges. Pôs-se a falar de Borges, de maneira confusa, mas com a salvaguarda de que Belmiro havia consertado o chuveiro.
Esse tempo cósmico, o inútil instrumento para medi-lo, esse tempo místico e o irrevogável rio da memória e das agonias, essa agonia apenas temporal. Algum bronze, uma peça de bronze, talvez o centro desse universo, irradiando e sofrendo toda a pressão, todo o calor. E, no maior dos paradoxos, nesse bronze não havia tempo, ali repousando todos os tempos de todas as agonias. Irradiando dali alguma força oculta em círculos infinitamente concêntricos, como disse Einstein. De um centro partia uma espiral infinita como Drummond descreveu o Bolero de Ravel. Isso tudo num bronze central com sua carne suja (ou ferro, que nome tenha essa matéria-tempo, suja ou não), como disse Ferreira Gullar em uma de suas mais belas “sujeiras”. E todas essas agonias rumando em sua finitude para qualquer outra coisa mais misteriosa. Já não estou mais em círculos, agora são retas paralelas, agora são retas paralelas e transversais. Num dualismo, formam um tabuleiro de xadrez de cujo centro emerge um minotauro, o minotauro que eu nunca vou encontrar, nem em mim, nem em Borges.
Ah! Como eu preciso de uma mulher para parar de escrever essas porcarias.
A mulher para Adamastor era uma divindade. Uma divindade que ele sublimara que ele colocara no seu altar pagão, onde ele oferecia sacrifícios e comungava com todas as mulheres que ele teve em suas masturbações.
Belmiro batia à porta e iria assim salvá-lo de toda aquela prolixidade e daquela dor de cabeça. Belmiro era agregado de uma fazenda vizinha àquela casinhola em que Adamastor morava e ali havia se trancado há uma semana (não era à toa que todos o achavam louco).
Belmiro lhe tinha uma afeição atípica, pelo fato de terem-lhe dado o nome de uma tia de Adamastor, Belmira, que tinha lecionado para seu pai. Ele quis se aproximar de Adamastor depois que soubera que a velha estava esclerosada.
Chamado por Belmiro para tirar leite da vaca, Adamastor fechou sua casa e saíram pela única rua do povoado de Bem-posta. Desgarrava-se de algo doentio que havia naquelas paredes que o acompanharam durante mais de uma semana. E, quando bebeu o leite, sentiu que não tinha muito com o que se preocupar. Aquele fim de mundo estava definitivamente fora de qualquer labirinto de Jorge Luis Borges.
Na semana seguinte, mais propriamente no ônibus das dezesseis horas, chegou para Adamastor uma correspondência. Obviamente, não seria de ninguém da família. Era uma carta da Caixa Econômica Federal. Que diabos a Caixa quer comigo? Já lhes mandei tantos requerimentos… Não deu outra, era o seu Fundo de Garantia que havia sido liberado. Adamastor poderia retirá-lo em São Martinho das Penas Largas, a quarenta quilômetros dali. Decidiu, então, pegar o primeiro ônibus do próximo dia.
Nos entremeios, Adamastor não quis nem folhear seus poucos e velhos livros. Não quis nem tomar um de seus muitos calmantes vencidos há mais de seis meses. Concluiu que, até lá, o radinho de pilha seria sua companhia. Este se mostrou mais estimulante que cafeína.
Precisando de alguns documentos para o dia seguinte, Adamastor pôs-se a procurá-los. Não foi tão difícil. Em pouco mais de uma hora, ele reunira toda a papelada. Mas não se dando por satisfeito, empreendeu uma longa faxina pelas estantes, gavetas, enfim, por toda a casa. Um negócio que se estendia pela madrugada.
Lá pelas tantas, numa das gavetas, achou um walkman com fone de ouvido e tudo, ainda na sua embalagem original. Que porra é essa? Nem me lembrava desse troço! Ao pegar a embalagem (muito provavelmente para jogar no lixo), outra surpresa: embaixo dela tinha uma pequena coleção de fitas K7. Deixe me ver: Space Oddity, Surrealisric Pillow, Metal Machin… minha periquita! Eu ainda tenho essa obra-prima! Referia-se ao disco “Metal Machine Music”, de Lou Reed. De fato, uma pequena obra-prima.
A manhã chegou e Adamastor entrou no ônibus. Logo foi ligando seu antigo walkman, perdendo sua virgindade com o Metal Machine Music, que realmente estuprava seu aparelho.
O ônibus saiu então de Bem-posta para São Martinho das Penas Largas. Ainda bem que em Bem-posta não tem banco, se tivesse não estaria eu agora ouvindo esse som, esse som de vanguarda, Muito Seminal. Seminal é a palavra. Soturno, muito soturno também. Que bom! Que bom mesmo que estou com este fone de ouvido e tenho desculpas para ficar em silêncio e ser tão indiferente com essas pessoas. Do mesmo jeito que elas são comigo. Além disso, ninguém sabe, mas estou ouvindo essa doidera plena que se chamada Metal Machine Music.
E, nesses devaneios, viajou Adamastor até que o ônibus chegasse ao seu destino. No banco, cumpriu todos os protocolos (que lhe custaram o resto da manhã). Enfim, recebeu o dinheiro.
Adamastor odiava São Martinho. De fato, é uma das mais importantes cidades do estado. Mas, realmente, aquilo era tudo muito feio, sem alma. Prédios sujos, malcuidados, velhos (e os novos eram de extremo mau gosto). Cidade sem espaços horizontais, mesmo sendo plana. Triste, muito triste. Como se não bastasse, ali não ventava.
Tomado por toda aquela atmosfera claustrofóbica, Adamastor, de súbito, resolveu ir até alguma concessionária de carros. Achando a loja, como tudo nele fosse apressado, em vinte minutos fechou negócio. Comprou então uma caminhonete Toyota 78. Também, o que o seu dinheiro podia comprar era mais ou menos isso mesmo.
Ao dar a partida, para sair daquele lugar que ele detestava, reparou que a máquina não tinha toca-fitas. E, ali mesmo, tirou o fone de ouvido de seu walkman e o fixou no painel do carro com Durepox. Que beleza de gambiarra! _ disse.
Mais rangendo do que rodando, a Toyota enfim chegou a Bem-posta. Aquela aquisição era mero capricho. Só serviria para fazer, todo mês, a feira do supermercado, a dezoito quilômetros dali.

No domingo, Adamastor resolveu pegar sua Toyota 78 e se aventurar nas terras da fazenda do vizinho Pinheiro, um homem tinhoso, sovina e, quando queria, maldoso. Pinheiro era viúvo e não tinha filhos. Colocava toda sua confiança em Belmiro, seu agregado.
Sua fazenda tinha milho, café, um alambique e alguns cavalos, além de um pomar. Adamastor pretendia retribuir a visita que Belmiro lhe tinha feito.
Adamastor contornava o canteiro da única praça de Bem-posta, que tinha, além de um coreto inacabado, uma igreja ao fundo. Ao final da volta, já atrás da igreja, ganhava as terras de Pinheiro.
A praça tinha canteiros bem arrumados e podados, os cercados eram todos penteados de cal, as casinholas e os botecos estavam bem pintados. Toda casa tinha um alpendre e um jardim com roseiras e, atrás da igreja, também arrumadinha, era a “Pinheilândia”.
Pinheiro, deitado na rede com um cachimbo na boca, proseava com Belmiro, que estava sentado na escada da porta da frente da sede da fazenda e que, logo se levantou, quando avistou a Toyota _ É Adamastor! Pinheiro nem se moveu enquanto Adamastor saía da caminhonete. Não gostava dele e logo praguejou:
_ Vejo que tem agora um jeito de ganhar a vida, Adamastor!
_ Boa tarde, seu Pinheiro.
_ Você entregando pinga e pamonha minha, em Godofredo Pereira, lhe pago bem.
_ Tem festa do Divino lá esses dias…
_ É…
_ Belmiro, vamos apanhar umas mexericas…
_ Agora, Damastor!
No caminho até o pomar, Adamastor começou a pensar na sua amizade com Belmiro. Logo desistiu de pensar e perguntou:
_ Belmiro, você gosta de maçã?
_ Gosto, mas não temos maçã aqui.
_ Não, por que… Veja bem, Deus criou o mundo e fez dele um paraíso. Depois Deus criou Adão e Eva e proibiu os dois de comer maçã, certo?
_ Certo…
_ Aí, Deus permitiu que o mal se instalasse na Terra. Em contrapartida, nos deu o livre-arbítrio, certo?
_ Isso…
_ Mas depois ele diz que todos nós temos que pagar a ele todos os nossos pecados. Conclusão: Deus é um filho de uma égua!
_ Deus é o amedronto do mundo, Damastor!
_ É, Belmiro…
_ Olha essa aqui, ó, madurinha!…
_ Belmiro, minha tia Belmira faleceu.
_ Não me diga uma coisa dessas, Damastor!
Adamastor foi interrompido quando olhou à sua direita e avistou uma égua em trabalho de parto, agonizando naquele cerrado feio longe do pomar.
Para Adamastor, que nunca tinha visto isso… Ele tinha um problema: seus meios e entremeios não tinham mais fim, nem mesmo finalidade, em suma, não se justificavam. Estou falando aqui de um Maquiavel errante! Para Adamastor, em seus meios e seus finais, há muito tempo em sua vida nada tinha um começo; mas ali, em sua frente, alguma coisa ganhava existência, alguma coisa ali começava.
_ Um verdadeiro filho de uma égua, Belmiro!
_ Filha, Damastor, uma potrinha, Belmirinha.
_ Não, Belmirinha, não. Belminha!

Voltavam os dois do pomar já avistando Pinheiro ainda na rede. Adamastor, de maneira imprevisível, disse a ele:
_ Te entrego a pinga e a pamonha na festa do Divino.
_ Tem que ser amanhã.
_ Pois não.
_ Quanto quer pela empreitada?
_ Quero a égua que acabou de nascer.
_ Égua? Qual?
_ A que nasceu da “Oeste de Minas”, patrão _ disse Belmiro.
_ É sua, quando desmamar.
_ Vamos então encher a carroceria, Belmiro?
_ Isso, cuida disso.
_ Certo.
No outro dia, Adamastor, com a carroceria cheia de galões de cachaça e caixas e mais caixas de pamonha, partiu com sua Toyota até Godofredo Pereira, a uma distância de cinquenta quilômetros dali.
Chegando ao destino, demorou precisamente duas horas entregando as encomendas, pois um estabelecimento era muito espaçado do outro. O lugar tinha mais pasto que gente.
Já ao entardecer, Adamastor se lembrou de que havia recebido sua pensão do INSS naquele dia e viu um boteco com um pátio largo, o qual morenas enfeitavam com bandeirolas para o evento. Já com a carroceria vazia, Adamastor decidiu entrar. Uma cachaça, por favor! E assim começava a noite. Adamastor, enquanto bebia, olhava aquelas morenas com vestidos muito vistosos trabalhando. Uma caneta e um pedaço de papel, vocês têm? E já embriagado escrevia os versos de sua preferência:

“Posso escrever os versos mais tristes essa noite.
Eu a amei e às vezes ela também me amou
Em noites como esta eu a tive entre meus braços
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito
Ela me amou e às vezes eu também a amava
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos
Posso escrever os versos mais tristes essa noite
Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi
Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela
e o verso cai na alma como no pasto o orvalho…”

É hora de ir embora. A conta, por favor!
Adamastor voltou a Bem-posta, Deus sabe como! Derrapou, deslizou… Só não capotou. Decidiu se enfurnar em casa até que Belminha desmamasse. Com certeza, um baralho ou um fumo de rolo o manteria mais ou menos no prumo.
Quanto aos versos lembrados em Godofredo Pereira, a que se referiam? Quem? Qual mulher seria essa? Ainda haveremos de saber…
Nesses dias todos em que esperei pela desmama de Belminha, não me dei conta de nada a um raio de dois metros do palmo do meu nariz. Tinha ao lado de minha cama fumo e palha suficientes, um rádio de pilha que só me falava asneiras e o exemplar de um livro que leio esporadicamente: a Bíblia. (Não por ser religioso, mas por entender que há nela um grande conteúdo social, humano e psicológico). Detive-me no livro de Eclesiastes.
Realmente, não há nada de novo sob o sol, portanto, comei, bebei e alegrai-vos no trabalho. Como já me aposentei, embora previamente, mas já me aposentei, posso dizer: comei, bebei e engordai como porcos!
Sobre aquela sequência… tempo disso, tempo daquilo… O que posso dizer é: todo o tempo é tempo de tudo. Principalmente debaixo do sol, pois os filhos de Adão criaram sua própria lei… É hora de ir, tempo de esperar Belminha, tempo de buscar Belminha.
Adamastor seguiu até a fazenda de Pinheiro e lá o esperavam Belmiro e Belminha, já com o arreio. Pinheiro, como sempre, assistia a tudo de sua rede e pestanejava:
_ Quer dizer então que a potranca leva o nome de sua tia, Adamastor?
_ Isso, seu Pinheiro…
_ E o senhor vai cuidar dela como filha? Já que nunca se casou…
_ Bom, se o senhor me achar mesmo um cavalo…
Belmiro deu risada seca e Pinheiro tossiu um pigarro, engasgando com o cachimbo. Recuperou-se dizendo:
_ Bem, cada louco com sua loucura. Cada macaco no seu galho, não é mesmo?
_ E o senhor na sua rede. Vamos colocar a potranca na carroceria, Belmiro?
_ Vamos, Damastor!
As primeiras palavras de Pinheiro soaram como uma maldição. Mesmo havendo mato que Adamastor deixara crescer justamente para Belminha pastar e, havendo, além disso, grama com fartura no canteiro da praça em frente a sua casa, Belminha não se habituou ao novo lar. E não é que o povo caçoava dela e de Adamastor do mesmo jeito que Pinheiro caçoou? O coitado já era alvo da língua do povo do lugar, agora então… Diziam que Belminha era “a filha que Adamastor nunca teve e que levava o nome de sua falecida tia”.
Adamastor gastou o resto de suas economias levando Belminha na carroceria da Toyota 78 até São Martinho das Penas Largas. Deixou-a num haras por algum tempo. Parece que a portinha sentiu.
Nosso herói via-se tendo que se enfurnar de novo. Hibernava ao lado de uma garrafa de conhaque praticamente se escondendo da maldade alheia.

Deu-se, na festa do padroeiro, uma verdadeira romaria de onde veio gente de todos os “patrimônios”, como são chamadas as comunidades rurais usualmente. Apesar disso, todos se conheciam como em qualquer festividade da igreja. Só não conheciam bem Adamastor que, naquelas ocasiões, fazia questão de fechar a porta e a janela da frente. E, se era incomum fazê-lo até à noite, que dirá em pleno dia e em plena festa significativa do calendário sem muitas novidades de Bem-posta?
Porém, eis que surge um andarilho que ninguém nunca tinha visto antes por aquelas bandas. A figura tinha um cabelo crespo e grisalho até os ombros, uma barba volumosa e um pouco esbranquiçada, principalmente no bigode, e tinha uma considerável barriga. Andava maltrapilho com calça e agasalho puídos, uma bolsa onde guardava um caderno com anotações pessoais, uma sandália de couro surrada e calos nos pés. Porém suas mãos não evidenciavam nenhum trabalho braçal. Trazia consigo um vira-lata, carinhosamente chamado de Allan Kardec. Allan Kardec era amarrado por uma corda gasta ao pescoço (onde não mais lhe cresciam pelos) e, assim, o andarilho o orientava.
Casemiro das Léguas era seu nome. Ele gostava de contar a história de que era músico e tocava o Bolero de Ravel de ouvido, mas logo se esquivava quando alguma criança lhe trazia uma flauta doce. Mesmo com todas as limitações de vocabulário, gostava de filosofar pelos botecos e bancos da praça e dormia no coreto inacabado. Gostava de dizer que “vivia da misericórdia de Deus”. Alguns lhe proviam alimentos. Outros bebida. Mas a coisa começou a piorar quando o maldoso Pinheiro espalhou o boato de que o andarilho era leproso. O povo de Bem-posta começou a reparar nas feridas em sua pele.
Casemiro das Léguas aceitou com resignação a negligência das pessoas. Até que, Adamastor, como enfermeiro aposentado, foi assuntá-lo, descobrindo que o homem não tinha lepra, eram apenas “escaras de decúbito”, feridas, no popular.
_ O senhor precisa se lavar, seu Casemiro.
_ Mas onde?
_ Eu lhe empresto o banheiro por esta noite.
_ Oh… Que Nosso Senhor lhe dê toda bem-aventurança…

Adamastor não se segurava em ansiedade e curiosidade para saber de Casemiro, o homem das léguas, o que ele teria a lhe falar. O que este homem pensa de Deus? E da humanidade? Preciso saber! Mas por que cargas d’água preciso saber? Casemiro das Léguas já tomara seu banho, agora estava no canteiro dos fundos dando comida para Allan Kardec. Logo depois chegou à sala, onde Adamastor o aguardava:
_ O que o senhor pensa de uma humanidade sem Deus, Casemiro?
_ Impossível de pensar, senhor. O que eu penso é que, neste século, duas linhas paralelas que caminhavam em direção ao progresso do ser humano…
_ Mas…
_ A linha da moral e da ética e a linha do conhecimento. Esta última destoou da primeira.
_ Apego material, científico, tecnológico?
_ Os cientistas acham que a matéria só tem três estados: sólido, líquido e gasoso. Mas há outro, o estado fluídico, intermediando matéria e espírito. Em nós, este estado fluídico, dá um nó, juntando nossa alma ao corpo quando dormimos. Através de um estado de semiconsciência e de uma respiração desacelerada (onde não se inspiram tantas energias negativas), esses nós se afrouxam. Também quando envelhecemos, os nós se afrouxam.
_ E o que o senhor me diria sobre as paixões humanas?
_ São o apego, o aperto desses nós fluídicos.
_ E as ideologias?
_ Só a do amor tem fundamento, nenhuma outra.
_ O senhor participou com entusiasmo da festa do padroeiro e agora me diz estas coisas! É espírita ou católico?
_ Há em mim um sincretismo, senhor…, senhor…
_ Adamastor.
_ Isso, Adamastor! Quero que você me acompanhe até a praça.
_ Pois não.
Já era noite, algumas senhoras rezavam novenas em frente à igreja fechada. Alguns senhores acendiam uma fogueira. Um deles tocava viola. Mas tudo isso parou quando Casemiro das Léguas bradava. Adamastor já não sabia o que fazer. Casemiro, então, falava.
_ Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! Palavras do profeta Casemiro das Léguas:
“Deus abençoe este homem que vês.
Deu de comer ao enviado do Senhor, que tinha fome.
Deu de comer das suas hortaliças.
Senhor,
Abençoe esta horta,
Que ela alimente toda a prole deste homem digno.
Digna é a sua descendência
Que comerá das hortaliças
E dali proverá o seu sustento.
Muito obrigado!”

_ Olha a cachaça!
_ Vagabundo, herege, profano!
_ Toca o bolero de Ravel!

Passaram-se dois meses nessa nossa história e já era tempo de Adamastor buscar Belminha novamente. E assim o fizera logo cedo. Ela devia estar mais de uma arroba mais gorda.
Pinheiro já havia assuntado com Belmiro que, naquele dia mesmo, Adamastor voltaria com a égua. Talvez por mera coincidência (ou não), Pinheiro resolveu ir até a praça, coisa que raramente fazia. E ali estava ele com uns três ou quatro moribundos a lamber sua bunda, jogando prosa fora, quando surge da estrada de São Martinho uma Toyota capengando. Parecendo ensaiado, Pinheiro e os vagabundos a cercam festivamente.
_ Salve o bem-aventurado Adamastor e sua égua abençoada, que se alimentará da horta, da fonte da vida!
_ Salve!
Casemiro levantou-se de onde estava e partiu para questioná-los:
_ Nem sabia eu da existência desse animal e já estais a dizer que eu o abençoara. Eu vos digo que não, senhores, e vos digo mais. Não vejo mal algum nisso. Abençoo, de fato, esta égua.
Enquanto isso, o coro dizia:
_ Salve Casemiro das Léguas!
_ Salve Casemiro das Éguas!
Foi quando se ouviu um tiro, possivelmente de um dos vagabundos da corja de Pinheiro. O tiro acertou Allan Kardec em cheio. O atirador fugiu enquanto Casemiro (agora “das Éguas”) corria em direção ao cachorro já morto numa poça de sangue.
_ Meu tempo nessa sinagoga cessou! _ dizia Casemiro das Éguas aos quatro ventos enquanto a pequena multidão se dispersava e Adamastor se aproximava:
_ Meu bom Adamastor, leve-me em seu automóvel. É só me deixar a uns trinta quilômetros daqui, depois ruminarei estes acontecimentos em minhas solitárias andanças.
Enquanto isso, chegava Belmiro:
_ O que aconteceu aqui? Como está Belminha? Oh, Allan Kardec…
_ Casemiro das Éguas me pediu que eu o levasse de carro daqui, Belmiro. Estou muito nervoso. Você faria isso por nós?
_ Claro.
_ Aqui estão as chaves.
Alguns curiosos assistiam à despedida de Casemiro das Éguas. E Adamastor, muito nervoso, ligava o rádio no último talo. Estavam tocando o bolero de Ravel. E, com esta trilha sonora, o povo assistiu à partida de Casemiro das Éguas.
Alguns metros à frente, a Toyota capotou e vitimou o homem das éguas, que quebrou o pescoço. Da Toyota não sobrou nada. Adamastor nem seguro tinha. Mas Belmiro, milagrosamente, sobreviveu.
Enterraram Casemiro no cemitério local e Adamastor pediu ao coveiro que, depois da cerimônia, abrisse a cova e enterrasse também Allan Kardec.
Uma espécie de sebastianismo tomou conta do povo de Bem-posta. Expresso-me melhor, dizendo: uma espécie de casemirismo tomou conta do lugar. Alguns diziam que um dia ele voltaria, outros diziam que ele tinha virado santo.
Em razão disso, até terminaram a obra do coreto da praça, onde Casemiro das Éguas dormia. Havia ali agora uma praça com o “Coreto Casemiro das Léguas”. Casemiro tornava-se uma lenda.

O velho Pinheiro estava sozinho em sua fazenda, pois Belmiro teve que ficar em observação numa enfermaria em Penas Largas por uma semana. Pinheiro resolveu se aventurar por suas terras naqueles dias. Que falta me faz aquela peste do Belmiro! Tiro leite da vaca, guardo os garrotes, faço pamonha, que vida triste essa minha!
Num dia, Pinheiro decidiu ir até o pomar para apanhar algumas bananas, quando foi surpreendido por uma cascavel, que estava de tocaia. Ali estirou sem ninguém por perto para socorrê-lo. Ali mesmo definhou.
Adamastor já montava em Belminha, que já estava forte o suficiente para isso. E, todas as tardes, atravessavam a praça. Abria o portão do cemitério e, ainda montando em Belminha, que subia os degraus do portão, velava o túmulo de Casemiro das Éguas e Allan Kardec. Fazia isto todo dia e demorava uma meia hora. O povo de Bem-posta começava a respeitá-lo, pois uma dor muito forte o invadia e percebiam isso.
_ Como vai, Damastor?
_ Belmiro?
_ Está melhor?
_ Um pouco, mais ou menos.
_ Pois é, perdemos Casemiro…
_ É…
_ Mas vejo que está melhor. Não fosse a morte de Pinheiro…
_ Não é possível…
_ O achei estirado no pomar, inchado e roxo, com uma penca de banana ao lado. As formigas tomaram conta das bananas e, as moscas varejeiras, do Pinheiro… Falei com ele que me esperasse que eu demoraria pouco, que não ficasse na lida…
_ Ele achava que era eterno… Deu no que deu.
_ O velório ainda está acontecendo.
_ E por que não ficou lá?
_ Lá tinha uns quatro ou cinco… Não aguentei a prosa deles.
_ Imagino.
_ Vamos sair daqui, Adamastor, logo-logo o enterro chega.
Belmiro e Adamastor, já puxando Belminha pelo arreio, atravessaram de novo a praça, quando o cortejo passou por onde eles estavam.
_ É dono de fazenda agora, senhor Belmiro!
_ Senhor, não, Damastor, senhor, não!
_ Mas se você agora é dono da fazenda…
_ Bem, acho que sou, né?! _ disse Belmiro rindo, mas logo se conteve, olhando a procissão que entrava no cemitério:
_ É triste a vida. E a morte, então… Não é, Damastor?
_ É…
_ Mas, vamos falar de coisa boa, agora que sou dono de fazenda. Que presente você quer para você e Belminha?
_ Imagina, Belmiro!… Uma coisa dessas…
_ Faço questão…
_ Olha que…
_ Faço questão…
_ Tá bom, Belmiro, tá bom. Dê-me, então, um radioamador. Por uns trezentos contos você acha um em São Martinho.
_ Radioamador? Pensei em te dar uma caminhonete, o que eu te fiz perder.
_ Nem pense nisso, Belmiro, onde já se viu uma coisa dessas? Vamos lá em casa. Vou coar café.
_ Não posso Damastor. A vida continua. A lida, também. Mas está feito o negócio do radioamador. Até mais.
_ Até mais.

Belmiro batia à porta de Adamastor com a encomenda embrulhada na mão. Ele tinha aproveitado sua ida à São Martinho das Penas Largas para uma consulta ambulatorial de revisão, devido ao acidente que sofreu, e resolveu comprar o radioamador. Chegando à fazenda recebeu uma notícia desagradável. Por isso, decidiu procurar Adamastor.
_ Belmiro! Entre!
_ Estou trazendo uma encomenda.
_ Vamos ver… Vamos desembrulhar isso… É este mesmo, Belmiro. Muito grato. E a lida, como vai?
_ Damastor, saiu um papel no fórum, tal de inventário. Inventaram que as terras de Pinheiro são da prefeitura.
_ Meu Deus… Mas isso não foi “inventado”, Belmiro. Inventário é o nome que se dá ao documento que precisa ser lavrado quando o defunto não deixa testamento.
_ Pinheiro sempre me falava que deixaria tudo para mim em testamento… Mas, como você mesmo disse, ele achava que ia ser eterno…
_ E o que você vai fazer agora?
_ Estou me despedindo de você, Damastor. Estou voltando para a casa de minha mãe.
_ No Cafofo?
_ É.
_ E lá?
_ Eu pretendo criar porcos. Posso ir até a horta para me despedir de Belminha?
_ Belminha desapareceu.
_ Deve estar num desses matos. Quer que eu a procure?
_ Não precisa Belmiro. Qualquer dia desses, ela acha o caminho de volta.
_ Isto é.
_ Tenho que ir…
_ Pois que se cumpra o seu destino, Belmiro. Já são tantas as perdas…
_ É. Um dia desses, eu volto para lhe visitar.
Esse “um dia desses” para Adamastor teve um gosto de promessa que não será cumprida. Agora sim, Adamastor tinha fins justificáveis. É, e o que se há de fazer? Algo me proverá de inícios, algo me proverá. Por enquanto, tenho de cuidar de minha horta. Depois examinarei este aparelho que o pobre Belmiro me deu, talvez com seus últimos tostões do bolso…

Hoje começa o “Setenário das dores de Maria”. São sete as dores, cada uma celebrada a cada dia. Vai de hoje, que é domingo, até sábado. Sábado este que antecede o domingo de Ramos. Quer dizer, estamos a uma semana da Semana Santa.
A corporação “Nossa Senhora das Dores” (nome mais apropriado não há), banda de Tamanduá, irá tocar no coreto esta noite. O coreto “Casemiro das Léguas” será inaugurado de fato. Haverá uma missa campal na praça, que está toda enfeitada. Eu acho que vou a essa celebração. Acho, não. Eu vou à missa. Decidi agora começar a acreditar em Deus. Também não era para menos. Há uma canção católica muito bonita, a qual não sei cantar, nem sei a letra, tocada em velórios, enterros e afins. Mesmo assim, minha falecida mãe me ninava com ela. Uma música muito antiga. Só me lembro do primeiro verso, “Segura na mão de Deus e vai…” Lembro-me também que a melodia era muito bonita.
Só mesmo segurando a mão de Deus e indo… Meu Deus, não me reconheço dizendo estas coisas! E ainda comecei este último pensamento dizendo “meu Deus”. É instintivo.
O fato é que eu preciso de alguém, talvez um Deus, um Deus-mãe para me ninar. Primeiro foi Allan Kardec que desencarnou no coreto, o qual hoje leva o nome de seu dono, aquela dulcíssima criatura, Casemiro das Éguas, que morreu instantes depois. Até do Pinheiro sinto piedade. Como se isso não bastasse, o último e atualmente único amigo, Belmiro, saiu daqui com uma mão na frente e outra atrás. Nem sei se ele um dia voltará. E Belminha? Minha égua de estimação que sumiu. Meu Deus me dê pernas! Meu Deus, não estou me reconhecendo. É instintivo dizer estas coisas…
Oh! Nem dei por mim e a banda já toca “Cantando coisas de amor”. Hoje celebramos a primeira das sete dores de Maria. São marchas fúnebres, portanto? Acho que estou me lembrando dessa triste marcha. Sim! “A morte do Justo”, uma das mais belas marchas fúnebres que eu já ouvi. Estou, enfim, me reconhecendo.
Agora me lembro. A banda tocou essa marcha no enterro do meu pai. Foi de surpresa, o enterro já seguia entrando no cemitério, quando todos foram surpreendidos pela banda tocando essa marcha, “A morte do Justo”. Minha mãe sempre foi grata àqueles músicos desde aquele dia.
Mas isso faz tempo. Hoje os músicos devem ser outros. Não deve estar ali mais nenhum daquela época. Meu pai! Meu pai adorava música. Tinha um violino e tocava bem. Coitado! Teve que vendê-lo para que eu pudesse estudar num internato (naquela época havia internatos), para que eu me formasse. Agora cai uma lágrima em meu rosto, mas há de passar. Tudo isso há de passar. E eu ainda nem saí de casa, eu ainda nem senti o cheiro dos arranjos de flores que estão na praça! Meu Deus, onde estão todos? Já se foram e eu nem notei, por que penso tanto?
Agora se encontram na praça somente alguns músicos, guardando os instrumentos. Mas um ônibus os aguarda. Engraçado como todos já se foram! Cada um agora em sua casa. Como Chico Buarque de Holanda estava certo! Deixe-me fechar agora estas janelas e vamos testar o radioamador.
Vamos ver: canal nove, normalmente usado pelos caminhoneiros. Vamos ver…
_ Alguém na linha, câmbio… Alguém na linha, câmbio?
_ Alô… Alô, câmbio.
_ Temos alguém na linha. Module câmbio.
_ Aqui é Rosa, falando da estrada, no estado do Rio de Janeiro, câmbio.
_ Ora essa! Uma senhorita, câmbio.
_ Senhorita, não. Já estou chegando aos quarenta, câmbio.
_ Quantos anos tem a senhora, então? Câmbio.
_ Que indiscreto o senhor, module, tenho trinta e oito. Câmbio.
_ Desculpe-me a indiscrição. É que eu tento ser gentil com as mulheres como nos versos de Neruda, mas não consigo. Câmbio.
_ Vejo que tem bom gosto na literatura. Câmbio.
_ E a senhora para onde está indo? Câmbio.
_ Para Visconde de Mauá. Sobre o mau tato com as mulheres, recomendo-lhe Chico Buarque. Câmbio.
_ Ah, sim. Mas e a paixão pelo rádio, de onde vem? Câmbio.
_ Meu ex-marido, foi ele quem me ensinou. Ele também gostava de Neruda. Câmbio.
_ Engraçado! Minha ex-mulher também me recomendava o senhor Chico Buarque de Holanda. Câmbio.
_ De onde fala o senhor? Câmbio.
_ De São Martinho das Penas Largas, câmbio.
_ E qual é o seu nome? Câmbio.
_ É.. Cláudio… Meu nome é Cláudio… Câmbio. A senhora está chorando…
_ Desculpe-me, Cláudio. É que há uns três anos tivemos um bebê. E você o deixou cair no chão, meu Ravi! Adamastor!
_ Rosa, por fav.. Rosa, não desligue… Rosa, me perdoe. Eu te amo! Rosa! Rosa!
Adamastor, com toda a fúria, quebrou o aparelho. Procurou os livros na estante, jogou todos no chão. Depois, queimou-os todos, lentamente. E lentamente fumou todo o seu fumo e bebeu todo o seu café. Depois, a fúria voltou e Adamastor quebrou a casa inteira. Tentou se acalmar, tomando todos os seus calmantes vencidos. Não vendo efeito, de súbito bebeu o resto de sua cachaça e o resto de seu conhaque. Depois queimou seu baralho (lembrança de Rosa) e viu que só sobrava intacto o rádio de pilha. No ímpeto, tentou jogá-lo contra a parede e depois surpreendentemente ligou o rádio que, mais surpreendentemente ainda, tocava o bolero de Ravel.
Começou a chover e Adamastor berrava: Ravi! Meu pequeno Ravi! Aí se lembrou das palavras de Casemiro das Éguas: “Deus abençoe este homem que vês, abençoe esta horta, que ela alimente toda sua prole, digna é sua descendência”. Aquelas palavras martelavam na sua cabeça e, de repente, lembrando-se da horta, abriu a porta dos fundos e lá estava Belminha, pastando tranquila em meio à tempestade.
Adamastor não pensou duas vezes. Montou em Belminha. Saindo pelos fundos, enveredou-se pela brenha naquele breu, naquela tempestade, naquela noite deixando tudo ali, aberto e destruído. E foi-se embora.

Ouro Branco, 29 de janeiro de 1980.

Senhor Araújo Mendonça,

Sou uma leitora assídua de seus artigos na revista União. Primeiro eu gostaria de parabeniza-lo e por extenso toda a sua equipe de trabalho que vem heroicamente trazendo-nos reflexões tão pertinentes e digamos perigosas (infelizmente) para a nossa sociedade. Admito que, de minha parte, não concordo com todos os articulistas, pois acho que algumas batalhas estão definitivamente perdidas; o que não é, por exemplo, verificado com os editoriais que, sabemos da necessidade em concordar mesmo que por motivo de força maior. Mas asseguro-lhe que posso imaginar quais foram redigidos pelo senhor, talvez por questões de afinidades intelectuais.
O caso das recentes denúncias de maus tratos a pacientes psiquiátricos (amplamente e corajosamente) abordados no mês passado, por exemplo, me tocou profundamente.
Possua em casa uma irmã com transtornos psíquicos que saberá como se sente alguém ao ler a vasta reportagem que em minha opinião coloca todos os pingos nos is e saber que muito pouco será assimilado pela opinião geral, talvez nem quando estivermos em democracia!
Precisamos agradecer a sua sensibilidade com as questões que a loucura nos traz e fico pensando que é perfeitamente possível acontecer, inclusive, com quem está militando mais diretamente.
Aqui, na região de Ouro Branco, temos Juca Dendê: homem de bem, viúvo, dois enteados e um livre pensador. Amigo nosso. Que por estes e outros tantos motivos que agora começamos a ver escancaradamente, irônico quando os males precisam ser trazidos à tona assim tão explicitamente, escreveu-nos um pequeno artigo que também me serviu como reflexão para expandirmos o olhar para emancipar as liberdades individuais do ser não será feito senão em sua plenitude. E penso que emancipar alguém plenamente, bem no fim do século vinte, seria libertarmos inclusive nossas alienações e fantasias que nada trazem de mal para o mundo aceito e a coletividade. Penso inclusive que se tivermos uma nova vanguarda brasileira, com o que estão chamando de pós-moderno, teria que aceitar a “indecência” de sua própria insanidade mental.
Não farei mais preâmbulos adendos e circunlóquios, apenas me sentiria grata se o senhor lesse o que nos fez, desta vez, Juca Dendê.

Espero que goste. Mais uma vez parabéns por todas as virtudes do bom jornalismo!

“Esse amanhecer
mais noite que a noite.”

Estas são algumas das palavras iniciais de Carlos Drummond de Andrade em “o sentimento do mundo”.
Muitos versos proféticos encontramos ali. Porém, com a desventura de uma profecia anunciada em nosso próprio tempo. Sim! Somos testemunhas de o tempo não ter mais tempo de sê-lo e ainda assim, sê-lo multiplicado, multifacetado.

Temos na cabeça a tristeza do tão recentemente perigoso século vinte que amanhece e rebenta na sombra do crepúsculo dos deuses, louvando iconografias e registrando barbáries.
A vida futura que terminamos de criar é precocemente antiga bem como uma paixão triste. Algo como: “os beijos não são importantes, no teu tempo nem haverá beijos”

É este o mundo sentido, que acorda no escuro e se entristece como uma criança doente, o mundo onde noite é noite e manhã é falta de chão, falta de ar. Estas fortunas deliciosas do ocidente: um grande medo capaz de abater teus vizinhos.

Fomos assim, quase que naturalmente, tentando organizar tudo, catalogando aracnídeos e cineastas, escritores e crustáceos. Fomos assim, seres prodigiosos do nosso tempo documentando guerras e pesquisando pestes, na medida em que também as fabricávamos.

“os perigos que Clara temia eram a gripe, o calor, os insetos.”

Mais lancinante que a perda da noção dos limites de tempo é a confusão que ainda faremos com real e abstrato. Não nos enganemos, não conseguiremos nos dar as mãos.

As cidades se tornaram um palco estranho para manifestações como fossem febre nas narinas da gente. Trafegando docemente para o caos das paredes onde se chocam e se comunicam. Arte.

As narrativas clássicas foram abortadas em semáforo sinalização e silício, um labirinto de mitos e elementos químicos perigosos como a própria poesia. Enfim a cidade é algo hermeticamente fechado em seu próprio signo cada vez mais impossível de compartilhar.

Todas as leituras possíveis, apesar de assim serem, não se tornam tão lógicas, tampouco doutrinas conseguirão separar trigo de joio. E os fractais não explicarão a falta de simetria na visão do globo.

A cidade é um tempo de promiscuidade de sentidos, a vida é uma orgia obrigatória.

“os automóveis parecem voar.”

Precisamos nos sujar com esta experiência, pois há quem tenta se limpar e higienizar os espaços com consciências tardias.
Sim! O que não está nos autos não está no mundo!

Vejamos outras palavras de Michel Foucault:
“a percepção que o homem ocidental tem de seu tempo e de seu espaço deixa aparecer algum lugar de recusa, a partir da qual se denuncia uma fala como não sendo linguagem, um gesto como não sendo obra, uma figura como não tendo direito algum lugar na história”

Pois que temos uma ilusão que nosso tempo é mais pulsante que todos os outros, o que mais podemos aguardar do passado que nos parte ao meio, posto que nosso tempo, com efeito, não é assim tão radiante.
Lembremos então que matarmos a história não é um privilégio burguês tampouco um capricho, se fez necessário primeiramente.

A voz que protagoniza nosso fluxo seria mesmo um esforço subumano comparável talvez apenas ao da primeira besta fera que habitou o mundo, mas, não a última.
Faz-se a ilusão também de concluir ciclos. Perdoem-me os místicos, mas, a natureza sempre nos foi indiferente desde que, sempre para nós tornou-se apenas o agora.
O aqui se torna fora, externo de origens que cumprimos de descumprir.

São destas recusas que se fabricam todos os refugos da humanidade, todos os monturos de algo que não pode se tornar manifesto a menos que como uma indecência.
Assim são condizentes com tudo que os produziu.
Existem nichos nas produções de refúgios aqui mesmo neste oeste velho, mundo novo.
Existem muitas iniquidades com as quais se fazem eldorados, serras peladas e cristandades.

Este verbo carne, cerne de nossas preocupações, é uma divindade pela qual distribuímos beijos e pancadaria, no entanto, funciona também como a melhor utopia, ao menos em comparação com as citadas anteriormente.

O maior dos estoicismos é permanecer na linguagem, tão tênue quanto o amianto que nos abriga e nos intoxica. Ofegante como a arritmia da substância que se perde ao sopro ou ao gesto.

Ser algo que participa da engenharia dos significados é como deixar o mundo é como alienar-se. O homem não se relaciona mais com o sentido, exceto quem pensa que ele é apenas como uma árvore ou um rio, mesmo estes tem uma relação com os objetos rio e árvore serem apenas objetos rio e árvore.

A transcendência demora e não dispomos de paciência para ela. Então que ela fique para as almas pacientes. Um sujeito decente e coeso não se incomoda como o mau cheiro de sua garganta em câncer, um devir mal resolvido de objeto rio árvore.

Não se trata mais de afastar do estado natureza, trata se apenas de uma aproximação do estado natural da vontade, deliberar instintos sem afetar a história.
Forjar sintaxe, afetar o mundo. Estar nele e não aceitar os fatos.

Sigamos com outras palavras:

“penso que devemos ser homens, em primeiro lugar, e depois súditos. Não é desejável cultivar pela lei o mesmo respeito que cultivamos pelo direito. A única obrigação que tenho direito de assumir é a de fazer a qualquer tempo aquilo que considero direito.”

Estes dizeres contem uma paixão que não se nivela com a doença e com as concessões por vezes indignas que nos vemos obrigados a fazer quando algo nos tolhe outro algo por julgar sua legitimação e impuser a constituição de quaisquer poderes.

Henry David Thoreau nos presenteia com a parte alegre deste relato, mas, não menos séria. Esta é uma espécie de desobediência pura, e parece ser uma convicção inabalável!
Mais uma vez a ideia de estar no mundo e praticar isto dignamente, não deixa de ser contraditória. Mas, nada mais, de certa forma, significa estar fora dele.

É lógico e plausível crer que um ponto de vista vindo de qualquer afastamento merece atenção ao menos por se supor tal argumento potencialmente isento.

Não observamos bem que estamos todos à beira do mundo em circunlóquios intermináveis tentando entrar em estruturas que já recusamos sem sequer saber por que

Há algumas almas violentas e leves o suficiente para reconhecer a resistência aos sistemas. Creio que aí temos um elemento chave: isto tem se tornado cada vez mais emancipador e menos opressor.

Não podemos, no entanto, dizer com certeza que estas páginas de uma nova cultura de resistência, morando na casa da subjetividade e sentando à mesa delirante das nuances de um tempo que ainda estamos por cumprir, ficarão para a posteridade como algo melhor ou pior para as pessoas.

Contudo o direito ao que Thoreau se refere é algo apenas conectado ao desejo e à vontade, e as democracias sobre as quais desenvolve seu trabalho “a desobediência civil” são evidentemente falhas, mas, o ser humano sem lugar na história a não ser o lugar da recusa, não possui os elementos para querer construir novas sociedades. Do lugar da recusa pode-se apenas gritar.

Particularmente, preferimos gritar com cores timbres e metonímias.

Vontades representações e revoltas as preferimos em pantomima. As palavras que instituem um povo e seu ideal de soberania são pomposas e cívicas demais.

O civil deve tomar conta do delírio e guardar a subjetividade e isto é política!

Exemplificamos isto com um fragmento da apresentação dos textos de Stela do Patrocínio por Viviane Mosé:

“é a noção de doença mental que vai, na modernidade, mediar a relação entre razão e loucura uma relação definida pela falta de comunicação”.

Se tomarmos estas linhas a rigor, podemos dizer que não é mais privilégio dos loucos esta incomunicabilidade. Que isso se torna marca do nosso tempo.
Muitas sanidades e muitos sanitaristas caíram por terra, isto tem lá seu lado muito profícuo, e assustadoramente belo!

A linguagem torna-se um aparato próprio de uma experiência única, com seus sujeitos aptos a lidarem com a manifestação de suas individualidades anônimas e gritantes.
O tempo todo podemos ler nos indivíduos sua procura por códigos, apenas códigos que podem os fazer semelhantes ao outro.

Nosso método de comunhão é partilhar sem medo todas as individualidades insuportáveis de um ser solitário, capaz de dinamitar-se a si próprio como quem dinamita sozinho a ilha de Manhattan.

A arte, portanto, é um ofício essencial para evidenciar tamanhas mazelas do ser contemporâneo que não fala com ninguém, mas, fala para todos.
Ironicamente as experiências se tornam comuns quando vemos num único ser, todas as nuances de humanidade aparentemente perdidas, serem evocadas de uma sala de espetáculos.

É a mesma promessa que havia nos templos

A ânsia que acometeu os iluministas quando conceberam a enciclopédia permanece em nós como o gesto primário e violento de expressar o desejo de ser compreendido.
As referências filosóficas e científicas não nos livram da fome, seja de verdades ou de feijão.

Assim o mundo se constitui como o palco das misérias que os séculos escamotearam.
Mesmo querendo ignorá-las ainda as seremos com aflição e hipocrisia.
Consideremos então a hipótese absurda das misérias serem honestas, e ainda mais, tirarmos dela seu teor messiânico. Sem acrescentarmos o fim como ideia prevalente.

O verbo, carne cerne. O verbo carnificina. O verbo vaticínio. Não este, o verbo podre!
Repartido em crimes e dramaturgia e folhetim da vida que existira.

O verbo do chão, o verbo de debaixo do chão, o verbo das mortes!

Vejam este verbo Antonin Artaud:

“as leis e costumes vos concedem o direito de medir o espírito.”

Deixemos que prossiga:

“essa jurisdição soberana e terrível é exercida com vossa razão. Deixai-nos rir. A credulidade dos povos civilizados, dos sábios, dos governos, adorna a psiquiatria de não sei que luzes sobrenaturais.”

Mais adiante:

“sem insistir no caráter perfeitamente genial das manifestações de certos loucos, na medida da nossa capacidade de avaliá-las, afirmamos a legitimidade absoluta de realidade de todos os atos que dela decorrem”.

E para terminar:

“os senhores só tem a superioridade da força.”

A realidade contra as forças do engenho é nosso heroísmo.
Somos exatamente quem somos e dispensamos a culpa e desferimos dos braços o gesto.
O gesto que nos mata e que nos mantém vivos.

É uma lealdade ao corpo, lealdade à letra que nos inscreve o viver. Com seus açoites inevitáveis, este é um tempo de crueldade, tempo de arte em mostrar as vísceras.
Tempo de a arte abolir os censores de nosso juízo.

Carne barro soprado, carne verbo cinza, sangue e outros fluidos.
A arte nos mostra o cheiro da morte semelhante ao cheiro da vida. Os milagres devem sempre estar na sala da ciência, mas, a pujança mora na linguagem, este signo torpe que forja a própria vida para que ela não trate de se matar.

De outra forma o verbo ainda é a promessa.
Esta promessa para Stela do Patrocínio é a promessa do não querer
Melhor dizendo, o querer não querer, tão próprios ao tempo de recusas!

“Eu não queria me formar
Não queria nascer
Não queria tomar forma humana
Carne humana e matéria humana
Não queria saber de viver
Não queria saber da vida
Eu não tive querer
Nem vontade pra essas coisas…

Não sou eu que gosto de nascer
Eles é que me botam pra nascer todo dia
E sempre que eu morro me ressuscitam
Me encarnaram me desencarnaram me reencarnaram
Me formam em menos de um segundo
Se eu sumir desaparecer eles me procuram onde eu estiver
Pra estar olhando pro gás pras paredes pro teto
Ou pra cabeça deles e pro corpo deles.”

Stela diz do alheamento próprio que não querem de nós. Realmente nos querem olhando pra cabeça deles e pro corpo deles, com uma forma humana um tanto quanto representada por uma semelhança divina, portanto, instituindo a própria forma como molde.
Stela tem razão nos formamos de gases, a forma nos é um mistério além do conteúdo e que seja gás!

Como essa missão de sentir o que é estar no mundo necessita às vezes respirar fora dele, manter-se fora dele, em gases ou em águas turvas, cito o poeta mineiro, Frederico Eymard.

“Dentro do mundo
Oro
Sem palavras
Externo ao próprio mundo

Tempo nosso
Instrumento
Em que posso
O firmamento.”

Rezemos sim, para ganhar as substâncias extracorpóreas, ainda sem algodões nas narinas neste pacto que sela o silêncio da linguagem e seu mistério gaseificado e introduzido no mundo como o veneno e como o bálsamo.
Seja o cânhamo ou sândalo que estragamos em trivialidades, que os unguentos não nos estraguem a loucura e a arte. “esse amanhecer mais noite que a noite.”

Ouro Branco, 7 de fevereiro de 1980,

Ananias, meu cunhado, veio a meu pedido à Ouro Branco depois que seu irmão partiu com Alana em definitivo. Coincidiu que Hubbard estava em seu fim. E a casa não tinha nem clarineta nem piano. Davis e Wintom se desorientavam pelos alpendres quando parecia que não lhes pareciam aprazes os insetos e não lhes apetecessem os cios em quintais alheios.
Meu cunhado fez muito bem a mim neste tempo. Sugeriu-me que talvez, o misterioso senhor Donald, pudesse ser a própria senhorita Dee Dee se passando por homem…
A teoria fazia sentido, pois, a paixão por minha mãe contida nas primeiras cartas me seduziu a ponto de respondê-las como se ressuscitasse em mim a falecida.
Ananias me fez pensar que seria possível e passível que Dee Dee tinha inventado esta armadilha para me atormentar.
Talvez nunca Dee Dee acostumou-se com
Asdrúbal e com meu pai e nunca tivesse entendido que expulsássemos mamãe de casa depois de ela ter a acolhido por quase uma década.
Este homem Ananias também supôs que Dee Dee apenas tivesse feito isso por motivações passionais.
Decidi escrever novamente à ela para esclarecer definitivamente o problema, mas, meu cunhado, antes que eu o fizesse mostrou-me um caderno de anotações que trazia sempre consigo.
Dizia-me Ananias de sua escolha por escrever como mulher. Não sei se os fragmentos que consegui surrupiar são os melhores, pois, os recolhi apenas quando ele cuidava dos dois trompetistas remanescentes, haja vista que Ananias, era no mínimo um sujeito atencioso, e muito cuidadoso comigo.
Peço a você, tio Antônio, que guarde estes rascunhos para um tempo mais revelador…

BILLIE BLASÉE

Faz treze anos que resolvi ficar alheia em mim, decidi que as coisas fossem me acontecendo sem que eu acontecesse nelas. Prontamente estive ansiosa. Depois observei o sabor do tabaco mais táctil. Mas não estava emocionada. Escolhi não cobiçar o que é de pertencimento coletivo, abstrato. A realidade me deixou fascinada demais. Agora sonho a fantasia e ignoro as existências menos raras ao meu desprezo. Vou indo e aos tolos digo que estou cansada. Aos nobres, estou calma e indiferente. Não me servem tolices ou nobreza. Importa-me apenas saber tudo esvaindo do batom nos lábios

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Rio me das coisas que seguem seu curso de absoluta inutilidade. Mas estão todos animados para o talk show no auditório. Toda iniciativa privada implanta os cinco esses para licitar papel higiênico. As paredes cansaram de ter ouvido, agora falam para os esquizofrênicos. Disseram-me que era importante ir ao velório de Nicodemos. Então aqui estou rindo-me de minha importância no velório de Nicodemos.

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A vida não é nem um pouco importante. Ela é como um intervalo no meio da realidade concreta e inanimada. Ela é como um conjunto vazio, um parêntesis ou um entre aspas. Temos um tempo para viver, talvez para recobrar nossas ilusões e cultivar nossas esquisitices. Estas são as que nos dão alguma transcendência.

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Dizem que no México existe um observatório de répteis exuberante.

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Escamoteio-me em boates, galerias de arte e em festas inconvenientes. Também me escamoteio da minha reclusão. Céu aberto, praças, parques, salve!

Minhas partes íntimas são miméticas. Comungam com a cor de seu lingerie brunido de corrimento.

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A colônia humana tem se mostrado muito sem polimento. Não anda me agradando muito não.

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Sei o caminho que meus sapatos devem pisar. Sou hermeticamente fechada e prossigo no batidão sem dirigir a palavra a ninguém.

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O veneno do mundo não está nos lábios da prostituta. A sedução é má, mas é bela e verdadeira. O veneno do mundo é a mentira que ele próprio conta.

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Minhas tias dizem duvidar de homens que pintam o cabelo.

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O tempo é um pêndulo com papoulas dependuradas nele. Suspensas e suspeitando das cantigas de amor e morte.

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Desconheço o motivo de minha boa compleição para as cinzas.

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O corpo veste o vermelho atrás do incêndio. É só o embaraço de reconhecer sua aclimatação e o contexto da silhueta. Nada condiz com as descrições. As ideias estão carbonizadas.

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O contágio é uma troca de biologias que travam conhecimento há pouco tempo. O risco é um ofício de não saber. Relógios e despertadores são o vício da saúde.

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Os invernos setentrionais possuem instituições que pertencem à compreensão de suas maçãs endêmicas.

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Hamurabi, Artaxerxes, Nabucodonosor, exijo o reembolso postal!

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A ingerência de me saber morta sem algodões nos orifícios me cabe em salões de velório intransigentemente.

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Considero a música barroca uma música cenário. Numa sociedade humana ideal, caberia à música barroca ser tocada em elevadores ou motéis… Mas, numa sociedade humana ideal não haveria elevadores ou motéis… Pelo menos na minha concepção.

Conheci um monge que deixou de lado todas as suas litanias e desapareceu buscando imitar o canto dos pássaros que lhe aparecessem.

Ressuscitei, sim ressuscitei, mas, sem boa nova, sem teogonia ou cavalo que fuja a galope.

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Já que curvei meu rosto, curvei meu dorso, como um feto, posso dizer que minha casa é um útero cheio de miomas. Posso dizer que minha cabeça está viciada em axiomas.

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De todas as soluções que os livros nos propõem prefiro as mais enfadonhas.

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Eu saio da sintaxe, eu entro na milonga. Depois me invagino em seus miasmas.

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Sylvia gosta de seu professor de música ele costuma dizer a ela que as partituras são como biombos. Isso me faz gostar mais ainda dela.

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Neste marasmo de almas dispersas. Nossos corpos parecem não ter gravidade. No espaço no espasmo, no sarcasmo, no sarcoma, no linfoma, no coma induzido da redoma de ratos no cio…

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O enredo do seu engodo não me excita mais. Hesito entre trama e cama. Caminho até a desordem da prateleira de seus discos, não há muito que se fazer.

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Não posso mais ouvir o grito do meu irmão carvoeiro, meu irmão cortador de cana, do meu irmão lenhador, do meu irmão da moenda. Cada um conseguiu comprar sua televisão. E a mim só me restou usar a minha também.

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E é assim que tudo me acontece, sei esperar. Sei também ignorar. Mas não fico tranquila. Não estou em paz com o que me aparece, ou aparenta ser. Não há em mim naturalidades triviais. Deixo me humilhada por mim, à espontaneidade eu guardo no sorriso interior. A cidade inteira passa por mim e eu peremptória. Esperar é enrijecer-me, despojar-me desse falso lirismo do qual fui vítima. A humanidade é poesia distraída e displicente. Fui machucada em ser este signo. Hoje o meu gesto é o de caminhar sem origem. Talvez o mundo não mereça minha preocupação. Pois, se merecesse seria constantemente irritada por boas intenções sem sentido e sem aplicação vindas dos outros. Confesso essa vida sem escolher destino prudente me deixou mais animada.

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Faz treze anos que ele é meu homem. Seu sexo é um ritual, mas não exalta nenhuma divindade, tampouco profanação. É repetitivo, mas eu gosto. Desde sempre usa chapéu panamá. Desde sempre acha que eu gosto de seu chapéu. Desde sempre o usa como se soubesse que eu gostasse. Ele não sabe. Mas eu gosto. Gosto de seu pulmão com sílica. Que é uma siderurgia bufando estanho em meus seios. Gosto de sua epiderme de amianto, de sua sensibilidade de chumbo. Desde sempre ele me usa como se soubesse que eu gosto. Ele não sabe. Mas eu gosto. Seu ócio de canivete, fumo de rolo e observar mormaço, me seduz. Ele acha que sabe que me seduz. Mas ele não sabe. Mas eu gosto. Gosto de ele ir se equivocando em minha saia no quarto escuro. Fico aniquilada, sem palavras, perto de suas precipitações. Fico perturbada com seu perfume barato e seu suor bêbado. Ele acha que sabe. Mas eu sei. Ele não sabe. Seus braços me contornam e minhas pernas ficam tremendo. Faz treze anos que sou a mulher dele.

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Faz treze anos que descobri que a falta de justificativas, seria melhor para a vida. . No entanto, estou aqui justificada não por julgar ser necessário. Ai de mim que, antes de escrever estas linhas, achava que seria uma satisfação inédita… Mesmo assim, digo obrigada a mim mesma.

Ouro Branco, 28 de fevereiro de 1980.

Prezado Ataualpa,

Reformamos o pátio. Não aguentava mais aquelas mangas podres caídas ao chão. Disputadas por cães e pombos no meio daquele terreiro de folhas secas além de mosquitos. Não. Isto não era problema por más recordações não. Não faço ressalvas à minha infância, foi insana, admito, mas qual não tivera sido a será na vida adulta ou mesmo, nunca cessará. Será sempre a mesma vida desconcertante. Por isso precisamos cimentar os terreiros, devolvê-los como pátios, derrubar os pés de abacate, ou, quem sabe, vendermos as casas para sairmos desembestados pelo próprio risco e por conta própria. O tempo em que se chega a não devermos satisfações nos foi negado na nossa geração. Já nem pretendo mais entender por que tanto lutam, no momento, eu queria mesmo era coragem para salvar a própria pele. Perdi então minhas ilusões com as instituições familiares pela segunda vez, quando é assim a terceira quase nunca acontece, e deve ficar tudo na conta do escárnio mesmo. Aprendemos uma atribuição para o desprezo com pátios cimentados e casas vendidas. Numa esperança de não vender ou cimentar a própria consciência.
Este tipo de busca eu vejo neste conto de Alexandre Alcuíno, escritor maior de Agua Parada, faz uma alusão a uma personagem de outro conto de um amigo meu, cujo protagonista tenta desvendar o mistério do conto alheio: uma insólita inundação de carunchos, isto mesmo, carunchos!
Já no segundo conto, Alcuíno não deixa o tema de lado, agora procuram pelo corpo do pai dois irmãos em sérios questionamentos.
Queria era inundar este Donald, nobilíssimo pederasta que descobri do passado de minha mãe, queria inundar-me em Dee Dee que você não conheceu, ou, inundar-me de uísque pela falta de Asdrúbal e de Alana. Queria inundar esta saudade de não ter sido inundada pela liberdade em meu pais à época de minha juventude. Hoje, nem sei mais o que quero, nem sei mais o que sou, mas sei que quero alguma coisa sem saber o que ela é. E que quero a mim mesma, como sobrevivente, mesmo sem me saber sabendo quem sou. Devemos ser qualquer coisa, desprovida de pretéritos em casas pátios e terreiros.

Espero boas leituras!

João Siqueira era um homem culto, letrado até mesmo em grego. Gostava de esculpir talhando madeira e tinha o ofício de anestesista. Porém gostava de estudar todos os assuntos, todas as ciências humanas. Após a oração diária do terço do rosário, se recolhia ainda mais em seus estudos. Morava em um sobrado na parte alta da cidade e era, sempre foi, um homem muito admirado por todos.
Quando soube do intrigante incidente da enchente de carunchos, teve a certeza de que era com Alcebíades que tinha que travar embate, para tirar suas conclusões.
Pediu Seu Agostinho, o leiteiro, que enviasse um bilhete a ele contendo um recado que João Siqueira queria vê-lo.
Naturalmente, ao abrir o envelope, com certeza Alcebíades concluiria que iria até o sobrado para falar sobre a enchente de carunchos, mesmo que no recado não houvesse sequer menção ou alusão ao ocorrido, pois Alcebíades já ficava conhecido pelo evento.
Agradeceu ao leiteiro e mandou responder que iria.

Então, ilustríssimo João Siqueira, deseja também saber da enchente de caruncho?
Sente-se Alcebíades. Obrigado por atender ao convite. O senhor deseja um chá?
Não obrigado.
Então sente-se, meu caro. Sim, o assunto é este estranho fato.
Tenho a impressão que passarei o resto de minha vida ou um bom tempo esclarecendo a todos quanto ao que houve, estou me acostumando, diga-me, o que quer saber o senhor?
Simplesmente quero saber como foi e como se deram as coisas?
Estava em minha casa e, após uma queda, vi que da parte baixa de meu armário fluía um fio de caruncho que descia do meu quarto de pensão para a escadaria e daí para a rua.
E a rua estava alagada?
Sim e isto é tudo que sei.
Como fizeram?
Eu e Baltazar orientamos os homens a construírem um dique de pedras.
Para conter a enchente…

Sim.
Era muito caruncho?
Não fosse o dique alagaria toda a cidade.
Onde está o dique Alcebíades?
Na parte baixa.
Descendo do brejo seco não é mesmo?
Isso mesmo.
O senhor ainda mora lá?
Conseguimos continuar lá sem muitos prejuízos, mas me interessa saber o que te interessa neste acontecido, João Siqueira!
Posso explicar ao senhor, meu amigo, Luiz Mendes, médico legista do necrotério, disse-me ter encontrado uma bactéria letal nos corpos vitimas da enchente de carunchos nos quais ele fez a autópsia.
O senhor acha que estou infectado?
Não, do contrário já havia notado algum sinal, alguma náusea, de inicio, notou?
Não.
Que bom.
Mas, de onde o senhor acha ter vindo tal bactéria, Siqueira?
O terreno do brejo seco sediou também o curtume de Sebastián, muito antes de ele entrar em sociedade com Nicanor Mirafuentes e comprar a granja de galetos, se lembra?
Claro! Meu irmão trabalhou lá! Mas, João, não pode culpar o Sebastián. É um bom sujeito.
Evidentemente que não, Alcebíades, Sebastián não tem culpa de nada!
Tenho uma proposta, Alcebíades.
E qual é?
Veja, isto é um par de luvas.
Sim.
Vou coloca-las na mão e pegar esta lupa.
Vejo.
Agora pego esta lâmina e posso ver a bactéria que estava em um dos corpos, vitima da enchente de carunchos.
Posso ver?
Terá que usar este outro par de luvas.
Sim.
Viu?
É isto que está nos carunchos represados?
Exatamente.
E qual é a proposta? O que quer que eu faça?
Veja aqueles escafandros ali, te proponho que os usemos e as luvas para entrarmos na represa para coletar carunchos do fundo dela para ver se encontramos a mesma bactéria.
Não corremos mais risco?
Com as luvas e os escafandros não, mas precisaremos mergulhar nos carunchos.
Sou um homem astuto, senhor João Siqueira, se estes carunchos ainda não me mataram não se será desta vez, e se for…
Será comigo também Alcebíades! Aceita a empreitada?
Acordo feito senhor João!
Três dias depois se encontraram os dois na parte baixa da cidade ao lado do grande dique de pedra. Muniram se de escafandros e luvas e então mergulharam na imensa represa de carunchos, aquele lago enorme de carunchos.
Logo aos primeiros minutos da expedição surge um homem que tinha a insígnia de andar sobre os carunchos
Quem és tu?
És tu Elias?
És tu o profeta?
Não João este homem é a nossa morte. Estamos morrendo!
Quem és tu?
És tu um fantasma?
És tu um diabo?
Não João! Estamos prestes a morrer.
Acabais de entrar em minha nova morada. Vereis que morrerão. O cianureto entrará pelas sendas do escafandro, pelas fendas das luvas, atingirá as fossas nasais. Os olhos e as outras mucosas e depois entrará pelos poros, esta será a vossa morte. Conhecereis então o meu novo reino… És tu Jesus derradeiro? És tu Judas traiçoeiro?
João! Estamos mortos, homem!

O nível do mar já tinha baixado, aliás, aumentava ainda de vez em quando, mas quem era eu para entender de marés na altura dos acontecimentos. Estes acontecimentos que me inundavam, mal sabia eu contar os dias da minha estada à beira mar. Já havia perdido há muito tempo o hábito de contar os dias regularmente. Mas com as circunstâncias, acho que cheguei ao ponto de confundir aquele litoral provinciano desta “república” gaúcha com os manguezais de alguns pontos do nordeste brasileiro. Talvez seja porque os tempos ultimamente têm se confundido nos espaços. Agora considere isso acontecendo a uma pessoa que, como eu, perdera completamente a noção da utilização de qualquer meia hora que fosse.
Qualquer um daqueles atropelos pós-modernos seria apenas um cânhamo de qualidade duvidosa (isso para os apreciadores desta especiaria, caso em que me incluo). O quarto do hotel em que fui parar não era tão diferente das coisas que aconteciam. Das coisas que eu vivia. Porém, como tudo em mim, aquilo era uma recorrente ruptura em uma vida já fragmentada, embora sem maiores traumas. Tratava-se então de romper com mais uma sucessão de fatos que, justamente por não terem muita importância, eram atravessados paradoxalmente e aterrorizantemente por algo novo, mas com a habitual rotina de morbidez.
Algum desavisado poderia achar que naquele quarto, naquele armário embutido, naquela cama jazia uma espécie de tranquilidade. Nada disso, se enganaria redondamente este desavisado, pois tal silêncio era o silêncio agudo da agonia. Os objetos que mobiliavam o quarto, por sua realidade e sobriedade abruptamente impostas, traziam algo que era irremediavelmente corriqueiro, mas na verdade uma tórrida assombração de repetidas imprudências contra algumas leis naturais. As mesmas leis que regem a vida, a matemática, a química, a música são agora as leis que regem a morte e o medo dela.
Uma tempestade tropical atingiu a praia (em que hoje penso estes devaneios) e também a tudo que estava a um raio de dez quilômetros dela. Depois da tempestade, tudo tinha um cheiro de morte. Logicamente o hotel ficava do outro lado de uma das baías daquela faixa litorânea, ponto turístico que agora servia de posto para jornalistas e parentes de desaparecidos que ali se hospedavam naquela região inatingida pelo evento. Apesar de haver imensa movimentação de bombeiros, da guarda costeira e da defesa civil, tudo o que mais se pensava e mais se respirava era a destruição.
Os pescadores, no entanto, já voltavam ao trabalho trazendo para o continente mais morte (morte comestível). Os pescadores, esses que trafegam neste material que talvez seja o mais volátil que Deus criou que andam nesta superfície mais incerta possível, tanto na metáfora como na realidade, mas que trazem à terra firme, iscados por seus anzóis, suas vontades, desejos e esperanças. E também a ignorância de sua impotência da sabedoria diante das improbabilidades do grande mar, que realmente lhes é algo de concreto e que agora também me é uma concretude sobre dois estados em diferentes tempos: uma abstração que encerra apenas os conceitos de vida e morte, e a implacável oposição destas duas coisas que, para nós, caberiam em toda a eternidade.

Álvaro sentia o calor daqueles dias como quem se sentisse claustrofobicamente em uma situação da qual não poderia se livrar, nem que tentasse. Esperar, esperar, sua vida era assim e agora ele se dava conta disso. Estava ali, observando a movimentação daquela gente de mar (que, apesar de firmes e constantes, pouco conheciam sobre o que lhes tornava firmes e constantes), e o continente que na sua superfície era pisoteado por toda essa gente e suas certezas, o continente que eles conheciam menos que o mar.
Álvaro não tinha muito o que fazer, a não ser visitar o cais à tardinha e acender um baseado. Ali esperava que o oceano lhe revelasse algo antigo, algo oriundo dele mesmo, algo que lhe fora retirado, para que ele vivesse em suspenso. Aqui no chão, no entanto, não tinha se apegado a tanto ainda. Contudo a profundidade de suas contradições o fazia pensar em ilhas. Era como se ele tivesse caminhado sobre a água e visitado todo um arquipélago e agora o chão que pisava implodia, submergindo em águas turvas todos os seus enganos. Ou melhor, todo o engano chamado Álvaro Santiago. Agora tinha uma rotina infernal e não era poupado de afazeres menos subjetivos. Com pouco dinheiro, administrava-o como se o país tivesse entrado em guerra. Teria que levar aquela vida porque, se não o fizesse, ninguém o faria na família. Mas Álvaro era pago por isso. Aliás, se irritava muito em ter que telefonar para a irmã, Beatriz, que mantinha sua estada no Hotel Eldorado, e dizer que estava devendo diárias e perceber que aquilo a incomodava.
Beatriz morava no Rio de Janeiro e trabalhava numa filial de uma produtora cinematográfica internacional. Álvaro sempre quis manter contato com esse tipo de gente com a qual ela lidava. Pode até ser contraditório, mas ele nunca teve os desprendimentos e o jogo de cintura necessários. porque, ora por quê? “Não queria ficar preso a uma cidade”, (o problema é que Álvaro prefere o Brasil). E agora, Álvaro, preso num quarto de hotel contando e recontando os dias que se passaram para saber quando devia reportar-se à Beatriz novamente. Como ele se submete a coisas que ele não tem a mínima noção de como vieram parar na frente de seus olhos!

As unidades do cartão telefônico estavam por terminar, e eu já havia decidido ficar calado e só ouvir Beatriz resmungar até que a ligação caísse. Ela praguejava contra a incompetência das equipes de resgate. Dizia que estava sempre se inteirando dos fatos através dos noticiários televisivos. Ela queria me culpar por isso. Resolvi não mais cometer a infelicidade de dizer para ela que eu não precisava ouvir seus xingamentos, pois era o mesmo que dizer o contrário. Só porque ela era quem tinha dinheiro na família. Então me calei como sempre. E, como sempre, me vinham posteriormente ideias que eu poderia ter dito e que, invariavelmente, não digo.
Beatriz às vezes me causava constrangimento, uma espécie de xenofobia. Aliás, perto dela, me sentia em outro planeta e por isso eu a julgava repugnante em certos momentos. Eu me recolhia a uma insignificância auto-detectada por uma subestimação própria, enquanto minha irmã ria aquela risada dizendo que era muita “casmurrice” para ela tolerar. Há quanto tempo não vejo Beatriz…
Tenho subitamente, no meio das tardes, na beira do mar, pensamentos demasiado cristãos para minhas convicções atuais. Me pego pensando que meu pai, digo, nosso pai, não gostaria da força brusca que a vida usou para desgarrar-nos (assim volto às minhas convicções atuais) e, ao mesmo tempo, atar-nos nessa lucidez cega dos dias de hoje, essa sobriedade típica de velório. Isso me soa tão sem nexo. E naquela época estávamos realmente esperando essa ressaca moral que é o luto. Essa força brusca. Quando tento me corrigir quanto aos meus pensamentos cristãos, penso ser justamente essa força que descolou meu pai de sua vida, na imensa volúpia das águas do oceano.

O corpo do pai de Álvaro ainda não havia sido encontrado e este já havia mandado rezar uma missa em sua intenção, ainda que por mero desencargo de consciência. Sebastião Santiago era um homem sem raízes e não se convencia que não era mais aquele jovem da década de quarenta que, nos anos de chumbo, ouviu a BBC tocar Chopin a cada hora da resistência polonesa. Álvaro saiu como o pai, nesse aspecto: não se apegava a nenhuma instituição, mas nem por isso, deixou de viver sua época.
Aliás, a época de Álvaro é o começo do desenraizar e da negação de tudo o que foi dito e contradito pela geração anterior, que educou sua prole com a esperança de um mundo novo, e que acreditou na ilusão do amor. Sim, senhores! Com o dinheiro não há quem possa! Hoje todos vendem sua liberdade. E ninguém mais quer criar seu filho dizendo que a vida vai melhorar. Mas felizmente todos (ou quase todos) ajudam a máquina do planeta, geralmente com oito horas diárias de trabalho. Depois voltam para casa, cientes de que ninguém, nem no céu, nem na terra, nem abaixo dela, resolverá os problemas que aí estão. No entanto, lidam com essas oito horas diárias somente para piorar a situação e nunca para melhorar. Há exceções, é claro. Mas a grande maioria não se responsabiliza sem temer nenhuma consequência. E é nisso que Álvaro Santiago acredita. Daí a razão de ele ter odiado seu pai durante toda vida.
Sebastião viveu em sítios e comunidades hippies em que as pessoas sobreviviam pela subsistência e nunca perdeu seus valores, mesmo que um dia seu estilo de vida tenha se tornado anacrônico. Já Álvaro, ao contrário do pai, tinha a mania de acreditar no trabalho e somente nele, e de desconfiar de tudo mais. Em suma, Álvaro sentia repugnância por tudo àquilo que ele não conseguiu ser e tinha necessidade de se justificar sobre isso. Contudo, essa repugnância não o prendeu em argumentos que poderiam privar sua liberdade. Esta era sua maior contradição, pois essa atitude era inegavelmente uma herança do pai. Mesmo assim, Álvaro, por obrigação, negava tudo, e esse negar era toda a fundamentação de sua incompatibilidade com o pai, Sebastião.
Agora, as águas do mar iam e voltavam, o prendiam naquela praia, iam e voltavam, e o modificavam, iam e voltavam, mas não traziam seu pai.

Debaixo do teto do quarto deste hotel Eldorado, eu fito o ventilador girando nesta noite de verão. O lugar é um pouco inóspito. Alguns nativos e curiosos passam à noite na praia, esperando notícias de mais corpos encontrados. Eu já tinha perdido a paciência de encontrá-los acompanhando essa gente nessa ingrata tarefa de um recém-órfão de trinta de três anos. O fato é que se não fosse toda essa confusão, o povo do lugar teria que arranjar algo no mínimo mais tedioso e menos divertido para fazer.
As noites eram longas e os dias insuportáveis. Eu já não dormia. Durante o dia eu me perguntava quanto tempo mais isso iria durar, demorando e alongando, naquelas horas de pernilongos e calor à noite, enquanto a brisa do ventilador de teto afastava as aleluias e trazia alguns pensamentos saudosistas.
Meu pai, Sebastião Santiago, este homem que se perdeu no oceano, perdeu-se também na sua imensa generosidade. Tinha ele um excelente senso de humor, senso de espírito e nos ensinou a aproveitar a vida como quem aproveita um vinho antigo. Ele tinha um piano elétrico e nos entretinha quando estávamos agitados, pré-adolescentes que éramos, dizendo que ia tocar boa música para bons meninos. Não me esqueço do dia em que ele nos apresentou a música de Emerson, Lake and Palmer. Eu contava, então, doze anos, e Beatriz, dez. Minha irmã cometeu a inconveniência de subir na mesa da varanda e dançar! Vocês já viram alguém dançando ao som de Emerson, Lake and Palmer? Pois é, Beatriz dançou.
A necessidade de fechar as janelas para tentar dormir enterrava todas as boas lembranças com a sensação de não possuir o direito de tê-las. Isso fatalmente, ou quase fatalmente, me levaria a mais uma noite de insônia e remorsos, arrependimentos por aquilo que não foi e que deveria ser.
Só me restava esperar o sol nascer e receber a notícia de que tivessem retirado o corpo de meu pai do fundo das águas, meu saudoso pai. Acho que apesar de tudo, Beatriz deve se sentir assim como eu, e me vem à vontade de me reaproximar dela. Já passa das duas, não posso mais telefonar para ela. Não posso nem mesmo ir até o saguão, agora que sou obrigado a permanecer deitado, ouvindo o som do mar.

Fui convidado pelo autor destes relatos para expressar por escrito as minhas impressões a respeito da vida e da personalidade de Álvaro Santiago, que conheci durante um período de minha vida, mais exatamente quando lecionava na Universidade Nacional de Brasília. Pelos idos da década de setenta, fui professor de Álvaro e, mais tarde, me vi forçado a conviver intimamente com ele, por causa de seu relacionamento com minha filha, que era sua colega de classe. Disse que me vi forçado a conviver com ele. Isso não significa que eu detestasse Álvaro. Na verdade, eu o achava um sujeito inviável. Ele poderia ter sido um aluno brilhante, ter tido uma vida brilhante, mas sua inteligência o fazia indisciplinado, alienado.
Portanto, nos padrões crescentes de cobrança da sociedade atual, Álvaro nunca poderia se adaptar. Minha suspeita é de que este homem encaminhava seu caos interior para uma catástrofe. Acho que as pessoas que porventura evitavam Álvaro o faziam por desconfiarem disso. Nem assim elas estariam imunes a uma cartada final de Álvaro, que parecia, às vezes, desprovido de inconvenientes, mas não era difícil perceber sua latente tenacidade.
Sobre seu caso com minha filha, ela sinceramente me confessou um dia ter finalmente recebido sua carta de alforria quando ele resolveu chutar o balde de sua vida em Brasília. Embora naquela época ela ainda não soubesse avaliar assim, depois ela me disse: “Nunca tomou partido de nada e sempre mudava de opinião quando acuado”. Ao mesmo tempo, Álvaro sabia de tudo à sua volta e gostava de ter a ilusão de que estava no comando de tudo, chegava a ser cômico. Se existir uma palavra para ilustrar o comportamento de Álvaro, a palavra seria inconstância.
Ah, o curso que ele e minha filha faziam, e no qual eu fui professor de Álvaro, era o curso de ciências sociais.

Conheci Alvinho em meados dos anos setenta, 76, para ser mais exato. Quando eu trabalhava num almoxarifado da secretaria de saúde em Belo Horizonte. Os companheiros e eu trabalhávamos separando e empacotando os remédios para as cidades do interior, enquanto Alvinho era um dos motoristas que faziam a entrega. Ele dirigia um dos caminhões que a gente carregava.
Alvinho era um cara coerente, de opinião… Perdeu algumas coisas na vida, comprava brigas porque não podia mudar de argumento. Lembro-me de uma coisa que ele mesmo falava que era tal de pragmatismo. Fico imaginando que ele poderia ter saído prejudicado muitas vezes porque trabalhava de cidade em cidade e não ouvia os outros. Assim era seu jeito de ser. Meu nome é Garcia e agradeço a escritora deste livro, Flora Dias Brasileiro, por ter me dado a oportunidade deste depoimento.

Disseram-me que uma embarcação partia para o município vizinho todos os dias às oito da manhã. Resolvi tomá-la para espairecer um pouco e, alguns metros adiante, andando em terra firme, avistei uma tabacaria onde comprei um cigarro mentolado, um pouco de fumo para o meu velho cachimbo e um charuto do mais barato. Fui até a padaria onde me serviram um café expresso e assuntei sobre a cidade. Sentei-me num banco da praça central de uma paisagem um tanto artificial, com um lago com marrecos tentando fazer com que homens esquecessem que hoje era segunda-feira, esquecessem o que haviam planejado, esquecessem o que lhes era obrigado fazer, ou simplesmente, esquecessem tudo.
E assim, esquecido, fiquei durante uns quinze minutos. Logo após segui rumo à biblioteca municipal. Chegando lá, me deparei com uma funcionária que mais parecia ter saído de alguma ficção que aquele lugar limitadamente oferecia. Ela me mostrou a disposição dos livros nas prateleiras e voltou para onde estava começando então a lixar as unhas e fez isso durante todo o tempo que estive por lá. Eu, ela, os livros, o som do seu afazer impregnado de rotina ecoando no silêncio da biblioteca, e um leitor apenas, que permaneceu por algumas horas.
Lia eu fragmentos do Livro do Desassossego, do heterônimo de Fernando Pessoa, Bernardo Soares. Tanto o livro como o autor igualmente fragmentados. Desassossego, algo sugestivo? Aí está todo o paradoxo: a permanência da Rua dos Douradores, onde Bernardo Soares viveu e trabalhou durante toda sua vida, e a impermanência da sua alma inquieta, excêntrica e carregada dessas efemeridades. Sensações dispersas vindas de um mundo próprio que pulsa como uma espécie de disritmia. Aí o x da questão. Aí explicada toda a situação atual: permanência e impermanência. Tudo isso com um marca-passo de altíssima precisão: a velha senhora que não parava de lixar suas unhas.

Em outros gêneros de artes, em outras linguagens que não a da literatura, se é podemos chamar estes escritos de “literatura” ou “arte”, o encontro ou o acontecimento do amor pode ser tratado de uma maneira mais direta e poética. A didática nesse encontro, como no cinema, para que possa existir, basta uma boa atuação dos atores, com ambientação, fundo musical, uma boa dose de carga dramática. Talvez nem seja necessário texto algum, mas num conto…
Foi como quando encontrei a leste aquela praia deserta, aquela mulher, nua como a praia, morena como tantas, mas que me olhava como uma esfinge que vigiasse seu deserto.
Nesse negócio em que Flora e eu nos metemos, principalmente eu, agora não teria palavras para ilustrar aquele encontro de ir tateando o prazer e a dor. Todas as palavras que proferisse naquele momento se tornariam subliminares àquelas curvas que ganhavam o beijo das ondas e depois de salgá-las, eu vinha provar seu corpo antes que ela se repousasse em meu peito. Tornar-se-iam subliminares a todos os meandros daquele olhar que me dediquei a estudar durante àquelas horas em que ali ficamos. Em vão?

Então eu disse:
_ Você pode acreditar em destino?
_ Não, não posso.
_ Estou forçado a acreditar, da mesma maneira que estou forçado a permanecer à beira mar.
_ Não, não está!
_ E, de repente, me acontece esse milagre…
_ Mas o destino é tão chato! Nele não cabe nenhum milagre, nem mesmo o maior de todos: a coincidência.
_ Sim, mas…
_ A matriz de todas as lógicas da equação humana te trouxe até aqui e a mesma coisa me trouxe até aqui, uma coincidência.
_ E um milagre.
_ Exatamente!
_ Acho que entendi.
_ Agora que entendeu me abrace e me beije, antes que amanheça.

Acordei com o estranho som do interfone me chamando e vi que já passava das nove. Reparei que era a primeira vez que me chamavam pelo interfone durante todo esse tempo. Atendi: Senhor Álvaro, senhorita Beatriz o aguarda no saguão. Não entendi bem o que o zelador me disse apressadamente, e também apressadamente me vesti, quase colocando a camisa pelo avesso.
No saguão, Beatriz me esperava de luto:
_ Então, Beatriz, você não gostava muito de preto…
_ Olhe a brincadeira, Álvaro. Não é o momento.
_ Sim, Beatriz, lhe peço desculpas por uma distração que me abate nos últimos dias.
_ Estou vendo.
_ Então é isso. Acharam papai?
_ Por onde esteve andando, Álvaro? Bebeu muito?
_ Me desculpe, Beatriz…
_ As buscas terminaram ontem, vi pelo jornal. E pensar que paguei suas diárias aqui para você ficar distraído!
_ Meu Deus, não temos o corpo de papai?
Notei que Beatriz começou a chorar quando dizia que havia marcado a cerimônia simbólica do enterro para o dia seguinte. Você vem, ela acrescentou.
_ Obviamente. Há quanto tempo não nos víamos Beatriz?
_ Tenho um quarto livre em meu apartamento na Lagoa. Se você quiser esticar uns dias lá, depois do enterro…
E assim nos abraçamos, e naquele abraço me despedia definitivamente do mesmo mar que se tornou o leito de meu pai. Eu e Beatriz caminhamos pela praia, depois tomamos o ônibus até Porto Alegre e, de lá, um avião até o Rio de Janeiro. Fomos acordados pela comissária de bordo. Beatriz dormira no meu ombro.

Depois de se sentarem num quiosque à beira da Lagoa Rodrigues de Freitas, ao pôr do sol _não era o mar, mas Álvaro carregava consigo a lembrança das águas _ estavam os irmãos devidamente conscientes de um momento de recomeço em suas vidas. Beatriz e Álvaro trocaram confidências de suas angústias mais recentes e da separação sem razão dos dois. Tomaram uma água de coco pela orla da Lagoa. Beatriz disse ter uma surpresa para o irmão numa das gavetas de seu apartamento. Quando lá chegaram, Beatriz, desarmada de qualquer ressentimento, abriu a gaveta e um molho de chaves apareceu no olhar de Álvaro. Tinha reconhecido as chaves da casa de sua avó, Vitória Santiago, que vivera toda a sua vida no interior do Mato Grosso. Beatriz lhe cedia, então, a casa.
Álvaro vivia ultimamente de república em república em São Paulo e sua vida, não bastassem os últimos acontecimentos, era muito sofrida. Também havia razões sentimentais a circundar o momento. Sensibilizado pela força e ao mesmo tempo singeleza daquela experiência, sentia agora vontade de um pouso certo. Aceitou as chaves, mesmo sabendo que o imóvel não estava mobiliado, que teria de se empregar, etc. Despediu-se emocionado e com muitas promessas a Beatriz. Partiu mesmo sem saber ainda se ia dormir no chão ou em qualquer hotel. A viagem, a paisagem na estrada, parecia acolher Álvaro, que a cada quilômetro percorrido, se sentia mais em casa, mais em sua infância. Quanto menos tempo faltava para o desembarque, melhor se sentia Álvaro até chegar ao seu destino.
Ao abrir a casa toda empoeirada por dentro, Álvaro lembrou-se de súbito de um natal em que, ao acordar, havia percorrido todos os cômodos da casa em busca do violão. Mas ele não conseguira achar o presente, e com receio de acordar alguém, voltara para a cama. Refez o mesmo percurso na casa vazia, se lembrando de cada lençol, cada armário, cada paletó pendurado em cada cadeira e, no final, uma surpresa: a mesa da varanda onde, naquele dia de natal, repousava distraidamente seu violão, antes que alguém tivesse o cuidado de colocá-lo debaixo da árvore.
Sim, lá estava a mesa de Dona Vitória Santiago, na varanda, no lugar onde sempre esteve, desde que Álvaro se entendia por gente, a mesma mesa! A mesa em que dona Vitória passava roupa, a mesma mesa em que Beatriz um dia dançou Emerson, Lake and Palmer! Álvaro correu até a casa ao lado e, mesmo não explicando ao homem que se tornariam vizinhos, pediu-lhe papel e caneta e, por incrível que pareça, conseguiu o material desejado. Voltou. Sentou-se à mesa e, ouvindo o constante ruído de um córrego que passava ao fundo, em direção ao mesmo mar, teve uma ligeira sensação de permanência e pôs-se a escrever esta história. Eu fui apenas um artifício de sua narrativa.

Ouro Branco, 11 de março de 1980.

Grande amigo Altemar, e eu que pensava em ter visitas de novo, reunir a família de novo… Não faz sequer um ano que tive estes pensamentos… Sofia desapareceu de novo e quando aparecer irão interna-la aí é com o Tio Antônio, principalmente depois da morte do tio Adamastor, além disso, tivemos a partida de tia Amarílis (Hubbard tem olhos piedosos agora qual fosse cão e não gato e já não ensina mais nada para Wintom e Davis).
Não. Não tenho visto os dois, o Altamiro e o Aníbal, sumiram também. Dee Dee não volta. Sequer responde minhas cartas… Asdrúbal depois de ter voltado só fez chamar Alana foder Alana e fugir com Alana. Os dois devem estar a pensar que estou com raiva ou ciúme, mas, cada cabeça com a sentença que lhe caiba como carapuça conveniente.
A semjeiteza é tamanha que Asdrúbal me enviou seu irmão, a fim de que eu não me deprimisse e cuidasse da casa como fazia anteriormente. Eu e ele sabíamos que desde o surgimento deste Donald, este inglês safado, eu perdera completamente senso e noção de muita coisa e que depois da morte de tio Adamastor seria injusto para tio Antônio cuidar de mim além de cuidar de Sofia.
Eu teria que me virar com o ex-cunhado, mesmo se Dee Dee me voltasse com o maior dos desgostos desde Médici, coisa que eu passo a temer e brevemente contratarei um advogado mesmo com este clima no país não me proibiriam de conhecer o diabo na vida de mãe mesmo que minha também para o governo fosse uma diaba de esquerda, pensando bem, tomara que este desgraçado seja da Internacional Socialista… Pensam que já não ouvi falar da Dama de Ferro?
Bem, amigo Altemar, desculpe-me novamente os desabafos, mas, que bom que o senhor apreciou o trabalho de Juca Dendê! Não adiantei o assunto inteiro ainda. Foi esta tática que usei para eu conseguir novos manuscritos direto das mãos dele.
Aqui está uma série de textos ensaísticos sobre a poesia, interessante como o Juca tenta com que o leitor confunda este estado poético com um estado de direitos e deleites, nada mais ousado para os tempos correntes, não acha?
Eu fico aguardando sua resposta, enquanto aguardo um advogado, meu ex-cunhado e minha irmã reaparecer das insanidades e, quem sabe, Dee Dee? Donald?
Acho que aguardo estas coisas mais que a própria democracia! Entenda-me por favor!

Com atenção,

Acredito haver um estado poético. Não necessariamente associado ao ato de escrever. Acredito na possibilidade de escolhermos viver ou não neste estado. Os perigos já nos foram alertados por predecessores que anteviram realidade e ficção se amalgamando. Há hoje entre nós uma insatisfação inexplicável e inqualificável a ponto de não se sustentar como tal. A menos que seja admitida a hipótese de ruptura com nossos próprios processos narrativos.
Acredito ver na mulher um ser mais apto a externar sentimentos em seu semblante e em sua expressão corporal. Isto é de certa forma estar em algum processo poético Isto, no entanto, este objeto de poesia no corpo feminino, como qualquer outra forma de abstração, é passível de ora ganhar contornos, ora adentrar-se em limbos capazes de nos sufocar.
Sou um homem feliz em constatar estas coisas.
Já os homens são criaturas mais planas no que se refere à linguagem do corpo. Mas no signo masculino o que não é corpo ganha abismos indizíveis.
O que nos leva a crer que, neste encontro de macho-fêmea, existiriam muitos espasmos e silêncios e se torna admissível uma bipolarização das tensões deste jogo entre ambos que se tornam reféns do espírito.
O estado poético, desta feita, não liberta, de certa forma escraviza.
Todas as sensações libidinosas de um corpo humano são filhas de um mesmo estado essencial, primordial de poesia e elasticidade estética.
Os corpos são modelados maleavelmente em sua síntese de amor, de gametas e pensamentos.
É a mesma energia criativa que lança a letra em nosso modo de narrar à experiência vivida. A ruptura no modo de narrar é uma espécie de afirmação em ressuscitar caminhos abortados. De adotar revivescências e de abolir a administração de ressentimentos. Esta é uma forma poética plausível num universo duvidoso de outras formas.

Acredito que somente os budistas chegam próximos ao que conseguiu Alberto Caeiro. Eles sempre parecem nos aceitar os fatos assim como eles o são, sem lhes alterarem nada, tampouco sem alterarem a si mesmos.
Mas posso estar equivocado, e se assim estiver, estaria a justificar todo o desacerto da poesia ao exemplo de seus flertes desvairados com os físicos quânticos.
Chamaram Caeiro de materialista e logo depois vieram a poesia concreta, a teoria do não objeto e os construtivismos.
É tudo um movimento muito parecido a sexo, que ora cede e recua, ora avança voluptuosamente, assim como foi a marcha das revoluções que não mais se vê e não mais toma corpo em parte alguma.
Já a poesia, precisa ganhar corpo?
Como em todas as analogias quaisquer corpos precisam inicialmente do atrito anterior entre dois outros corpos para que se crie um terceiro, isto quando não se duplicam em replicantes constantes matemáticas.
A poesia é um corpo em anomalia que toma forma quando estamos a copular com outra fruição destituída de corpo?
Estamos a lidar com uma matéria rarefeita, refratária, e que quando ganha nosso intuir é como combustão?
É um atrito causado por afinidades eleitas sem muito senso ou critério.
Mas o que estamos a fazer então com a poesia? Estamos por colocar Alberto Caeiro numa quimera cartesiana e a zombar dos budismos? Estamos por afirmar a carne do verbo e a testemunhar os milagres daqui do ocidente?
Acredito ser apenas um indício de retração na geologia dos poemas por escrever. Este tom de retorno, de reminiscência, não faz do ciclo da poesia um ciclo propriamente dito.
Estamos falando de um ciclo incompleto de matéria e desejo, bem no vácuo das antiguidades humanas.
Os fatos então, podemos concluir, não são uma atribuição humana, são desdobramentos metafóricos que nossa simples presença causa em nossas instituições. Que, por sua vez, possuem caráter ilusório.

Humano, demasiado humano! Ah Nietzsche! Todas as metonímias infinitas em suas possibilidades de serem criadas e soarem tão ínfimas representações de todas as vozes que, se fizeram ecoar como som depois palavra. Da mais rude metáfora ao mais complexo postulado, nos perdemos no mesmo solo da primeira besta fera.
Nós, últimos homens? Mensurando todos os tempos, julgando-os, classificando-os, catalogando-os, mas, principalmente, equivocando-os nas metonímias intermináveis.
A imagem, que passa de representação pitoresca a espectro fiel e exato, ainda não ultrapassou seu tempo de ilusão espelhada da realidade.
Existem formas que não cabem na imagem e estão fadadas ao enfadonho grunhido de uma besta de primórdios cujo inferno não nos afasta de uma condição ideal de absurdos animalescos, depois palavra.
Capturando a imagem, interpretando-a, focalizando-a, desorganizando-a de linearidades, violando-a em metáforas, depois palavra e simples associação cognitiva.
Ler a imagem como fato, posterior às invenções que, depois dela são armadilhas, são jogos errôneos de sintaxe, são a morfologia dos truques do ilusionista.
Imagem, fato, realidade, metonímia, metáfora, absurdo, poesia.
Assim decompomos a língua numa experiência eminentemente ocidental em sua acepção, para nós, o único meio e a única saída para a palavra, ou simplesmente um gesto de tentativa de entendimento acerca deste universo falado e escrito.
Exaurido de Novas Jerusaléns, farto de geografias, cansado de ser mapeado em etnógrafos e de ser mutilado em doutrina, contradito no poema, exaltado no poema, exalado em todas as bombas.
Será gritado por todos que carregarão paus e pedras depois da hecatombe. Humano, demasiado humano. Depois palavra. Para alguns filosofia.

O estado poético não é o estado da poesia em termos reforçados atualmente como em toda sua trajetória pela diversidade das culturas. Há uma constituição do objeto em si que arrasta todas as inquietações e imponderabilidades que se justapõem à condição física do poema. Bem como há constituições superpostas ao seu corpo feitas de uma sobrecarga emaranhada de sentidos, em domínio público e em inconscientes coletivos.
Mas a todo corpo devemos pressentir seus desdobramentos no espaço, seus prolongamentos em determinados territórios e suas áreas de atuação e influência, caminho arenoso, diga-se de passagem.
A imprensa produz fatos com o evidente crivo de eliminar-se a indignação plana dos acontecimentos. Ou tornamo-nos revolucionários, ou tornamo-nos intelectuais, mas há uma terceira margem.
O prolongamento, já um pouco distante do objeto de origem é matéria poética também e o desdobramento de algo acontecido pode ser compreendido com didática mesmo que em forma de poema. Criando-se assim, em torno dos fatos, uma atmosfera poética que lhes melhor convir torna-se provavelmente uma elipse inflada inapta a reproduzir fielmente sua imagem, convertendo-se em uma forma pervertida e pernóstica de sua cópia anterior ao objeto poético, subversivamente tirando-os de suas corriqueiras obliquidades.
A projeção do fato narrado sob o estado poético é decantada, desconstruída e imaginada como uma espécie de corpo sem forma, que justifica e ordena a si mesmo.
Ao trabalhar o desenho e o conceito de forma concatenada tenho uma pequena consideração. Se o livro fosse o corpo humano, este seria a sua aparência como objeto.
E a forma obviamente seria sua aparência como silhueta.
O estado poético, estando a servir a quem escreve, sempre trará respostas relevantes e dúvidas perigosas.

Estados e constituições, tanto nos usos triviais, quanto dos mais irrestritos desta palavra, deveriam estar a serviço da geração dos fatos, anteriormente a serem, considerados mentira ou verdade, e sempre terem seu destino indistinto de consumarem-se. Sinceramente, vejo presunção em quem determina a que se sujeita este e a quem ele deveria ser remetido. Nasce então uma acepção de que o fato interessa a todos, portanto seria dever e direito de todos, produzirmos e consumirmos fatos igualmente. Questiono isto.
Temos satisfações a cumprir unicamente com aquilo ao qual nos comprometemos realmente. Se quiséssemos, poderíamos perfeitamente, nos servirmos de uma espécie de autoengano em nome de estarmos servidos de uma informação, oficial, extraoficial, exclusiva e com muitos outros adjetivos ilusórios.
A manipulação dos fatos sempre gerou mudanças em sociedades e culturas das mais primitivas às mais classicistas e de maior vanguarda em qualquer aspecto.
São massas que se movimentam no ensejo não apenas de poder, e talvez no seu desejo mais fútil de veleidades inócuas, o resto obviamente podemos chamar de genocídio.
O efeito do movimento deste corpo é a criação e sua imediata reação mesmo que numa faceta de silêncio de outra massa capaz de contestar autoritarismos. Algumas sobem ao poder cujo jogo é de também torna-las autoritárias. Outras adquirem resistência esta é tanto ideológica quanto do próprio corpo físico que esta ideologia toma para si. O medo do poder de estados e constituições de nossos objetos torna-se uma flagrante arbitrariedade de aflições.
Impossível não imaginar o estado poético agindo aí, mesmo que, gaseificado entre os corpos na multidão, com o risco e o perigo que sempre lhe couberam, além é claro de sua face doce de ninfa ou serafim podendo ser adulterado em androginias inevitavelmente modernas.

Aonde seríamos bons produtores de fatos? Factoides? Iriamos ao fato onde este estivesse? Ou este viria até nós voluntariosamente? Com qual sentido este fluxo aconteceria com mais frequência? Precisávamos realmente responder a estes questionamentos?
Produzir fatos é o mesmo que narrar? A narrativa está refém dos fatos? Estas perguntas me parecem mais pertinentes que as antecessoras.
Como em Caeiro os objetos possuem apenas existência. Para o poeta este parece ser o único fato inquestionável e tudo mais que nos recaísse teria a sombra infalível da dúvida.
O estado poético não traça desvios desta percepção, pois, mesmo que haja uma atmosfera delirante sempre a rondar o estar no mundo como estado poético, este simplesmente se alimenta de seu objeto ou de sua perda do objeto.
Atualmente perdemos mais objetos que os criamos com regularidade. Devo culpar isto à fábrica de fatos que assistimos, por exemplo, a fabricar indignações improdutivas que domesticam as ideias e plastificam os questionamentos. Pois o mesmo fato não se desprovê de suas amarras com a própria situação de calamidade da qual ele irrompe e ao mesmo tempo está infinitamente unido.
O estado poético revê os objetos ou sua ausência e lança um modo de abordá-los completamente desassociado da semântica deturpada que o exagera por meio do que o fato produzido lhe entregou na bandeja.
A perversão no debate sobre a existência de fatos no objeto ou na sua falta é uma atribuição exclusiva do estado poético e da massa que o movimenta, ao contrário de ser ele próprio a se movimentar e a distribuir partes de sua massa a quem quisesse, “manufaturamos realidades”.
Este corpo adquire signo, silêncio, palavra, som, fúria.
Bem como das reações tomadas como consequência de engodos e qualquer tipo de desfaçatez ao que são comumente submetidos. Esta é uma hipocrisia a qual se submetem todos os povos atualmente e com resignação, a propaganda que troca a mercadoria mentirosa pela mentira de seu comprador.
Para o estado poético, a negação destas ideias, não poderá também se tornar um fato, existe aqui uma cisão entre o poético e o revolucionário, quando a ideia de negação se transmuta em fato este passaria ser então ideologicamente, o único fato verídico existente. Aqui se dá também, a divisão do poético com parte do ideológico, a outra parte que permanece é a ideologia que se especializa em poesia, ou seja, a sua metalinguagem.
Nossa história narra estes termos de maneira diferenciada. Geralmente uma atribuída à tomada do poder em hora e lugar marcados, outra a uma investigação duvidosa que sempre muda seus métodos de pesquisar material que lhe suprima.
Isto, a meu ver, não é obstáculo para que prossigamos com o estado poético. Nem o suficiente para que paremos aqui.

Para dar prosseguimento à sua investigação duvidosa, evidentemente, o poético, precisaria de sua matéria. Esta não está apenas em todas as coisas dadas como existentes, não se iludam! Alberto Caeiro nem sempre está com a razão, aliás, quem argumenta, sempre deve andar com um pé atrás, ao que diz este poeta, feita esta ementa continuemos, além de haver na poesia a inclusão do absurdo, do fantástico e do fantasmagórico, este se incorporam a ela somente na condição de instituições inexistentes justamente para diferenciar a poesia das instituições que existem efetivamente, portanto, a poesia põe um pé na mentira e outro em Caeiro.
De todas as coisas ou situações hipotéticas que habitam nosso mundo, mas se dão mais com o poético talvez seja mais importante citarmos o tempo.
Esta abstração usada para medir vida e memória em fluxo contínuo e provir sempre incerto nos levaria a loucura se, além de soubermos que ele é inexistente não fosse também instintiva a sua contagem precisando até mesmo dos algarismos para seu cálculo.
A datação de um texto poético permite com que o tempo deixe acumular muitos sedimentos a ele. Sendo assim, o estado poético, evidenciado em texto é testemunha do tempo e acaba por instituí-lo, testemunhando também a vida e seu fluxo de razão e sensibilidade nas medidas mais naturais e viscerais.
Isto não é apenas algo inteligível conceitualmente, isto é um fato, o tempo torna o poético em um fato além de suas atribuições anteriores. Antes de verdade mística, cósmica, é um fato, fato este destituído do primeiro som que o inaugurou. Por presumirmos o urro diabólico, inventamos e reproduzimos sons, ruídos até mais desagradáveis a serviço da grande máquina.
Mas nada se deve comparar ao silêncio ensurdecedor das consumações, para dizer, na cinza das horas e no pó de nossos dias, nós, os últimos homens, com o sedimento que deixaram em todos os nossos vestígios textuais. Nós, os últimos homens, sedimentados pelo estado poético reminiscente, fossilizado em nossas culturas cegas de rituais repetitivos pelos elos seculares que nos unem as humanidades anteriores.
Algumas pérolas surgiram sem se avisar, e assim seremos recodificados, redesenhados, de nossas condições eternamente provisórias.

O que é provisório é a condição. Já a instituição é ilusória. O estado poético precisa definir aqui um antagonismo. Os atos instituintes, por mais que o argumento lhes expliquem inéditos, tem em sua vanguarda uma imposição do imponderável em sua estranheza de aplicabilidade. Sem que se estabeleça qualquer estudo, evidencia-se sua praticidade na vivência de quem está submetido a eles.
Já a condição de provisoriedade, não bastasse sua maior maleabilidade, flexibilidade não se isenta de si nem do empirismo da prática autoritária das imposturas, mas, para, além disso, e para além de si mesma, traz consigo vivências compartilhadas como experiências viáveis.
Esta troca de empirismos gera forças demasiadamente contraditórias. Tão gritante polifonia de dissenções que nosso sistema ocidental corrompe em propaganda e não se justifica representativamente dada a dinâmica cada vez mais acintosa dos jogos de poder.
Céus, tamanha falácia! Até onde nos levaram estas representações cegas, loucas e paranoicas.
O estado poético está de mãos atadas e sofre ataques de quem também se opõem às cartas marcadas, mas o acusa de covardia.
O que pode a poesia fazer além de tratar desta realidade da qual nossos donos do mundo tratam como ficção.
Atentai-vos todos para esta inversão de papéis. Estes papéis protocolam a manutenção de um estado ganancioso, porém, mais apático que outrora e sempre mais apático que o uivo da poesia.
Qual é o jogo da palavra? Tornar-se outra amanhã? Parece-me que os tecnocratas foram mais espertos ao aprenderem conosco.

Quais são as cartas do jogo democrático além de ser enfiado goela abaixo no oriente e no leste assim como decretam ditaduras na América do sul? Não há jogo! Não há jogo, mas há regras: o respeito à própria democracia como soberana, como várias democracias que a democracia propõe ao globo e suas inúmeras faces de códigos de censura, sua violação desarvorada de identidades e seus segredos certamente vexatórios e infames. São empáfias que o mesmo tempo que sedimentou a poesia nos trouxe. Será necessária uma elegia das próprias vísceras que venham do esgoto e de todas as negações deste sistema, será necessária uma ode aos ratos e que se deixe de limpar a sujeira para os subterrâneos, lá para onde sempre habitaram nossas tormentas e nossos pesadelos.
Este câncer retro alimentício não deveria contar com a resignação, a aquiescência ou concordância de nosso estado poético. Devemos estar para a discórdia assim como cristo, assim como Stalingrado. O vermelho bolchevique? Sim o vermelho do sangue! As brancas neves de Greenwich? Sim o enxofre de todos os belzebus.
Satanás e exus que venham a minha poesia quando me vêm falar de ditaduras, mas, da mesma maneira como quando me dizem democracia.
A janela do poema está muito próxima à janela vizinha, minha detratora, minha delatora, meu capitalismo disfarçado para que eu pense que é vizinho e já não pode ser. Pois é meu traidor. Ah meu estado poético de desgraças e tragédias!

Mas que me interponham a mim meus arcanjos quando eu estiver pronto de sílicas e cianureto. Que o que é mesmo veneno é também a cura indolor, inodora, celestial, insípida, infernal. Impossível pensar os dois em separado. Crença. Especulação. Especulam capitais enquanto eu especulo arcanjos. Cansei-me e talvez fosse um alívio de uma santidade qualquer. Abrandei minha ira. Contemporizei minha fúria. Domestiquei os descalabros. O estado poético é pai e mãe, mesmo se não tivessem vendido a casa. O estado poético é a prole que não julga suficiente o pai. O estado poético é a amante, com a mesma percepção dúbia da poesia de encantamento e estranheza. O estado poético é madorna, é mazela dos sonhos inalcançáveis, no mínimo, bastante improváveis. É em suma estar em outras matérias, outros fluidos, a fim de fruir outras benfeitorias.

A palavra democracia vem sofrendo distorções semânticas ao longo desta época que deturpa praticamente tudo. Não tratemos aqui de sua etimologia, o fato é que
nos dizem que as instituições precisam ser fortalecidas, como?

Se sabemos que as instituições referidas trabalham pelo superávit primário, pela
guerra no Iraque. Bem, a César o que é de César, não falemos muito no âmbito
“restrito” da política. Sabemos também, que tudo que o ocidente inventou,
embora válido para representar o povo, nunca sequer representou um único ser que
pisou a face da terra.

O ser, em sua totalidade, nunca poderá ser representado. Ele é a representação.
Portanto, o ser atua mesmo não sabendo ou não querendo saber.

Conclusão: se quisermos outras democracias (como as do olhar, dos gêneros, da comunicação, do posicionamento ou mesmo do distanciamento) enfim, a democracia de todas as loucuras precisou saber que sim, agimos no espaço e no tempo e que, querer o gesto ante a covardia de outras dinâmicas, circunstâncias, ou outras forças (muitas impostas) mesmo que seja ao atravessar uma esquina ou fronteiras não tanto geográficas.

Nós, nem eu e nem você, nós, temos que entrar ou sair, que seja então com todos os
efeitos de responsabilização que isto implicar.

Atravessar, esse verbo que também é da família do substantivo abstrato travessia. Usemo-lo assim: atravessar uma ponte… O que seria uma ponte? Uma coisa um objeto que une um lado ao outro, uma distância a outra (antes separadas). O que fazer quando o outro lado nos é negado chegar? Ou quando nós mesmos nos negamos a voltar o lado conhecido, o lado anterior.

Estamos ilhados em um espaço nada que se denomina usualmente travessia. Espaço nada, objeto de libidos a esmo. Situação comum onde não se sabe ao certo que o que se quer é o que já é. O que tem sido

Na ponte entre a razão e a loucura todos estamos no meio e já não sabemos qual lado é qual. Tomemos partido de um deles. Escolhamos dentre um deles ao sabor da sorte, mas, convictos.

Se não há razão que não negue a loucura, mas, se há loucura, que negue a razão e afirme que a loucura não precisa de nada que a afirme (como se pensa atualmente). Sejamos insensatos e deixemos que a loucura se afirme por si só. Vamos permitir isto por um mundo mais louco, sem prontuário.

Se houver dúvida na escolha do caminho a se tomar nesta ponte, neste atravessar, procure saber para que lado foi Jorge Romano.

O que é pior: Uma medicina que te aprisiona e te condena a um diagnóstico dentre tantos vocábulos inventados por ela e para ela. Ou uma medicina que não te diz nada sobre o seu saber? Isto são coisas simetricamente equivalentes.

A medicina se impõe. Mas, o que é melhor: querer saber ou não querer saber? O que é pior: acharem que você precisa não dizer nada quando dizem que você não precisa dizer nada ou quererem que você diga a todos tudo que eles dizem para você?

E o que dizer deste outro vocábulo: o prontuário? Será ele uma prova cabal de que a medicina se preocupa em dedicar as anotações nesse utensílio às coisas que você profere. Você prefere? Ou será o prontuário a confirmação de que você precisa ser estudado, e o que ali se escreve é bom e imprescindível que você não saiba uma vírgula?

Seja como for, lendo isto, seja como nós: loucos sem prontuários.

Estamos no limiar da questão entre os que optam por serem anônimos e os que assumem a sua posição por ideologia. E o que queremos? Nenhum dos dois. Se porventura descobrirem sua psicose, seja um árduo defensor dela (você não conseguirá viver com esta ausência). Acaso nada seja descoberto, trabalhe discretamente no sentido de colocar mais loucura nas coisas. Mesmo que implicitamente, mas, no cotidiano, será válido.

Insensatez deve ser algo libertário, desprovido de razões muito gastas. Não vá aceitando
que apontem a você justamente esta falta. Sei que ao incitar-lhes a queima de prontuários estarei a colaborar com a medicina para que ela te interne. (que classe enigmática!).

Mas, pelo menos não aceite ou compactue com nada em seu prontuário, assine você
mesmo a alforria do diagnóstico.

É importante dizer que a fala da loucura difere um pouco de si mesma quando o assunto é produção artística do que quando se está oficialmente fazendo política. Evidentemente, é impossível fazer arte sem tomar partido político de algo.

Porém as formas de representatividade que a sociedade criou são válidas embora ineficazes o bastante para representar um ser que age. Age principalmente de maneira individual porem com inevitáveis repercussões na coletividade.

Portanto, nada representa melhor esse ser que ele mesmo, obviamente. A sua totalidade ( se é que podemos restringir um indivíduo a uma totalidade finita ) embora talvez por instinto animal, este elemento quer sempre o que é e o que ainda não é seu sem fazer distinções, a coisa passa dos limites do eu para o nós.

E como se dá isto? Enquanto na articulação política, estas fronteiras precisam passar por uma interlocução ( que nada mais é o que foi tido como convenção ou instrumento para que a vontade da maioria, ou mesmo a minoria com sua representação, seja garantida com a representação legitimada); na produção cultural e sua intimidade com a loucura não é necessária a interlocução. Melhor dizendo, a interlocução é a própria obra, com o mesmo e indispensável artifício da linguagem ( algumas vezes apenas implícitas ).

Com a obra não se precisa dobrar a convenções mesmo que estas sejam a própria abordagem, o próprio objeto, em jogos semióticos. Pode se passar do um para o todos naturalmente.

Concluindo: as convenções foram construídas, as artes vem sendo desconstruídas, mas o que ambas precisam é que as formas e forças que as impelem sejam destruídas.

É bem sabido que o teatro teve como seu berço a Grécia antiga. E é bem sabido também que primeiro veio a tragédia, que, por questão de conveniência, tinha como personagens reis e nobres. E, que um pouco depois surgiu a comédia, que também por questão de conveniência só tratava da plebe.
Demoraram-se alguns séculos para que as manifestações artísticas entenderem que para serem universais. Teriam que falar do ser, apenas.

Mesmo assim, do renascimento pra cá, com plena evolução do humanismo, ainda há distinções, haja vista as situações de nosso país.

Uma das coisas que mais nivelam a humanidade na mesma vala é algo que o teatro adora: o delírio. Quantos já se consagraram com monólogos delongados encenando apenas delírios.

Stella do Patrocínio inova neste ponto de vista com sua poesia de corpo presente, com seu fazer refazer poético num lugar de constante repaginação de ideias, inova principalmente por que representa seu próprio delírio.

Corpo delírio pausa teatro. Embora como não se possa dizer sobre o que Stella fazia e não nominou. Também não nos caberia nomear. Mas é inegável e ao mesmo tempo impossível dizer de qual consciência estamos observando e qual o grau de implicação do sujeito Stella com a fala, seu objeto.

Ferreira Gullar já dizia da relação da poesia e sua fragilidade com a imensidão da existência. E questionava esta pequenez diante de tudo que resta. Resposta: tudo o que resta também é poesia ou melhor dizendo, a única poesia.

Stella soa como um grito já ofegante e asfixiado, mas, também como um sussurro para quem acredita que mesmo de onde ela esteve tornou-se possível sua obra, por fúria e por necessidade.

Stella atuou no mundo como se soubesse que ele fosse teatro, fosse representação. Por fúria e por necessidade.

É um estado normal
Corriqueiro, trivial
Às vezes pedante
Mas de muitos ritmos
Prosa mole
Prosa fiada
Prosa ruim
Prosa
Rosa de Guimarães
Cujo João desaparece
No nada
No vazio
E retoma a fala
Como se estivesse
A fechar um livro
A fechar Ulisses
E querer almoçar
E querer se calar
Com a boca de feijão
Era só feijão
Feijão
Querer engraxar as botas
Sob os ensinamentos
E os cuidados de um pai
Que já bateu as botas
E eu sou como um Judas
A me perder
Retirante
Errante
De causas impossíveis
Retirado de qualquer poesia
Sem chance de sê-la
E de tê-la
Pois sou prosa
Prosa de amônia

É tudo uma asneira
Muito grande
Uma baboseira
Muito elegante
Eu me estudei
Bastante até chegar aqui
E é tudo
Uma babaquice
Do mesmo tamanho
Da pata de um elefante
Sem tamanho
Sem nome
Tudo no mundo
Foi feito pra ser
Sem tamanho
Sem nome
Tudo no mundo
Foi feito pra ser
A eternidade
De uma prosa
Irrelevante
Tudo no mundo
Foi feito pra ser
Irrelevante
Irritantemente
Irrelevante
Desimportante
E biodegradante
Coca cola
E água de cheiro
Boticário
E mate couro
Tudo no mundo
Foi feito pra ir em frente

É tudo conversa
Caí
No conto do vigário
É tudo conversa
Como se descessem
Cataratas
Do Niágara
Caí
Fugi
Desse papo
Viagra catuaba
Eu brochei mesmo
Na hora
Em que eu acabava
Eu me acabava
Acabamento ardósia e bricolagem
Acabação de Dolores Rodamunho
Eu acabava
De te jogar
No um sete um
De me jogar
Ao relento
Na hora de jogar na mega sena
Conversa fiada
Papo furado
Estelionato
Latino americano
O bom pastor
E a propina
Debaixo do pano
Cai o pano
O bom samaritano
E a batina
Sabatinada pelo rebanho
Crucifica-o
Prosa
Só prosa
De curiosos
Observando o acidente
Caminhão cegonha
Engavetamento
Ávidos todos por novidades
Confabulando
A mesma rosa de sempre

Clotilde Alvarenga e senhora C.
Não são a mesma pessoa
Mas
Clotilde Alvarenga e senhora C.
São a mesma pessoa
Eu minto e desminto isto o tempo inteiro
Eu falo em você o tempo inteiro
A mesma impossibilidade


Eu hoje não fiz nada
Apenas dezoito poemas duvidosos
E senti raiva
Obrigado a mim mesmo
Por me fazer sentir raiva

Ouro Branco, 15 de março de 1980,

Tio Antônio,
Obrigada por acolher Sofia em sua casa. Realmente deve estar melhor. Acho que ela exorcizou um de seus maiores demônios ao excomungar o coitado do Ananias… Ela sempre foi recalcada com meus amigos todos maconheiros.
Toda a questão familiar que nela aflora os passados tristes estou também por colocar um fim, pois que desmascararei Dee Dee com este ridículo senhor que ela inventou… Ora não tenho mãe nem pai, irmã não devo ter mais, o mesmo com amigas, hubbard se foi, tio Adamastor se foi, não tenho marido, pois que não será do outro lado do atlântico que conseguirão destruir meu recomeço.
Ananias me incentivou a escrever como homem, pela primeira vez me veio o gênero poético. Que aqui revelo apenas ao senhor em anexo.
Um beijo!

Eu era um corrosivo opositor
Às ideias mais tristes
Eu era uma alegria
Farta por ela mesma
Até que um dia o aluguel venceu
Cortaram minha luz
Cortaram telefone
Estou sem jeito
Eu era com muito jeito
Poderia passar
Em frente ao boteco do Zé Risada
Eu era a risada do Zé Risada
Hoje o Zé me fecha a cara
Eu não era meu sapato correndo
Atrás do pão com ovo
Do trocado na esquina
Eu era
Um compulsivo comprador de chinelos
Minha obsessão
Era por todas as cores
Minha predileção
Era por números maiores
Eu era meu pé confortável
Em chinelos folgados
Eu era minha preferência
Em usar chinelos largos
Nos quiosques
E nas pizzarias
Eu era essa bizarrice
Eu era ócio
Era alongar os dias
Eu era alongar os ossos
Os pés descalços na janela
Eu era o deleite
De um livro besta
Um filme à toa no pathé
Um atestado de quinze dias
Quinzena bocejando
Escrevendo poesias
Eu era esta negligência
E os cigarros
A fumaça que esvazia
Eu era esta covardia
Sexo às catorze
Televisão ( programa em reprise ) às duas
Eu era o seu perfume
O seu veludo
Eu era um cigarro
Entre os seus dedos
Era seus banhos
De rosa e leites
Reparadores banhos
Repara quanto manjericão
Em sua culinária
Eu era seu tempero
E depois do almoço
Eu era sua varanda
Varando noites em cirandas
Eu era seu alpendre
Eu era as plantas de seu alpendre
Alvejando lavanda e silêncio
Eu era sua casa
Eu era o ópio
Decidindo que os fuzis
Disparariam flores
Psicodélicas
Concluindo:
Armas somente
Disparariam o coração
Em flores sorridentes
Eu era o chá
O alívio dos indigentes
Eu era a noite e a aguardente
Aguardando o sol
Eu era o sol em seu pingente
Era sentinela em céu corrente
Ao léu
Eu era o ópio
Eu era sentimental
Isto que não nos cabe mais
Não me diz respeito
Que fosse relevante dizer
Eu era um idealismo
Que não me coube ocidental
Não me viu raiz de aquário
Fruto de cisões no plenário
Eu era o canto que cansou
A flor que um distraído pisou
Não me mereceria um poema
Eu era a contradição
De pão e sentimento
Razão e fermento
Que nos progrediram mais
Eu era esta constatação
Eu era o ódio
Praguejando revoluções
Esbravejando maldições
Eu era este visgo de redenção
Hoje não tem mais remédios
Eu era uma esperança
Era leal
Hoje não tem
Quem não seja previdente
Não preferem São Paulo
Nem o Rio de Janeiro
Apenas têm medo
De morrer sem dinheiro
Eu também era o medo
Desta minha coragem
Quixotesca
Era Cervantes
Era Darci Ribeiro
Eu era a orgia
As celebrações pagãs
Eu era este incenso
Queimando o inócuo
Essas coisinhas bobas
Eu era este canto de mulher
Cantadas
Serenatas
Serem natas da lua cheia
Serem nada
Eu era o leite gordo
Pingando colostro
No esterco
Na invernada
Eu era esta coisa vã
Eu era o engano
Era este desengano
Do engano
Esta desilusão
Da ilusão
Eu era sua própria enganação
O engodo predileto
De muitos
A indagação
Antes de abençoarem as águas
Podiam ser ex-votos
Podia ser esgoto
Eu era esta dúvida
Eu era um pseudo-intelectual
Duvidoso
E ciente deste pleonasmo
Eu era o óleo vazando
A gasolina
Eu era o óleo de júbilo
Em sua cava genital
Eu era cretina
No seu desejo de roer as unhas
No seu delito de pintar o rosto
Eu era a brecha
Que encontrei em seus meandros
Eu era seus antros
Eu entro em seus mantras
Eu era a vela queimando
Anunciando
Vaselina
Eu era a mão no escuro da saia
No escuro da sala
Embaraçando cabelos seus
Eu era na lousa
Algo que já tinha sido
Eu era quem ousa
Alguma coisa já lida
Eu era quem repetia
Eu era quem pousa
Na sua libido
Era um pouco inibido
Depois piorou
Eu era só um gemer
Um suor aflito de gozo
Um suor de tempo ocioso
Eu era uma coisa
Em espera
A mim ser atribuída
Mas o IRA reivindicou
O atentado
Eu era um lapso de cores
Um leque de esquecimentos
Eu era uma gama dolorida
Eu era um gomo de tangerina
Um tomo do Jogo da Amarelinha
Um tema para valsinhas
Obscenas
De lingerie curta
Eu era uma rama de murta
Um ramo de alecrim
Um remar no seu jardim
Eu era um lobisomem juvenil
Eu era o veneno
Eu era a convulsão
O biperideno
Eu era a combustão
O nazareno e o iscariote
Eu era a confusão
Nos olhos de vidro
De polietileno
Eu era um verme
Um mal pequeno
A transfiguração
E a transformação
De tanto
Em muito menos
Eu era o verbo
Em outro idioma
Em outra língua
Eu era o beijo
Em outra boca
Eu era porra loca
Sem orifício
Eu era nenhum ofício
Mas isso me ajudou
Em eu ser o que eu era
Pois
Eu era a vista
Em outros olhos
Outra visão
Para visões em transfusão
Eu era vestir o vermelho
Eu era o rio
Eu era exu secando o rio
A carcaça dos animais
No cio dos urubus
Eu era trincar espelho
O sangue
Eu era ferida no espelho
O sangue rolando macio
A cocaína
Eu era ela em minhas fossas nasais
Cheirando lâmina
Arranhando espelhos d água
Eu era um corte na carne
Na água
Eu era magenta
Eu era oliva
Eu era o verde
Esquecendo seu orgulho
Saboreando seu orvalho
Amanhecendo uma ogiva
Explodir manhãs quentes
Eu era um plano suicida
Eu era parasita
Da própria vergonha
Da maconha alheia
Eu era a elegia
Mais cinzenta em Artaud
Eu era
Uma ode aos desmaios
Um éter aos insetos
Eu era meu incesto favorito
Eu era sua maior tragédia
Sua melhor piada
Eu era o berrante mudo
Depois do aboio
Depois do abate
Eu era um abatimento
Um preço alto
Uma pechincha para a carne
De churrasco
Era padre professando ressurreições
E carne apodrecendo o verbo
Eu era o verbo carne estragada
Carne de segunda
Frango de domingo
Eu era um pouco do Brasil também
Eu era um pedaço de chã de dentro
Eu era o mundo novo
O que ainda não veio
Eu era seu maior receio
O mundo partido aos dois
Pedaços sem recheio
Eu era a união
Depois das bombas
Do pão de centeio
Eu era açúcar de confeitaria
O batalhão de infantaria
Eu era sua barriga grávida
Depois do aborto
Eu era todo seu asseio
Todo seu assédio
Por coisas que não nos levam
Lugares alguns
Eu era o mundo novo
Eu era a louça
Que você partiu
Em sete cacos de destino
Eu era este desatino
Era o mosaico
De louça pontiaguda
Fixada na parede
Em formas assimétricas
E em cores aleatórias
Eu era este aparato
Era sem função
Era este artefato
Eu com fabricação caseira
Eu era o senhor
Jogando o jogo da dama
Eu era o xadrez
Dos meus pijamas
Passei a usar mais
Aventais
Por cima dos pijamas
Depois quando eu era aposentado
Eu era uma descoberta
De perfumar as roupas de cama
Eu era o senhor
Depois quando eu era aposentado
Eu era seus ais
Eu era esta trama
Eu era este colapso
Eu era uma vez este colapso
Depois fui surto mesmo
Mais uma vez fui colapso
Logo após esta doença poética
Eu era um remédio
Minha voz
Pedindo licença
Era um remédio
Aparentemente sem contraindicações
Mas então vieram
Os efeitos colaterais
Trago de antemão este aviso, portanto
Possuo efeitos especiais
Mas não me usem
Associado ao álcool
Ou outras drogas lícitas
Eu também era isto
Eu era o que estou fumando
Eu era o experimentar este fumo
Eu era a tabacaria inteira
Eu era um poema
Entre nuvens de fumaça
Eu era o enfisema
Em fumaça de poesia
Brasa de verso
Queimava na língua
Eu era o verbo
Derramar
Então eu derramava
Eu tão eu declamava
Eu era este derrame
Eu era o desfazer da minha barba
Em endereço fixo
E em revistas de filosofia
Eu era um diálogo quase permanente
Quase pertinente
Com filatelistas transoceânicos
Eu era uma dialética com filólogos românicos
Eu era tudo isto ao salão da barbearia
E em outros assuntos
Eu também me embebedava
Eu enveredava confusões
Eu também era minha barba feita
Eu era quinta feira
Já tinha sido cinzas
Já tinha sido paixão
Já tinha sido adventista
Eu era um jeito de não descansar
Aos domingos confeitava um bolo
Com sumo de limão
Confeccionava bombas
E ia alfaiataria
Ler os jornais distraído
Os jornais esquecidos
Entre moldes de risco errado
O horóscopo de quinta-feira
Tiros certos
Eu era um homem
De desfazer silêncios
De ordenhar rochas
Encher a praça
Parar ventanias
Chover cantorias
Cessar meu cantochão
Minha litania
Abri um verso em cores
E me calei nas cores
Mas antes
Reuni plateia
Reuni palanque
Arrastei multidão
Até o palhaço mais próximo
Sorri a ideia do choro

Ouro Branco, 27 de abril de 1980.

Prezado senhor Afrânio Cataguazes

Escrevo recomendada pelo senhor Ananias Penaforte, em sua mais elevada estima, a fim de submeter meus escritos ao seu crivo, bem como, todos os editores da Revista Literária Entrelaço no desejo de publicá-los nesta iniciativa benemérita das causas literárias.
Desde já agradeço os cuidados.
Saudações.

O ônibus já ganhava a estrada, já se inundava do habitual cheiro de pasto queimado pelo inverno. O ônibus já ganhava a estrada, e já estava eu indo embora mais uma vez. Como se nunca tivesse voltado ou como se estivesse fugindo de novo. Sem quase nenhum refugo. O ônibus ganhava a estrada. Poderia eu estar voltando, em definitivo, com um diploma e planos para abrir um consultório ou um escritório (como ali se fazia). Porém naquele lugar “tudo em mim foi naufrágio”. De lá até os dias de hoje encontrei várias vidas decepadas, outras se deceparam em meu coração.
O ônibus já ganhava a estrada e eu, como se levado por um rio dos meus primórdios até uma ilha. Outra vez, minhas sensações jogavam uma âncora nesta ilha. Algo de mim sempre fica nesta ilha. Nove quilômetros submerso num rio sem peixes. Num rio de árvores e vacas pastando de baixo d’água.
Uma faixa, alguns dizeres, selecionei aleatoriamente algumas letras (apenas as que a velocidade do ônibus me permitia). Esta faixa estava voltada para quem chegasse, e eu ia.
Quando me lembrei de que o ônibus passava em frente à casa dela, minha memória não me traiu.
Apesar de ter quase ficado com a âncora. Minha memória me valeu rapidamente, voltei à imagem da faixa ao avesso e lá esta o nome dela. A faixa para quem chegasse e eu saindo.
Mais uma vez na contramão, mais uma vez um desencontro ou um encontro às avessas.
Que dizia a faixa? Não sei. Mais uma vez eu saía pelos fundos. Como eu entrava? Como qualquer cão pedindo osso ou um pouco de calor. Um cão que sempre saiu pelos fundos!
Que diria a faixa? Alguma congratulação? Algum alento solidário? Que diria a faixa? Mais uma mensagem dela que não decifro? O ônibus já ganhava a estrada.
Depois de um rio, um rio de árvores e vacas pastando submersas, sentimentos submersos, uma ilha, um hiato, um cão, como se pedisse… , como se pedisse osso, um cão que saía pelos fundos…

Um homem surge aos poucos, mancando, subindo uma alameda de terra batida que dá para o antigo casarão em pedaços do finado Cícero, patriarca de um pequeno império: a única funerária de Mar de Garças. Todas as casas num raio de uns cento e cinquenta metros eram de seus herdeiros. Havia uma casa em que eu, Antônio, morava. E era a única que não fazia parte do patrimônio dos filhos do velho Cícero. Não por acaso, meu pai a vendeu para um deles quando minha mãe morreu. Desde então, eu nunca voltei a Mar de Garças.
Os postes ficavam longe do casarão que se escurecia em abandono. Muitos morreram. No passado, era possível ver netos e bisnetos de Cícero brincarem de olhar a cidade do alto, se revezando entre as janelas intercalando as vistas da cidade. Coisa que faço, agora, na minha primeira volta à cidade, sobrepondo nas retinas pontos de vista, pontos de fuga do lugar que fragmento em paisagens, por tentar compreendê-la neste banco anoitecido ao lado do velho casarão onde se fabricavam caixões.
O homem que surgia finalmente chega ao ponto de, lentamente, esboçar gestos no propósito de me reconhecer:
_ Dimas? _ o saudei.
_ Quem é?
_ Antônio!
_ Antônio?
_ Antônio de Eliseu…
_ Tonim?
_ É!
_ Você era um menino custoso… melhorou?
_ Estou tentando.
_ Tonim!
_ O que foi na perna?
_ Joelho… Trouxe esta vasilha para apanhar com minha cunhada um preparado que ela faz…
_ Melhora?
_ Ajuda… você entra?
_ Não, Dimas… Você ainda toca os sinos da matriz quando alguém morre?
_ Do mesmo jeito Tonim… Não entra?
_ Não, não, obrigado!
_ Até mais, Tonim!
_ Até…
Os sinos… Era fascinado com eles na minha infância. Dimas os tocava a cada óbito. A impressão que tenho é que Dimas os toca desde sempre, desde quando eu gostava de me sentar neste banco em que estou agora. E o silêncio da cidade nessas horas já justificaria o luto. A qualquer hora que o sino tocasse, a igreja matriz de Sto. Onofre era imponente, diante o casarão. Como não se lembrar disso. As escadas que Dimas subia, as escadas das torres, eram de madeira do século XVIII. Uma coruja riscou o céu piando e, planando rapidamente, ganhou as antessalas da igreja.

- Boa noite! É novo aqui?
_ É… Digamos que sim! Prazer, meu nome é Antônio.
_ É novo mesmo, nunca ouvi falar de você. Prazer sou Dimas.
_ Você é filho do outro Dimas?
_ Sim!
_ Não me lembro de você!
_ Nem eu…
_ Você ouviu o pio da coruja?
_ Sim.
_ Me veio um nome, uma imagem: “Katyuchas riscando o céu de Strawberry Fields”.
_ O quê?
_ É como uma metáfora entende?
_ Sim, mas não consigo ver significância nelas… O que são katyuchas e o que são strawberry fields?
_ Esquece…
_ Quer um cigarro de palha?
_ Aceito. Cheira bem, onde comprou?
_ Na venda de seu Zé Nonato.
_ Não conheço. É nova?
_ È, é sim. Bem, vou indo embora. Tenho que tocar o sino.
_ Mas não é seu pai quem toca?
_ Pai está debilitado.
_ Quem morreu esta noite?
_ De que adiantaria te falar, você não conhece nada por aqui mesmo!
_ Tem razão.
_ Até mais.
_ Até mais, Dimas.
“Katyuchas riscando o céu de Strawberry Fields!” A coruja piou novamente e ouviu-se também um grito de dentro do casarão:
_ Dimas! Dimas!

A porta rangeu novamente, como inúmeras vezes naquela noite. Os movimentos que fiz para cerrá-la, a fim de que o frio não invadisse o resto da casa (e dos indiferentes) não eram bruscos. Ninguém se lembra de quando a porta rangeu pela primeira vez. Mas isso, aos meus ouvidos, era uma lembrança de todas as vezes que ela rangeu. Havia uma fenda na parte superior.
Ganhou a varanda e fez tremer a cadeira quando se sentou e a empurrou com suas costas. Pôs o cotovelo na velha mesa e a mão no queixo. Tornou os cotovelos da mesa para os joelhos e uma mão no queixo. Rodin devia estar se remoendo em seu túmulo. Na mesa havia um exemplar de Mensagem. Ai do crítico que não considere esta obra a única epopeia moderna!
Pensou então olhando para aquela encadernação: eram três os reis magos, mas se fossem quatro? Se fossem zoroástricos? E se o oráculo deles lhes tivesse dito para seguir uma estrela e um discordou e foi seguir outra? E se este dissidente, ao final da viagem, tivesse encontrado um neto de Cleópatra? Daria um belo conto.
Fumou o último cigarro. Apanhou o volume de Fernando Pessoa.
_ Boa noite, vó.
_ Já vai, meu filho?
_ Vou.
_ Vá com Deus.
_ Amém.

Já na quinta cerveja alguém perguntou:
_ Cacá, qual o seu nome?
_ Huáscar.
_ Deus tem piedade.
Falou o protagonista:
_ Um imperador inca ou asteca… Não sei.
_ É isso, disse Sofia.
_ Huáscar traiu Ataualpa e depois foi executado pelos espanhóis.
_ Não. Foi o contrário.
Falou de novo o protagonista:
_ Não, Sofia. Seu irmão está certo.
_ Inácio, tem um livro aqui em casa. Eu te provo que não. Sofia passou o resto da festa procurando o livro sem sucesso.
A porta bate:
_ Sofia!
_ Inácio, você estava certo sobre a questão de Huáscar e Ataualpa.
_ Não te falei…
_ Agora não venha me dizer que você está sempre certo…
_ Quase…
_ Posso fumar unzinho aqui?
_ Acho que dona Wilma saiu com os cachorros. Pode. Veja este esboço de conto que andei rabiscando ainda há pouco.
_ Deixe-me ver… Quatro reis magos… Dúvidas na escolha da estrela… Um dissidente… Neto de Cleópatra?
_ É!
_ Mas isso é estapafúrdio!
_ O melhor elogio possível!
Sofia levou a mão ao rosto de Inácio.
_ Não ando fazendo a barba.
_ O que é isso?
_ É que eu tenho o hábito de comer bolachas debaixo da coberta.
_ Que nojeira!
Sofia começou a comer os farelos que se encontravam à altura das partes baixas de Inácio.
_ Vai encontrar aí farelos de sexo solitário.
O riso foi descabido.
_ Caminhamos no bosque amanhã?
_ Sim, disse ela saindo.
E a noite dissolveu os homens.

Ouro Branco, 14 de julho de 1980.

Minha falecida mãe recebeu outra carta asquerosa do senhor Donald. Desta vez semana passada, mas, muito mais acintoso, difamatório, caluniador e pederasta. Alana e Asdrúbal conhecem um advogado que trabalha em Windsor UK. Não tenho mais dúvidas que preciso acioná-lo para, ele mesmo ou alguém em Londres para me representar judicialmente.
É duro ter que contar com a possibilidade de desarranjar Dee Dee se este maluco for parente ou conhecido. Muito improvável porém que seja ela em pseudónimo, pois, se o motivo fosse ofender alguém que se conhece mesmo tendo o amado este negócio já ultrapassou qualquer limite do caráter ou da parte de Dee Dee que é escárnio a minha pessoa.
Fico é receosa de não dar atenção aos dois trompetistas órfãos: Wintom e Davis estão fugidios, mais esquivos que até mesmo a cota que reservamos ponderar para bichanos. O quanto estes felinos percebem é muito eu sei, mas, não estou satisfeita, às vezes deliro que mio com eles já que eles não falam eu mio que Donald é um rato. Isto mesmo: rato Donald o lascivo!
Sofia já voltou novamente e conheceu Maria Tolentino. Juntas as duas começaram a pregar jesus cristo nosso senhor morto na cruz para aonde bem entendessem. Existe uma condição aqui simples de ser explicada, diferentemente das igrejas, as duas não pedem contribuição ou que pensem junto, são metódicas apenas no que foi escrito, ai era preciso ser fiel, novamente vem a condição pois os paroquianos não viam muito bem estas andanças, eram olhos de abutre enquanto as duas se davam a todos loucos bêbados e depravados, uso sempre este modo pois conheço este fim e em mim para diminuir a dor eu já o terminei.
Todas estas circunstâncias tem feito com que eu pense de forma mais abrangente e mais plena tanto de hiatos como de bons encontros (de letras em letras compomos um livro e é melhor, inclusive neste tempo, que ele esteja sempre aberto, mesmo que a revelia dos donos do mundo.)
Foi assim que me apareceu um escrito muito corajoso, revolucionário e abolicionista. Daqueles textos capazes de incomodar gregos e troianos e de patrocinar a propaganda de gregos e novos baianos. Isso só me faz crer que as ideias são algo como os gases nobres, livres de tudo que quiserem se libertar, longe da culpa, algo capaz de oferecer para si o que se quer genuinamente. Sem com isso se cobrar ou cobrar a outrem algo além da providência, algo além da urgência. Chegará o tempo, oxalá! Que quem não pense, argumente consciente de si, terá que correr daqueles que assim o fazem.

Axé meu amigo, de qualquer parte de África que turvar no horizonte sua visão, lembre-se de nós, deste tempo nosso, dos Donalds, enfim o mudo está. É tudo um processo sem ser muito reconhecido, mas, lembre-se, através do texto que te envio!

Saudades!

ARISTIDES BOCAMORTA

NOITE VERBAL

O quê seria o significado da palavra loucura? Seria algo apenas diagnosticável? Ou seria algo que nosso entendimento e até mesmo todos os vocábulos estariam aquém? Seria um estado inatingível de pureza?
Ou seria algo tão violento quão bruto pelo qual se suja de toda experiência humana através dos séculos? Temos o direito de classificá-la e tirá-la de seu estado natural? Qual seria o estado natural da loucura? Deveríamos mantê-lo e ratificá-lo? Ou deveríamos extirpá-lo de nosso convívio?
Estes questionamentos estão tão diretamente relacionados tanto ao pavor quanto ao fascínio de estarmos assim, pela única vez, ligados; homens e mitos.

A única parte de nossa narrativa que encontra real diálogo com a mitologia é quando nos percebemos irreversivelmente loucos. Motivo pelo qual evocamos deus e diabo no mesmo templo e onde sagrado e profano cantam uníssonos. Por qual razão este fato nos faz imaginar que foi assim que começamos? Sem dissidências e dissociações entre erros e acertos e todos os duplos possíveis, elementos macho e fêmea em encaixes perfeitos e em fruição de todo o signo que goza o gozo de ser, ilegível, indelével e irrecusável por que é, era e será antes e depois do processo de quaisquer experiências que desta imitam. Mas que desta forma refazem o mundo com beleza e horror.

Do grito da besta ao canto do cisne as antíteses se encontram no exercício da loucura. Esta que refaz o percurso de saraus e bombardeios e marca nossa vida assim como os rios parecem nunca voltar e os partos nunca abortarem.
Um mundo sem insanidades perderia o argumento da linguagem e esta seria, sem elas, apenas justificativas, apenas maneiras de camuflar a insatisfação de nosso estado contemplativo para com o que, simplesmente, abstrai da compreensão e foge.
Alheio a qualquer pensamento mundano seria aquele que apartasse de si sua parcela de absurdo, seu quinhão de misérias, seu repertório de estranhezas.
Não há como libertar o mundo daquilo que é louco, pois o louco mora no âmago do chão e na composição do metafísico.

Nosso passado recente aboliu e ressuscitou as representações de terror e abominação e as colocou à sorte do degredo do mundo, do que não podia ser visto a não ser pelo espanto, pela ojeriza e pela discórdia. Desde então, tudo que foi existir em forma de flagelo teve que obter sua fração de loucura, sua porção louca.
Depois que os monstros do atlântico viraram América capitalista, estes arquétipos subiram dos porões e ganharam status de periferia, deu-se todo o tipo de êxodo de mazela e diáspora de feiuras, assim nasceram Las Vegas e Manágua, tão equivocadamente lembradas e esquecidas justamente pelo fato de as conhecermos apenas pela paixão e medo que provocam e não por simplesmente existirem. Este é o pacto de transformar desertos de petróleo em espetáculo.

Assim, os mitos se distanciaram e os loucos foram se aprimorando em suas formas obscuras de carregarem consigo a mística, a lira e o insuportável, como quem fizesse para os cartesianos, todo o trabalho sujo. Como quem transportasse para dentro de si, dentro de sua subjetividade, tudo o mais que fosse ignorado e atrapalhasse a roda da fortuna a girar um engenho de injustiças, conhecidas e desprezadas. Engendrando o limbo de ciências e ritos e poesia.
Não obstante, em nosso imaginário, a figura do engenho ao centro do latifúndio, pertenceu sempre à aristocracia e sempre foi movida por animais e escravos.
Eis que animais e escravos passaram a entreter os senhores de engenho e a indústria da moenda precisou da eletricidade e, aos que a moviam anteriormente restaram às lonas circenses, de tal feita que, o comércio nos burgos passava por reformas.
Esta configuração nos permite analisar mais de perto nossas relações de poder e de segregação do mesmo por parte de outrem.
Desta forma, os engenheiros passaram a ter uma visão mais refinada do lucro que poderiam extrair deste estranho melaço de homens e mulheres.
A todas as circunferências foram conferidas seu movimento automático e as máquinas venceram os braços que agora recolhiam todos os refugos.

Os geômetras se despreocuparam então com os círculos e passaram a conceber novas formas às quais se denominou arquitetura moderna, pois que estes braços precisavam de tarefas para conter o ofício da revolução.
Mas o ofício das velas (porque não dizer, o ofício das trevas) derrubou o czar e o século vinte não pode fazer mais nada a não ser guerras e corridas patrocinadas pelo acúmulo de insígnias aos donos do mundo.
O ocidente tomou todas as providências e democracias cabíveis, estas que conhecíamos e detestávamos por serem medievais e demasiadamente cristãs.

Pelo menos aqui, América do sul, fomos vestidos de máscaras igualmente cristãs e arcaicas e obrigados às falácias do mundo civilizado entre OTAN e OPEP.

Menos mitos e aí… Seria previsível o horrível clamor do fundo do fosso em forma de arte e movimentos políticos-sindicais.
Há no fim do milênio uma enorme e insana vontade de romper estas mortalhas e irromper da jaula que o verbo, mas, também semântica sintaxe e linguagem se encontram. Resultado: arte contemporânea e, por que não, loucura enfim livre e capaz de todos os estragos necessários!

A experiência da loucura é matéria de arte. Não simplesmente apropriada ainda do tempo presente. Temos uma tendência em olhar ao redor enquanto o fluxo de nossa consciência se transmuta em inconsciente e porvir.
Narramos uma estória carregada de descontinuidades estranhas e belas. A desconstrução dos tempos idos é tarefa vigente assim como planejamos cidades descartáveis e civilizações aparentemente descartáveis. Aparentemente, pois que a fúria de sua manifestação ainda quase incompreensível nos dá a sensação de estarmos de novo no início.
É como se os mitos voltassem ao ventre da deusa grega ou hindu ou ao útero da loba romana. Ao mesmo tempo as instituições se desfazem por completo. Porque parece ser desejo de deuses e diabos que tudo se refaça de água e sangue e de corpos e berros.

A violência e a carnificina estão também a serviço da letra, uma vez que seria injusto atribuir a elas somente o fardo da morte. Hoje a morte respira e pulsa ofegante em galerias e palcos assim como em frontes de guerra ou em redações jornalísticas, que primam em tentar nos enganar que tudo isto são novidades.
Mas, se nada é novo, o quê mais nos incomodaria? A loucura deixou de incomodar?
Poderíamos facilmente chegar à conclusão de que a loucura precisa e sempre incomodará. Não existe mundo possível sem o testemunho real de seu próprio adoecimento e do quê ele pode produzir com este elemento de insano.
Os urros diabólicos da fome e do desamparo ganharam estética na medida em que, a ótica saiu da visão e a ética saiu do valor.
A valoração dos sentidos produzidos pela força ganhou, nas formas da arte, uma barbárie capaz de derrubar a brutalidade civilizada que se constituiu nos séculos,
A percepção de gozo e morte intimamente ligados produz uma anarquia nos processos criativos de modo que, passam a ser comparados apenas à experiência da loucura.
E mais que isso, irrevogavelmente dentro da loucura.

Vigora a permuta que em outras épocas era desvario, desatino e devaneio em nome da produção coletiva do mosaico atual, complexo e polifônico, assustador e apaixonante.
Onde o que provoca medo encoraja e é o lugar da arte e loucura. É o lugar do fracasso no sucesso. É a perversão das vontades e o resultado subvertido em soma de subtrações e em múltiplos de divisores.
O desejo é algo escancaradamente partilhado e estilhaçado em suas reverberações explícitas de fazer e refazer, construir e destruir, levantar e cair. E a queda não resulta apenas em morte, mas, também avesso de vida, avesso de beleza, avesso de representações conhecidas.
Se, conhecemos todos os símbolos de nossa vivência precisamos os virar ao avesso e vê-los de modo às escuras, às claras da loucura, ao oposto que não é revés que não é contrário, mas que duplica o que é visto e o que se mostra.

O que é visto deixou de ser o que se mostra sem maiores constrangimentos, aliás, o próprio constranger-se não mais se constrange. As proporções se diluíram nas discussões em torno delas e hoje são aceitas quando se desfazem. Atualmente, desfazer-se de medidas e proporções é exercício de crítica às mesmas, ao passo em que, a proporção da loucura além de desfazer crítica, produz a mesma de maneira desproporcional.
Os antagonismos não são mais um malvisto ou mau-gosto é um gosto visto pelo seu lado único e amplo de possibilidades.

As possibilidades às frestas do mundo nos mostram que os totalitarismos não são mais elegantes e que a diversidade é bem vista, mas, a loucura passa de cores alegóricas e caricatas para uma simbologia de ocre e lucidez de porões antigos, de formas gastas,
Para uma representação do real mais viva que o vermelho mais negro das sangrias.

Os passos da humanidade estão trôpegos, frenéticos e alucinadamente infantis, propícios à loucura. O pulso das roldanas está viciado e as substâncias não contém os homens. Não estamos contidos em círculos ou elipses, mas numa equação interminavelmente sem solução e esta é a matéria prima do estado atual dos meios artísticos: loucura sem precedentes.

A loucura sem precedentes dissolve o mundo de maneira oposta em que suas cores em movimento se tornariam cinzentas. As opacidades ganham tons que não sabemos ao certo como se interligariam, se conectariam e interagiriam entre si.
É fato que o fazer se transformou em fazer sem saber as consequências, mas haveremos de saber.
Nossa cultura ultrapassa qualquer limite de intolerância. Recentemente, nossos pais cantaram contra o Nazismo e o Facismo guerras no Vietnam e hoje assistem guerras no Vietnam e ao Mississipi em chamas pela televisão. Este é apenas um exemplo bem estereotipado dos tempos atuais, mas, não apenas o legado de uma geração e sim o legado da divergência, da inanição e da apatia com a qual os séculos trataram suas urgências.
Atos violentos, convenção de Genebra e outros monturos de vida são retratados nas vísceras dos artistas e das paixões que teriam apenas alternativa de flertar com os enlouquecidos. Quem são os loucos mesmo? Vejam como a indagação deriva de uma ponta e tange a outra extremidade, não se pode concluir outra coisa senão que a loucura está e sempre esteve dentro. Mesmo quando isolada, a loucura sempre produziu pavor e encantamento. Então o quê está dentro? E o quê está fora?
A loucura está inegavelmente associada à experiência humana. Tanto que podemos perfeitamente inverter esta sintaxe.

As sociedades transgrediram todos os códigos morais e mandamentos das culturas milenares do berço da civilização justamente no intuito de afirmá-las. O que mais restaria aos loucos, os que teriam razões de sobra a não ser mostrar que, as cartas têm frente e verso, mas, não em cima e embaixo ou, sul e norte, assim como dividimos os hemisférios, e lembrar também que o hemisfério sul do baralho está de cabeça para baixo.
Seria como dizer que girar uma ampulheta para contar novamente o que vai para sua parte inferior sob forma de areia e tempo são imbecilidades.

Sobrou para os povos em todo interior do globo transgredir as transgressões e serem detratores e delatores dos “espertos ao contrário” e, em meio a este lixão de Gramacho, mostrar de maneira bela e bruta que o mundo se refaz no subterrâneo, que as imagens vêm do inconsciente e que são, como qualquer outra, de paz e violência, de pulso e repulsa, de ação e negação, mas com a crueldade que nos define contemporâneos explodindo galinhas no feriado nacional. Nos tiram os dentes no advento napalm.
A narrativa pós-moderna ganhou sangue e principalmente chorume e alienadamente: Hiroshimas e Nagasakis além de vulcões de nomes impronunciáveis.
Todo o resto pode ser nominado, ou nomeado a funções não tão diferentes em sujeira. No entanto, a relação Estado-Esgoto continuou hipócrita, porém com nuances do explícito, porém com requintes de crueldade.

O que esperariam os estetas a não ser o pavor diante da violência em forma de refluxo poético-artístico daqueles que em tempo hábil admitiram estas insanidades?

As respostas moram na diversidade da cultura mundial que muitos preferem denominar aberrações, mas, que da qual não podemos retroceder e sim construirmos conexões que só seriam possíveis pelo seu caráter no gosto ao ineditismo que tanto amedronta.
Inomináveis formas de comunicação nos são apresentadas como meio de expressar descontentamentos que estão talvez mais no corpo que no verbo, mais na carne viva que na epiderme, daí o fato de assustarem tanto por que não tem nome e não pedem exatamente compreensão, pedem às vezes inconformidades, deformando o signo compassivo das manifestações anteriores que, de tanto desejarem ser entendidas, soam como uma eterna querela que cabe apenas ao mundo, não à loucura que assumimos.

Os estabelecidos nunca estiveram tanto em xeque, nunca soou tão falacioso o pronunciamento dos estadistas, mas, não nos assusta o fato que não usamos de métodos como forcas e guilhotina, por conseguinte, ou assumimos a democracia (onde aceitamos o engano como está) ou usamos do artifício inalienável do capitalismo de alienarmos, esta é de fato a única vantagem dos sistemas que permanecem.
É fato que os regimes ditatoriais censuram, mas também não somos nós censores quando aceitamos a obtenção de informações totalmente duvidosas e fazemos absolutamente nada? Acaso esta espécie de alienação precisaria introduzir em seu verbo novos códigos?

Há a suspeita de um temor em termos decodificando as cifras do poder em brechas que ele mesmo despercebido suscita provocando adoráveis disformias e admiráveis sabotagens às engrenagens e boicotes às pompas e circunstâncias de um castelo de cartas marcadas, felizmente, as cartas da loucura adquirem funções novas a cada rodada do jogo e é uma ilusão pensar que nosso modo de jogar é menos ágil em comparação aos que estão em nossas vias opostas. Em nosso caso queremos o veneno e em nosso modo ele não nos asfixia, esta é uma analogia à atribuição das bestas.

O leite das feras é a seiva destes inícios que não começamos antes de sentirmos que estes mesmos nos foram roubados. Existe alguma forma de nossa cultura não deglutir e ruminar isto, bem como não demonstrar indigesta insatisfação?

Por que a arte contemporânea muitas vezes namora a violência? Os elementos a ela incorporados propiciam este descalabro? Deveríamos chamá-los de loucura? É satisfatório dizer que nosso tempo é uma experiência de loucura?
Por que estamos fazendo estes circunlóquios espinhosos antes de chegarmos ao objetivo de entender o ato criativo? Este é realmente um registro de nossa barbárie? Estes momentos de criação precisam simular atos violentos por quais razões? Nossa cultura e sociedade atuais irão se cansar disto um dia?
Os atos violentos inerentes à nossa vivência são intrinsecamente ligados ao fazer artístico?

Estas perguntas não encontram solução, pois, o corpo está neste embate e nem seu cansaço parece tirá-lo desta sorte. Este sortimento de ideias caóticas vem ao lado da luta corporal do homem em transformar seu próprio destino em algo menos escuro, talvez em obra.
A penumbra desta condição acha ressonância com reações primais em situações tantas vezes repetidas, em sentimentos humanos tantas vezes postos à prova, neste sentido, parece que a loucura sempre foi um obstáculo o qual se desejava conhecer e ultrapassar, hoje, podemos dizer que o desejo é conviver com ela e mais que isso, vivê-la, e vivê-la intensamente, pois que se aprendeu que não sendo deste modo, a loucura passaria de criativa para condicionada.

Os pactos quebrados nos mostram que estes condicionamentos perpassaram nossa história entre pedradas e pontapés, crucificações e guilhotinas, sexo e suicídio, e hoje ultrapassam a loucura assim como a sujeição a ela.
O corpo perdeu o domínio da própria loucura, que está no mundo com a premissa de perfurar outros corpos que com ela jogam. O jogo não tem regras claras apesar da vontade “honesta” de quem o joga, vemos que seus elementos se encontram em condições extracorpóreas de praticar arte e violência.
Seu fluxo tornou-se uma vazão deliberada de sentidos, socos e balas perdidas; por vezes, não poderíamos saber se estamos criminosos ou cronistas, se estamos no segundo caderno ou se estamos na página policial.

O choque com estas verdades absolutamente questionáveis nos coloca numa condição de deriva e não de dominar arte e loucura. Trata-se de um processo alienante como qualquer outra arbitrariedade.

Esta deve ser a maneira com a qual entra no debate a questão das dissoluções da cultura de estranhamento que nos deteve por séculos, no desmatamento de verdades absolutas apenas para não perder um hábito de irreverência ou de insolência. O que impera é o gesto e seu movimento e não sua forma física. O que impera é a abstração destas inconsequências e torná-las estoicas como um rochedo, ao mesmo tempo em que, leves como uma brisa.

O corpo perde seu lugar no espaço numa quimera de mostrar seus passos e sua dança idílicos, ao sabor de éter nos cheiros produzindo sentidos que, supostamente não existiam justamente pelo fato de os gestos primordiais estarem anteriormente num limbo de temores.

É perigoso saber que, podemos saquear uma cidade ou esbofetear alguém por crueldade ou por poesia, e que este ato além de nos condenar por sermos culpados por nós mesmos. Ao mesmo tempo em que também somos instituintes de nossa cultura em tempo nosso.

De fato, outras instituições perderam muito de suas valorações diante do Eu. A iminência da cultura individualista não apontava para estes prognósticos. O Eu é o tutor, o desejo e a lei e nem mesmo desta forma se satisfaz ou se insatisfaz, portanto, não há outras instituições que criminalizem mais que o próprio Eu, e que canonizem ou condenem mais que ele, o Eu.

Uma soberania como esta pela lógica meramente cartesiana levaria à tirania, mas, mesmo assim, impossível de desvinculá-la de nossa cultura neste novo tempo capaz de conter todos os outros com ira e descontentamento próprios de uma busca pelo absoluto, dentro de todas as relatividades.

Os unguentos não nos salvam da consciência e não se salvar estando consciente é de uma maneira, perder a consciência e isto deve ser um fato destinado à nossa ignorância.
As atribuições do viver são responder na linguagem, as pulsões de crime e paixões próprias, torná-las linguagem compartilhada para consumo cosmético ou de escárnio.
Felizmente, as funções parecem não ter valores predefinidos antes que sedimentemos nossos próprios pilares de civilização e caos nas mesmas medidas.

As comoções do mundo passam a ser um grunhido na nossa incapacidade de torná-las menos cruéis e injustas. Sobra-nos a realidade, a tão imensa realidade quão grande é nosso desejo de dissolvê-la em novos mandamentos, novos manifestos, ou partidos políticos, mas, que não passa de ser si mesma, a realidade, além de qualquer de nossas possibilidades de mantê-la sã e intocável.

Diante de todas estas pré-suposições e presunções de torná-las postulados, mesmo num mundo tomado e já acostumado de seu desejo descabido de concebê-las de acordo com as formas e da própria empáfia de nada mais tomar forma apenas conteúdo etéreo e gaseificado; quem tem o poder de denominar a loucura ante as outras coisas tem cumprido bem este trabalho extravagante?
Este papel foi exercido como poder em nossa história, mas, realmente, este dever tornou-se direito questionado? Quantos precedentes estes impasses podem gerar tanto para a ciência como para o estado e para as igrejas? Místicos e teóricos migraram para a loucura? Quanto estas instituições teriam a perder com a plenitude do sujeito no gozo de todas as suas forças? Já teriam perdido tudo na tentativa de incorporar à sua força por muitas vezes absolutamente destrutiva, outros desejos com os mesmos riscos? Seu perfil seminal teria derrocado perante a cultura hedonista que vivemos? A loucura é o objeto das cruzes e águas passadas ou é a redenção do hedonismo? Cabe a algum individuo ser denominado louco por qualquer poder supostamente mandatário?
Os sujeitos podem se autodenominarem aptos a funções que anarquizem qualquer processo que julguem anterior à loucura? O advento da loucura é algo sucessor e superior ao poder? Ou todas estas convenções são apenas um ranço positivista?

O poder democrático dilui dentro de seus domínios todas as ideologias, em suma, a democracia seria o acontecimento mais ambicioso de nossas representações coletivas, porém não traz novidade em relação aos regimes anteriores no que diz respeito às justificativas necessárias a qualquer ato violento sumariamente imposto.
Os braços que remaram as ondas dos bárbaros se impõem hoje na tentativa de legitimar as violências íntimas. Mas estas não são senão uma dissonância em frente às democracias que a democracias propõe.

A clareza com a qual as pessoas se abstêm de um poder coletivo como quem não recusa o próprio corpo e os elementos que ele traz de novidade é uma desconstrução da coletividade.
Novas paredes se erguem frente às impossibilidades de sermos representados sob forma de poder. Na medida em que não podemos algo criamos poderes paralelos de todas as sortes e isto atualmente é algo além de qualquer sistema representativo.
Seria um evento venturoso se não atribuíssemos isto ao capitalismo ou ao individualismo e sim à loucura como forma de desprostitucionalização de nossas moedas de troca.

A barganha há muito deixou de ser algo malvisto e passou a ser qualquer coisa necessária em face de virtualização de nossos sentidos em trocar valores de qualquer espécie, felizmente, o estado ainda não formalizou isto sob forma de concessão, como quem permitisse qualquer coisa que, julgava ilegítimo anteriormente. Nossa falta de formalidades para com as regras dos múltiplos sistemas vigentes é a única saída para a interação com superposições que nós mesmos geramos a partir da consequência de atitudes que tomamos e que adquirem trânsito na experiência do outro.

Não há como desfazer este quebranto em forma de imbróglio. A única resposta é o desgoverno e a descontinuidade no estado das substâncias existentes e pensadas. Parecemos ainda ser polifonicamente barrocos, parecemos ainda termos texturas expressionistas, com um timbre de novidades conhecidas. Por isso, não conseguimos desvencilhar do outro como uma vivência de espelho maldito. Por isso tentamos o que não somos, o outro. Este outro é apenas o nosso mistério, nada mais. Somos apenas uma impessoalidade em tráfego, em construção permanente de identidades frágeis baseadas no alheio. Esta é a razão de a comunicação e o verbo não terem perdido de nós nossa marca. Somos acidentes próximos de nossa colisão mais espetacular, descobrirmo-nos debaixo de nossa pele e sermos apenas isto sem maiores problemas para o mundo.

É uma angústia sabermos que isto, e tudo o mais, não nos traz mais revoluções. Causa uma confusão mental pensarmos que não há ilusões a não ser esta; o ser, ser solitário presente nas urgências coletivas como se estivesse em uma horda, sem ordem, sem progresso. Assim são hoje as paixões compartilhadas.

Nossa constituição atual, inegavelmente, se faz dos poderes que nos negam ao nos afirmarem como uma grande crise em potencial, nos próprios atos e seus perigos.
Quem denomina a loucura está dominado por medo e não de força de outrora. O medo é nosso reino e um castelo suntuoso de masmorra e banquete.

Ainda existem sol e peneira como simuladores de eclipses particularizamos estas verdades; as compramos e tornamos a vendê-las a quem sirva (mesmo sem a garantia do bom uso).
As representações fora do Eu, o circundam como reinos bárbaros enquanto não as dominamos. É uma lógica perversa de subsistência que não carece supor qualquer tipo de compreensão, esta é objeto obsoleto e vocábulo gasto fora da língua.
Mesmo não havendo motivos, ainda existe ostentação nas muralhas por toda a face do globo e suas mortalhas de ozônio.
Ostentamos como quem não possui outro caminho sendo sociedade na medida em que dizemos que todos os fenômenos concomitantes ao aqui e agora são alienados. E nos enganamos mais uma vez ao argumentar que a loucura é meramente um processo consequente a tal alienação dos supostos valores perdidos.

Seria muito conspirador dizermos que as insanidades são como abutres comedores de lixo e estavam esperando o momento para dar o bote no funeral das pompas na queda das babilônias.
A loucura não é algo tão apocalíptico quanto foram os poetas românticos. Seria apenas qualquer advento decorrente do fluxo de ciclos assimetricamente dispostos nos tempos e na percepção deles.
Aceitar as ideias de falta de finitude implicaria em aceitar a perfeição e uma lógica perfeita de universo. Alienemo-nos, pois, deste fato e não do resto. Tomemos conosco satisfações e providências, sejamos previdentes: existe a possibilidade de vencermos o tempo (pelo menos este que conhecemos).
Talvez entendamos a morte como a vitória avassaladora da obra humana e não sua tragédia.
Mas alguns incidentes também não podemos entender como tragédia durante o pulso pulsando nas narinas, a loucura por exemplo.

Todas as arbitrariedades compreendidas neste espaço-tempo chamado vida devem ser respeitadas como naturais e potenciais elementos criativos de novos jeitos, ao menos improvisação.
Todas estas particularidades e particularizações não precisam ser tomadas apenas como uma parcela deste tempo insano. Todas as irresponsabilidades praticadas na seara de nosso meio, inexoravelmente, partirão de outro lugar que não seja o desfrute da insensatez e o inventário da loucura, mas, o quê e a quem estas desrazões devem responder que não sejam institutos tão irracionais quanto ao período das dízimas?

Toda partícula de vida, existência, é indivisível de sua parte raiz, sua parte incompreendida e ignorada.
Tudo deve retornar e reconciliar-se ao profundo estado natural de qualquer matéria em qualquer tempo e processo.
Isto é, particularizar os meios do viver como métodos únicos de experimentar vida, louca ou não.

Os processos de difusão de meios particularizados para obtenção de qualquer riqueza ganham a aura dos flagelos das sociedades e culturas que não estão destinadas a dizimarem-se mesmo que o preço fosse camuflar de qualquer maneira todas as aberrações em detrimento de suas formas de divindade força e nobreza.
Ou se tem sabedoria senil, ou braço forte, ou se vende o corpo ou então a morte e o desprezo.

Estas classificações abomináveis! Não se sabe verdadeiramente de onde vêm. Se dos ratos ou se da ciência. Ambos falidos no porão do último Zaratustra.
Parece vir do centro de nosso corpo celeste uma ânsia em abrir as placas tectônicas para novas geologias, novas geografias, velhos oestes e novos lestes. E tudo isto pode ocorrer num só corpo humano, numa só forma humana, dadas suas brilhantes atribuições de alvorada e crepúsculo, de loucura como raio de sol. De possibilidades entreabertas entre a redenção e o hades. Há muitas fuligens nos frascos de nosso veneno e salvação; muita fragrância de ressurreição e morte.
Nada cumpriria melhor a função de negar a alienação como processo particular de loucura que o fato de a morte salvar a vida como justificativa para a existência.

Tudo converge para um caminho avassalador de derrubar montanhas e Manhattan. Nenhuma profecia adquiriria força se não anunciasse seu tempo próximo e nenhuma filosofia ganharia adeptos se não dissesse que tudo se repete, assim como nenhuma ciência sobreviveria se não trouxesse ao mundo algo que diz ser realmente inédito.
Mas, a vida do ponto de vista da loucura pode renunciar-se a qualquer hegemonia e não mais tomar partido de algo que não seja seu desejo legítimo.

O que é o homicida diante de todos os genocídios diários? O quê é a poesia diante dos séculos de doutrinação? O que somos nós atualmente a não ser proselitistas em causa própria?

Muito álamo para poucos braços, muito sândalo para poucos fármacos, muito bálsamo para pouca apreciação, muito cânhamo para poucos crimes em consumi-lo.
Não podemos decretar o fim do mundo como decretaríamos o fim dos semáforos.
Não podemos oferecer a partilha do chão como reformamos praças.
O governo e as legislaturas nunca saíram de seu lugar de utopia quanto quaisquer outras ideias executadas ou ainda por se cumprir, mas, o homem não é seu próprio destino, é tentativa.

Hoje, quais instituições acolhem a loucura? Quais miasmas estão destinados a vir à tona? De quantas revelações escabrosas se faz o sensacionalismo dos noticiários? De quantas estreias bombásticas se faz um caderno b? Estes filtros de nossa sociedade perderam vício e visgo? Acolher a loucura é uma ruptura ou os cronistas são os novos psiquiatras? Acolher a loucura é algo generoso tanto como foi cruel e trágico num passado recente? Isto se faz em todos os campos de convívio? Por gosto ou por necessidade? Quem faz isso o faz bem? Faz com ranço de qual ideologia? Ou se compõe de uma complexa teia de processos de pensamento? Estas ideias se contradizem até que a loucura as traga salvação? Cabe à loucura ter este cacoete de redenção? Ou continuaria isolada em suas ilações de delírio enquanto o mundo se contorce em dor? Isto em si já é uma cura ou ainda precisaríamos de analgésicos? Estamos consumindo anti-psicóticos assim como anti-inflamatórios? A experiência de nossas noites torna-se impossível sem ansiolíticos? O que a alopatia e seu plano de dominar o mundo teriam a ver com isto? As formas de linguagem subjetiva podem substituir a ciência para incluir a psicose na sociedade? Esta deseja de fato ser incluída?

Até que ponto o humor do mundo influencia a neurose alheia e a deixa com as marcas da incompreensão? Esta incompletude é razão de tantas depressões na economia do pensamento crítico? Até onde isto continua a produzir sentidos? Quando estes fatos começam com a produção de novas loucuras para nosso mundo caduco? Quantas leituras diferentes desta poderíamos gerar ao nosso tempo? Quantas sociedades um psicótico inclui? Com quantos paus se faz uma canoa e com quantas imagens se fazem terceiras margens?

Nosso mundo é uma constituição a qual não se afere elipses ou mensuração. Somos acolhidos por massas que não conhecemos por sabermos que nunca haveremos de saber seus reais interesses. Os interesses das corporações são nossa verdadeira loucura. Suas vias de entendimento estão inadiavelmente desconectadas e não geram sentido ou contentamento. Apenas classificam sua produção de dúvidas sob forma de alimentar sua obtenção de diagnóstico e conhecimento.

Não existem terceiros lados como se poderia supor como ruptura. O que podemos fazer é apenas irromper das estruturas e amalgamarmo-nos no que as experiências têm de singular e extremamente profícuo.
A produção de sentidos proposta não é uma oposição às diversas formas de estar no mundo e, perdoem o pleonasmo, suas diversidades.
A quem deseja acolhimento que haja acolhimento e a quem deseja produzir de onde se encontra que haja produção, desta forma, há uma inversão dos papéis de perversão e sujeira no que entendemos de mundo.

A ciência detém o discurso da inclusão e se suja em seus valores enquanto à arte cabe o papel de bagunçar tudo.
Mas os canais de comunicação como todo o resto encontram-se aparentemente e interessantemente abertos ao nosso juízo, não se trata de anistia e sim de brechas que encontramos para invadirmos os sentidos já deteriorados e anunciarmos que precisamos de uma evasão coletiva de várias formas de pensar.

A subtração das ideias do que elas teriam de correto, de perfeito, de plenitude e completude é um advento necessário ao tempo e caríssimo à arte. A parte que cabe a soma seria a carga e a potencialidade de elementos singulares que cada indivíduo traz em si e troca com as novas instituições que felizmente, ainda não tem nome no mundo.
Sua inauguração é um evento inesperado, mas, mesmo assim feito de esperanças; irreconhecíveis, mas, ainda esperanças e estas ocorrências ainda movem muitos sentimentos demasiado humanos e primais.

O excesso de imagens em superposição produz no mundo um estado de exceção que não acolhe ninguém ou loucura alguma exceto em seu sentimento mais grotesco e sincero, mas, sua posteridade assusta quem a produz e afasta muitas vezes quem a quer produzir. Voltam como refugos e como refluxos ao mundo e à loucura como uma só experiência. Que se junta e depois se aparta.
Estes movimentos imprescindíveis denotam sua ideia de aceitação e conotam ineditismos.

Os destroços continuam a cair dos edifícios, de manhã tão laboriosa para os analistas internacionais, que nunca assinam o que deles se fala no horário nobre.
Resta rezar para a morte sem artefatos psicóticos ou arregaçar as mangas para limpar o pó cinzento e a sujeira? O que acolhemos que não é o que recolhemos sob forma de entulho?

Além de produzirmos realidades de acordo com qualquer conveniência e não fazermos objeção a quase nada, às vezes, também inventamos. É uma produção inventiva inventar a produção e produzir invenções (uso desta simetria morfológica para explicar que esta é uma via de mão dupla) assim como o descontentamento nunca será contente a recíproca bem que poderia ser real.
Exceto o mundo em sua unidade as outras coisas tem estado e não constituição tem configuração, mas, ainda não são; nos usos restritos desta etimologia.
A cada novo dia somos convidados a examinarmos nossas consciências e responsabilidades em relação aos gestos que, por mais que respondamos por eles, parecem estar mais, cada vez mais, sumariamente deliberados.
Não deveríamos evitar esta falta de lastro, mas, suas consequências requerem bastante estômago e boa função hepática.
Sustentar um discurso é hoje um heroísmo. Não são covardias estas ações e reações cada vez mais gastas e previsíveis? O que nós e os corpos temos a ver com isto?
Considerando que o mudo não é uma ilha podemos concluir que o espírito sim, pode ser, e pior, ser mais miserável que venturoso e que, as teias complexas que tecemos causam na vontade do outro nosso corpo imperfeito e despreparado para qualquer coisa sã ou racional. Se o mundo deve enfim ceder à loucura que o façamos examinando bem o tabuleiro e alcemos a rede até os horizontes não vistos. Sim ao vislumbre de outras paisagens.
Uma sensação fantástica poder ser vivida através da invenção da própria vida através da produção dos próprios sentidos. São alumbramentos como se os seres fossem únicos e não se refizessem sob outras formas e que não reproduzissem seu próprio legado de tendências cristãs e republicanas, liberais e retrógadas.

Nunca teria se valorizado tanto as marcas da singularidade e do traço de identidades bem definidos como nunca vistos em qualquer ofício que conhecemos e que, supomos, ainda conheceremos. A marca da presença humana ganha o ineditismo unicamente possível na cultura da diversidade depois de tanto ter se falado da diversidade das culturas (nem tudo é simplesmente como uma ampulheta perfeita, tampouco, verdades perfeitas) oh mentiras perfeitas, drogas perfeitas, doces enganos da nova ordem mundial!

A unidade do corpo e sua ideia de trazer a ele o espírito como identidade deixam marcas como impressões a respeito de fatos empíricos que podem perfeitamente se denominar como nunca experimentados, nunca vivenciados. São os traços da identidade da qual somos desumanamente cobrados.
Ora, se nossa identidade é aceita como única por qual razão ainda tentam subtrair dela seu leite, sua essência?
Não podemos nos render a este ébrio convite dos últimos gemidos da sociedade do capital, para ela, além de ser sua maneira de salvação e método de vício, é um modo de persuasão que já não temos mais nos habituado.

Ao evanescer do dia, ao sucumbir da noite, ao desatinar-se pelas manhãs e ao desabrochar-se pelas madrugadas o corpo pede a loucura como um líquido da botica dos santos e dos pais de santo e das mães de santo.
Etéreo atabaque que inventamos batidas quase tão desconhecidas: “nunca vi dia tão belo e tão feio” disse nesta antítese MacBeth quando pensava nas feiticeiras que anunciavam seu reinado em leito de sangue.
Os lençóis opacos do mundo põem na berlinda as almas transparentes, cruzemos as barricadas para uma dimensão com mais nuvens mais brumas, mas mais úmidas e sinceras, fazendo a liquefação do calor e a rarefação das esferas em órbita: as formas antigas.

As formas concebidas como imitação da natureza já não mais tão naturalmente explicáveis e convencionamos que a isto daríamos o nome de criação ou processo criativo. Ao passo que a primeira semana do universo perde esta alcunha.
Cada experiência vivida possui sua unidade e assim as damos suas importâncias como impressões de mundo como forma única concebida, forma única de concepção.
Produzir novos significados inventar novos signos na medida em que se leem os antigos tornou-se único modo improvisado de sobrevivência.
Dar às composições caráter de efemeridades delata a fragilidade de nossa condição, mesmo assim, continuamos bufando como equinos.

O ato criativo possui o gesto das reminiscências. Impossível não contar com a experiência passada como espécie de condicionamento humano para que se evitem erros e vanguardas repetidas, parece longo o aprendizado e clarividente a repetição. No entanto, o empenho de aperfeiçoar as invenções traz implícitas as noções de nosso legado como civilização bem como canteiro de coisas intoleráveis.

Esta premência em não mais existirmos exceto como em duplos e em condições dúbias e de oposição à própria consciência nos faz inventores, criadores neste meio tempo entre razão e insanidade, representação e realidade, eu e outro, eu e mundo.
Deixamos de ser totalidade, somos unidade; deixamos de ser eu, somos outro; deixamos de sermos nós mesmos, somos diversidades abstratas a procura da evidência das formas e da refração dos corpos.

É um engodo pensarmos que somos verdadeiramente representantes das imagens que reproduzimos de muitos arquétipos sem fazermos o exercício de criticá-las como responsáveis em apaziguar o mundo com idiotices que não passam de caricaturas de comportamento para nos entretermos, quanta apatia!
Os sentidos encontrados no interior da loucura sempre mais limpos e mais sujos ao mesmo tempo; mais puros e mais profanos; mais inquietantes e perturbadores de nossa paz imbecil. Deveríamos dizer que realmente estas imagens vêm do inconsciente? Este inconsciente é uma tumba que violamos? Ou ele está a nosso serviço mesmo sob a mira de todas as lentes?

Existe um método de invenção de imagens onde a loucura extrapolou a poesia? Com quais elementos existentes ela se dá? Este advento de o inconsciente vir à tona tirou o sono dos surrealistas ou somente dos psiquiatras? O arcabouço teórico ainda possui ferramentas para dissecá-lo?
De qual posição ou lugar poderíamos dizer que estamos a inventar imagem?
O inconsciente tornou-se ofício? A arte tornou-se louca?

Seria preferível desvencilharmo-nos de um caráter messiânico para a loucura dizendo que não são imagens de um novo mundo e sim, novas imagens de mundo.
Desta feita todas as sociedades, todas as culturas, de acordo com os preceitos da diversidade teriam novamente uma relação honesta com a loucura como elemento de importante constituição para sua construção coletiva, tanto de valores como de sentidos.

Nas próprias paredes das loucuras mundo afora também se encontram diversidades, e talvez fosse melhor praticar o exercício da diversidade em circuitos abertos como é o da loucura em sua plena noção de participação como criador de novos valores e de reconhecida importância e relevância para as próximas práticas a serem adotadas para um melhor convívio.
Se este não pode ser são, pois que seja louco e que a loucura seja uma invenção saudável, não no aspecto em poderia assim ter sido forjada, mas, pelo seu perfil libertário, pelo seu amor a perversões e irreverências.

Certo aspecto atual de um estado de informalidades tanto em funções e atribuições como nos resultados e no impacto de todo processo de criação no seu viés hibrido, transversal, multi-conceitual e multi-concensual favorecem às novas produções de sentido na criação artística.

A experiência da loucura como proponente de novas ações na cultura torna-se das mais fecundas para a sobrevivência da arte e da produção cultural, pois, nenhuma outra flertou tanto com as noções de diversidade que devemos preconizar para minimizar a estupidez de muitos acontecimentos presentes em nosso tempo.

Porém, dizemos peremptoriamente que não seria a loucura capaz de trazer salvação (embora fosse outra utilidade interessante) para as questões atuais, tampouco, nos afastamos delas, porquanto requerer inserção em sociedades doentes ficou num tempo passado, pois, temos premissa para criarmos produtos culturais imprescindíveis para a experiência da atualidade.
Não podemos mais falar na palavra inclusão uma vez que todos os povos têm outras coisas a excluir de suas maneiras de funcionamento como sociedades que pretendem se tornar mais inteligentes, no momento, damos este voto de confiança por que estamos com faca e queijo na mão.
Distribuiremos loucuras à disposição seja por grupos organizados institucionalmente, mas, essencialmente, às organizações informais ou desorganizações formais.
Acreditamos que a produção do pensamento crítico deve ser de todos os lados e de todos os lugares, somente assim eliminamos a censura e promovemos diversidade.

As formas de expressão fora do corpo, mas, essencialmente as expressões corporais ou corpóreas (para fazer a referência mais amplamente) nunca foram tão privilegiadas sobre qualquer ponto de vista; enfatizando etnias, estados e condições humanas. O corpo que é a marca, o símbolo e a testemunha de tempo e existência migrou para todas as linguagens artísticas possíveis. E do que se encontrava macerado, dilacerado se refez em um mosaico de cores e complexidade.
Existe ainda uma perplexidade assustadora a respeito dos efeitos provocados pela ação da diversidade que promovemos, mas, este, é um caminho sem volta.
Da mansão dos mortos, intocável que era o inconsciente surge a vida, de volta e em cores assustadoramente novas. Temos a imensa responsabilidade de permitir sua mais livre manifestação.

Se não existem maneiras de medir arte, deveríamos então deixar de quantificar importâncias a um grupo de artistas que sequer se constituem como movimento ou vanguarda, mas que se impõem pelo caminho percorrido e ignorado?

A violência, aqui inúmeras vezes citada, e o poético são linguagens fora da consciência, e não se sabe de quê são feitos no íntimo de cada ser. E se tivermos ideias partilhadas que elas não sejam apenas sobre a condição de loucura, mas, também, que espaço é este que se diz cidadão, mas, que ainda tem seus mecanismos para extraírem da obra o que dizem ser ininteligível e colocarem-na no nicho de algo que aparece culturalmente debaixo, como se o subterrâneo ainda tivesse valoração inferior em produção artística.

A experiência psiquiátrica traz um impacto de muitas calamidades, muitas das quais outras pessoas em outras situações estão também vivenciando, nossas convenções sugerem a todos os métodos terapêuticos, ignorando o fato de terem se transformado mecanismos de repetição, de produção em série de produtos sem destinação, de automatismos, este tempo é mais doente que a loucura.
A arte vista como terapia é um perigo pós anti-psiquiatria. A marca do sofrimento pode ser latente nestas condições, e as oscilações e ondulações da vida no ofício de criar podem ser um purgante não para este sofrer, mas para que saiba inclusive que arte, às vezes, também não adoece.

Para muitos a arte pode ser um atenuante para os transtornos psíquicos, vemos na verdade que, ela é um risco para todas as doutrinações.
As relações de poder perdem o vício quando é bem aferida a balança dos componentes da subjetividade e da participação do singular naquilo que é universal.

Sabemos que os conceitos universais em arte são apenas Europa, porém, podemos fazer melhor fundindo não somente a isto nossa cultura popular, mas também nossa experiência íntima, nossa sinceridade comprometedora, nosso empório de ideias inquietas.

Esta compleição para noite nos verbos é uma aversão a madrigais, uma afeição a madrugadas, são curvas, parábolas, pérolas aos porcos. Paródia ao mundo resolvido em salões paroquiais de cristos crucificados, este é o enredo dos castiçais, o arremedo, o arremate e o sumário de alta.

Catalogar é um ofício que o mundo precisa, conquanto que seja um ofício criativo, um ofício de criação para matéria de catálogos. Já os loucos são os guardiões da subjetividade.
A utopia é criar um catálogo de subjetividades.

Tramas desenredadas de significações tecem suas teias no mundo pós-moderno, estas são as provocações que tomamos também como nossas. A concepção de rede aqui abordada não inclui nenhuma pretensão limite, inicio ou fim. Possui finalidades de utopia, assim como são seus meios de obtenção, de conquista, nada mais são que uma utopia: arte e loucura consumida como qualquer produto artístico pleno de sua circulação e criação de suposições de mundo ao seu redor, nos limites de seu espaço proposto no tempo.

As veredas que desvendamos não precisariam ser nossas, mas sim de quem produz arte na perspectiva da loucura, da perversão dos sentidos, da violência dos signos, destes artistas que adquirem tempo e forma na fumaça dos dias.

Ora, se é uma linguagem de mal estar esta não deve se atribuir apenas a condição psiquiátrica e poderia ser uma linguagem de mal estar com o mundo e, até mesmo, uma linguagem de mal estar alheia.
Falávamos também aqui da possibilidade de a arte ter um perfil redentor, se isto é bom ou ruim não nos cabe afirmar, justamente por considerarmos as coisas e o objeto da arte como um estado e não uma constituição, mas, que isto não se restrinja ao que chamariam efeito da arte terapia. Uma vez que, o resultado de um processo artístico, traz benefício a quem produziu, tem boas chances de trazer benefícios também a terceiros. Isto não significa que outros processos resultem em mal estar, tampouco que algum mal estar não se faça necessário.
Estamos todos num processo de entender a realidade sem cortes em seu foco narrativo para produzirmos sua experiência na calefação do tempo.
Os traços deste tempo estão superpostos e entrelaçados numa multi-narrativa, onde seus lugares de visão não podem ser ignorados.

Ouro Branco, 4 de dezembro de 1980.

O senhor Aristides Bocamorta atacou de novo. Vejam:

Qual seria a inteligência que os gestores querem para o ocidente que não seria aplicável também (e talvez tão somente) em nossos fornecedores de óleo?
Esta é uma reverberação das explosões transatlânticas que justificam a produção de nosso pensamento tão europeizado a ponto de não encontrar ressonância nem mesmo nas suas vanguardas e macular todo o século vinte de nossa própria experiência quão provinciana e ao mesmo tempo transcendente, no que tange à boa face da moeda da globalização (seu viés antropológico.).

A cidade é uma ânsia em confirmar desejos insanos. Repensá-la se faz necessário, mas, o imbróglio é colossal, pois que todos os argumentos a partir da discussão premente são produto de leituras que a mesma nos oferece assim como nos moem e nos impregnam de exercícios de incompreensão alheia.

Aparentemente os sinais de tamanha insatisfação com a sociedade do produto são claros e facilmente entrariam em qualquer discurso demagogo. Aparentemente.
Os vestígios das mazelas são sutis e muito sensíveis face ao volume de informações que os cidadãos engolem goela abaixo sem o direito de ruminar os acontecimentos.

Um mega atropelamento ou um incidente parecido alcança a curiosidade ávida de centenas de veículos que passam no local, mas, a cidade não parou por que todos apenas passam pelo acidente.
O banho, o café, a janta e a TV… Pronto, o cidadão parou! Perplexo com os fatos… Ora, nós somos os fatos!

Alienarmo-nos diante do jogo que jogamos pode ser um bom analgésico, contudo, estamos viciados. Existe uma condição subentendida que nos paralisa a reflexão.

Os desleixos não são um sintoma que a cidade deveria estancar sem antes tratar da ferida. O espaço compartilhado, a rua e as paredes sempre serão objetos de nosso olhar que nunca desejaríamos deixar de transpô-los (se nos encorajarmos para tal).

A cidade por vezes pariu a especulação imobiliária como também a abortou em alguns exemplos. Estes corpos de concreto ganham insígnias de nossa manifestação primária de letra e verbo precisarem de corpo.

A palavra é sopro e ganha espaço. Estraçalha gramáticas, sintaxes e semânticas, mora nas costelas, cabeça e pés, mas grita. O som, por sua vez, por seu ímpeto libertário, procura cor e forma, inscreve o signo de sua função e registra nada mais que a fúria da pluralidade de nosso linguajar livre das amarras a que este texto está submetido, por exemplo.

Estas intervenções do verbo ao concreto (que sempre o mereceu) seriam um mosaico que retratariam a pulsação, a vibração e a captura de imagens com a mesma crueldade que é proposta por quem cuida da engenharia da cidade.
Sua falta de linearidade está de acordo com a maneira que o homem moderno cataloga seu convívio e o coloca a disposição como memória viva de um tempo que não podemos deixar de nos responsabilizarmos por ele.

Não podemos deixar que a cidade fosse um retrato sanitário de nossa civilização.
Caíram-se os mitos das tristezas nos trópicos (se o motivo for limpeza). Roma teve um problema sério recentemente com coleta de lixo.
A higienização é uma eugenia dos itinerários. Se os trajetos somos nós quem os fazemos, temos o direito, no mínimo, de participar das decisões sobre seu melhor uso.

Os gestores públicos devem fazer um chamamento às forças que agem, certamente em sua discordância, para solucionar este cavalo de Troia.

A arquitetura convive com uma inequação de anseios que por vezes projeta em seus traços uma linha de argumento quase imbatível de contestação, mas nunca ouvido a não ser como sujeira ou poluição visual.
Existem várias formas de limpar e sujar, e acreditamos também em diversidade de critérios de julgar algo como sujo ou limpo.

Já o espaço privado, este está completamente convencido de que sua missão é realmente correspondente com o que suas campanhas publicitárias querem dizer, ou, querem mentir.
No entanto seria impossível pensar nosso país sem o investimento privado em pontos cruciais ao desenvolvimento de nossa cidadania. Mesmo assim, esta palavra cidadania não tem o mesmo significado quando falada por muitos empresários, quando falada por alguns políticos e quando falada por agentes que se apropriam de forma legítima do seu ensinamento.

A história nos mostra que ir contra leis nem sempre é apenas crime, pelo contrário!
Quantas almas caríssimas à humanidade transgrediram a legislação de sua época e ainda hoje nos orientam com seus pensamentos?

Muitas pessoas poderiam dizer: lá vêm de novo estes artistas e intelectuais simpatizantes dos Direitos Humanos…
Estão a dizer que pichação é arte (entendemos que, se não é arte pelo menos provoca arte) Mas, preferimos que os estetas que se interessem pelo assunto deem seu voto de minerva (este voto de muitas vozes sobre a questão). Isentos inclusive do advento da Bienal de São Paulo…

As estruturas da cidade se compreendem em justaposição de democracias. Muito se fala do poder instituído da criminalidade… Ainda acreditamos nas manifestações democráticas de nossa população e que, o poder instituído de fato acolha tamanhas insatisfações com nossa injustiça histórica.
Ao invés de criminalizar uma minoria (que cresce a ponto de não mais poder assim ser chamada) por não conhecer os efeitos benéficos que se supõem da democracia.
Propomos o diálogo aberto.
Sem hipocrisia, os representantes do poder público e os proprietários do patrimônio atingido, deveriam saber que, por falta da instauração de qualquer coisa que ao menos organize um pouco a vida, os herdeiros do absurdo chamado Brasil capitalista propõem sua própria forma de organização e hierarquia.

Tais padrões de funcionamento, na medida em que são ignorados, causam sérios problemas de ordem antropológica, de formação de uma sociedade. E não de formação de quadrilha!

O convívio pacífico (este que ainda não encontramos) infelizmente só dispôs de métodos proibitivos. Esta é a razão pela qual os verdadeiros pacifistas são admirados, por que conseguem romper esta barreira.
Como não temos tamanho altruísmo e tamanha habilidade ideológica…
Precisamos acreditar que a democracia seja construtiva e que incorpore para si, estes saberes de quem comunga do espaço público.

Se certo e errado é para o poder uma questão de normatização, pois que seja. Mas que todos sejam ouvidos.
Não em delegacias ou julgamentos, mas em audiência pública, por exemplo.

Nossos instrumentos legais se tornam cada vez mais complexos. O olhar subjetivo sobre o que deveria realmente ser exercer cidadania não passa de massificação cultural e cerceamento das periferias deste pensamento.

A distância entre urbanização e pichação não pode nem ser apenas uma questão de gestão municipal nem uma questão de novos enquadramentos para sua solução.

Certamente, a educação visual das cidades, requer novos critérios.
Bem como sua condução e orientação partilhada por todas as representações da sociedade.
Certamente, não falamos ou acreditamos em quadrilhas. Acreditamos num juízo honesto do equilíbrio das forças que representam verdadeiramente os interesses da população.

Sabemos que tocar nas feridas sem deliberar repressões como é o caso da prisão destes jovens. Só alimentará preconceitos e revanchismo.
Pedimos bom senso.

A velocidade das informações visuais neste anonimato transeunte da aventura do século vinte é assustadora. Tal qual é seu dinamismo de se alimentar da economia incrivelmente forte e cega de nossos centros urbanos. Trata-se de um deslocamento inequívoco das massas em dúvida. Todos estes questionamentos estão também inscritos nas paredes nas ruas destes locais de passagem como vestígio de uma expressão que, ao mesmo tempo em que se mostra também se esconde.

A história de nossa arquitetura se confunde com o signo rarefeito de não termos o direito de apreciá-la. Os apelos comerciais para que este jogo mude em prol dos mesmos comerciantes devem ser enormes.

As vias se transformaram em veios infeccionados expelindo gente como quem expele as mesmas toxinas que as matam.

O que são pichações a não serem sintomas e diagnósticos de a cidade precisar se limpar sim, mas, se limpar da própria loucura que está mais ligada às máquinas e às indústrias que insistem em manter a estrutura dos grandes centros de pé.

Sim, estamos de pé, mas estamos prestes a desabar… O conceito de higiene (em termos absolutos) não resolve estas fragilidades, nem mesmo a doença social da maioria dos moradores das cidades grandes.
A experiência do homem contemporâneo é justamente sua baixa imunidade à sujeira que ele mesmo produz.
Deste homem nascem os conceitos de manejo do próprio lixo e o altíssimo grau de comprometimento de sua obra com seu resíduo. Os padrões de rejeição ao produto do trabalho do homem contemporâneo, que passa então a manufaturar seus fracassos, não fazem outra coisa a não ser demonstrar sua habilidade com indesejável e não desejar outras habilidades.

Com quais aptidões nossos gestores trabalhariam para que o exemplo de repressão não caia de novo no lado mais fraco e não fabrique na opinião pública uma falsa sensação de justiça?
Condenaremos a anos de reclusão jovens em nome de uma limpeza que não se limpa?
Faremos voluntariamente a realização de fato da imensa possibilidade destes jovens realmente sujarem suas mãos enquanto lavamos as nossas?


Permitam-me revisitar Arthur Schopenhauer em suas reflexões sobre vida e morte. Não farei citações. Elaborarei ideias em torno de conceitos dos quais me aproprio (apropriação é esta palavra que a contemporaneidade vem tratando ao mesmo tempo com cuidado e “promiscuidado”)
Este livro tem como ideia central a dicotomia entre representação e vontade que, ao abstrairmos um pouco, podemos executar um exercício de reeditar estes axiomas à modernidade e, desculpem-me a presunção, atualizá-los para uma aplicação que nos tange, embora aquém de recursos teóricos, mas, além de um ecumenismo e de um elogio à diversidades ausentes de sentido.

A representação referida no texto filosófico, a meu ver, pertence a um mundo que não existe mais, ou talvez, um mundo mais turvo e profundo. Pois diz da obtenção de instrução e conhecimento para que se caminhe pela vida com mais sabedoria para seu destino inevitável da morte.

Visto que a carne é algo perecível, o filósofo critica o cristianismo, pois em sua visão, carne não pode ser premissa de eternidade. E verbo, que para os cristãos é carne, apenas teria servido à humanidade para construir justamente representações, o evangelho seria um exemplo.

Para estabelecer o paradoxo de que a representação pode ser doutrina, mas não pode ser certeza. Schopenhauer praticamente serve de fonte para o Kardecismo, com a água da fonte do Classicismo e referências ao budismo. A ideia seguinte (a vontade) seria como é o apego para o pensamento oriental.

Ambas, representação e vontade estão presentes e se confundem em nosso tempo. Uma sociedade de produção e consumo não poderia ter feito outra coisa.
É recorrente em nós, principalmente ocidentais, uma ideia depreciativa e apocalíptica do triunfo do que seria a vontade diante da representação, em detrimento de uma vida mais deleitosa com as coisas do espírito. Esta é uma ideia plana.

Acredito que não conseguiremos, nem nos próximos séculos, fortalecer as representações diante desta época de impessoalidades, mas, o referido triunfo da vontade não pode ser visto apenas como materialismos baratos da atualidade. Estes nada mais são que uma distorção provocada pela falácia das representações.

Temos que tomar a vontade como algo realmente potencial para ultrapassarmos as falhas nas instituições (públicas privadas ou religiosas) através do que no sujeito suscita à vontade, o desejo, a libido. As possibilidades de contato com o outro e de comunicação por códigos cada vez mais complexos, seriam uma reação inesperada do próprio mundo do capital face ao seu auto estrangulamento.

As singularidades nunca foram tão expostas e nunca se desejou tanto explicitar singularidades. Estes signos são oferecidos como o verbo e como a carne; como o pão e o vinho. Mas é como se nunca tivéssemos conhecido quem senta à nossa mesa.
No entanto, compartilhamos todos estes signos descaradamente. O que remete a apuração do verbo bem como o verbo em apuros.

A escola, a televisão e os historiadores vêm perdendo seus domínios. Isto não é ruim tão pouco bom: é difícil. Pois o deslocamento nas formas de representações das instituições é lento, moroso e traumático.
O que, a meu ver, fez com que a vontade: como diz o seu próprio nome, inventasse para si suas próprias representações e fez e faz isso incontáveis vezes.

Os arquétipos não são mais gases boiando no ar em que respiramos sua apropriação no viés antropológico nunca deixou de existir. Ao longo de milênios o convívio humano sofreu este acúmulo de representações como quem quisesse deixar sua marca para uma posteridade tão indeterminada como é hoje sua vontade.

Indeterminar vontades é o artifício mais convincente para derrubar predefinições que nos servem apenas para angústia. Não obstante, a angústia também está em indeterminar subjetividades. Mas é justamente esta lacuna que possibilita o singular como ente do universal.

A queda da representação ante o seu fracasso em reproduzir o universal no indivíduo se dá pelo fato das facilidades e conveniências desta época em que ações mecânicas e automatismos começam a ser revistos no âmbito da ação necessária e sem intermediação. Ao longo dos séculos intermediadores cometeram erros que por si só justificariam o ato individualizado dos homens de hoje.

O universal não encontra interlocução para quem quer ser atravessador de verdades, antes assim. Reproduções da representação continuarão a nos atazanar. Mas o sistema sempre oferece brechas e a vontade as arromba.

A letra do corpo carrega insígnias que deflagram teias infinitas, coisa que há alguns quinze anos seria possível apenas em estátuas. Nas estátuas apenas a letra imana algo simbólico, nas pessoas a letra transmuta o simbólico em carne e reproduz espaços de conexão da ordem da possibilidade do impossível.

Este é o trabalho de nossa vida. Evidentemente não poderíamos fazer com que todos os chefes de estado anulassem passaportes, por exemplo. Isso não quer dizer que não possamos fazer do nosso jeito (o que nos torna incomuns é muito comum, pra não dizer invariavelmente comum).
Vivemos em cidades e isto é universal, mas todos sabem das representações da cidade que já há um bom tempo nos são inúteis.

A cidade vive de pisadas firmes com pés desejosos, a construção na geografia urbana vem transferindo seus símbolos para o individuo na medida em que este irrompe de si.
A cidade em que vive as opiniões que tem, e principalmente, aquilo que oferece.

Oferecer é sair de si, sair de si é vontade que satisfaz a si, mas também o outro.
Estas invisibilidades diluem-se sem entropia. Mesmo fora de nós quando voltarmos voltaremos com novidades. Estas que também são as que se recebe.

A troca é uma democracia sem regimento interno homologado, é o nosso legado. Temos consonância com os espaços apenas se os pensamos e pensá-los fora de nós e dentro dele.

Fora de nós há o mundo.
Bem ou mau, o mundo é para morar nele.


Para Alberto Caeiro, um dos heterônimos do poeta Fernando Pessoa, “pensar é estar doente dos olhos”.

Esta imagem vem sendo dissecada em “O Guardador de Rebanhos” como se, tudo aquilo ao qual atribuímos existência, estivesse fadado ao nosso crivo. Para o poeta este juízo não passa de delírio. Sendo assim, ratifica-se a ideia de que a escrita é mera ilação, mas, Alberto Caeiro escreve poemas e cai na própria armadilha.

Começa por dizer que todos os objetos não deveriam fazer justiça ao nome e não mereceriam que projetássemos neles pensamentos. O poeta sustenta um axioma de que se algo existe não precisa ser explicado ou questionado.

Portanto, as denominações do mundo só poderiam ser vistas, e não deveríamos acrescentar ao ato de observar qualquer conclusão que estivesse fora da forma fora de um corpo inanimado ou não.

Do ponto de vista contrário ao misticismo, Caeiro decreta sua inatividade quando diz: “o que me importa o que os homens sofrem, ou, o que supõem que sofrem”. As suposições lhe são algo inaceitável e são tudo que os homens produzem, mesmo assim, o poeta não consegue neutralizar todas as disfunções de seu próprio sentimento, ao descrever suas sensações acerca do mundo externo. Portanto impossível pensar o mundo sem pulso e sem nos provocar alguma violência.

Quando irrompe do olho o gesto, a interação com o espaço; o meio do poeta se desestabiliza, pois que não se pode prever, os movimentos do mundo.

O poeta preferiria uma pedra ou uma flor a um místico, aquele que coloca as repetições em movimento, não há outra coisa a não ser a reação.

As mutações do pensamento contemporâneo são cômodas, somos um devir, uma atribuição consciente de uma rede complexa de teias que não sabemos para onde nos levam. Isto é o que mais causa ojeriza ao poeta, não por acaso, Fernando Pessoa o concebeu como um campônio.

Mas dito tudo isso não negaremos que Caeiro compartilha sua visão de mundo, como nascida de seu interior, um interior completamente afetado pela paisagem, ele percorre um trajeto fora de si para dizer que não pensa, apenas vê.

Ver é mostrar ao visto o que está dentro, contudo, o visto não assume nenhuma responsabilidade, a necessidade em ver é apenas de quem observa. Receber uma impressão de algo através do exercício da observação e tirar conclusões é um risco que Alberto Caeiro o elimina de suas angústias em poesia.

Assim como estender a mão é um gesto necessário a quem a estende e não a quem a recebe, na mesma medida em que, acolher, é arbítrio de quem reconhece na mão o afago.

Ver o outro e desejar fazê-lo qualquer bem precisa ser fora de si, em sua própria posição, o outro não é nada mais que o que já está dentro. Em sua própria posição, o outro nunca será impróprio, incômodo, inconveniente ou indesejado.
A própria inadequação da relação de Caeiro com seus objetos é que ele não consegue provar a si mesmo que estes não o são realmente algo já totalmente definido em sua concepção, algo que nunca carecerá qualquer alteração durante uso ou convívio.

As mudanças necessárias para efetivar qualquer desejo, e se este deve continuar se chamando desejo, devem partir não do dentro inicialmente, deve receber o que está fora e torná-lo tangível; estas possibilidades permitem confundirmos a experiência da permuta como algo que sempre esteve dentro. E dentro vem um movimento de alcançar o objeto.

O objeto sempre esteve e sempre estará no espaço do vácuo, está é a razão pela qual não reconheçamos suas possessões e sempre nos angustiem seus ecos em nós.

Os corpos são uma eterna atualização do processo de invenção de subjetividades suscetíveis ao erro ou ao aplauso, ao abraço ou à negação.
A maneira como interagimos no espaço merece um olhar de fora para dentro que não seja espelho, e um olhar de dentro para fora que não sirva a si somente.

Fora de si, servimos a uma imponderabilidade de afetos!
Assim diz o último verso de O Guardador de Rebanhos:
“e lá fora um grande silêncio como um deus que dorme”

É neste silêncio que dialogamos aos gritos.

PEQUENA CRÔNICA AMERICANA

Parmênides e seu habitual senso de sempre assentar-se ali
Como caso quisessem
Imaginassem uma ribalta
Do bambuzal a iluminar suas ponderações
Em cachimbos que prendessem mais a língua
A certa abstinência de palavras
E a algum bocejo
Como se estivesse a devotá-lo a algum santo
Ou espécie de brâmane
Entre poços e borboletas
Como pudera vociferar contra qualquer coisa?
No entanto, o sumo daqueles séculos preguiçosos,
Evocados na peleja de quando se esquece um verso
Sem se importar com a perda do bonde
Ou a perda de uma alegria que não pudesse suspirar ali
Naqueles momentos do quase
Entre o esquivo esquálido e o solitário contorcer-se
Por suas preocupações, tão internas a si, uterinas.
Tão distantes de qualquer distância
Apenas o bilhete na mão. Não eram suspiros de mulher. Ou anotações contabilistas
As palmas de suas mãos
Carregavam outro tipo de inquietação que já superavam circunlóquios acerca de seu meio século
Que agora prostra o seu viver
Uma interrogativa sobre como seu neto
Inocentemente
Procurava pela casa num fundo absorto das memórias do avô
Objetos que, todavia lhe remetessem a Mickey Mouse.
Este século cansado de Parmênides
Avô, macambúzio
Pelo frio de Stalingrado e pelas corridas atômicas
Persegue atônito a saga de orlando, sem cerimônia ao equivocar-se:
Virginia Woolf
Era bom que seu neto fosse à Disneylândia.

Era uma boca de calmarias
Tramando consensos calado
Este silêncio fecundo sempre fez de Atanagildo um semblante retinto
Próprio a velórios
E à oratória cívica das datas
Embora soubesse que se tratava de um engodo do tempo, as datas, cabendo a si mesmas,
Tão solenemente pedindo palavras com a maciez da ocasião
Mas, sorria lhe a mudez do ângelus.
Com a retórica das gerações mortas
Dependuradas na parede entre pratos e castiçais
Velando o sossego provisoriamente eterno das mobílias
E o furor balsâmico de Bernarda
Que entre livros preferiu se entregar entre Reginaldo e o amor de Reginaldo
Prometendo pontualidades esvaecidas que mais pareciam
Colhidas do orvalho que trazia em seu chapéu
Atanagildo cumpria promessas
Não enviava meios recados
Traçava destinos entre suas cadeiras e baús e maquinanças
A moça retirada do choro tiraria da conta de lágrima
Um ingresso
Para a Disneylândia
E talvez a Reginaldo sobrasse-lhe todo esse ar tísico ou o arsênico no último ato
Eram sensações díspares entre margaridas
Os soluços de amor parecem retumbar na América
Como um luto antigo de banzos
Porém as retretas acompanhadas da pompa de seu pai na praça central
Recomendavam para Bernarda melhores Disneylândias
Bom consolo a todos os desvalidos
Mas para minha filha uma incontida alegria americana!
Romualda tinha o ofício de pétalas para noivas
Tinha uma personalidade que parecia retirar suas opiniões
Do fundo de uma gaveta
Com papel timbrado, velho,
E tinha por isso certo gosto
De todas as suas pontuações soassem equivocadas
Ecoassem desprezíveis e ignoráveis
Em meio a fumaça que as esquinas evocam do que não se pode evitar
Sua vida era um lenço perfumado
Que só José cheirou
E fez-lhe sufocarem os dois no desvario do qual rebentou João
E levou seu pai a perder-se em bodegas
Errante como quem perdesse o maná
De todos os recatos inúteis da juventude
João crescera entre toda a sorte de instrumentos musicais de corda
Não era o desejo da mãe
Queria que ele largasse lundu, jongo e estas coisas incertas.
América de fato se faz em Orlando, Disneylândia! Dizia Romualda,
Com sua voz perfumada.
João perambulava pela cidade com seus maxixes e polcas alardeando seus camaradas em pequenas pocilgas
O samba subirá de hemisfério
Este século não merece tanta tristeza!
Enchei a taça que em breve visitarei cassinos e a Disneylândia!
Lá cantarei meus desatinos! Lá cantarei minhas cinelândias!
Ah! Em Orlando serei amigo de todos os reis
Tantos os do Olimpo
Como os do Congo
Romualda tecia um bordado.

Veludos têm cheiros obstinados a muitas memórias
Quase tão exatas quanto à pele macia de sua superfície
Bem como da topografia das silhuetas de quem os veste
Viva em cor a capturar plumas para vestígios mais certeiros
Era o que costumava dizer Manoel Feliciano, alfaiate.
Manoel acabou por ordenar seus onze irmãos como párocos
Em onze cidades distintas como lhe pedira em segredo seu pai
Outrora tivera prazeres, mas, poderia correr o risco de deixar seu brasão sem descendências.
À sorte lhe fora incumbida de lhe enviar receber como esposa, viúva tia Maria, que também tinha onze filhos.
Esta que ao encontrar matrimônio com o Alfaiate cumpriu a promessa de vestir de veludo todos os santos de todas aquelas igrejas
Daqueles cantos esquecidos
Daquelas glebas escondidas
Manoel empenhou-se em mais de década e muitos vestidos de veludo
A economizar
Onze bilhetes para a Disneylândia
Para as definitivas bodas com tia Maria
Com o veludo do dia
E o cetim desvelado das noites
Em orlando, os apóstolos veriam mundo novo, quem sabe,
Boa nova, quem sabe, voltassem inclinados às doutrinas das prosperidades.
Pois que estas não se conjugam
Com celibato
Ah! Se a América pudesse entrever a destinação do brasão de seu finado pai que não findava em nenhuma homilia de terra prometida
Que voltem todos sãos, mas que venham todos da Disneylândia
E que lhe descrevam tudo
Aveludadamente.

Eis a grande roda gigante
Por onde se vão todos os bilhetes do mundo
Todos estão egressos de uma solidão sem fim
Eis a grande roda gigante
Por onde rodam perdidos todos os filhos do mundo
Todas as delícias da vida
E todas as dores da morte
São uma roda gigante com céus de algodão doce
E a desolação
De terem se perdido todos os bilhetes
Todos os avisos para esperarem calmamente
O trem na estação
Para dormirem mansamente nos lençóis da terra nova
Todos deveriam voltar com novidades da roda gigante
Esquece-se
Este ofício de saber de onde e como viemos

É tudo o grande colorido da grande roda gigante

Jessie James tinha uma namorada
Aos domingos, costumavam confeitar tortas de maçã
Para depois caminharem distraídos por Westville
Era uma maneira de despistar o tempo
Durante a semana estudavam e riam
Comentavam entusiasmados as novidades do rádio
Mas o cinema da cidade apenas tinha em cartaz
Filmes muito antigos
Faziam planos
Eram generosos
Estas dores periféricas afetavam muito o jovem casal
Queriam em verdade mundo mais justo
Os dois aprenderam a ler juntos
Sempre estudaram a mesma classe
Estavam sempre juntos
Passaram a gostar de comentar os livros que liam
Suas famílias eram amigas nesta vida
Chegaram a começar a pensar em casamento
Este dom inesgotável de esperança…
Que se tem enquanto não se vive ainda muito tempo…
O exército chamou Jessie James
Eles iam lutar no deserto estrangeiro.

Mccoy Tyner gostava de escrever poemas
Tentou fundar um cineclube em Westville
Participava de seminários que estudavam o manifesto do partido comunista
Fundou o grêmio estudantil de sua escola
Tinha notas muito boas
Começou a colaborar com a gazeta comercial local
Não gostava de excessos
Sofria de asma
Chegou a pensar em ir ao seminário
Era filho de um operário do subúrbio com uma dançarina
Tinha muito o que planejar e já se transformava em arrimo de família
Sua irmã mais velha tinha um ligeiro retardo
Tyner chegou a frequentar o curso de filosofia
Mas, não pôde completar seus estudos,
Passou a trabalhar.
Era balconista numa loja de ferragens
Queria ajudar o pai a conseguir mais conforto em moradia
A vida era dura em Westville
Contudo, Tyner era um rapaz formidável.
O exército chamou Mccoy Tyner
Eles iam lutar no estrangeiro

James Joyce tinha um cão que usava chama-lo de Hancock
Um labrador preto
Acostumado de ser chamado por hancock
Joyce gostava de ensiná-lo a comer macarrão
Gostava de caminhar com ele pelas ruas desertas de Westville
À noite, hancock vigiava os Joyce.
Da imensa desolação até que ela produzisse seu habitual orvalho perfumado
O pai saía para trabalhar na olaria
A mãe descia ao porão onde havia um forno no qual preparava cookies
O jovem James se dedicava a longas solidões literárias e jazzísticas
Lá pelas tantas, chamava hancock.
James Joyce era um jovem convicto de seus afazeres
Às vezes duro demais para alguém com sua idade de dezessete anos
Era tão seguro de si
Tão maduro
Nunca deixou que fosse permissível caçoarem dele por qualquer coisa
Mas, às vezes pensavam:
Do quê iria sofrer o jovem Joyce?
O exército chamou James Joyce
Eles iam lutar no deserto estrangeiro

John Mcanroe tocava saxofone. Também dançava muito bem. Assistia pela televisão a todas as corridas de automóvel
De vez em quando
Ia aos bailes da associação comercial de Westville
Para dançar o Rock around the clock
Mas era e arredio e esquivo
Tinha personalidade própria de artista
A separação dos pais lhe fizera muitos males
Discutia com a mãe
Não conversava com o pai
Decidiu morar com a avó
Lá ele tinha uma garagem com uma caixa de ferramentas
Onde consertava motocicletas
Gena se apaixonara por ele
Gena dizia que ele tinha um estilo James Deam
Ao passo em John passou a andar com o Corão debaixo do braço
Ia à mesquita
Mudaram seu nome
Nenhum conhecido teve facilidade em pronunciá-lo
Segundo os pais isto só aumentava sua rebeldia pueril
Gena recolheu-se em mágoas
O exército chamou John Mcanroe
Eles iam lutar no deserto estrangeiro

Westville consentiu e emudeceu-se contida e tristemente

Quando os ofícios dos homens ameaçam cessar inventam a guerra
E inventam a prodigiosa indústria do guerrear
Mas todos os soldados chegam a um estado de tortura e exaustão
O qual não se mata e não se morre
Inevitavelmente suicidam o próprio espírito
No deserto, houve então a mais ingrata e nefasta das batalhas.
Caminhavam por dias os sobreviventes
Implorando por comida, água, sombra.
Feridos, cansados,
Absolutamente desolados, clamavam por suas mães,
Suas casas, seu conforto impossível em seus quartos de lençóis limpos, Elvis Presley Marylin Monroe.
Depois de andarem muito
Encontraram uma roda gigante em ruínas.
Havia ali, outrora, um parque de diversões?
Fora a guerra a qual o destruiu?
Os soldados choravam, gritavam rezavam, morreriam ali?

Surge de um horizonte incerto e flamejante uma criança, um vulto de criança que trazia consigo um animal de pelúcia que se assemelhava a Mickey Mouse.

Ouro Branco, 16 de dezembro de 1980,

Prezado senhor Adolfo Colaris,
Escrevo recomendada pelo casal Asdrúbal Penaforte e Alana Rios, ambos informaram-me de seu trabalho como detetive particular, bem como ter exercido este ofício no interior da Inglaterra.
Gostaria de contratar um serviço em Londres, sem obviamente fazer alardes. Tenho sido afetivamente ameaçada por cartas de um senhor que, supostamente, conheceu minha mãe em seus anos de exílio.
Porém, suspeito que este homem possa ser a mulher que trouxe minha mãe de volta ao Brasil quando meu pai falecera e com a qual mantive relação amorosa.
Prezo que o senhor mantenha sigilo e me sugira uma pessoa adequada. Não tenho problemas com o idioma.
Grata.

Baltazar Meio Dia
Suspeitou que Jorge Jardineiro
Fabricava estrenhos
No quintal de Seu Agostinho
Numa eufonia de curandeiro
Numa putaria de punheteiro
Num ufanismo brasileiro
Fabricava estrenhos
Meio dia inteiro
No mundo fim das noites
Baltazar Meio Dia
Roubava calcinhas
Roubava galinhas
Em volta do galinheiro
Ciscava as coisas
Pescava as coisas
No mundo fim dos dias
Baltazar Meio Dia
Profanava profecias
Afanava professoras
Difamava Zilda Calambau
Baltazar Meio Dia
Fumava maconha
Inventava melodia
Declamava poesia
Cheirava mal
Cheirava a ambrosia
Cheirava a Che Guevara
Tomava cafeína e coca cola
Estrenhou Jorge Jardineiro
Mas uma canção o consola
No quintal de Seu Agostinho
No missal de São Chiquinho
Mas que diabo veio a ser essa fábrica de estrenho
Esse trem azul
Esse diabo pequeno
Esse canteiro de quiabo
Esse cântaro de arnica
Esse cântico estranhado
Num puteiro
Num frasco de veneno
Baltazar Meio Dia
Bebeu leite belzebu de São Chiquinho
Cheirou chuchu e jardim de seu Agostinho
Chamou um exu com estrenho
E tomou conta do terreiro
Fez justiça a Jorge Jardineiro
Começou a coleção de estrenhices
E estrenhezas
Não era naquele tempo
Uma vez que foi
Baltazar Meio Dia.
Pandemônio
Panaceia
Salada de salmonelas
Baltazar expelia
Miríades de protozoários
Todo dia
Baltazar espalhava
Fofoca de Alcebíades
Na hora da ordenha
Baltazar
Meio dia
Lia os provérbios
Superlativava os advérbios
Com sabedoria de Salomão
Baltazar
Meio dia
Lia o alcorão
Depois foi embora pro Gabão
Em rios de rito
Em lírios e delito

Nicodemos Primavera
Presenteia-me o inverno
Com folhas secas entre livros
E uma lareira
Afugenta-me o veraneio
Com seu romaneio flor e chão
Seu calor por húmus
Sua romanesca vocação
Para cachimbo e Catulo
Sua matula de queijo sua erva mate
Seus bigodes maltados de espuma branca
O sal de oceanos alcoólicos
E barcos bêbados
Seu naufrágio Almodóvar
Deve ter sido próximo a Algarves
Próximo a uma marquise
Que já ignora a noite
Seu sol surrealista é um leviatã que engole continentes
Por doze horas
Em meridianos entrecortados
Próximo a um albergue

Sebastiana,
flor de sexta-feira
Cheirou
amônia para não ir ao convento
Com
sorte de puta com piteira
Foi
viver a vida ao sabor do céu
Da boca
nublada
Com
fumaça consumada
Bebeu
vinho de confraria
Não
aceitava bacanal
Cheirou
flor com parcimônia
Para plantar
depois do carnaval
Mastigou
uns condimentos pimenta
De bode
Acorda
na sexta-feira
Acode a
companheira
Salva aí
A
coleção de Pink Floyd
Cristos
cruzes e credos
Oração,
broto de feijão e alho-poró
Chorando com Caetano
I heard my voice among others
Mas,
ninguém sabia dessa poesia
Era como
se só Sebastiana
Conhecesse
a profecia
Da
babilônia e do dragão
Esta
vida
Uma
ferida de morte
Uma boa
morte, nossa senhora Sebastiana! Flor de sexta feira.

Miríades
afogadas
Mares ias naufragada
Oh meros
momentos de dantes
De dali
para Cervantes
Homens, hímens
e barbantes
Costurando
mares bálticos
Derramando
basalto
Nos
seixos dos autos da rainha
Nas
bainhas das anáguas
As
mágoas contidas
Num
risco de bordado
De nove
helenas
E treze
troias
Sete
candelabros
Um
descalabro catalão
Gaudí
implodido
Impelido
por águas vivas
Netunos
e cardumes
Vem
molhar este vestido
Com
sêmen gutural
Dum
Iêmen em carnaval temporão
Na
primavera do cantochão
Interpelando
o corpo de miasmas
Fantasmas
entreluas
Ancas
nuas
Luas
incas
Ou
qualquer bobagem onírica
Ou coisa
do gênero
Lírico
A raiz
seiva resina
Látex
Cianureto
em pastilhas
Se há
sonetos em redondilhas
A páscoa
e as outras ilhas
Os
motetos de aleluia
O pranto
das verônicas
O canto
de calipso
O manto
do sudário
Um
alfarrábio sumério
Um
escriturário sumário
Escreveu
Matias Mato Raso
Deve ser verdade

Isto é antipoesia
Dizia Aristides Bocamorta
Isto é lira e prosa
Dizia Zequinha Bilico
E tudo foi seguindo destinamento
E foi seguindo terminamento
De alecrim e cansanção
Gira lua gira vento gira mundo
Sem acabação
Era este um poema
De debaixo de um rio
Que não morava peixe
Que nasceu na lua
E foi não se sabe de onde
Que era de conhecimento
Que morava com eles
De cores coloridas
E dores dolorosas
Cardumes de rosas
E milagre de prosa nas bolhas
Na canção dos mortos
Um êxodo de idas
Sem vinda de mundo
Sem via de regras
Sem ciclo de ovulação
E tudo foi seguindo destinação
E foi seguindo terminação
E foi feito pra ser sem acabar
A origem e a completitude
Uma eternidade de rio Dolores Rodamunho

Altemar não é do trabalho
Mas comparece ao terreiro
Frequenta o jasmineiro
Só pra dizer ais
Chamava-se Tanhendé
Pois que comia pedaços de fé
Em minutos alegoria
Praguejava profecia jogava baralho
Jogava capoeira
Colocava água no aipim
Faceiro e cheio de cardumes
Pescava peixe e húmus
Seu sumo ogum
Seu fumo Oxossi sai do prumo
E tosse
Altemar Tanhendé
Ecumênico de abismo
Entidade de cataclismo
Identidade exu

Ulysses Aquino
Vulgo ponte alta
Num dia só
De acordes agudos
Altaneira polifonia
De lacônias
Lascívias e buganvílias
Begônias e Lacan
De estado Freud nas coisas
Num dia só
De acordos mudos
De amônia e parcimônia
De amantes e cousas doidas
Causos loucos
Ulysses de aquilo
Insanidades tipo Brenan
Marcenaria e perfumaria
Três brutos marchando
E Ulysses Aquino
Vulgo ponte alta
Num dia só
Num cio dó maior
De a partes ponteados
Jaquelines Onassis
Brocais dourados
Broquéis laqueados
Broken afternoons
Bromélias adulteradas
Hímens brotados
Camélias sem cabaço
Ofélias sem cabeça
Ulysses Aquino
Ponte alta
Obturação
Ponte alta
Num dia desses

Aquiles Bonfim
Rimou cansanção e trancelim
Aquilo cetim
Nem por você
Nem por nós
Por vós que anunciastes
Estrelas eleitas
Revoluções mal feitas
Bem feito!
Teorema Aquiles Bonfim
Pitágoras profanado
Tales de mileto retalhado
Soneto mal floreado
Logaritmo
Algo rítmico
Nem por mim
Nem por nós
Aquilo alecrim nos lugares íntimos
Aquiles Bonfim nos algures ínfimos
Sanitários
Sanatórios
Loucos a menos
Minha Venus
De mamilos arrepiados
De venenos apreciados
Na botica Aquiles Bonfim
Aquilo bruma de morte

Ouro Branco, 10 de janeiro de 1981,

Prezado senhor Afonso de Almeida,
Escrevo-lhe para me inscrever no prêmio literário sob sua organização. O prêmio Antologia Discurso Direto.
Trata-se de um esboço que posso melhorar.
Segue o conto e os contatos.
Desde já agradecida.

Condomínio Labor

O prédio era bastante antigo, talvez tivesse uns cinquenta anos. Vinte e três andares imensos que se dividiam em oitenta apartamentos, muitos dos quais, vazios. As escadas em espirais continham uns quarenta lances muito mal metrificados, claustrofo-bicamente metrificados. Os degraus vertiginavam. Aliás, todo o prédio e todo o seu assoalho em reforma vertiginavam, aprisionavam. Alguns moradores não se lavavam nem lavavam suas kitchenettes, nem seus lavabos nem a si mesmos. Tudo impregnado de mofo de roupas e mofo de gente.
O último andar era trancafiado por um medonho cadeado. O que haveria ali? Simples, a resposta. O cadeado era para que nenhum maluco – e desses lá havia muitos- não se jogasse do alto. Uma brigada de incêndio evidenciava a falta de cuidado dos funcionários do condomínio e de seus moradores com o resto da cidade e o resto de vida que lhes sobrava naquele horizonte cinza. É certo que, se houvesse incêndio, a brigada do edifício muito pouco poderia fazer. Isso por causa da displicência de todos para consigo mesmos, cerca de três mil alienados.
Naquela quadra, os transeuntes pareciam como deveriam parecer. E só se transformariam se ali houvesse uma implosão. Essa é a displicência contra a própria psico-geografia. A esquizofrenia dos espaços, das praças, dos semáforos. Assim era a vida. Por dentro e por fora.

Hernandez acabara de comprar um carro no bairro Bella Vista, um Fiat 147C, que tinha vindo do Brasil, talvez do contrabando, e ficara estacionado na frente do fliperama. Suado, Hernandez pensava no fato de que agora ele diminuíra a distância de sua bigamia.
Chegando ao condomínio Labor, Hernandez abriu a porta do apartamento 2383 e Julia correu. Julia correu dois passos, justamente os passos que permitiam percorrer a pequena distância da mesa da sala até a porta da kitchenette. Julia correu para abraçar Hernandez, com as chaves do automóvel tilintando. Então agora eles poderiam colocar as verduras de sua mãe no porta-malas do Fiat e distribuir nos mercadinhos do subúrbio. Julia tinha que cuidar do pequeno Pablito, que sofria de asma. E Hernandez então faria o serviço.
No entanto, todos os legumes e verduras terminavam na casa da outra mulher de Hernandez O que Hernandez fazia, em contrapartida, era vender maconha para sustentar Julia e seu filho Pablito.

Ainda no condomínio Labor, no apartamento 2115, morava Alejandro, um jovem que tinha distúrbios de ordem psicológica, os quais possivelmente lhe renderam uma atrofia nos músculos de suas pernas. Levanto essa hipótese psicossomática porque nenhum médico conseguiu diagnosticar a causa de ele passar meses de cama sem conse-guir andar. O que piorava a situação de sua mãe, Alfonsina, cuja única fonte de renda era a venda de bijuterias.
Um dia Alejandro resolveu pegar a muleta e começou a andar, já que nenhum funcionário do condomínio o ajudava a se locomover. Sua mãe, muito alegre, resolveu pagar o conserto de uma máquina de escrever, que seu falecido marido havia estragado. Esmurrando tudo num acesso de fúria e sensação de fracasso, mal saberia ela que, mis assim, seu filho ainda não perdera a esperança de escrever e ter paz. De fato, todo aquele ócio de Alejandro o levava a escrever, ainda que a mão.
Mas agora Alejandro, já de muletas, tinha uma máquina de escrever. Sua predileção era escrever sobre os travestis do condomínio.

Alejandro passava pelo corredor do vigésimo-terceiro andar e, com certa habilidade, levava uma xícara de café. Ele havia feito o mesmo caminho numa primeira viagem para levar a máquina de escrever. Quem ali a roubaria? Colocou a xícara de café ao lado da máquina no chão, recostou as muletas na parede e sentou-se. Acendeu um cigarro enquanto bebia o café, observando o pôr do sol através daquelas janelas enferrujadas, buscando inspiração.
Alejandro ouvia os sussurros de Hernandez com um membro da comissão de administração do condomínio. Ele se recusava a inscrever-se num programa de saúde pública temendo a descoberta de sua outra família. O membro da comissão passou pelo corredor rumo às escadas daquele labirinto, nem sequer percebeu Alejandro.
Hernandez já estava decidido a acender um baseado, pois naquele momento os corredores eram desertos e começava a escurecer. Aproveitando que Pablito se compenetrava no videogame e Julia lavava os pratos, acendeu então a erva. Saiu pelo corredor e deparou com Alejandro. Teve certeza de que ele ouvira toda sua conversa com o membro da comissão de saúde púbica. Observou a máquina de escrever, conhecia os boatos de que Alejandro escrevia sobre os moradores do prédio. Não hesitou:
_ Tava ouvindo minha conversa para escrever aí, pulha?
Com um chute, Hernandez jogou a máquina de escrever contra a vidraça, quebrando-a e arremessando o objeto a uns cem metros, no chão de concreto. Alejandro tentou se levantar, quando Hernandez lhe tomou as muletas e quebrou-as. E quando Alejandro caía no chão, o outro chutou suas pernas atrofiadas.
_ Bico calado, otário.

Juan, ou Mónica, como gostava de ser chamado, passou pelo corredor. Ele havia formado uma associação de travestis no condomínio, que contava com mais ou menos vinte e cinco adeptos.
Vendo o infeliz ali, tentando se levantar, Mónica correu piedosamente para o apartamento de dona Alfonsina, que montou mais uma vez a cadeira de rodas.
_ Você me acompanhe, por favor, Juan. Alejandro é muito pesado.
De volta a casa, foi impossível que Juan contasse tudo o que aconteceu sem que Alfonsina não estufasse suas artérias e quase desmaiasse. Ela começou a jogar tudo o que estava em cima da mesa para o alto, histérica. Para sua infelicidade, foi cair ao pé de Mónica um manuscrito de Alejandro: “A noite dos Travestis”. Mónica, calmamente, quis recolocar o papel amarelado na mesa, tentando ainda acalmar Alfosina.

Na manhã seguinte, estava tudo consumado. Hernandez fora denunciado à polícia, que não pensou duas vezes em detê-lo. Ele já estava sendo procurado por tráfico, de qualquer maneira.
Juan resolveu consolar Julia dizendo a verdade sobre seu marido. Agora Julia não mais desconfiava da traição de Hernandez, nem do abuso de maconha. Agora ela sabia tudo. Porém, demonstrou-se forte, forte o bastante para agradecer Mónica.
Juan despediu-se vendo um sorriso sensual nas entrelinhas dos lábios de Julia, carnudos lábios, e segundas intenções entre seus dentes de um raro branco. Julia parecia querer se libertar e Mónica há muito não se apaixonava por uma mulher.

Ao entardecer, com febre, Pablito delirava e dizia estar vendo seu pai morto a canivetadas. Julia chamou então Juan para tomar providências, mas Mónica estava no apartamento de Alfonsina cuidando de Alejandro. Então chega Julia com Pablito no colo, já desmaiado. Juan resolve acompanhar Julia ao pronto-socorro, onde internaram o menino. Já ao amanhecer, Mónica e Julia acordaram entrelaçadas no mesmo sofá. Foram acordadas pelo clínico responsável, que anunciou a morte de Pablito por dengue hemorrágica.
Julia então desfaleceu no ombro de Juan que, num beijo de amor, acalentou-a por um instante. Após o luto de Pablito, Juan e Julia já dividiam o apartamento, amorosamente envolvidos.

Os dias e as semanas se passaram. Juan e Julia se amavam mais a cada hora. Já Alfonsina decaía sem qualquer equilíbrio emocional, nem mesmo para fazer suas bijuterias. Mãe e filho foram despejados, além disso, confiscaram toda sua mobília. O filho sugeriu à mãe que pedisse a Juan e a Julia hospedagem provisória.
_ Isso mesmo. Julia precisa de companhia para superar o trauma da morte de Palito _ concordou Juan.
E assim passaram a viver os quatro, também em quatro cômodos, com alegria e estranheza. O mínimo de estranheza, diga-se de passagem, para tudo o que acontece no condomínio Labor.
Hernandez mantinha um informante sobre os assuntos de Julia. Era Paredes, o açougueiro. Ele não se conformou quando soube da morte de Pablito e endoideceu quando descobriu que Julia agora namorava Juan. Por último, foi informado por Paredes que Alfonsina e Alejandro estavam morando onde ele um dia morou.
A sentença tinha saído e Hernandez pegou seis anos de cadeia por tráfico de drogas.
Guillermina, a outra mulher de Hernandez, o convence a tramar a morte de Julia. E assim combinaram com Paredes:
_ A primeira carne que qualquer um deles comprar para churrasco, você coloque veneno.
Paredes consentiu e, mais ou menos, um mês depois do combinado, Alfonsina apareceu no açougue de Paredes para comprar carne. O açougueiro disse:
_ Faço questão de temperar!
_ Mais tarde então passo aqui.
_ Não precisa, mando lá o garoto.
_ Certo. Obrigada.
“Vamos lá fazer como Hernandez quer”.
O aprendiz Diego foi chamado ao final do expediente.
_ Entregue esta carne a dona Alfonsina ou a senhorita Julia, no edifício Labor.
_ Tá entregue.
Mas Paredes não percebeu que Diego o ouvira pensando alto sobre o combinado com Hernandez.
_ Aqui está a carne, senhor. Desculpe, senhorita Mónica.
_ Obrigada.
_ Do jeito que encomendou Hernandez, senhorita… senhor Juan.
_ Ah… Hernandez!
Não levando desaforo para casa, saíram rumo à delegacia Julia, Mónica, a senhora Alfosina e Alejandro, levando consigo a carne. Lá chegando, começaram a gritar e a desacatar os policiais, chamando por Hernandez e atirando a carne nas paredes do estabelecimento. A gota d água foi quando Mónica tirou seu membro para fora da calça e todos foram presos. Por ironia, foram todos para a mesma cela onde se engalfinharam o resto do dia.
De manhã, já mais calmos, foram surpreendidos por Guillermina.
_ Ora vejam! Todos aqui! Ainda bem que, antes de ir visitar Hernandez, pensei ontem com meus botões: Irei ao açougue do Paredes. Está aqui: medalhão, costela, asa, pé de porco… Vocês são servidos?
Famintos, todos aceitaram. Só Hernandez teve uma leve indigestão.

HERNANDEZ

A experiência do cárcere não me fez pior nem melhor, ou mesmo aprendi algo neste tempo. Pelo contrário, adoeci, enlouqueci, contudo não piorei por isso, tampouco me fez refletir em outras coisas, a não ser acerca de meu próprio processo de adoecimento.
Ao menos descobri que pode ser com muitos outros seres também o desejo de ter sido outra pessoa e deixar de ser o que nos é.
Ser já nos parece ser uma arbitrariedade desprovida de escolha, a não ser a própria escolha de não se negar, nestes casos viver passa a ser apenas aceitar o que é e não questionar estados ou constituições.
A escolha em morrer é questionável apenas pelo fato de respirar ser instinto, e isto é diferente de instintivo, palavra mais adequada ao ato de pensar, mas, se enlouqueci como estou a pensar? Como meu mecanismo de raciocínio pode ser excluído sistematicamente desta cadeia de atos perpetrados um em consequência do outro indefinidamente? Tenho o direito de chamar a mim mesmo de louco?
Comecei por ouvir vozes passando as supor em um ambiente externo a mim e acreditava que aqueles sons eram realidade, acreditava piamente que todas aquelas vozes tinham donos e donas, que, ora me rebaixavam a um inseto, ora me conclamavam um rei, ora me adoravam, ora queriam me ver morto.
Existia uma estrutura funcionando em mim a fim de supor o que havia de fora da cela que desandou. Então desenvolvi paranoias. E demoraram alguns meses para que eu tomasse consciência de que eram coisas minhas, seria fácil concluir que fossem coisas simplesmente e estritamente minhas, pelos temas que iam dos mais íntimos à maior explicitação de quem eu era.
Somente mais tarde associei isto ao fato de ter que saber do meu desejo em explicitar o meu desejo de me expressar a quem quer que fosse a respeito de quem eu era, ou de quem eu me trataria de ser depois que saísse da cadeia, que trataria de não ser mais um traficante, isto em si, digo, esta obsessão, me tornou um louco de primeira grandeza que fabricava os melhores planos e os mais mirabolantes truques, ou para me tornar um homem bem sucedido, ou para terminar de me naufragar deploravelmente, e fazia isto tudo como quem tivesse um verdadeiro e enorme estoque de vozes que aconselhavam ou atormentavam e que as ia atribuindo de quem eram e de onde vinham. Não havia distâncias nem paredes, era como se, todos a quem eu ouvia, pudessem ler o que estava pensando.
Continuei a ouvir vozes, desta vez ciente de que eram invenções de minha doença, era uma nítida separação entre um externo como um alarme, por exemplo, e o som de uma frase dita a meu respeito. A segunda eu já sabia que não pertencia ao que eu passava obrigatoriamente a chamar realidade.
Passei a questionar estas coisas, estou me referindo a esta realidade tão imensa que de tão grande não poderia, sequer poderia, admitir para si também os devaneios? Pois eu passei a ter consciência clara dos sons internos, que anteriormente os atribuía a terceiros, como algo próprio da imaginação. Corri um risco enorme ao creditar a delírios funções de imaginação, poderia ter morrido, mas sobrevivi.
De princípio, como estes sons sempre se referiam a mim, talvez pelo desejo inicial de realmente me descobrir, me julguei um sujeito muito egoísta, talvez a pessoa mais egoísta que eu conhecera.
Permaneci um tempo deprimido, aí já não me importavam sons ausência ou vestígio deles, ficava deitado, gostando de ser um imenso banquete para moscas.
Depois, talvez como um método de sobrevivência, passei a selecionar automaticamente as partes de meu fluxo de pensamento iriam ser pensados por personagens do meu passado e as que eu mesmo iria pensar. Era uma forma cômoda de não me tornar um monstro e ao mesmo tempo, manter viva a memória, pois que os sons tinham autores próprios em meu pensamento, devolvi a eles a prerrogativa de pensarem que estavam pensando por mim.
No fundo sempre foi minha imaginação, sempre era eu quem estava a pensar e a produzir meus próprios sustos que agora sei que sou eu a pensar, mas, não sabia da necessidade de me fazer outro pensando como eu deveria pensar.
Passei assim muito tempo alimentando a minha imaginação que às vezes nem o corpo precisava comer. Tratava-se de uma autossuficiência perigosa demais à própria vida.
Até que, finalmente, descobri que tudo isto não passava de um desejo genuíno em nunca ter sido quem eu fui e, por conseguinte, sempre querer ter sido outra pessoa, o que justificava a necessidade de aprovação bem como o contraponto de reprovação do início para saber no final que era apenas eu mesmo a me julgar e sem poder sair de dentro de mim, mesmo querendo habitar outro modo de pensar meus objetos de devoção ou obsessão, sem saber primeiramente que, para habitar outro pensamento era preciso estar em outro corpo, coisa impossível de se fazer estando vivo.
Não quis morrer por isso, mas, passei a viver supondo uma eternidade em que outro diabo seria eu se tivéssemos este privilégio.
É verdade que perdi muito tempo com isto, mas apenas o fato de descobrir que meu desejo insano de concretizar meu poder era habitar outro corpo e não ter me tornado um místico estelionatário e nem ter criado com isto um proselitismo em causa própria, me fez ao menos um sujeito compreensivo de muitas outras aberrações e muitas outras abominações como sendo passíveis do humano, da humanidade, que às vezes algo que outros dificilmente aceitariam. Eu as aceitava.
Eram tantas pessoas que eu imaginava estarem tomando carona em meu pensar que nunca me foi tão fácil me colocar na situação específica do outro
Minha capacidade para entender e ser compreensivo aumentou consideravelmente, pois era como se eu visse como uma espécie de generosidade da minha parte, deixar com que partes do meu pensamento não precisassem ser narradas por mim mesmo, por minha voz e minha primeira pessoa interior.
Era divertido imaginar outras pessoas imaginando que eu estava imaginando usando emprestada a sua imaginação. Em que tempo isso seria possível, ou permitido? Em algum tempo fora da jaula?
As terceiras pessoas se tornavam inteiramente viáveis habitando em mim, mas este mecanismo só funcionava porque eu não as habitava, eu dava como certa a hipótese de elas terem me esquecido por completo. Se isto fosse desmentido eu ruiria como um castelo de cartas à primeira brisa.
Isto tudo se justificava por eu estar só. Assim como estar só justifica isto. Era como se houvesse um prolongamento de mim mesmo, fora de meu corpo, a me fazer companhia e a me dizer coisas e eu a explicar como as via sem que houvesse de meu prolongamento natural, minha extensão, qualquer espécie de discórdia. Era um instrumento fácil para quem tinha aversão em ser reprovado por outrem mais sequer outra vez, eram inaceitáveis e inadmissíveis novas reprovações, não porque eu era muito exigente para comigo mesmo, era apenas um modo mais rápido e ágil com que eu via a mim e criava um método para ver as pessoas de dentro de mim. Trazê-las para dentro sem que elas soubessem sem que elas se ferissem. Quando descobri isto tive medo. Queria apenas ver o outro de minha própria maneira e não sabia que para isso teria que terrivelmente julgar as pessoas indefinidamente dissecando-as dentro de mim por uma questão de afinidade interna, pois, vez em quando pensavam por mim. Só que, dentro de mim além de não saberem.
Descobri que foi a forma mais fácil de não matar a presença do outro em mim enquanto estive isolado e sem possibilidade de convivência.
Depois que deixei de ser presidiário passei a ver com mais clareza quais eram as situações que eu me comportaria melhor pensando exclusivamente na primeira pessoa e finalmente já não eram mais as situações mais recônditas. Passei a externar mais que pensava um pouco quando estava na terceira pessoa, quero dizer, quando imaginava que outra pessoa pensava por mim dentro do meu pensamento dentro de mim. Esta espécie de invasão me fez uma pessoa muito cuidadosa em não perguntar muito a outras pessoas, coisas mais íntimas. E assim conseguia até seduzir. Quando descobri também que as únicas situações onde seduzia conscientemente, eram quando este outro me era realmente um mistério. Um mistério para quem tinha o costume de pensar com cabeças emprestadas era realmente um mistério, um encantamento. Era a plena convicção e a absoluta confirmação de que, no fundo, todos gostariam de ao menos em dados momentos, ser ou terem sido outras ou outros.
Decidi pensar que só resolveria a questão voltando a amar. Passei a não mais lamentar as perdas de Julia e Pablito. E pasmem passei a amar Alfonsyna. Sim, eu, Hernandez agora amo Alfonsyna.
Aqui, na granja de galetos, que agora é propriedade de Belmiro, que comprou tudo de Daniel e Matheus filhos de senhora C. e antigos amigos de Manolo Cata Preta, quem concebeu o lugar como é até hoje, eu, Alfonsyna e Alejandro, seu filho, vivemos em relativa paz. Belmiro é um bom camarada, veio de Bem Posta de onde perdeu uma herança de seu patrão que não deixava filhos lhe confiou e o município a época confiscou então voltou para o rancho de sua mãe, no Cafofo, onde criava porcos até que ficasse órfão e também enriquecesse.
Eu e minha amada abatíamos galetos, enquanto seu filho escrevia de forma incontida. Alfonsyna me ajudava a pensar com minha própria cabeça, assim, andava com minhas próprias pernas. Pois minha teoria estava certa, tinha outro corpo que desejava além do meu, o de Alfonsyna. Nossos corpos estabeleciam uma espécie de irmandade com a imaginação que partilhávamos e com os pensamentos que por um motivo ou outro teríamos que esconder do mundo provisoriamente. Passei a ter uma boa relação com seu filho que às vezes me mostrava o que escrevia e eram coisas muito boas que eu pensava: eu amo esta mulher que me respeita e me cura e seu filho além de ser um bom escritor me respeita como um pai, ou um segundo pai e não tínhamos motivos para sair ou deixar de trabalhar numa granja de galetos, isolada, e de um simplório proprietário. Definitivamente, me curava das outras cabeças dos outros pensamentos, conhecia Alfonsyna e era o bastante, o suficiente para esquecer o passado de bigamia e tráfico depois prisão e doença. Pretendia ficar.

POEMAS DE HERNANDEZ

I

Estes fatos América do sul
Serem canto escondido
Esquecido

Por que ainda me grita do eldorado
A nação dos Carajás?

Pois que não matam mais
Não se morre em canaviais

Por que ainda gritam pataxós
E sua lembrança de chamas?

Mas
E a minha lembrança

De uma mulher macia dentro da escuridão?

II

Os sandinistas avançam
Num prato cheio para a guerra fria

Vejo figueiredos e anistias

Afinal do quê temos anistia? No Brasil de ciclos de borracha
Decadentes
Estrelas de poentes

Amazônia Chico Mendes
Não estancam Doroteia
Como vemos com Macabeia

E qual o motivo de metonímias
Se seus seios abraçam minha noite?

III

Prestes a fósseis
Fetos de modernistas
E outras mães prestes ao aborto
Em solentiname

Soletro denominações
No país do cálice profanado

Onde tudo se repete
E às vezes nem se chamam diferentes

Os sindicatos
Mísseis e carvoaria

É mesmo mulher: o século vinte precisava de uma moenda

IV

O gasoduto esconde debaixo uma pujança
Inca
Maia

Pra quê me serve esta lembrança?
É a terra e é o gás

É o chorume de gramacho

É um curtume no pampa

De homens cansados recolhendo-se ao próprio refugo

O ozônio nos perfurou mais um dia mulher!

V

Recolhi algumas pitombas perto da usina
Angra
E minhas imagens irão se derreter no seu colo

Como se Chernobyl ontem
Parece-me que este povo chora sem cessar

O que há no Brasil que não temos terremotos
E os ministros caem demais?

Temos a vocação para o ministério do pranto
De um canto evocando outra paga

Salário mínimo
Primeiro de maio
Sete de setembro

Dragões da independência
E cavalos cagando

VI

Explodiram uma bomba e seu filho tem fome mulher
A bomba foi em Taiwan
E seu filho vagueia próximo à Cinelândia

Aos poucos as árvores morrem
E as edificações caem

Prepara o fubá mulher!
Quem sabe não estará a preparar lembranças.

A bomba pode ser em Chicago
Ou em Mar Del Plata

Deve estar tudo bem na Cinelândia
E mesmo que tudo venha abaixo
Seu filho trará um trocado

VII

Às vezes tuas coxas me sugerem uma revolução de sindicatos
Depois vem teu orgasmo de porcelanato

E América em chamas
Ilhas e ilhas
Ilhas em ultimato

Armadilhas Allende

Além de quinhentas milhas de Indianápolis

Tu me prepara uma feijoada
E este domingo compleição para esquecimento
Para lembrança

VIII

Fukushima e vigário geral
Indochina Carandiru

Candelária e nossa lavra de minério

O que fazem com nosso minério de meninos mortos?

Não se pronuncia o nome dos vulcões
Nem das meninas violentadas

Estamos expelindo minério para o mundo em barricadas
Antigas e reeditadas

Nosso novo aço
Novo minério

Assossegue
A igreja está provisoriamente sem torres

IX

Fidalgos depois fidéis
Depois
Coronéis do chumbo
Executando amianto nas cidades

Sandinos
Bombardinos tristes

Províncias Levy Strauss

Osama rei Obama rá
E as ogivas nas alturas

A greve da polícia
O medo das milícias
E lição do filho mulher!

X

Não sei se o mundo tem que ser aqui em mim
Em pleno Brasil
Século vinte e um

Vinte e um de abril
E meus dentes apodrecerão

Brevemente os professores se calarão

Pois que
Não
nos alfabetizamos com esta gramática do brevemente

Uma sintaxe de se reorganizar urgentemente
A cada meia hora
A cada edição noturna
A cada semântica signo domingo.

XI

A linguagem é a guerra mulher.
Com as pedras
Com os braços
Esta linguagem fila de INSS

Estou a fazer mediação com os urubus
As aves que aqui no Brasil gorjeiam

Fulgurantes como o vindouro florão da América.

XII

Nova Orleans alagada
Alagoas por toda parte
Boa faixa de terra americana

Rancho novo Texas
Nova epifania, novo México

O progresso brasileiro
Não sei se em São Paulo
Ou ao pé do limoeiro

Deve ser semelhante
Ao da Indonésia
Alagada
Alagoas por toda parte

Imagem e semelhança
Seca no nordeste

XIII

No centro do Rio de Janeiro
Conseguem-se armas
Consegue-se ervas
A indústria dos órgãos
Dos órfãos

No centro do Rio de Janeiro
Estão a alimentar o século

Os anônimos alimentam a cidade e o dia como quem produz vapor
O resto é imposto sonegado.

Enquanto isso seu filho estuda a vinda da corte portuguesa
No centro do Rio de Janeiro

Mas o que o seu filho quer é chupar pitanga no pátio
Enquanto você pensa em ligar o rádio.

Seu filho quer chupar pitanga
Enquanto você quer saber notícias do pagamento dos funcionários públicos

Brevemente, o dia, as avenidas e as vielas se esvairão
E o Rio de Janeiro dormirá como lhe convém

XIV

Quixadá e Kandahar
O que vão querer os filhos destes chãos?

O que sei mulher é que estou apaixonado

O que sei mulher é que eu compreenderia
Se eles quisessem se revolucionar

Ou trabalharem na fábrica de sapatos

O que sei é que em qualquer lugar
Quixadá ou Kandahar
É preciso sublimar qualquer ofício

E eu preciso estar apaixonado

XV

Seu filho vai à escola?
Estuda Napoleão? Mercantilismo?

Ele tem dificuldades com o teorema de Pitágoras?

E as guerras? Fizeram com que ele esquecesse seus desenhos de África?

Se seu filho disser que tem problemas com química ou física

Eu apenas direi a ele, mulher, que a Europa se cristalizou
E que sempre será o sangue a modificar as geografias.

Fronteiras a deus dará entre baionetas
O resto é álgebra pura.

XVI

Brasil e Congo me tem semelhanças
No meu braço de estivador

E nessas suas mãos de costureira
Estão a bordar minha nostalgia
E a revolução abortada

Eu sou um operário de greve e de tristezas
E você está a me conter o ofício

Ofício de crente e de esperança

Mas você sabe que eu preciso de domingos
Nestas tardes de subúrbio

Penso em levar seu filho ao futebol
Para esquecer o destino brasileiro
Lembrar nossas origens de proletariado
Nossa luta de classes muda
Nossa democracia em menopausa

XVII

O que devo pensar eu das milícias, mulher?
Que militam e que labutam algo novo?

Devo pensar algo novo como derrota ou ressurreição?

Penso que tenho algo a ver com os aborígenes
Eles também não estão no mundo
Assim como não estamos em arranha-céus

E ao menos que estivesse em algum deles quando foi camareira, nunca esteve

É tardinha mulher
Todas as camareiras voltam
Para onde voltam as camareiras, mulher?

Algum campo aborígene lhes sossegariam o facho
Alguém lhes atingiria os flancos

Ou o desejo de paz
Ou o desejo de falo
Ou o desejo de guerra?

XVIII

O vento sempre a carregar nuvens e firmamento
E a arrastar dúvidas e anseios para dentro

Qualquer coisa somos nós, mulher

O céu sempre esteve abraçando os continentes
Sempre assim, com mão ligeiramente branda
(e às vezes insólito)

“a gente sempre se casava ao luar”

Mundo sempre foi dissensão
Mas moramos nele e depositamos sensações como se sempre houvesse oceanos
E fim de papo.

ALEJANDRO

Minha busca eu ainda não a dei por fim. A busca pelo pai, pela figura paterna. A mãe atualmente parece não ter mais ressentimento por meu pai. Este homem que foi meu pai, morto há décadas tinha lá seu código moral e sua ética, porém, hoje vejo que não deveria ter se casado com minha mãe, aliás, não deveria nunca ter se casado com mulher alguma. Teve um fim triste é verdade. Mas, seu final não me livra do meu orgulho ferido, pelo contrário, apesar de tentar sempre honrá-lo, sempre culparei as pessoas que tiram as razões de minha mãe em detrimento das dele.
Procurei desde a primeira infância expressar uma fúria que em tempo não conhecia sua origem, logo depois, por não conhecer origem de nada, decidi eleger meus pais culpados por nunca terem me dado uma família.
Meu pai viajava muito e eu quase não o via. Trabalhava como correspondente estrangeiro de um grande jornal de nossa capital, minha mãe ganhava a vida revisando textos. Ofício que aprendera com meu pai que nas horas vagas era um escritor mediano.
Mas brigavam sempre que se reencontravam, era o meu inferno.
Passei desde cedo a ter uma obsessão por um modelo de paternidade, um padrão de virilidade que e fizesse entender o ódio e o inconformismo que tinha e meus questionamentos a cerca de quase tudo. Com o tempo, naturalmente, veio a separação. Evidentemente culpei minha mãe por ter tirado de mim uma chance de conhecer melhor o homem que tinha a tarefa de me fazer homem. Eu então o procurei, mas, seu estado físico e mental já era tão desmoralizante que só obtive dele uma espécie de melancolia que trago comigo até os dias de hoje. Meu pai morreu logo depois. A coisa desandou. Passei a minha adolescência ouvindo música cultuando uma rebeldia que eu pensava condizer com a fúria que eu então decidira não mais conter, já que meu pai nunca o fizera, procurava esta virilidade também nos filmes que tinham um teor de transgressão, sem saber que a referência masculina que eu buscava estava morta e não havia mais o que fazer. Procurei inclusive buscar círculos de amizade com pessoas mais velhas, mas, logo me decepcionei, pois minhas opiniões eram motivo de pilhéria como sempre havia sido na escola. Então eu radicalizei-me ainda mais, passei a usar entorpecentes até que fosse internado numa clínica de desintoxicação para me reabilitar depois de ter sido até mesmo detido na cadeia pública de minha cidade.
Minha recuperação foi lenta. Lento também foi o processo no qual tive que admitir o que a mãe queria. Mesmo que ela quisesse, eu quisesse, pois ninguém que não, senão ela foi quem suportou sozinha todos estes trancos. Hoje seria um absurdo eu não dizer que sou grato a ela.
Esta é a grande ironia de minha vida. Ter passado a vida inteira buscando um modelo que me servisse como pai enquanto minha mãe foi quem sempre me acudiu.
É verdade que meu pai foi um fanfarrão um Bon vivant, mas nunca me desrespeitou. Eu até lia as reportagens que ele escrevia quando eu era criança para que eu entendesse do seu trabalho e para que ele se orgulhasse de mim, mas nunca consegui entender nada, talvez não fosse tempo de entender. Aí vieram os primeiros empregos e não me saí bem. Neste tempo minha mãe não conseguia mais revisar textos por um problema raro na visão e encontrou nas grandes e brilhantes pedras de bijuteria a sua sobrevivência, aliás, a nossa sobrevivência.
Foi quando decidi ler os livros que meu pai escreveu em tiragens modestas. Aí eu já podia entender um pouco do homem que tinha a tarefa de me tornar homem e que a rigor não cheguei a conhecer pelo menos não como queria. Hoje obviamente não culpo a mãe por nada. Se eu tivesse que culpar alguém o culparia, mas, não costumo fazer isto com defuntos. Seus livros eram bons me fizeram interessar por outros livros, aí pude ver que sua escrita estava praticamente no nível de autores consagrados de nosso país. Pude ver o que a sorte pode fazer com uma pessoa ou pode não fazer também. No nosso caso, como família a sorte não nos fez nada, e principalmente a mim esta sorte não me fez nada, ninguém me tirará esta concepção que tenho de sorte e azar mesmo que chamem de orgulho. Deixem-nos falar.
Hoje minha mãe namora o Hernandez ex-presidiário que no passado era um desafeto. Não tenho nada contra ele
Até acho que ele realmente ama a mãe, mas meu tempo de procurar referências tem que acabar de qualquer forma não seria a dele que eu gostaria de incorporar ao meu pequeno glossário de masculinidades.
Hoje sou um aspirante a escritor em potencial ironicamente por causa de meu pai. O sangue sempre será algo incompreensível acredito que mesmo quando vertido em violência. Esta busca interior em meu processo de escrita foi se abrandando e talvez eu tenha me voltado para outro tipo de perversão ou subversão que, obviamente se pauta pela sexualidade, no entanto, optei por ver o mundo na maioria das vezes, sob uma ótica feminina. Narro os fatos em meus contos como narradoras principais como mulher e falo de sexo como uma mulher.
Talvez não tenha encontrado em nenhuma figura masculina na qual procurava referências nenhum tipo de respeito, ao passo em que em minhas pequenas grandes rebeliões sempre existia uma figura feminina se apiedando de mim. Isto inicialmente eu não queria de mulher nenhuma embora fosse a única coisa que arranjei, por isso em meus contos, as mulheres são desbocadas como os homens são.
Não faço isso simplesmente porque acho que as coisas seriam contrárias. Essas provocações são uma resposta à ojeriza comum que tenho e aprendi a ter por todos os homens. Eu me orgulho pelo fato da pouca virilidade que tenho ter sido fabricada por mim mesmo e não por nenhum outro homem sequer meu pai.
Cheguei à conclusão que fui vítima do racismo como toda mulher é e isto não me tira o gosto por mulheres. Até me ajudam a entender melhor este ser: a mulher. E a venerar também a mulher. Coisa que os homens geralmente não fazem.
Estes fatos praticamente me excluem do mundo masculino, mas minhas personagens femininas não retratam uma inocência este sentimento cujo tenho pavor e não mais possuo, no entanto todo este fastio que a divisão entre os papéis viciados que os sexos desempenham ou assumem não deixaram de fazer de mim um heterossexual, embora já não ligue para quaisquer opiniões sobre sexualidade, aprendi que estas coisas se resolvem na mais profunda intimidade e não na esquina da barbearia ou padaria na segunda-feira lendo o jornal e se atualizando com o futebol. Opiniões alheias não me interferem em mais nada.
Quero apenas minha escrita livre e, se alguma mulher acreditar nisso…
E se alguma mulher quiser isso…
Acredito que vou melhorando na escrita. Hoje, estou com minha mãe e Hernandez na granja de galetos do Belmiro que a comprou de uma mulher chamada senhora C. que por sua vez a herdou de um homem chamado Manolo.
Hernandez e minha mãe trabalham duro. Eu também tenho trabalhado muito. Venho escrevendo uma série de contos ultimamente e venho gostando do resultado no qual eles se configuram. Tenho liberdade para escrever. Não gosto de fazer concessões que prejudiquem minhas condições e minhas funções ou atribuições que acredito tê-las por acreditar que sou um artista. Acredito que sou um artista porque respeito o meu trabalho com honestidade e mesmo que não venha nada disto, digo de retorno disto, não me contrariarei mais com estas questões que eu suponho serem mesmo da destinação a que está submetido o ser humano.
Minha mãe trabalha duro abatendo galetos com Hernandez, que também trabalha duro. Às vezes penso que qualquer dia desses irei trabalhar junto a eles, pois acho que não posso me dar ao luxo durante muito mais tempo de trabalhar apenas como escritor. Começo a achar isto inviável, ou melhor, dizendo, começo a achar isto impossível. Devo aprender a conciliar ofícios, mas não suportarei comentários machistas de companheiros de trabalho, no abate dos galetos.

POEMAS DE ALEJANDRO

I

Eu estou esquecendo de ser
Eu existo sumindo
Eu estou por conveniência
Para não perder o costume
Tenho a ventura de esvaziar
Esmoreço de parar a pisada
Passa a vontade para perguntar
Esvai no sopro
Abstraí-me das rochas
A brisa
Flor colore
Pássaro é voar e cores
O espelho, eu derreto o desenho.
O desenho dissolve o traço
Gosto de conversa mole depois do almoço
Esboço trair os pulsos
Depois começo
Tento o desejo da argila
Vou indo em ignorar desígnios
Algo que a digestão tem de automático
Não iludo em desastres
A vida não desvaloriza
Oculto os cães e as garrafas de ter visita

II

Vento gira em sol
Música conjuga em dó maior
Norte nevada
Noite velada
Veludo e almíscar
Em desmanchar frio
Para céu da boca
Para pé de vento
Vento, giro ao leste.
Compassou em sul
Está com sol
Lá se termina?
Está com sol
Lá se principia?
Movimentar cata-ventos
É de entender em confusão
Verdadeiro caminho é sem nome
Ir caminhando
É intenção para dividir vento
Tempo feito não gira vento
Gira sol
Ir caminhando desfaz tempo

III

Precisar metabolizando clorofila
É a dúvida da folha
Achar verde dela sobrepõe na mata
Ourives é quem ignora verde
Ignora fruto
Fruto germina mistérios
Casca caroço e carne
Cuidado de ser transporte com sementes
Volta no chão, maduro.
Formigas em alegria
Sobre mel do fruto estocando
Inusitado ser acidente
Os ciclos que também se ignoram

IV

Ser um estado de colorir
Amansar as feras
Concluir nada
Todo absoluto no errar
É um acerto de aprender espírito
Fendas iluminadas de fitar
Vê-se feno
Vestígio de amor
Evidências de sutileza na farta carne
Sente maciez
Todo é donzela, torre de castelo e fuga
Tudo esconderijo
Choupanas e bordados
Forjar o perfume é da botica
Da lógica com borboletas

V

A condição mostrou absurdo
Apaixonar dúvida exige
Morre flor com itinerário de pássaro
Rio continua
Corre leito e água
Não entende coração
Brilha minha paisagem
Céu é metamorfose
Nuvem casulo de chuva
Cheiro brota no chão
Justificado tudo existe
Firmamento não desaba com ninguém
Lua fria legitima febre
O barco a vela
Pesca negrume
Parto amanhece
Estrela não derrama algodão doce

VI

Intervalo ser continuar
Caminho e descanso
Foi água e pedra
Leito era deitar também correr
Natureza vive
Desenhada de morte
Desenhista e pílulas de palma da mão
Pintou, cantou, escreveu
Impune em existir
De inócua natureza
É viver que não pede
Licença de figurar

VII

É orientação de pássaro
Entender tempo em vácuo
Asa é para romper
Prescinde céu e displicente,
Põe interrogação de ventania
Mistério de se viver
É também voar e planar
Afirma manobra que brisa fez
Procurar amor desventurado
Sendo desatino, tem maturação.
É semente de planta ao delírio
É falácia de prudência morrer
Prudência é castelo suntuoso
A servir para masmorra
Não percebe borboleta
Cercear que é sentimento mesquinho

VIII

É também sentir chagas
No silêncio
Vou de experimentar silêncio
Gritar é ser de margem oposta
Experimentar o silêncio
É gritar em outro lado
Completude sem travessia
Vazio em plenitude, macio.
Assim o grito me diz
Longe lado de contrário
A litania é o ouvido
Ouvindo em longitude
Vou de experimentar reflexão de silêncio
Ir em procurar gritos recônditos

IX

Vida seja dúvida mesmo
Morrer carece menos
Correnteza me trouxe
Passou arisca de dizer ais
Tempo foi pouco nos ouvidos
Subiu alta montanha
Desceu de visão no equívoco
Árvore é testemunha com galho
Chora folha, grita vento
Presença, sumidouro que alma leva.
Vai no entendimento de não ser
É explicação de não ir
Vida era uma curva na estrada
Morrer carecia

X

Terra é também apetecimento com chuva
Chão pode ser semente dentro
Raiz é que é um trabalho nascendo fruto
Tronco é corpo que nasce
Com solo em viver
Em vigor
Árvore aceita desorientação com vento
Segue curso inerte
E vive interior
Galho range alquimia para exalar som
Solo ouve o timbre
Anunciar chover
Talvez água excita
Árvores com balançar

XI

Divindade não é coisa maior
Que joaninha pousar no dedo
Pousar é descanso de asa
É em voar o desencanto
Dedo pede pouso melhor
Lá vai joaninha
Em certeza com outros pousos
Percebendo em bordados
Um ir de semelhanças
Percebendo em pé de pitanga
Um ir sem desencontro
Um ir de desatar
Lá vai joaninha
Em certeza com outros pousos

XII

Clarinete dorme inerte
Em som ausente
Em sono e sonhar
De timbre em diferença
Em cima de mobília
Vai esquartejado a sentir verniz
Uma parte pede outra
Com azeite de ajuntar
E que haja untar
Indo exalar cheiro
Em esperar dedo e lábio
Para libidinosa suavidade
Fazer movimento
Fazer presença

XIII

Sino da igreja
Terra de nascimento
Truculência em víscera
Tímpano e badalo
Em reconhecimento
Signo de morte
Mofo de igreja
Paralelepípedo que sangra
Lua que sangra
Amargura na garganta
Lua que mingua
Pedra antiga
Sino, bronze de metal antigo.
Signo de morte
Terra de nascimento

XIV

Em nome do pai
Do filho
Em nome do divórcio
Em nome do aborto
Dos males necessários
Em nome da discórdia
Em nome da diáspora
Do fim irremediável
Em nome do holocausto
Esqueçam tudo
Ou anulem-se todos
Amem

XV

Pegar com fé
Pegar o jeito
No improviso
É sabido da demora
Observar beija flor reagir
Empirismo na carência de esperar
Fruta em estação
Não ensaia pra nascer
Não presta vestibular
Acontecem de manifesto
Semelhança é plantar árvore
Em ato solene
Palma da mão reconhecer
Terra macia
Óleo hidratante
Óleo de unção
Enfermidade de desconhecer
A chaga do chão

XVI

Sonho ocupa narina de respirar
Boca entretém de histórias passadas
Águas passadas são mover moinhos
Em invenção
Ajuda labutar a construção
De se erguer em afirmar
Sonho conhece a fermentação dos bolos
Olho vendo bolo
Vendo montanhas
Vendo silêncio
É poesia que não termina não

XVII

Ignorar
Passar a vida
Sem consentimento
É do viver
Escapar vida
Não tem jeito
Sem escorrer de dedos
Sem senso de palavra medida
Notar pelos brancos
Repentinamente
Descobrir absurdo irreparável
Saber sem escolha
Dói essa falta
De conviver em dívida impagável
Esquecer é o melhor engano

XVIII

Atado em engano necessário
Sou eu e caixa de analgésico
Efeito já é justificativa
Dormir melhor em domingos
Buscar gesto de ânimo
Prestar atenção a mais
E a importância justa
É efeito de não iludir
Iludir da ilusão
Verificar papel velho em gaveta
Indeciso de finalidade e fim
E alheio às roupas de cama do armário

XIX

Sol aprende que tempo
É girar de esferas
Hora de mariposas na lâmpada
Foi outra
Sol conhece ser intercalado
Em nuvens
Calado de perfurar atmosferas
É onde vem nítido ver
E caminhar de praça e árvore
É tempo de experimentar
Cômodos em casa que vento veio
Prostrar de um almoço em domingo
O sol de operário
O sol de camponês
O sol de errantes
O sol de amantes

ALFONSYNA

São meus pedregulhos estes dois. São o que faz rir e o que faz chorar quase ao mesmo tempo, às vezes nem mesmo de um intervalo de um dia para o outro. São fortes emoções, mas a lida, ao mesmo tempo em que me aniquila o sentir e o pensar, também me priva de viver pedregulhos de forma exacerbada o que me enlouqueceria. Em suma, fico privada de sentimentos mais fortes, mas fico também privada da própria loucura e tento não encontrar onde se situam as loucuras de outrem. Fico nestas elucubrações então meu pensamento, mesmo que anestesiado pela lida, resiste em fundo reserva, em um modo de espera ou numa espécie de piloto automático.
Até que gosto de abater galetos. Não é um prazer sádico. É um fazer que se difere dos outros. Revisava textos de pessoas que pareciam que nunca alcançariam um bom patamar de argumentação. Isto fazia este ofício por vezes enfadonho, não associava este fato ao enfado que também sentia por que me ensinara trabalhar assim, meu falecido marido. Disto pelo menos não tem culpa.
Depois veio o problema da visão. Passei a escolher pedras de bijuteria para sobreviver com fabricação de alguns adornos. O problema é que como não enxergava bem tinha que selecionar as pedras maiores, o que tornava minha produção algo que não tinha correlação alguma com meu gosto pessoal.
Gosto agora é de abater galetos, pois mal vejo o momento em que eu os abato. Adquiri técnica o suficiente para matá-los sem que eu sequer escutasse o seu sofrimento. Era como se eu supusesse que alguém ou algo que, ao me matar o faria com a mesma implacabilidade e astúcia que eu mesma nem precisasse sofrer e que este ato era parte também de uma indústria rentável e indolor. Uma indústria vantajosa para um espécime de deuses a nos devorar com sua ânsia por humanidades bem fresquinhas ou cozidas ou fritas ou até mesmo como salada.
Realmente, o banquete de deuses e semideuses não deveria ser feito com carnes que não raciocinam com palavras enquanto estiveram vivos. Pois é isto, não é palavra que eles pregam incessantemente em quaisquer culturas não é mesmo?
Ao passo em que nós humanos nos satisfazemos na maioria das vezes apenas com a carne. É uma situação estranha, pois nós portamos palavras conosco.
Para que não preocupe tanto com tais divagações, abato galetos. Chego a abater duzentos por dia. É um orgulho saber que isso vai para a mesa de muita gente e que, durante almoço ou janta requentada, as palavras seriam algo totalmente dispensável. Enfim acredito que somos trabalho comida bebida e estupidez, na maior parte do tempo.
As palavras, aliás, que ainda são o universo de Alejandro, meu único filho. Não suponho tanto nisto que falam de herança genética ou afinidade eletiva, devem existir milhares de estudos científicos neste sentido e até acredito que possa ocorrer aqui e ali, mas, não é o caso dele. Alejandro começou a escrever talvez para mostrar ao fantasma, à alma penada do pai que poderia fazer algo tão bom ou melhor que o que o pai fizera. A psicologia dos jovens é algo intrigante, somente depois de mais de uma década que o pai já era defunto parou de me culpar e passou a culpá-lo, penso que daqui mais uma década culpará a si próprio, aí enfim chegará ao imbróglio no qual nos encontramos todos nós.
Atrofiou as pernas na adolescência por um problema psicossomático, isto também deve ser considerável no que tange a sua decisão de seguir o ofício do pai, mas hoje está melhor e mais forte, até pensa em trabalhar conosco, abatendo galetos.
Sua produção literária também tem melhorado, passa agora a escrever como mulher, o que é interessante a mim, como mãe, mas é sujo, não é como o Chico Buarque de Holanda, por exemplo, é bem sujo.
Sua revolta juvenil se transformou em uma boa ferramenta poética, eu gosto de ver seus textos porque não há praticamente nada a revisar, ele não sabe disso, talvez um dia ele saiba disso. Mas aí talvez não seja mais necessária qualquer revisão. Eu me rio é de seu próprio orgulho ferido por uma simples voz passiva errada. Confesso que me rio muito, bastante.
Já Hernandez, meu homem, naturalmente viveu mais, consequentemente se desiludiu tanto ou mais do que a mim mesma. Perdeu sua mulher para um travesti. Perdeu seu filho morto ainda criança. Foi preso por tráfico de drogas. Enlouqueceu na cadeia e, ao sair de lá, foi abandonado pela amante. Não gostava dele, mas levei todos estes fatos em consideração quando ele me propôs em relacionamento. Vi que um homem que vivera isto tudo poderia compreender minha situação de viúva. Separada mas mesmo assim viúva e a situação emocional de Alejandro, meu filho. Hernandez não é fabuloso não é o meu sonho, aliás, que sonho eu tive que não se desmanchou em breve tempo. Isto que me leva a concluir que ele é um homem bom, ou, que aprendeu a se tornar um homem bom, já o suficiente para mim, como mulher.
Abate galetos comigo e nunca deixou de ser uma boa companhia, até prefere a minha companhia para trabalhar junto a dos outros funcionários, não acho isso pegajoso, mas não levanto às mãos aos céus, estou vivendo, é isto e mais nada. Estou vivendo. Estou vivendo e isto é tudo.
Hernandez também tem escritos e atualmente tem escrito melhor que meu filho, mais pelos motivos que os levou a nos trazer para cá, para esta granja de galetos, que foram os motivos de todo o seu sofrimento, todo o sentimento. Não era culto ou intelectual, mas, vivera na carne a experiência de muitas dores humanas. Acredito que mesmo não escrevendo isto já faria dele um poeta, e não só ele, bem como qualquer pessoa que fosse submetida ao que a vida tratou de lhe submeter. Escreve bem o meu homem. Escreve simples, não há o que revisar. Mesmo se houvesse não revisaria, não assassinaria a poesia em seu estado bruto de dor e de alguma verdade.
Gosto de arte. Gosto de falar destes assuntos, mas, não me atreveria em abusar do meu lugar que é este lugar de onde estou abatendo galetos. Abato galetos e é isto. Abato galetos e isto é tudo, melhor dizendo, abater galetos é quase tudo, pois que é o que me toma mais tempo, mas, enquanto o faço penso, penso caudalosamente. Como diria Beethoven, sou proprietária de um cérebro.
Os colegas de trabalho da granja me perguntam. Por que não revisa mais textos? Por que não escreve os seus próprios? Todo mundo na sua família escreve, no entanto, você parece ser a mais inteligente, a mais sábia! Por que não escreve sobre arte? Parece entender tanto do assunto! Por que não escreve? Não comete um erro sequer ao falar!
Ora, vamos abater galetos povo! Gente, eu agradeço os elogios, mas eles não me tirarão daqui, aliás, nem quero sair daqui! Tenho trabalho, tenho pouso, tenho meu filho e meu homem comigo, o que mais desejaria? O que mais desejaríamos todos nós? Belmiro tem sido tão bom conosco!
Aí me dizem: mas mulher! Tens uma sabedoria privilegiada! Poderia dizer coisas por nós, sobre o que nos oprime, sobre nossos homens, entende? Precisa dizer algo em forma de escrita mulher!
Aí evidentemente fico lisonjeada, mas não arredo o pé da granja e o que digo em resposta: não é nem justificativa ou desculpa para manter a vida que levo, a vida que tenho e não posso me queixar de nada: ora! Meu filho já escreve como mulher apesar não ser uma mulher. Vocês querem algo mais prodigioso que isto? Quanto a estas opressões que me dizem, aqui, nesta granja de galetos, nada me oprime. Acho que deve ser mesmo um homem a falar como mulher uma boa solução, assim talvez eles melhorem em geral.
Quanto ao meu homem, não tenho nada a dizer, pois, não tenho também nada a me queixar dele, pois aprendi a não criar expectativas que ele não poderia me suprir. Daí quando estou com ele, ele me é sempre uma ótima companhia, agora, quanto a escrever sobre homens o que escrever? Homens são algo tão trivial, pensem nisto!

BELMIRO

Eu vendi a granja para Nicanor Mirafuentes. Isso mesmo, a granja de galetos Cara Preta foi vendida. Agora Nicanor Mirafuentes é seu ovo proprietário. Trata-se, portanto, de uma ova propriedade. Arrependo-me muito somente porque não honrei com o que prometi à senhora C. de permanecer por aqui e negociar daqui o mesmo negócio de Ildelfônsio e Manolo, nesta terra que sempre pertencera aos Cata Preta. Eu prometera isto e tentei cumprir. Tentei cumprir humildemente, depois, tentei desesperadamente.
Soltei este panfleto. Mandei fazer cinco mil santinhos com estes depoimentos de alguns funcionários meus. Fiz assim porque supunha que o povo pensava que era gente muito exótica que trabalhava no meu negócio, na minha propriedade.
Associei esta conclusão parcial ao fato de as vendas terem caído substancialmente. Daí, o que fiz questão em fazer foi este panfleto com meus funcionários mais excêntricos e dei total liberdade a eles para dizerem o que quisessem sobre a vida, o trabalho e as aspirações comuns, de modo geral.
Dei com os burros n’água.
Aprendi primeiro com minha mãe depois com Adamastor e Casemiro e até mesmo com Pinheiro, que deveríamos privilegiar o intelecto e o pensamento da pessoa humana, respeitando estas condições, todos seriam capazes de produzir o que fosse necessário para a sustentação do trabalho, das satisfações e da vida em si. Não penso que ter colocado isto em prática no ramo empresarialmente tivera sido um erro, ou pelo menos um erro muito grande. Um erro maior.
Acredito ainda nas pessoas e na maneira em que elucubram seus pensam e conjugam a laboração do pensar na própria vida. Elaborar estas palavras depois de ter disposto de terras é muito difícil para mim, acreditem, mas, continuo perseverando no aspecto eminentemente humano do trabalho, no entanto, dei com os burros n’água.
Esperava que estes santinhos suscitassem nas pessoas esta faceta diferenciada de uma cadeia produtiva, mas continuo perseverando. Era agregado de uma propriedade, a herdei, fui impedido de herdá-la, voltei a morar com mãe, comprei a granja, vendi, mas, persevero no ser humano, este é o recolhimento de minha matéria de trabalho.
Uma vez que não consegui, mais uma vez, que me fizesse ser entendido, desta vez com depoimentos pessoais alheios, agora o faço com minhas próprias palavras: a personalidade humana é uma intrincada rede de esquisitices, embora muitos achem ser um mal, ou não o é, ou o é em medidas necessárias. Precisamos sempre contar com o inusitado para enfastiarmos de nosso próprio cotidiano, acredito eu e persevero nisto.
É muito estranho, por exemplo, uma pessoa considerar sua estranheza absolutamente normal e em algumas vezes até louvável, enquanto que, a mesma estranheza em outro alguém causa uma ojeriza para mim incompreensível. Nosso estranhamento a uma experiência que não é justamente ou exatamente a nossa é fato. O ideal é quando subvertemos estas ordens nem tão naturais a uma possibilidade plausível de outra experiência. A experiência do outro em nós. É por exemplo o que todos exercitam no trabalho e depois falham em casa e na vida de modo mais amplo.
Acredito que este perfil do trabalho se estendido e expandido a outros espaços faria dele mesmo, do trabalho, algo finalmente sublimado.
Por isso que não condeno os preguiçosos, eles assim são, pois, assim sabem destas coisas melhor que a mim mesmo. E o que teria eu a recriminar em um preguiçoso, justamente eu, um empreendedor falido?
Sinto-me um pouco descriminado por causa disso e aí penso em minha própria memória, que é o patrimônio que tenho que é minha estória, lembro-me de quem fez parte dela, como Pinheiro e Casemiro, já mortos, como Adamastor desaparecido para a eternidade, minha mãe que me acolhera de volta, antes de morrer e fazer companhia a meu pai no Cemitério São Miguel, meus irmãos que não os conheci, mas, sempre os imagino, todos parecem ter se largado de suas próprias estórias. E eu aqui, pobre diabo, a me apegar da minha própria estória tão desvantajosa. Agradeço a todos que leram os panfletos, agradeço até os que não entenderam sua intenção e agradeço agora a quem lê esta carta, pedindo que acolham bem (assim como fizeram comigo) Nicanor Mirafuentes, o novo proprietário da granja.

NICANOR

Eu sou Nicanor Mirafuentes e quero lhes cumprimentar e lhes saudar como o que me tornei agora, com o que acabo de me tornar. Sou o novo proprietário da granja e destas terras.
Eu e meu companheiro Sebastián que aqui comigo está, queremos lhes garantir o emprego, a saúde, a dignidade e, para os que aqui vivem o compromisso de não perderem sua habitação.
Para tanto, eu e o companheiro Sebastián, estudamos de modo aprofundado os pontos de estrangulamento desta nossa granja de galetos.
Depois de muito estudo e muito refletir, eu e Sebastián chegamos à conclusão de que deveríamos criar aqui um curtume.
Será chamado Curtume Doutor Flavio Cata Preta, que é o nome do primeiro herdeiro desta terra, daremos ao lugar da Granja de Galetos Cata Preta o nosso Curtume Doutor Flávio. Desejamos sinceramente que fiquem entusiasmados com nossa ideia, pois, nossa intenção é que ela gere bons frutos para todos.
Não foi fácil tomar esta decisão, mas afirmo que ela foi pensada e repensada, levando em consideração aspectos práticos, mas também humanos.
Nosso curtume será referência nacional, será o melhor do país.
Para fazermos isto em conjunto com todos vocês, Sebastián e eu criamos uma cartilha que daqui a pouco distribuiremos a todos que trata das normas de boas práticas de armazenamento e produção em curtumes.
No mais, era isto que queria dizer por enquanto, além de é claro explicitar a vocês um desejo inusitado de nossa parte, queríamos Seastián e eu, que este empreendimento tivesse um trânsito livre de crianças a correrem e a brincar em nossas dependências, estamos falando de seus filhos sobrinhos e afilhados, a fim de estabelecer um ambiente pacífico de trabalho, desejo a nós toda a sorte, a cartilha será distribuída agora.
Vida longa ao Curtume Doutor Flavio e até a próxima, companheiros!

ILDELFÔNSIO, AGORA SE SABENDO.

Ildelfônsio da macaxeira chegou de bíblia e cavalo, Monteiro só de cavalo. Diziam vir de um lugar que eu não conhecia chamado Quatro Bicas e que queriam pregar Jesus Cristo na cruz, desculpem a cacofonia, mas, era assim que falavam. De certa forma, era também assim que funcionava este proselitismo terrorista.
Monteiro estava destinado a correr mundo, assim foi seu destino. As últimas notícias que tivemos era que ele já estava orando no Capão da Magnólia, junto aos jagunços.
Ildelfônsio ficou. Soubemos de seu passado. Sabendo que havia sido palhaço confiamos um pouco mais nele. Pelo menos este fato justificava a candura nos olhos muito disfarçada que o homem da macaxeira trazia.
Embora dissesse que palhaço não tivesse mais jeito no mundo, nem hora nem vez, cativara alguns de nossa gente como tal, talvez por instinto, não sei.
Resolvi orientá-lo para que se aproximasse de Manolo que possuía terras e não sabia como aproveitá-las a menos que com eucaliptos.
Ildelfônsio já me havia contado de sua plantação de mandioca num lugar chamado Cava da Boa Viagem. Pediu segredo sobre o assunto. Mantive. Pois dissera que fora ali sua desilusão de palhaçadas e que fora ali que passou para crente, passou para frente o sítio da macaxeira para começar peregrinação e louvar romaria.
Pediu então a bênção a bispo Julião para terminar sua andação e foi conversar com Manolo.
A ideia inicial do dono das terras era a plantação de mandiocas, mas, Ildelfônsio, lembrando-se das palavras de Monteiro, pronunciou a todos:
O que deve dar progresso mesmo é uma granja de galetos. O povo aqui só sabe ter criação de porco!
A visão dele inspirava Manolo, impregnava Manolo, que, ademais, não tinha notícia de granjas pelas redondezas. A associação mais próxima e cabível era a criação de galinhas de seu tio Doutor Flávio.
Então homem! Homenageia teu tio com uma granja de galetos! Tenho dito!
Manolo se convenceu.

SENHORA C.

Ninguém se lembrava mais de mim quando adolescente, era para todos, a ressureição de Clotilde Alvarenga. Alguns beijavam minhas mãos, diziam que retornara ao mundo depois de sofrimento e morte. Perguntavam-me como era então eu descrevia os anjos, as nuvens e até inventava uma conversa que eu tive com um santo ou outro.
Ildelfônsio não se aguentava, bispo Julião reprovava, Manolo chegava até a acreditar!
Cheguei inclusive a pedir a toda a gente que me chamasse de senhora C. e mesmo assim ninguém notava. Apenas fazia aumentar o tom de mistério que pairava.
A brincadeira foi longe demais, às vezes, Ildelfônsio largava Manolo na granja e ia venturar pregação de Clotilde. Matias ficava calado.
Até que um dia chegou a minha casa:
Você não é minha sobrinha! Volte de onde veio! Seja até do inferno! Onde deve estar agora Ildelfônsio da macaxeira que matei de morte matada!
A romaria por sorte veio atrás e me expulsou Matias do lugar. Eu sempre temo a volta dele. Voltei a ser senhora C. , mas para todos era apenas precaução de minha parte.
A boa fé de Manolo, que começava a enriquecer-se com a granja, era intragável. Zé sossego, meu marido, estava em polvorosa. Comprou uma espingarda. E dizia sempre para mudarmos o pouso, mas não tínhamos mais chance para muita coisa, tudo o que conseguimos foi mandarmos nossos filhos para os estudos.
A notícia boa era que o povo, carente de mitologia, passou a venerar mais Ildelfônsio.
O mártir finado para minha desgraça me tinha como serventia para que as pessoas esquecessem um pouco de Clotilde. O retorno de Matias ficava cada vez mais incerto. Eu, por vez, tinha que louvar o homem palhaço crente que morrera por minha causa.
Isto me enlouquecera e tive que definitivamente voltar a ser Senhora C.
Voltei a ler Edgar Allan Poe e pasmem me acalmavam as leituras. Passei a ter um medo imenso da morte e acabei por incutir isto em meus filhos que de longe, de certa forma, também temiam.

MONTEIRO

Voltou de suas cavalgadas com companhia nobre: Senhor P. dizia querer fundar novo culto. Principalmente depois que soubera da morte de Idelfonso.
São alhos e bugalhos, dizia Zé Sossego com minha aprovação. Monteiro concluiu que seria melhor separar as coisas e, com a confirmação de Senhor P. , dizia que independentemente dos acontecimentos seria possível fazer até que seus seguidores pastassem junto a grama. Manolo nos apareceu com dúvidas inocentes.
Deixemos o jogo correr dizia Senhor P.
Era isto que separava Monteiro de Ildelfônsio, sua ganância e sua sede de poder quanto à calma do segundo que findou em promessas falsas, para nossa melhor sorte, não poderia ser também esta a destinação de Monteiro e seu novo ajudante.
Senhor P. era um hábil inventor de leitorias: que eram como melismas, cânticos, uma cantoria de versos bíblicos entoados como cantochão litúrgico com finalidades próprias.
Meu marido, naturalmente, pediu que ficássemos de fora. Aceitei. Assim ele voltaria a fazer jus à alcunha.
Com pouco tempo, monteiro levantou letras e comprou terras distantes. Levou praticamente todos consigo. Dentre os que ficaram e estes eram poucos, supunham que realmente este era capaz de fazer o resto de nossa gente pastar, se assim ele quisesse.
Dentre os que ficaram, também Manolo, no ímpeto de me proteger de Matias e de rever Albano, seu primo.
Chegou-nos também madame G. que dizia ser mulher de senhor P. fomos todos morar na sede da fazenda da famigerada, mas, para as circunstâncias, bem aventurada granja de galetos. De inicio não acreditamos muito em Madame G., mas ao passar dos dias e das semanas víamos um semblante abatido e muito triste que condizia ao de uma mulher abandonada. Era difícil para Madame G. admitir que nosso destino apartava-se de Monteiro, seu marido e seu povo que agora pastava em paz.
Esperávamos sinceramente que Manolo e Madame G. se apaixonassem, mas um esperava por seu primo irmão e outra esperava por seu marido.
Ficávamos com medo da volta de Matias. Era o terror de viver em mentira, como dizia bispo Julião.

Jecy Arrigo faleceu esta semana. Todos se perguntavam a quem ficaria incumbida, a tarefa de lhe render as últimas homenagens. Pois ele, grande jurista e portador do ofício de encomendar almas durante décadas sem cessar.
O próprio bispo Julião tratou-se da empreitada, fazendo um breve e comedido, mas também apaixonado comentário explanando todas as virtudes do homem cuja vantagem a ser mais lembrada seria justamente a premissa de encontrar em cada corpo morto todas as virtudes de sua alma a fim de libertá-la pela oratória.
Zé Perereca pediu para dar um curto depoimento e estava emocionado, pois seu amigo de embate de ideias não mais poderia encomendar sua alma por razões das leis naturais e imposições do destino e não mais nos debates travados ou no combater o bom combate lhe restariam suposições do dia vindouro da morte onde encontraria as palavras do amigo abrindo-lhe as portas de céu e inferno ou ao menos algo a assustar o porvir que se desenha medonho e que se configura desolado. Não mais J.J. Rosseau, não mais Gengis Khan, não mais. Era o fim das discussões de paixão e argumentos claros.
Resta agora em nossas inquietações espirituais a especulação de nos perguntarmos se a alma de Jecy seguiu as orientações de quem a despachou para qualquer parte que seja ou se desobedeceu a tudo e a todos do chão e da terra que não mais lhe pertenciam ou mesmo se ao longo de sua longa jornada adquirisse um salvo conduto para beijar a mão dos arcanjos e para se aconselhar com os anciãos de seu reino que agora vinga como um girassol.
Carregaram seu caixão Huáscar e Sofia Penafiel além de Álvaro Santiago e Flora Dias Brasileiro. Os irmãos Penafiel voltaram para sua casa à Rua Necésio Tavares. Álvaro Santiago foi acompanhar sua avó pela Rua Lamounier Godofredo. Já Flora parece ter arrastado Zé Perereca para as páginas arrancadas de um livro de ficção. Enquanto isto já se esquece de Jecy em sua fresca lápide e bispo Julião carrega consigo a verdade absoluta em todos os seus termos.

Beatriz Santiago, já sem o irmão, descobriu que Juliete Beltrão não tinha se suicidado. Tinha se transformado em Juliete Daytona, também vulgarmente chamada de Ju Ranca-rabo, dirigia um caminhão perto de Palmeira dos Índios, Alagoas, terra natal do escritor Graciliano Ramos.

Agamenon tentava o desejo da argila.

Matilde Guedes e Emiliano, já sem seu cão estimado, retomaram sua relação amorosa e tiveram uma filha que resolveram chamar de Sylvia. Eles desejam como quem deseja a qualquer filho que ela viva bem e se torne uma musicista.

Maria Sá Sação era minha amiga neste relato, mas, descobri que foi também minha avó que mal conheci. Contou-me que na juventude teve uma paixão platônica por Amaro Pacífico Homem, depois se enamorou com Osíris Ortega que parecia não levar jeito para a coisa, até que se casou com Helton Ayres que passava dos sessenta e logo ficou viúva.
Hoje vive um amor com Paulo Honório, depois que sua esposa Madalena suicidara e ele então decidira vir para a cidade.

Casemiro era sobrinho de José Maria, que era viúvo. Os dois viviam bem até que o jovem descobrisse que sua falecida mãe, diga-se de passagem, mãe solteira havia feito seu irmão prometer o sobrinho a cristo.
Casemiro passou de início a negar todas as tradições da família em cristandades, nem mesmo o padre Zé Dias entendera o que acontecia, muito tentou intervir, mas, à época, inutilmente.
Chegou à cidade um grande humanista e professor de filosofia que ficou conhecido apenas como Souza. Casemiro logo se habituou a grandes diálogos reflexivos com este homem e sequer quisera saber seu primeiro nome. Diante da grandeza das ideias e dos fatos que travavam em embates que duravam horas nomes eram uma insignificância.
Mas talvez saber o primeiro nome de Souza era uma questão que simplesmente pertencesse a um mundo adulto.
Existia sim um aspecto adulto no mundo que Casemiro fazia questão em negar. As leituras traziam ao jovem um relativo amadurecimento, embora nunca compreendesse as malícias das relações humanas em suas inúmeras facetas. Neste ponto, ele era um rapaz vulnerável.
Até que o circo veio.
O dono do circo tinha duas moças as quais devotava sentimentos e ações paternais: Ísis e Íris, elas gostavam de cantar e contavam uma lenda de um palhaço triste que morrera por paixão e se tornara um profeta nos lugares onde o circo andava.
Isso parecia maluquice e, pelo menos a princípio, eram os mesmos pensamentos de Casemiro.
Isto não o livrou de apaixonar-se por Ísis. Ela nunca o quis. Já Íris… Elas explicavam para ele coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar.
O dono do circo, tal qual o senhor da lona, ao perceber o triângulo amoroso, propôs ao jovem que viesse com eles ou que fosse eternamente perseguido.
Souza interveio e Casemiro resolveu permanecer, mesmo sendo amaldiçoado por que não partia.
Souza o convenceu de que estes sentimentos eram relacionados à família, aos vínculos afetivos com seu tio José Maria que ligavam Casemiro à sua mãe falecida que não conhecera os diálogos com Souza, eles teriam voltado com muito mais força não fosse o fato de ele também, com pouco tempo corrido, sumir no horizonte.
O jovem Casemiro então se reconciliou com seu tio e pensou até em marcar um reencontro com o padre Zé Dias. Seria uma conversa para tentar rever suas vocações ou para verificar se havia algo realmente a se reaver com este tema de sacerdócio que sua mãe desejava e seu tio confiava.
Padre Zé Dias, no entanto, foi peremptório, dizia que o desvio já estava feito por filósofos libertinos, Jovens cortesãs circenses e administradores nefastos.
Casemiro não se abalou muito em suas convicções embora ficasse acometido para sempre de certo banzo em seu cristianismo.
Voltou-se a reflexões confusas e entristeceu muito seu tio José Maria, eram dois homens fugidios destinados a separarem-se.
Casemiro por fim engraxou as botinas do tio e saiu de casa, sem retrato e sem bilhete.
Léguas adiante conheceu Allan Kardec.
Ao compor os escritos que fazem parte deste caderno rompi com uma espécie de tratado ou uma premissa literária. A julgar pelo fato de que, esta prerrogativa, por mais que fosse inquestionável a reputação de quem a postulou, não deixava de vagar no terreno de uma postura humana um tanto quanto politicamente correta. Neste tocante, vai um ponto a meu favor. Em todos os outros, eu perco miseravelmente muitos padrões éticos. Que por coincidência são dos poucos que me faltam: Manipular os personagens cujo processo criativo levava em conta primordialmente o aspecto humano dos mesmos…
Irrompi destas conclusões para obter em minha consciência uma que rebusca sim personagens. Configurando assim um eixo desorientado entre algumas correlações improváveis e um lado surrealista, obscuro.
Chego à sórdida e evidente conclusão de que manipulei a exaustão estes personagens que, além de seus nomes evidentemente camuflados e quase sem seus sobrenomes de origem, trazem talvez somente obsessões mórbidas de minha natureza errante e extremamente maníaca e egoísta.
Depois de feita esta confissão que, de alguma forma, me livra de acusações como maniqueísmo ou megalomania, digo que desejo boa sorte a todos os meus leitores que não mereceriam levar-me tanto a sério.
O que faço, devo admitir também, por vezes tem uma conotação barroca sim, mesmo manipulando personagens, “primar pela supressão e evitar o barroco,” previno as pessoas, estas que pensam que há uma ligação da minha escrita com estes tipos de memorialismos: o que é memória se elabora em si para que seja narrado.
Por ora o que eu tenho a dizer é que, pelo menos sob esta ótica, minha resposta é um não peremptório tentando me despir de veleidades.
Tive que matar estes personagens que acabei de narrar aqui. Tive que dar cabo deles em mim. Pois que eles não agiam mais em mim. O que existia, e isto é muito diferente, era uma vontade que eles agissem, para evidenciar aspectos humanos ou nem isto, mas eles não agiram em modo algum. Tive que movimentar seus cadáveres dentro de minha imaginação tórrida.
Mas asseguro, acho que eles não voltarão.
Esta é minha autodefesa.
O resto vai para o panteão de minha ignorância.

Ouro Branco, 31 de Janeiro de 1981.

Caro casal Asdrúbal Penaforte e Alana Rios,

Desejo que esteja tudo bem e que a vida flua conforme tiver que ser aí em Mar de Garças. Aproveito a oportunidade para declarar que, da minha parte, não haverá remorso ou ressentimentos em relação à decisão de vocês dois de unirem-se em matrimônio aberto, no entanto, esta minha abertura não denota nenhuma aproximação que não seja mais que a própria amizade.
Desejo que Mar de Garças seja também mares de fortuna e ventura, no sentido irrestrito das duas últimas palavras. Enfim desejo que aconteça tudo de tiver de acontecer, que a vida não lhes poupe, na ambiguidade desta sentença. E que a sentença final valha a pena, literalmente.
Contratei um advogado para me auxiliar nesta charada Donald-Dee Dee, segundo o contato que vocês dois me arranjaram e depois desta situação inteiramente resolvida iremos colocar uma pedra neste assunto e passaremos a nos preocuparmos apenas com a questão de colocarmos em pratos limpos a influência de pai mãe e Sofia em nosso relacionamento, e evidentemente deixaremos meus tios de lado, ou de fora, como queiram.
Ananias manda abraços e reforça nossa intenção de manter as portas de nossa casa em Ouro Branco sempre abertas para vocês. É tudo muito bom apesar de ser engraçado e um tanto quanto irônico e este não deve ser o fim de nossos ciclos, eu penso.
Escrevo também para comunicar-lhes o falecimento de Zé Nosso. Lembram-se dele? Ele mesmo, Zé Nosso, tocador de eufônios! Faleceu ontem. Devemos lembrar sempre de sua leveza trêmula não é mesmo? Rememorarei sua sapataria onde pai ia para ouvir seus casos e piadas…
Acontece que me lembrara ontem mesmo que o pai guardava numa de suas gavetas escritos que alguns lhe confiavam dentre eles, Zé Nosso.
Envio então anexo um texto dele.
No mais celebremos seu luto com a cachaça que ele tanto dizia amaciar sua garganta para tocar seu eufônio nas procissões (subir e descer).
A banda de Ouro Branco deverá homenageá-lo.

Legendas das cenas finais de um filme B acerca da vida de Nicanor Mirafuentes

I
_ Sebastián, você não tem ouvido sons de brincadeiras de criança na pracinha?
_ Sim, Nicanor. Quem diria o cortiço La Plata invadido por estas adoráveis pestes!
_ Teve uma boa infância, Sebastián? Isso acho que nunca te perguntei.
_ Bingo! Nunca realmente demonstrou este tipo de interesse. Talvez eu fosse a criança suja, como Arenas.
_ Sebastián, Sebastián, quando fala assim, sei que está prestes a sentar-se nesta nossa escrivaninha.
_ De fato, estou, Nicanor.
_ De fato, você está prestes a completar 53 anos no próximo dia 27, para ser exato. Ainda tem ilusões, minha criança suja?
_ Tenho, sim, Nicanor. E agora, sua pergunta sobre o som das crianças brincando no nosso cortiço demonstra que ainda pensa em crianças. Estou muito satisfeito com isso. Mesmo sendo a criança suja e, sobretudo, sendo ela, não deixaria de apreciar tudo que tem potencial de ser bucólico.
_ Como eu sei disso, meu Sebastián querido! Mas aproveite que está sentado na escrivaninha e me passe o AZT.
_ Tome.
_ Meu amor!

II
_ Nicanor, sobre nossa confusa conversa de ontem… Não gostaria de fazer um passeio bucólico?
_ Havana é muito pesada, Sebastián. Estes alicerces são muito antigos. Esta cidade não produz nada de novo… Antes o exílio… Ah! Minha kitchenette em San Francisco!
_ Nicanor, outro país virá. A revolução acabou.
_ Outro país virá e eu não verei. A revolução acabou e eu também acabarei.
_ Nicanor, conheço um bosque aqui perto. Com este outono poético, está repleto de flores de ipê no chão.
_ Te amo, Sebastián.
_ Vamos, eu te preparo a cadeira de rodas.
_ Sim, sim, meu amor, entre flores mortas. Já é um bom começo para imaginá-las em meu corpo morto.
_ Nicanor, era você quem deveria ser o escritor.

III
_ Sebastián, este passeio está me fazendo muito bem.
_ Constatei pelo seu silêncio. Mas, tomou o AZT, não é?
_ Claro, às vezes, me toma por uma criança brincalhona.
_ Nicanor, às vezes, é exatamente isso que você é!
_ Gosto muito daquele seu conto do guardador de feno que é visitado por um anjo e que desafia a figura celeste dizendo não acreditar em Deus. O anjo então desaparece por entre o feno. Talvez nunca tenha te dito isso antes.
_ Nicanor, você anda me dizendo algumas pequenas coisas surpreendentes ultimamente.
_ Ah, meu amado, estou começando a dizer as coisas que precisam ser ditas.
_ Então diga, Nicanor, diga. Como seria possível amolecer o coração do guardador de feno?
_ Às vezes, meu caro Sebastián é nas almas mais contidas que se encontra a doçura mais recôndita. O anjo do teu conto não apareceu lá por acaso.
_ Talvez.
_ Vamos, Sebastián.
_ Sim, vamos.

IV
_ Onde esteve, Sebastián?
_ Estive dando uma retocada no jardim do cortiço. O administrador até me pagou uns trocados.
_ Foi exatamente o tempo que gastei meu querido, para preparar este bolo pré-fabricado. Parabéns pelos seus 53 anos, meu amante secreto, nesta vida que segue indiferente.
_ Oh, Nicanor! Se a massa do bolo for como as palavras…
_ Sebastián, ao lado de você, minha morte é viver numa tela de Van Gogh!
_ Agora, Nicanor, daqui a três meses, são os seus 61 anos que comemoraremos.
_ E mais. Daqui a duas semanas faz um ano que estamos sem Rita Pavone, a nossa cadelinha!

V
_ Veja, Nicanor, duas correspondências: uma para mim, outra para você.
_ Abra primeiro, Sebastián!
_ Não, você, Nicanor, abra a sua!
_ Não, você!
_ Tá bom…
_ Nicanor… Eu… Eu… Também estou contaminado.
_ Como?
_ Conheci um rapaz, quatro meses antes de conhecer você…
_ Meu Deus! Meu Deus!
_ Não! Não façamos alarde, abra a sua carta.
_ Perdi o gosto.
_ Que história é essa? Abra!
_ É da Anistia Internacional… Propondo-me Amsterdã.
_ Vá!
_ Não!
_ Vá!
_ Não, morreremos juntos, no cortiço La Plata, em Havana, Cuba.
_ E como faremos? Um de nós dois morrerá antes…
_ Eis a questão, nós nos envenenaremos amanhã no bosque.
_ E as crianças da pracinha?
_ Bem, essas nunca deixarão de existir.

Ouro Branco, 28 de fevereiro de 1981,

Prezado senhor Adalberto Alessandro de Pádua Henriques,

É com satisfação que vejo o adiantamento de suas investigações! Estás a confirmar minhas suspeitas! Antes mesmo que não haja nenhum Donald neste endereço. Que não há movimentação de Dee Dee por lá não me surpreende, nem o fato de não haver nenhum homônimo nos contatos dela; queria que o senhor soubesse que embora me falando dela me cause imensa curiosidade de amante é preciso que o faça, pelo bem da verdade.
Estranha me um pouco o fato de Dee Dee ironicamente manter seus velhos hábitos.
Isto pode o fazer pensar que nada há de errado com esta jovem senhora, não vacile!
Ou ela esgueira-se em suas pernas que aí sim saberás do que estou falando.
Com um até já.

Sua mãe não passava de qualquer pessoa dentro de qualquer padrão mediano, para ser literal, era medíocre. Nunca foi a mulher que não pôde ter sido, isso nela em mim me agradava. Não por que tivera sido uma latino-americana refugiada da opressão de seu país. Eu sei reconhecer a geografia dos poderes hegemônicos no globo, incrivelmente são onde os civis de esquerda tem tido refúgio. Ela não era metódica como sempre pareceu para você. Penso que isto é mais coisa do teu pai, aquele que já conheci prestes à sepultura. Impressionante, como não se enterram ressentimentos!
A salmoura do atlântico tem temperado a América de seu legado de misérias, é verdade.
Quando vi teu pai no caixão estive certa dos pudores que tiveste que enfrentar, por isso mesmo Sofia, sua irmã mais velha não passa de uma beata depravada que seus tios escondem.
Ah suas tias aptas ao bordado e à culinária, assim como aptas a língua quente das soleiras baixas, optas por este tipo de saudosismo… Este teu país que não entendo!
Sua oratória inflamada de venezuelas, fidalgos e fidéis, Nicaráguas e Sandinos.
Estas coisas como cantassem hinos como louvassem a própria derrota, num cristianismo tardio e perigoso.
Donald esteve sim conosco, num ciclo de leituras de Shakespeare, cujo interesse foi de sua mãe participar. Mas, para lhe dizer a verdade foi o ar provinciano dela que o encantou, posso supor que ele também tinha este traço de atraso no espírito. Ajudava-nos às vezes com provisões, mas nunca cobrara favor algum, se estás a me entender, sua mãe sequer o tocou. Embora tivessem, ambos, o mesmo desejo.

Pobre homem o Donald! Já é morto, nem me lembro de quanto tempo!
Acontece que tem um sobrinho com as mesmas taras de todos da sua família cujo delito invade o afeto dos outros com esta curiosidade mórbida que lhes alimenta a pobreza na alma.
Sua mãe não foi senão mera escrava deste sentimento mesquinho e ultrapassado.
Então nós europeus somos os arrogantes, pois que sejamos!
Viste que tudo acaba debaixo do chão e não confundas que o seu ufanismo é o mesmo dos que governam seu país.
Pobres de seus namorados e suas namoradas estão condenados a viver sua mentira ideológica, esta solidão mascarada de animais instrumentos e fumo, além é claro da pretensão intelectual.
Tomem o poder e entrem também no jogo do hemisfério norte, este que já me causou tanto desgosto.
Vocês, pelo contrário, tem o gosto pela pompa e pela circunstância. Nunca deixarão o estilismo de um padre Antônio Vieira. O que fizeram de novidade e está pegando por aqui foi tirar o privilégio dos políticos serem os únicos a se sujarem, aliás, padres, e até mesmo esta sua classe média.
Todo o leste previu isto em suas comédias de comportamento, agora são tragédias nas mãos de alguns porcos.
Registrei uma queixa contra ti em Londres. Verás que a Scotland Yard não foge à luta e levará a prisão seu detetive mequetrefe que bisbilhotou minha vida e não se dando por satisfeito resolveu usar como tática a difamação pública, você não terá o nome citado por que a incompetência de seu representante levou a mim e a polícia, aos fatos que te atormentam
Tens a presunção de suspeitar de mim, você que fantasiou a meu respeito desde que me viu e depois que me teve por pouco tempo.
Como podes te nutrir de tanta imaginação perversa, como podes me incluir em sua orientação pequeno-burguesa do mundo.
Sinceramente não sei o que gira em torno de sua cabeça, que a democracia venha logo a seu país e que entendas algo que possas te melhorar ao menos um pouco.
Aprendas tomara, que todas as verdades têm em seu prazo de validade uma grande mentira! Quis ver tudo com meus próprios olhos.
É por isso que vim, José!

Ouro Branco, 10 de abril de 1981.

WRONG ENGLISH

Dirtin up the darkest, dressin cold in the eye, suckin nowhere poison, but dyin and livin on, waitin for the moon and some killin thing to burn down my last words…
Light a cigarette and lay down, I’m the night and in the end… I’ll be my own favorite desperate footdancin, crossin South America and other terrible places.

Into the stolen shine place

Choose your forbidden bibles, but don’t be late time is waitin

Felt it, fever crashin bones, did you creep all my thumbs to watch me yellow… askin for the brand new tear how it goes through it came heat like a rolling stone, druisin my skin to take a breath, walkin by the jump line across myself, I do not drown the floor, it’s an upside down sky’s drawing.

Lightning sun from my stormy and silent weather, is it possible but it’s not true, I better run to the tree fields to be shoutin shadows, it’s been amazing the way I strung milk from the hills, then push, then pull, so usually, I has been tryin the dawn, this great same kinda telling bullshits.

Is it the higher of shoes´ wall… it can’t be worst, it could be better, I am a broken fingernails.

Woke up a thief to fall asleep, I knew it was a lie, wouldn’t be life.

I wasn’t forgivin, I was just telling stories from myself hidin.

Anywhere is a cryin truth, anyway, anyone, whatever, however I kept, I tried to keep me cleaner, too late for livin, for bein, and I may play the tragedies;

Huntin the drop, something reminds me rain, somenthin remains under earth, under heart ashes;

I rather be someone in other runnin disaster, but I am floatin in an old wave.

They won’t get me serious, as while I am completely inside a truth, I will be a liar in your honest killer suckin sky… the holy in a half revelation… remains to dust, gettin me serious after midnight, I am runnin trough years, trees and bad jokes… they won’t get and that’s all.

The worst in watchin men it is whose wanted to be watched as the better blind doesn’t want to see… the obvious lays at my bed and it tellin me some wonder forgettin colors and also forsakin riverbed, smell muddy waters… doesn’t matter if you’re lost here, in this small south hemisphere.

That’s why I am half and twice… blowin up a honestly lyin, cryin as tears go by… a stone love and rollin roses, rockin into the long distance callin, fallen into a moist hole.

I

O senhor pode considerar
Ser leviandade minha
Ou, no mínimo, coisa duvidosa.
Não distinguir ceticismo de estoicismo
Quando penso em Epicuro.
Se é que de fato estou pensando
Estou cansado
E lhe digo o motivo da fadiga:
É sempre o sangue a modificar as geografias
Houve tantas guerras
E principalmente, há muita guerra.
Há algo permanente nesta palavra
E sua etimologia de pólvora
Mas o que são palavras?
Resolvem alguma coisa no mundo
Sinto cheiro de chumbo ao ouvir guerra
Pelo rádio ou ao televisor
Nos jornais
Ao invés
Do habitual cheiro das manhãs
Dos tipógrafos
Sinto o gosto da morte
Fui pracinha na campanha da Itália
Ah meu amigo, senta um pouco, deixa…
Sou Atanagildo Paraguai
Mas possuo a infame alcunha
De Zé perereca

II

Sentarei contigo
Meu nome é Jecy Arrigo
Sou jurista
E sou religioso
Sinceramente
Não conheço guerras
Porém
Deve haver semelhanças
Entre o ato bélico
E a encomendação de uma alma
Coisa que faço há trinta anos
Faço em eloquência
Exalto todos os defuntos da cidade
Sem distinção
Possuo boa oratória
E devo isso ao observar as leis
Quanto à vida todos guerreamos.
Até que a morte nos ceife
Entretanto lhe faço recomendações:
Jean Jacques Rosseau
“A natureza humana ser um equilíbrio perfeito entre o que se tem
E o que se quer.”
Meu sábio professor de latim, Juca, disse-me isso
E disse mais:
“O homem natural é ser de sensações, somente.
O homem no estado de natureza deseja somente aquilo que o rodeia.”
Portanto, o homem natural não conhece bem desejos maiores
Ou não os consegue perceber
Ao menos clarividentemente.
Parece budismo?
Também não distingo estas coisas
Assim como o senhor não distingue
Seus epicurismos
Mas J. J. Rosseau
Estava na Suiça, século XVI,
Órfão de mãe
E com fervor religioso
A fé não é o único caminho
Mas é uma das soluções
Já as palavras
As mesmas que uso para encomendar almas
Reconstroem sim
O que as lutas corrompem
Ah! Tanta ignorância e estupidez…
Permita-me usar o termo,
Homens animalescos
Instituições animalescas
A palavra é a solução
Não devemo-nos isolar como ermitões
Não confunda,
Por favor,
Rosseau com Thomas Hobbes
Não há leviatãs ou lobos
Tampouco deverá haver guerras
Não é deste homem que estamos falando
Lobisomens não existem, meu caro.
A natureza do homem é o convívio
E uma liberdade que só aceita o civismo
Se este também se chamar liberdade
Minhas palavras o consolam, companheiro?
Diga-me!

III

Meu caro Jecy,
Atualmente
Palavras só me têm servido
Para sinapses mórbidas
Se o seu filósofo distingue o homem de um lobo
Assim como o seu anterior não o fez
Pouco me importa
Senão
Pelo fato de me fazer lembrar Gengis Khan
Que é uma referência mais apropriada
Para mim
Ex-combatente
Lobos e leviatãs sempre povoaram os temores humanos
Na Mongólia
Século XI
Os xamãs já cumpriam com o papel de Nietzsche.
Não conhece lenda da qual Khan derrotou o lobo
Que devoraria a terra?
Ele a derrotou
Com quais armas?
Com os prodígios de qual deus?
Emprestado de qual filosofia?
A mentira da doutrina, suas palavras,
É ocultar a relevância de terem sido escritas a sangue
E feitas, de certa forma, com o banhar-se com sangue.
Ou o embebedar-se de sangue
Qual líquido é este a alimentar as paixões
Através de um músculo de mesma cor?
E ainda insiste em palavras?
Mais valeriam as pedras
Mas estas Gengis Khan
Na china derrubara todas
E aí vem de novo o linguajar das lendas…
Ora.
Arcos e flechas são impiedosos
Mas a maciez destes vernáculos
Pode ser ainda mais perigosa
Felizmente
Não somos apenas nós dois
Amigo
Presos a esta armadilha
Nosso estrategista
Quis em vão a longevidade de seu filho
Ogedei
E em seu próprio velório
E obrigou
A todos os seus
Digo os mais próximos
A matarem-se a si mesmos
Para nunca ninguém conhecer
O local do exato do sepulcro
De seu general
Aí vem de novo o linguajar das lendas…
Ora…
Não há civismo sem uma pequena dose de violência
Paixões são confusão
Portanto,
Se não há sangue em suas seitas e leis
Não há liberdade no civismo de seus teóricos.
Desculpe-me
Mas, o que acha disto tudo?

IV

Ora, senhor José Perereca.
Sempre pratiquei a justiça
Advogando
Sempre combati o bom combate
E também encomendo almas ao senhor
Dos grandes céus
E de todos os mundos
E digo que brevemente
Deveria encomendar a sua alma também
Provavelmente deve estar a pensar
Na ironia
Que supõe que acabo de dizer
Mas não,
Não o considero um herege
Tampouco me considero um irônico
Porém,
Não perco a oportunidade de fazer citações
Na Londres do século XVII
Charles Darwin propagou sua obra
E muitos, à época,
Consideravam a era vitoriana
Como algo revolucionário
As liberdades, estas sim,
Eram tolhidas naquele tempo
Mas,
Em qual outro tempo não?
A indústria se afirmava cada vez mais
E os operários e sua classe?
Percebe?
Ainda não me toma por um humanista?
Conheço a eterna luta
Entre o conservadorismo
E a liberdade do indivíduo
Ainda assim, não acredita que as leis poderiam mudar isto
Ou, não mudarão?
Pensa que sou um republicano prestes a esclerose?
Acha que escolhi errado
Em ser um religioso?
Pois bem
Vou a minha citação
Stuart Mill
Que aliás,
Além da citação,
Propriamente dita
Sempre afirmava
Que a religião
Servia muito bem
Às demandas éticas
Mas, vamos logo.
Vamos logo citar Mill
“Sobre si mesmo, sobre seu corpo e mente, o individuo é soberano.”
Qual é a sua opinião?
Vamos responda!

V

Simplesmente, que sua primeira teoria,
A que se refere ao estado de natureza,
Contradiz a segunda: do indivíduo soberano.
Veja se somos soberanos somos inevitáveis lobos
E estes são alvejados pelos generais
E se há um estado de natureza com escassez de lobos
Nunca seríamos, nem nunca seremos soberanos.
Sim, “o homem é o lobo do homem.”
Houve um tempo em que os filósofos serviam aos reis
Presumo
Que de alguma forma
A filosofia continua
E provavelmente continuará
A servir o estado
República, democracia, chame como quiser.
E a filosofia continuará
A servir os estadistas
Não gosto da concepção das nações
No entanto não sou um anarquista
Jecy Arrigo,
Se me perguntou sobre eu ainda não ter me convencido
Do fato de que o senhor é um humanista…
Então eu lhe pergunto, ainda também o senhor
Não se convenceu
De que sou um libertário
Digo-lhe mais uma vez
Será sempre o sangue a modificar as geografias
Este líquido vermelho
Vertido por marechais e revolucionários
Inflamados por mandatários déspotas
Servidos de filosofia
E servindo à filosofia
Com todos os gonzos
Pobre Platão!
Estes desta época,
Perdoe minha ignorância,
Não sei se tinham ciência
Da união da poles com o dogma
Que atualmente
É esta república antiga
E viciada
Quantas filosofias
Cabem numa democracia?
Quantas democracias
Cabem numa ideia?
Onde está
A batalha de Boju
Perdida por Sun Tzu
Perdida na eternidade
Este também veio e foi sem se saber muito dele
Nos tempos de hoje
Como qualquer mortal
Por que se especula tanto?
Pouco me importa
Especularem Rosseau,
Trotski e Mussolini
Se quiser,
Encomende agora minha alma.
Ao senhor dos seus grandes céus
Estes grandes céus vazios
E peremptórios.

Belo Horizonte, 11 de setembro de 1984.

Eu nunca escrevi cartas, portanto não sei bem como terminá-las ou mesmo começar. Eu nunca escrevi cartas, mas é como se tivesse sempre escrito, mas nunca escrevi nada.
Deixei La Paz faz dois anos, mais ou menos, estava tudo muito conturbado que minha mente selecionou não me lembrar até hoje claramente dos fatos em contexto.
A vida em Córdoba segue mansa e boa, até me faz lembrar a época do seminário e é destas memórias que me recolho para retirar estes vocábulos.
Não que durante estes anos (década e meia) alguma coisa urgente tivera de ficar por dizer então. Pelo contrário, como lhe disse, a vida vai mansa e boa e, felizmente, quando não foi assim já nem me lembro.
Mas o fato é que o homem pensa. Pensar tem sido ao relembrar e elaborar solitariamente coisas passíveis de proferir nestes momentos recordados. Acho que para isto é que inventaram as cartas, mas nosso tempo é esta aflição por novidades. Tão paradoxo quão um pouco trágico. Veja, o que mais se quer são notícias e quando as temos ficamos ávidos em dá-las aos outros.
Não gostaria de fazer assim ao lhe escrever esta carta nem uma coisa nem outra, todavia acho que não conseguirei este prodígio.
Ah aqueles que escrevem sem necessidade e sempre lhes escorre o motivo de o fazerem sem problemas… Não somos assim. Somos erráticos. Ao som de berrante segue boiada caminhando a esmo, ao novo quilombo de Zumbi.
Sem mais delongas prossigamos com o que deve ser agora sim, uma carta.
Li muito até chegar aqui a Córdoba e orgulho me de ter, de certa forma, fabricado a mim mesmo. Por mais que qualquer invenção morando dentro do inventor tenha um tom de ideia, um tom de coisa anterior.
É sempre preciso fixar os pés no chão para que se olhe o que se tem a fazer e este não é um problema, de início.
O fato de minha origem pobre ter me levado aos estudos pelas vias do ensino do sacerdócio não me traz indecência na ética, pelo contrário, ao menos queria provar a quem votasse em minha confiança que ganhasse em dobro. De deus, mas de mim, principalmente. Infelizmente apareceu Rubião.
Por isso mesmo te digo que foi melhor ter deixado claro a paixão antropológica desde que cheguei, sinceramente, nunca tinha pensado em encontrar tanta misantropia numa face humana. Eu sei que é ironicamente humano demasiado humano. Aprendi a deixar a vida trazer as respostas aos pés e não à cabeça, apesar de tudo, nunca deixei de crer, e sabes bem, creio mesmo mais nos homens que na doutrina de seus deuses, solitários, monogâmicos ou não, pagãos ou não, deixemo-los, pois é aqui que a vida interessa.
Rubião ficou nessa postura arrogante de falso helenista a procurar seu substrato que nos esqueceu e encontrou a forca num quarto de mosteiro. É pena, pois ao dizer da impossibilidade de amar queria ele era justamente acreditar no amor.
Ora, o amor hoje sabemos que é o tudo, mas é também o nada, o zero, o impossível para todas as igrejas, pois é com ele e não com pedras e tijolos que a igreja faz matemática.
Sabes que o nosso tempo deflagra muitas campanhas contra descartes, mas não sei por que.
Nosso tempo não quer mais carregar a culpa. A metáfora é esta mesma: se cansaram de esperar a volta do cristo. Já se dizem libertados da culpa. E pensar que sempre estivemos livres, pois éramos somos e seremos quando amamos. É este o mistério que salva e mata. No caso de Rubião matou. Não há amor com qualquer culpa e nosso amigo pensava que seu amor tinha se tornado a própria culpa. Sabes que não é apenas celibato que falamos ou mesmo homossexualismo. Existem coisas bem mais sérias dentro de um cérebro humano que nos fariam nem levar em conta estes dois aspectos menores. Pois se a vida quer apenas ser vivida e que é preciso apenas coragem para aceitá-la. Com cristo com Buda ou sem nada.
Pensando hoje vejo que não houve providência maior, tanto para mim quanto para ela, que a morte de minha mãe mais ou menos na época do suicídio dele. Foi aí que precisei deste tipo de coragem. Tive que aguentar a língua alheia a dizer do desgosto de mãe, sendo que sabes que nunca existiu isto. Tive que inventar ao meu pai que tinha sido expulso do monastério pelo que poderia de fato ter me expulsado, mas assim não se fez.
Eu precisava conversar com aquele cafajeste e deixá-lo sozinho como assim também fizeram as irmãs.
Continuei com os estudos filosóficos e antropológicos, porém tive que fazer da minha maneira, e é isto que te conto agora.
Conheci um jovem, Sebastião Cabeleira, órfão, gari e autodidata. Mais tarde poderá se tornar um traficante de livros quando a coisa esquentar ainda mais. Justamente por estarmos em ditadura.
Revirava lixos recolhendo livros próximos a minha casa em La Paz. Quando me viu tentou desconsiderar o ato que praticava, entretanto logo viu no meu semblante o consentimento e veio a mim.
Você mora por aqui? Conhece o Sr. Vieira, dono desta casa?
Logo vi que eu não conhecia a vizinhança como em todas as minhas moradas exceto o seminário que assim me obrigava à convivência pelo argumento de que o mundo é bom e, portanto deveria concluir que o ministério da palavra também o era. Pois era esta a sua missão.
Perdoe-me, recolho livros e sou gari. Conheço as casas desta cidade onde jogam livros no lixo, todas elas! O Senhor se incomoda comigo?
Como eu gostaria de conhecer todos os endereços de La Paz onde quisessem jogar livros fora para oferecer a estes objetos humilde, mas nova casa.
Tem que recolher livro é no lixo! Acredite, seus donos foram afetados por eles de um tipo de ciúme da reputação do seu novo proprietário que orgulhosamente não gostariam de ver, é verdade!
Bons argumentos. Comecei a peregrinar com Sebastião pelas ruas de La Paz a roubarmos livros do lixo. Uma vez que comprovamos junto a Sr. Vieira que donos de livros não querem pessoas interessadas com suas dissidências, mas disse ao gari que era de fato um gesto difícil, tão difícil quanto o nosso.
Sebastião Cabeleira me fez um mapa, um consolidado da situação de onde pudéssemos encontrar mais ou menos livros.
Passamos uns três meses guardando apenas livros didáticos, de autoajuda e religiosos e também revistas.
Quando da morte do Sr. Vieira decidimos assaltar sua casa logo após seu enterro e aí o jovem Cabeleira perdeu seu emprego. Já eu tive que me mudar.
Lia tudo: geografia, história, filosofia, biologia, matemática, hinduísmo, etc. Tinha que me atualizar. Depois do advento da morte do Sr. Vieira pude reler Petrarca, Dante, os mais atuais como o Llosa, e outras coisas, maçonaria, astrologia, etc. foi um tempo bom.
Acabei, com isto, arranjando um emprego como repositor de prateleiras numa livraria. Um salário que todos achariam ínfimo, mas que me dava por satisfeito em todo mês com ele poder tirar alguns de lá, mas só os de bolso, nunca (e especificamente depois de te narrar isto) me importaria com o luxo da edição.
Pude ler o melhor de nosso tempo, o Cortázar, o Marquez e o Calvino. Estes são bons exemplos. Mas aí me apareceu Madame G. e a estória começou a mudar. E eu nem imaginava estas coisas, mesmo num coração equivocado da América do sul.
Ela disse, Madame G. , que conhecia o Rubião e que estava a minha procura. Travamos longa conversa e depois muitas outras, digo, mais algumas, com intensidades de longo afeto e empatia. Ela disse não se lembrar de ti, mas revelou que estava agora trabalhando no mosteiro como secretária. Foi aí que comecei a me esquecer de coisas importantes. E a vida me trouxe a Córdoba
De uns tempos pra cá, e esta foi uma das poucas coisas que me lembrara ultimamente, me veio à luz a recordação que as últimas aquisições bibliográficas não tinham sido nem através do saudoso Sebastião Cabeleira ou do nem tão saudoso assim Sr. Vieira e sim de presentes de Madame G.
Ao ler os títulos nas prateleiras, iniciei o redentor hábito de me recordar de quais eram as obras que ela havia me dado. Depois de realizar este inventário, automaticamente, veio a lembrança dos bilhetes dela em forma de cartões dentro dos volumes que funcionavam como charadas ou um quebra cabeças, veja:
Em uma obra de A. Camus estava:
“o bispo quer vê-lo. Sabe de sua busca inusitada pelas ruas de La Paz por obtenção de conhecimento”.
Em um tomo de Clarice Lispector dizia:
“Rubião era remador na juventude, você sabia? Se quiser, depois posso passar ao senhor os manuscritos de seu diário de anotações da época.”
Já em Umberto Eco lá estava:
“uma comissão de diáconos esteve hoje em meu escritório a me convidar para trabalhar no seminário onde meu primo falecera.”
Num volume de Jorge Amado tinha:
“semana passada tive uma conversa com o bispo, ele parece querer reparar muitas cosias. Estou satisfeita.”
Mas se contradizia com o Lorca:
“Eu acho a igreja muito equivocada, você tem razão.”
E quando cheguei a Proust:
“Corra daqui que o bispo anda a me chantagear, ele disse estar disposto a te denunciar para livrar a cara da Santa Madre.”
Mesmo assim, nada me explica até agora o fato de estar aqui. Mandam-me tomar uns medicamentos pela manhã, à tarde e também ao final do dia.
Depois me levam até a sala de sonoterapia.
Mas semana passada chegou-me de um remetente diferente uma encomenda de Madame G.
Era um livro de Cervantes com mais um bilhete dela.
“não queremos recriminá-lo! Estamos querendo te entender, pois nosso primo Rubião dizia te amar.”
Depois de tantas leituras e informações cruzadas os médicos passaram a me sedar e pela primeira vez, me disseram onde eu estava, em Córdoba, Argentina, e não disseram mais nada.
Passou-se deste dia uma semana quando me veio madame G. Que estando muito perturbada apenas me trouxe uns manuscritos dele e me revelou aos prantos que eu me encontrava no sanatório Santa Fé.
Depois que descobri que estava sendo compulsoriamente tratado por psiquiatras argentinos a pedido da cúria boliviana disseram que meu estado piorou. Foi quando comecei a concordar com eles, que agora finalmente os reconhecia como eram, psiquiatras.
Não tinha era ainda descoberto a razão para tal, entanto já soubera que havia me esquecido de muitas coisas por sessões de eletrochoque que me eram dadas conjugadas com anestesia-geral. Tinham me dito agora que era uma prática recente, tanto em mim quanto também em muitos pacientes psiquiátricos em todo o país. Disseram-me antes, quando eram obrigados a fazer isto sem a anestesia geral, se deparavam com situações horríveis e de muita dor física e espiritual.
Disseram-me que este tratamento agora poderia ser indicado também a pessoas em situação de extrema angústia e ansiedade como comigo.
Faltava-me a última peça dos quebra-cabeças, a última casa por se vencer no tabuleiro deste jogo.
Paredes, era da equipe, o médico mais humanizado. Depois de algum tempo nos aproximamos.
Notei que ele me perguntava sobre o tempo de mosteiro e de meu interesse pelos bilhetes de Madame G.
Numa das conversações, ele questionara-me a respeito do dia em que ela veio me visitar com o terror nos ares e o choro na cara. Não sabia até que ponto poderia confiar naquele médico, a princípio pensava que não podia mesmo confiar, mas me abalei ainda mais quando ele me perguntara do que eu tinha achado dos manuscritos de Rubião. Isto me afetou muito.
Agora eles sabem de tudo e minha mente se encontra em seus estudos macabros?!
Exasperei-me muito e como acontecia aos outros quando assim ficavam, descobri a lógica do manicômio. Quando enfim você recobra a lógica e a razão, e esta evidentemente não pode estar neste lugar, a não ser na cabeça do corpo médico e de sua equipe, eles fazem isto, te sedam ou te amarram ou te prendem, foi aí que descobri que quando ocorria com um colega de quarto, por exemplo, este poderia estar com a razão e isto precisava ser preservado sendo ocultado do próprio detentor desta razão. O eu, o si próprio.
Mas, Paredes me veio naquela manhã me dizer que eu estava de alta. E me davam um presente do bispo local com uma publicação, um livro: O Diário do Capelão. Escritos de Rubião Meireles.
Eram os mesmos manuscritos que madame G. tinha me confiado meses antes. Daí fui me lembrar de ela ter me falado do Reginaldo, um de seus primos.
Era ele o organizador da obra que compilou no volume que agora vinha as minhas mãos com recomendações episcopais. Madame G. sempre me falava deste homem com um ar de revolta. Tratava-se de um pequeno editor que até seu primo já tinha mencionado com desdém desde o monastério.
Deram-me aqui em Córdoba paz e silêncio, peço o mesmo a ti, paz e silêncio. Pois a vida vai mansa e boa. Pode não ser assim se um jornalista me achar aqui, no subúrbio.
Se conheces a obra de Rubião antes do suicídio, peço também o seu silêncio, aí de Macaé, Rio de Janeiro, Brasil. peço seu silêncio, ele convém aos nossos tempos. Além do mais, penso ser assim melhor pra todos.
Não conhecemos a igreja, é fato. E como as coisas de deus não nos são dadas saber vamos dar a estes bispos com seus rebanhos entre a homilia e a censura de nossa América equivocada o nosso voto silencioso de abstenção, façamos isto que será o melhor diante de tanta hipocrisia de todos os lados.
Querem ler o Rubião por que ele está morto e se estivesse vivo e quisesse ser lido o matariam para assim fazer e, quanto a este juízo, é o melhor ante as coisas que não sabemos.
Haja mesmo vida eterna para todos, mas haja também inferno.
Para sermos coerentes.
Nossa vingança será Sebastião Cabeleira, ladrão de livros da lixeira, e todos os outros garis da América a roubarem do lixo opiniões que não valem mais aos seus antigos proprietários, os verdadeiros catadores de opiniões tirando do lixo o nosso juízo.

Achei este artigo no interior de um panfleto duvidoso, mas nenhum sindicato o assina, quando puder escreva e comente,.

ARTE LOUCA

Não necessariamente a arte advém de algo que oprime o artista. Ora, assim como o vesgo nasce vesgo, é natural que o mundo lhe pareça vesgo. Ora, devidamente um devir da alienação.
Não quero aqui separar os loucos dos sãos, os vesgos dos não vesgos e, muito menos, os artistas dos reles mortais. Mas a questão está, sim, no olhar e, talvez, na denominação de tudo que é visto. A arte, então, é um idioma pantomímico! Esta é alienação!
Em vez de chamarmos árvores de árvores, podíamos chamá-las de qualquer outra significância. E, mesmo assim, até os vesgos continuarão a ver as mesmas coisas.
Não podemos chamar de opressora a experiência de qualquer debilidade sensorial, pois esta sistematicamente encontrará seu canal de vazão. A arte, por excelência, é o canal de vazão para a loucura (ou alienação, como queiram).
Tomemos o exemplo de um bebê que começa a manusear seus primeiros brinquedos. Naturalmente, ele tem curiosidade e quer saber como funciona. Para tanto, a criança precisa saber como desmontá-lo. Mas, quando descobre, o brinquedo já está estragado, e o bebê não sabe como montá-lo novamente.
Penso ser este um paralelo com minha ideia de arte alienada. É preciso saber como o mundo funciona para depois estragá-lo. É preciso não mais chamar maçã de maçã, ou vidro de vidro. Às vezes, é preciso ser vesgo.
Não é tão pouco para falar sobre o vasto assunto que é a arte? Também o acho. O fato é que desconheço absolutamente quase tudo sobre o que chamam “história da arte”, embora não deixe de reconhecer sua total relevância.
O que eu posso comentar _ está no nosso imaginário _ é que antes do século vinte, suponhamos no século XVII, por exemplo, os artistas viviam enclausurados em castelos e colinas para dizerem sobre o mundo.
Felizmente, posso dizer que, depois disso, os próprios artistas macularam a arte da maneira mais promíscua possível. Fizeram isso para se misturar com as outras “vítimas do mundo”. Esta manobra contém dentro de si todo o conceito de provocação. Em outras palavras, uma arte desbundada, desvairada e absolutamente dependente dos bruscos movimentos da massa humana, igualmente desbundada e desvairada, e que lhe dá alimento.
A respeito do polêmico comentário de a arte ser ou não um segmento politicamente engajado ou de ela poder apresentar-se como um elemento incorretamente alienado, a única coisa que poderíamos dizer é que estão ambos e todos embriagados do vinho da experiência humana de organizar-se, descontentar-se com o que está organizado, reorganizar ou desorganizar tudo de uma vez. Todas as tentativas são válidas, desde que não nos preocupemos com museus (em suas disposições), tampouco com que espécie de museus contaremos depois de mortos. Deixemos nossos sucessores se equivocarem à vontade, assim como, fatalmente, equivocamo-nos com nossos predecessores. Museus são institutos geridos pelo Estado… E o Estado se ramificou da mesma raiz da qual veio também a arte.
E é assim, de engano em engano, que podemos nos manifestar ou postular. Poderão dizer que a arte alienada é um parasita ou vírus letal que espera a fraqueza do corpo onde se hospeda para exterminá-lo em seguida. Mas este argumento é do tempo em que arte e armas se estranharam pela primeira vez.
Portanto, a arte alienada nos convida a desfazermos das armas, dos uniformes, das ideologias e dos coturnos que apertam demais os pés. A arte alienada seria um fenômeno que destitui, atuando de forma ambígua, seguindo os padrões de contentamento ou disformidade das massas.
Engajada? Enclausurada? Alienada? Escolha a sua opinião e a destrua conforme sua conveniência.
Poderíamos dizer, sim, que somos parasitas e o mundo é nosso hospedeiro. O mundo sempre vence a febre. Daqui então não passaremos. De que vale qualquer ofício? De que vale qualquer ofício, alienado ou não, que não deixe algum registro? Mesmo que seja em museus?!

Belo Horizonte, 4 de Agosto de 1996

Não direi que as tardes de Caracas foram invadidas por mosquitos. Às vezes deixo isto ao senhor Burroughs. Não escrevo obcecado por iages ou qualquer erva que nos fizesse o inferno que são eles. Bebedores de água suja e petróleo.
Querem colonizar Caracas por quantas vezes? A pensarem em nativos desenham alaúdes exóticos e inventam o terrorismo. Inventam o cristianismo da selva e o catecismo de fuzil. Homens brancos rios negros gasodutos e a perdição nos dentes de sábado, fabricam as baionetas e o degredo. Símios sacerdotes numa altitude comprometedora de equadores.
O ministro vinha ao coquetel, pediram cuidado. Nossos homens tinham as mãos frias, mas limpas mesmo assim mataram o chefe do jogo.
Diziam que a oposição sabia que o chefe tinha subornado o ministro para o gás poder passar, entretanto seria futilidade pensar que os congressistas tinham a ver diretamente ou que o próprio governador tivesse interesse em manter sua interlocução com o alto escalão.
Chega! Não quero ver estes ratos comunistas escrevendo manifestos em jornalecos dizendo que seriam os imperialistas.
A América sempre produziu conspirações como se de décadas em décadas tivessem que escolher um Nero que servisse depois ao povo como uma atribuição de Judas a ser malhado. E a imprensa estabelecida fizesse de nossa tragédia sempre uma graça com ares oníricos.
Perdi o emprego aqui. Não tenho como manter os caminhoneiros com o gás tarifado.
O exército tem homens próximos a Roraima e fica difícil chegar lá. Decidi que vou para o garimpo, tem minas mais ao oeste, lá o fisco é folgado, sossegue mulher, vou continuar sonegando. Coisa que eu não quero é o tráfico. O que eu vi em alguns lugares não quero para nossa filha.
Mas volto pra Manaus para ver tudo de perto, os meninos precisam olhar o fluxo de caixa direito. Pode deixar que vou dar meu jeito.
Cristiano continua com a balsa. Carrega madeira. Pensei que pudesse falar com o ministro sobre a situação dele, tem sempre brasileiro em cima. Se o mercado não fosse brasileiro também até que ia… Mas a gente tem que sair daí e ainda dar um trocado prum funcionário do governo.
É foda! Eles mesmos é que conversam com o cliente antes de a gente chegar e ainda arrancam um pouco aí também. O ministro não tem culpa, mas tem jornalista negociando denúncia por favores que a gente nem sabe o que seria. Não sei às vezes eles ficam bem com corregedores.
O povo compra o gás mais barato em minha mão, o corregedor fala que prendeu o chefe, mas é um traíra que eu entreguei. Aí o corregedor fica bem, seu gabinete também e seus deputados também, tudo as minhas custas, depois se me prendem…
É por isso! Vou correr trecho. Vou tentar ir campeando até Lima, dizem que por lá a jogatina está boa. Dizem que sempre tem juiz, procurador, tudo diretoria.
Esses caras dão uma guarnição boa meu amor, às vezes até chamam a gente para candidatar. Dizem que tem uns amigos no partido, mas eu não gosto da política eu acho é que se tivesse um jeito a gente tinha é que chamar as professoras pro nosso lado. A gente sabe igual a elas por que os meninos tão matando… Enquanto tem político indo pelo Solimões adentro falando merda e negociando rádio comunitária para traficante, eu não sei mulher, o que eu acho é este povo é pior que os religiosos.
O ministro saiu daqui quase perdendo o cargo, se filho da puta que matou nosso amigo queria era isto, está quase conseguindo.
Não sei se, voltar pra cá pra Venezuela vai dar pra trabalhar na aduana das notas frias, se o pessoal do jogo me passar o dinheiro esse mês vai dar para a gente ir para Guadalupe, dizem que é maior que Aparecida.
Vai falando aí pro seu irmão pra largar esse negócio de desmanche que lidar com ladrão não é vida, já te falei.
Por exemplo, com essa gasolina daí ele arruma alguma coisa fácil, o governo tem mais é que ir aumentando o imposto que aí não falta trabalho.
E a minha tia? Eu queria pagar um médico para tirar a catarata dela lá em Rio Branco, o que você acha?
Estive por Bogotá e tomei um conhaque que só se livrou de mim em Xapuri, é porque o trecho é assim, minha mulher!
E sua sobrinha? Desistiu desse negócio de MST? Com fazendeiro a gente num mexe não, viu? Fala com ela. Era, por exemplo, melhor ela casar lá naquela Igreja que pelo menos pastor impõe mais respeito que socialista. Eu lembro é da mãe, que sofreu com o pai naquela bobagem de liga operária que nunca resolveu o problema de cachaça dele. O desgraçado ainda bebeu todo pastel da feira da mãe. É por isso que eu não volto pra São Paulo. Às vezes eu penso que era melhor para mãe ter ficado lá em Garanhuns, acabava que arrumava um jeito…
Fala pra nossa filha continuar na pastoral da criança, sempre quis tudo de direito pra ela, você sabe mulher!
Mas é essa sua mania de costurar para fora que me tira do eixo, sempre vem uns maridos muito mal ajambrado pra sua clientela, se eu pudesse endireitava cada um. Por que eu sei que vem uns de Corumbá levando homens pra abastecer o sul com porcaria. Amor, o gás é a saída, mas o jogo também é bom.
O Silva é que é um caboclo bom, não é mulher, não tem notícias dele não? Fala com ele pra separar aquela carne de jacaré.
Um amigo boliviano me falou que o governo de lá vai aumentar as vendas pra aí, isso é bom, quanto mais o governo comprar gás, mais gente vai querer, o capitalismo é a minha ilha dos desejos, eu acho que ainda vamos morar no Caribe um dia, meu amor!
Agora, imagina se eu morasse aí e vivesse de pegar benefício de pescador do governo? Agora com esse tal de proteger índio até que ficou até ruim viu? Esse povo é inocente devia fazer negociação com a gente, não, ficam é protegendo terra pra senador abrir garimpo pra americano é aí que eu até dou razão às vezes pro comunismo daqui, como é que pode o Brasil falar de soberania se abre as pernas pras migalhas do norte. Comigo, se quiser gás em Miami é o triplo do preço e protegido dos heróis. Lá tem mais né… Então que seja mais pra nós também, não é justo?
Fiquei pensando nos jornalistas. Como são bestas e arrogantes. Um dia apareceu um aqui querendo me denunciar, duas semanas depois, achou que virou meu amigo. Ainda se acham inteligentes, pode uma coisa dessas?
E ainda tem gente que pensa que única forma de saber o que acontece de verdade é sendo honesto, bando de cordeirinho do governo! Cadê os cabra da peste de juazeiro? Foram todos parar em Brasília? Ou ainda estão só com a criação de bodes?
Eu acho que falta é ambição no brasileiro. Esse negócio de Jesus Cristo me perdoa meu amor, mas só serve pra colocar o sujeito no cabresto. Por aqui tem uns índios que são outros quinhentos, vou te falar!
Eu digo que a contemporaneidade só não serve pro saudosismo. Eu penso que o camarada tem que ser é proativo entende? Tem que entender o mundo com a esperteza dele. Humanismo não é entendimento não, amor, muito menos esperteza, é um jeito que inventaram para a semjeiteza de alguns que melhor era usarem saias, me entende? Se a gente tiver filho homem a única filosofia que eu aceitaria nele seria a de Salomão porque é com certeza a mais sábia. Sabia né? Ele não tinha a ver só com o deus dos judeus e era rei deles, você entende como é que é?
Homem não pode ficar só na própria horta não, mulher! Tem que pular pra outros galinheiros. Homem filho meu tem que ser do mundo e ter senso de justiça, mesmo que seja contra a pátria, justiça nunca foi deserção. O mundo sabe que o homem é da coragem, por isso, o mundo quis o homem para fazê-lo, você me entendeu?
Eu quero é correr mundo, correr perigo que é perigo que mostra a segurança. E segurança a gente mesmo é que faz.
Eu não sou personagem de ninguém não, mulher. Quando me pegam e não dou as costas não, eu dou é meia volta e golpeio de frente. Covardia não é comigo. Tenho asco disso.
Eu aceito na pele a marca do ferro em brasa de corisco, mas não aceito a desonra. Platão sabia das coisas, os homens é que são uns idiotas, não querem ser livres. Se filosofia libertasse, o governo não a colocava nas escolas, filosofia é o que inventaram de Platão, de Sócrates, mas filosofia nunca foi nenhum dos dois, se você oferecesse poder até prum anarquista nem ele ia recusar. O povo pensa que pudor é coisa de monge, mas é coisa de poder, isso sim!
De todo jeito, tem que ser despudorado é sem roupa e no escuro e com mulher, por que senão pensam que você é humanista.
Agora, tem que conhecer o argumento do humanismo, por que o mundo joga é com o mundo mesmo, entendeu? Agora, tem que por os poetas no hospício por que o jogo deles é com a lua, com as estrelas, essa gente ainda acaba com o mundo. Pois que eles seduzem as mulheres porem seduzem seduzindo a si, o diabo com esse povo!
Cidade grande é que tem muitos deles não pode dar trela nem orçamento e patrocínio nem em ação entre amigos senão eles querem até filmar a gente.
Mas eu concordo, se o sujeito derruba as torres gêmeas, depois disso tinha que ter jornalista de confiança pra fazer biografia. O problema é que não é só o dinheiro que é confiança, o problema é que o sangue também é.
E se o dinheiro desinventasse o sangue, desinventava a vida, por isso que foi o sangue que inventou o dinheiro.
Disseram para mim que Ilhéus é muito bonito, você queria que eu te levasse lá um dia meu bem?
Tive que ir ao médico há umas três semanas, suspeitaram de febre amarela, era só a cagibrina mesmo que tinha me dado uma espécie de constipação.
Aqui em Caracas tem uns coreanos que vieram com uma empresa de furar tubulões, ando travando conhecimento com eles. Gostaram de uma buchada, entendeu? Você precisava ver.
O Pessoal daqui só sabe falar no Romário quando me vê, eu dou umas risadas e pergunto se eu estou parecido com um brasileiro. É mas foi a única coisa que soubemos fazer, parece que é. Não é?
Pois é, por falar nisso, de vez quando eu corro atrás de uma bola. Se não fosse o cigarro eu bem que poderia jogar o campeonato daqui e nem fazia feio, entende?
O ministro vai cair. Ele nem gostava desse lance de jogo, bingo, cassino. Agora a firma vai esperar outra figura de confiança na política, às vezes demora. O pior político é o que anuncia as reformas. Pois que tem uns que não anunciam nada e acabam até favorecendo a firma, você entende?
O mercado precisa fazer esta leitura, sentir o momento. Senão o negócio não dá em mais nada, não é mesmo?
Se o sujeito não entende o pulso das coisas acaba rodando, dança no cerrado.
É por isso que eu também estou pensando em dar meus pulos com uns colegas de Macapá, Guiana e Marajó. O pessoal do gás é irmão do pessoal da madeira, percebe?
Já ouvi falar que por lá dá até pra conseguir por base da licitação.
Pensando bem, essa legislação do sul até que é boa pra nós, eu sei que você sabe.
Virgem da concepção estou gastando papel e caneta, hein? Mas é mais fácil que ficha de telefone, mais danoso, mas mais fácil.
A dona Elza na escola sempre falava que eu redigia bem…
Eu podia ter começado não era nem vendendo laranja. Podia era ter começado era no ramo dos atestados. Depois veio meu pai com esta ideia de faculdade de advogado, é aí que você deve se lembrar da primeira vez que bati nele. A mãe ficou chorando, mas eu tenho certeza que por dentro ela na verdade agradecia.
Ela sabia. Sabia tudo a mãe. Pois que até meu avô pai dela violentou minha avó daí que nasceu tia Maria. Diziam que meu bisavô, Roboão, vulgo Coronel, passou a assim ser quando soube deste acontecido. Fez casar os dois e logo depois veio minha mãe.
E só veio mulher nessa estória depois a mulherada só pariu macho de verdade.
É por isso que nenhum de nós foi ao enterro do pai.
Os primos nem eu sei mais por onde foram sumir. Só se tem notícia de Atanagildo Paraguai que participou até de chacina. Agora, matar não é comigo não mulher. Você entende como é que é?
Deu uma noticia no rádio mulher! Você que gosta de rádio! O time da Venezuela é campeão de beisebol mais uma vez. Eu que pensava que sabia dos absurdos sul americanos… Agora é que eu sei: eles pensam que Brasil é futebol e, pior ainda, eles pensam que futebol é Brasil. Essas coisas são boas; o Brasil não faz essas coisas, copia.
Além do mais, fico cansado de falar da esperteza brasileira, devia-se falar mais da palhaçada brasileira. Agora, em se tratando do palhaço, especificamente estes devíamos exportar. E o que deveríamos importar? Nada além de dinheiro meu bem! Você me entende?
O ministro deve cair, mas que caia então. Ainda bem que não será mais quando esteve conosco. Assim não corremos um risco de aparecerem repórteres urubu atrás da carniça. Avaliando bem, agora é ele quem é a carniça, não temos mais nada com isto. Política é assim mesmo, quando topa com a mídia faz jogo cego, definitivamente, não temos nada com isto!
Fui à Medelín ver um produtor de gados que queria entrar no ramo dos combustíveis também, esse pessoal mais abastado pensa que pode entrar em qualquer área. O abusado só queria trocar ideias. Ah mas eu fiz com que ele ao menos pegasse um carregamento meu, pra ter valido a viagem sabe? Que ele se dê muito mal na empreitada. Não gosto de cliente que acha que sabe tudo e nem dos que de fato, sabem tudo, o sujeito tem que saber aprender, saber ser ensinado, sabe?
O ministro vai cair. É fato.
Vida de contraventor é assim, dá se um jeito proutro lado, tem peão que faz isso, mas é só chapa, só carrega madeira.
Estou indo praí pra Manaus. Dá pra tentar umas coisas pra sobreviver. Com o que juntei, dá pra ir à casa de câmbio, é que é dólar sabe. A gente faz mais um puxado e troca o Monza… Queria Pegar um Ômega. Vamos ver.
A gente pode ir pro Suriname capitalizar um pouco, se a sua sobrinha não escolhe o pastor no lugar do MST ela vai com a gente.
Podia ser perto da fronteira. É isso meu amor! Temos que saber o momento de desaparecer um pouco, só durante uns tempos. Depois a gente vê a vida. O gás aqui não dá mais, pelo menos por enquanto. Um cara aqui no boteco, de Passo fundo ele, disse que o IBAMA precisa mexer numas notas. Quem sabe a gente não vê com o Reginaldo Miraflores, ele conhecia uns bicheiros que eu conheci em Santarém. Dizem que saiu fugido para Altamira.
A gente consegue alguma coisa meu bem. Nem que seja em Petrolina, sua terra natal.
Envio anexa uma crônica de jornal que li por estes dias

O JOGADOR DE MARACAIBO

Pude vê-lo. Entre as palmeiras sumindo. Entrava numa confeitaria. Confeitavam qual lembrança estas balconistas sofridas? Era dezembro em Maracaibo. Calor de infernos. E o sabor bolorento dos croissints de cajá. E o olor fedorento dos garis recolhendo do chão notas de clarim e sujeiras imperialistas.
Em meio às palmeiras imperiais, frio palmeiral de cimento, o jogador ganhava a panificadora Labor. Ficava no centro. O que mais em mim não mora no centro? Jogou uma temporada no Estrela Vermelha, passagem marcada por contusões. Lesões, aliás, o tiraram dos gramados. Ainda naquela Bucareste, ou era Praga?
Tinha um porte de Ademir, mas apareceu antes. Apareceu? Foi campeão por volta de 1953. O nosso melhor ponta de lança. Tinha muita classe. Entendia de espaço e campo com passadas largas, elegantemente.
Parecia evoluir em um samba ou em óperas. Ou como quem fosse saltar distâncias. Intransponíveis? Era um jogador dançarino em plena Maracaibo de minas gastas pelo norte. Cabiam-lhe todas as honras de seus admiradores, que nunca puderam tanto. E que sempre se privaram de tanto.
Javier em campo tinha postura de reger sinfonia, cozer sangrias, e da inércia movimentava a beleza que podia ser, um dia, a agonia de seu povo, podia não ser um dia.
Pediu um café com leite, depois tequila. Tentei abordá-lo. Eu. Historiador de sentimentalismos. Pude vê-lo. Mochila velha nas costas. Sapatos velhos. Calças puídas. Para onde ia mais esta estória americana? Ganhava alamedas revirando minha perseguição.
Maracaíbo hoje é ainda mais algo com vocação para este silêncio que me engole. É mais trato sórdido, um acordo tácito com a mudez de nosso passado. Turva-me todas estas necessidades de esquecimento. Um homem numa alameda, sua estória nos ombros e a ingratidão destes objetos esféricos. Esta cidade e sua compleição para o anonimato.
Passa agora a vista no jornal. Agora fuma um cigarro e traga forte seu próprio entendimento do estado das coisas. Trava uma forte batalha pela vida e contra o sonho, atualmente o algoz de seu pão.
Some. Some como se driblasse a morte a vida. Some como quem quisesse esquecer o placar da desgraça.

Belo Horizonte, 25 de março de 2008

Acordeons aqui em Acapulco funcionam como em Aracaju o sol e o cio, não sabia. Há palmeiras como em sua terra e os pássaros também gorjeiam, isto presumivelmente deve ser coisa natural.
Acontece que quero voltar. Não existe aqui qualquer tipo de provisão que se assemelhe ao acarajé (mesmo com toda sorte de pimenta e sortimento de condimentos). Tenho vontades de dendê e vontades de você, você que vem de onde dizemos sanfona.
Às vezes os mariachi proferem bandoneon como portenhos.
Não há galopeira ou tourada que me esqueça o que posso fazer com pandeiro ou zabumba contigo, enquanto aqui só pensam que somos berimbau.
Pude ver que fazem algo parecido a são Cristóvão, ou melhor, caruaru. Fazem umas coisas que denotam um cordel um pouco mais quente talvez, um pouco mais colorido talvez. O que sei é que mais ao centro não necessitam tanto de caminhões pipa, assim como nosso exemplo.
É sempre um infortúnio estarmos no sul e nem o sermos, tomemos um exemplo de bipolar inverno, nós do equinócio somos seres infernais, mas, desavexados pelo mesmo motivo.
É. Fazemo-nos de tolos. Somos desenganados de nossa própria desgraça, alegres são os mariachi viu! Às vezes me lembram os pífanos rodeando os mangues viscosos e os parcos verdes do centro.
De fato, fico a pensar que imaginarmos as tragédias tropicais seria algo atribuído a seres inferiores, mas, até quando precisaremos que isso ainda seja dito como quem o diz o fazendo como uma mãe penteia uma filha ou um pai que leva um filho ao culto?
Você sabe que ainda não somos nós que estamos dizendo que não somos mais seres menores, não sabe? Desculpe, é que o sol ainda tem o mesmo efeito deletério à beira mar; lagosta à lacarte, uísque, bundas…
Como vê este hemisfério América não precisaria e nem deve ser tão díspar assim. Principalmente depois do século vinte com todos os requintes e desbundes. Precisávamos saber que, estas promessas que nos batem a porta, não nos nivelariam naquilo que já estamos miseravelmente nivelados, a não ser com uns e outros que poderão conseguir algum luxo a toa, alguma primazia a esmo.
Talvez, veríamos que menor é este homem quando comparado a nós, igualmente e terrivelmente pequenos, enorme é apenas este paradoxo. Mas, que igualitariamente em pequenezas somos, é fato. Devemos é ver o que poderíamos extrair de nós mesmos este melaço de salvação para que um dia a morte nos valha como uma Severina ou uma Macabeia.
Penso que assim nos caberíamos convenientes ao ataúde e assim até as carpideiras poderiam nos ser sinceras. E mesmo que não, não nos atrapalharia o último banquete a ultima ceia ou a ultima noite.
Vi um homem que aparentava meia idade. Já pela segunda vez, sentado na mesma praça com uma pequena pilha de livros. Quando reparou que eu o vira lendo de maneira repetida, resolveu ir embora. Horas mais tarde tive que refazer o itinerário. Vi o mesmo homem com mais livros procurando um assento como quem procurasse o próprio desaparecimento e concluí que era tão imprestável quanto a mim!
Às vezes, estas conclusões não carecem de o globo estar a girar e nem de onde estamos ou observamos estes estados de tragédia. Às vezes eu penso que este planeta é um fluxo de objetos deliberadamente ignorados (muitos deles costumamos chamar de corpo e possuem nome próprio).
Estas intempéries são mais pavorosas e calorentas que o próprio solo incerto que pisam.
Nunca de fato nos importou o quanto estamos distantes da fissura tectônica mais próxima, mas, afinal, o que é isso, não é mesmo?
As pessoas ainda leem e quem sabe, possam nos ler depois da hecatombe.
Passei a observar uma mulher, levava duas filhas a uma casa de carnes aqui perto do hotel. Notei que tinha um ar triste e até indago-me se são filhas dela ou se é só agonia mesmo.
Ventos oceânicos nos fazem bem às europas que estancamos e às Américas que nós mesmos criamos e depois negamos. Concluo assim, que encontramo-nos numa fase avessa em que se afirma também o passado que se diz não querer.
É um problema que a filosofia espalhou pelo mundo? E no Tibete? É tudo muito antigo mesmo, mas, eu acho que primeiro viriam os iorubas e depois nós tupinambás.
Queria visitar o Aconcágua, o Titicaca e o Atacama. Sem depois ter que fundar revoluções, pois imagino estas naturezas como uma de nossas grandes insolências, deve ter soado meio ambíguo mesmo, porém, penso ser assim a maneira como dobram os sinos em todo o continente. Óbito e alívio. Com toda a ambiguidade dos seres bípedes, de preferência os menos peludos.
O menino o qual tinha mencionado continua na porta da padaria pedindo trocados, entretanto agradece até a quem lhe abaixa o semblante e lhe nega maiores empatias, isso sem contar que não lhe dão nada, sequer um café com leite.
O dinheiro da alfândega vem fracionado você sabe, mas um dia eu conversei com ele sobre futebol. O menino me disse que torcia pelo Tigres e que gostava do ponta direita que não me lembro agora do apelido.
Penso que deve ter sido quase um café com leite.
Tenho uma tendência em apenas ver solidão em tudo, mas, não houvera de ser ela em tudo que se define e que clareia como o prisma dos banzos? Oh meu deus, México!
Por todos os bundalelês! Não me venham Álvaros ou Haroldos. De campos e espaços ou de galáxias mais alegres. Quero sentir o vento. Mas mudo. Mais mudo que o som que povoa os monges e mais mundo que o ruído o qual se habituam os puteiros.
Em qual noite perfuramos a verdade? Em qual noite? Fico morrendo se nos será dado saber, os deuses devem vender. Noites prontas e perfuradas de verdade.
Saiu de algum lugar um ônibus de estudantes secundaristas e veio parar aqui. Todas estavam sedentas desta inocência pedante e deste riso que sempre parece terminar em algo parecido a uma macaquice. O humor em puberdade é a coisa mais primária, no entanto, também a mais infalível. Pareciam estar dispostas a beber por três dias e três noites para depois voltarem aos quartos e tentarem salvar o bimestre e ânsia pela próxima desordem. Onde estarão estes quartos de moça? Mesmo em suas memórias não se deixaram intocáveis os sopros? Estes ônibus sempre somem para um lugar que talvez nunca fosse o lugar de onde vieram, mas, que sempre fosse o mesmo lugar. É esta impressão de qualquer lugar ser o lugar de onde saem adolescentes querendo esquecer que viver deixaria urgentemente a gargalhada que está sempre pronta. Assim como deveria estar pronto o senso que obtém todos quando se enviúvam da vida.
Algum sorriso alheio me visita e não posso desprezá-lo. Devo estar em outro tempo de bumbo triste, mas a lembrança é algo monumental.
Da janela do hotel vejo um entreposto com um pátio. Sempre a esperar ônibus. Esta máquina carregando maravilhosas forças imprevistas.
Às vezes somos qualquer coisa menos terráqueos. Somos lunáticos e este posto é nosso mundo antigo. Todas as secundaristas parecem gargalhar como se estivessem compreendendo o silêncio das coisas não fosse estarmos aqui.
Se não estivéssemos? Seríamos nosso próprio eco? Somos algo que pode tanto ressonar e, por poder ressonar, sermos também um vácuo entre um ônibus e outro. Uma excursão e outra. Uma viagem e outra. Em qual pátio deixamos o quarto dos dias de nossa noite?
Dizem uma estória bonita sobre o homem que vejo há algumas quadras daqui, numa pequena bilheteria de rodas gigantes. Sempre reservado e sempre na companhia de um rádio. Notícias do tempo, do futebol talvez, mas, é maravilhoso pensar que este homem aprende mandarim de madrugada em ondas curtas.
O homem destes relapsos e olhos fixos em nada como peixe em água turva fosse sua noite, foi um jogador de criket e chegara a disputar os goodwill games. Disseram-me que se apaixonou um dia por uma ilusionista que anos mais tarde sumiu com um empresário para Las Vegas e deixou com ele um filho que hoje é um lutador de boxe e agenciador de putas.
Pai e filho não se falam, mas dividem um barracão. O filho cozinha o pai ouve rádio e de vez em quando compra legumes ou passa roupa. Tem uma costureira apaixonada por ele, mas o jogador prefere apenas ensinar o papagaio dela a assobiar Carlos Gardel. Tens uns moleques que entram na roda gigante para atirar caroços e bagaços nele lá da sua bilheteria de bolero e enfado. Sua cara enfadonha de quem pudesse ter acabado com duas porções de paeja é um ideograma. É fato que o mandarim lhe cairia bem.
Na avenida mais próxima fica uma igreja. Hoje posso ver que em qualquer canto onde houver templo haverá meninos desembestados a cumprirem indiretamente o papel e a função de demônios (ou são os únicos anjos dos pagãos).
É tudo um azougue danado este negócio de América.
Outro mundo é possível? Ou malogramos tudo?
Desculpe-me o lapso, mas você precisa saber que fui ao conservatório sem motivos em evidência. Um pianista ensaiava sem muito rigor ou critérios e no salão, além de mim, uma senhora elegantemente recostada numa cadeira ao fundo se entretinha com palavras cruzadas.
O senhor não acha que ele tem o pulso do Thelonious?
Respondi que não conhecia muito de jazz. Mas não precisa conhecer!
Fiquei intrigado, mas ela era uma senhora fácil. Você precisa apenas sentir o jazz!
O que sinto é plenitude. Não poderia encontrar outro vocábulo.
Então este é seu jazz: pleno! Pensei em perguntar o nome dela. Mas… O senhor precisa saber que venho aqui para respirar melhor. Mas é isto que estou fazendo também.
A mulher saiu apavorada. Que som ela deve estar respirando agora? Ou novelo macio? Ou cinema expressionista?
E por falar em filmes, fiquei imaginando esta senhora escolhendo filmes para assistir apenas para que seu raciocínio continuasse funcionando até as horas mais tardes da noite onde as palavras cruzadas poderiam estar fartas em sua cabeça e tudo isto contra a compleição física do sono. Pois mesmo nele a consciência aterroriza como água suja.
As lembranças do sono são um dia codificado em argumentos submersos.
Fiquei pensando que a mulher que saíra do conservatório não gostaria muito de esquecer as próprias imagens. E acho que a ilusão de um dia ser uma lembrança num lugar que provavelmente já esquecemos é fato e não mero romantismo.
Esta senhora deve ter a curiosidade de saber onde ela deixou de ser ela e passou a ser apenas uma lembrança, vã tarefa!
A recordação possui um sopro como um piano suave, mas nem sempre, para que seja assim, a senhora tenta atenuar sua presença. Fazendo-se vaga memória e fetiche de escritores. Querem saber para onde ela vai, onde ela dorme e onde ela come, mas certamente vão inventar outros pensamentos para ela… A menos que ela também escreva, mas isto devemos ignorar. Ela não possui no gesto algum desejo de reivindicar compreensão. Seu amor ainda é algo carente de resolução embora nada pudesse ser feito talvez apenas esperar. Filmes, conservatórios, palavras cruzadas; hiatos entre trânsito, corredores e caos.
As pessoas parecem perder a graça na cidade por isso precisamos desta memória vaga; supor no outro uma redenção impossível em nós.
O escritório organizou um jantar num Buffet perto de um lago, estava tudo primoroso até mesmo a hora em que os violinos entravam no assunto ou os clarinetes introduziam outro naturalmente. Havia mulheres muito elegantes, mas a mais bonita era uma copeira. Por ser a mais bela, todos já sabiam que possuía outra história e, precavendo-se de outras hipóteses nefastas de homens perdulários suas colegas logo contavam de seu outro ofício, a fotografia.
Ela sabia que estes fatos poderiam causar a curiosidade pedante dos frequentadores daquela casa. Imaginei que o trabalho era bom e honesto e por essa razão, a jovem tinha de se esquivar e talvez até, exibir em sua firmeza a origem humilde.
A moça devia entender de naturalismos e impressionismos e nem devia dar importância a isto, trabalhava no Buffet e fotografava. Isto apenas.
Eu não deveria deixar de ser para ela mais um arrogante e mais nada, mas que mal há em achar a noite agradável também com violinos e clarinetes? Até entendo que a questão seria ela não querer competir com violinos e clarinetes ou mesmo ela literalmente arrastar para si violinos e clarinetes para onde fosse. Não é aí que a coisa pega.
Talvez na sua vizinhança nunca tivessem ouvido clarinetes e violinos e mesmo assim, na sua vizinhança existam rapazes honestos que nunca foram a um Buffet, mas nunca a tratariam do modo vulgar como fazem os clientes deste lugar.
Ela tem razão, mas que mulher se tornará esta moça? Se isto tudo virar ressentimento como farão seus pretendentes? Estou tentando te narrar esta estória para que veja que o orgulho não é algo ruim, no entanto não sei se estou convencendo e nem sei se estou convencido.
O convencimento é alguma coisa mais passível na boca dos estadistas ou dos místicos.
E somente. É de um místico que quero lhe falar agora. Este parecia engolir qualquer imagem que vinha a ele para sua retórica apocalíptica. Não acho que são perigosos estes pastores. Há também os que vão ao rádio, vão à televisão, não vejo crime algum nestes homens. Perdidos já estamos todos mesmo. E é aí que mora a mentira repetida dos pregadores.
Mas este nem tinha paixão nas palavras! Como poderia um apocalipse não estar apaixonado? Convinha dizer então que se tratava de um sábio, mas não, era um sujeito de oratória falha. Aliás, hoje também os dados como sábios, onde quer que estejam, estão a repetir um jogo que ninguém conhece.
Contudo entramos os dois na moratória do espírito! Antes atuar restritamente (onde ainda é permitido atuar) a preferir as representações falíveis que proferem alguns de maneira fálica e erroneamente indelével.
O desespero pode ser levado em conta. É só assistir as pessoas levando água para casa, levando ervas e raízes. Ora, casa era lugar de antibióticos, venenos inseticidas, carboidratos perecíveis, sacos de lixo, rações para animais, carne animal, margarina, etc.
Ora casa era lugar de pão e família enquanto carro, praia, macaco, jornal, tobogã não resolvem… Vão benzendo tudo, água, casa, carro, casamento e até bilhete de loteria.
Sim, a salvação em doses de sorte! O resto é só psicose. E esta está para os chefes de estado assim como a igreja está para os infelizes. Assim dizem os cordeiros imolados.
Sinceramente meus desgostos não concordariam comigo se eu me sentasse para assistir celebrações místicas ou mesmo celebrações artísticas ou esportivas. A rua é mais meu lugar que minha própria casa! Paredes denotam forma ao espaço. As ruas só tem a marquise e a negociação é direta, sem meneios. O tijolo e o concreto são formalidades para qualquer doutrina. Sem telhados a coisa é direta.
Por exemplo, revi este místico ontem, estava trepando como uma puta num beco escuro à esquerda do seu lugar de pregação. Era à noite, quando lá proliferam as prostitutas…
Para você ver como de vez em quando precisamos substituir a palavra pelo sexo oral.
Receio que eu esteja delongando e assim você poderá não ouvir minhas queixas filosóficas, nem mesmo num quiosque com siri e tequila que, aliás, é a mesma daqui e provoca a idêntica ressaca moral. Deixo você com este (des)conforto em saber que a tequila aqui não é melhor no México.
Tenho como já dissera vontades do Ceará. Mas muita!

PS.: Fiz uns versos para ti. Espero que gostes.

PROSA POÉTICA POTOSÍ

Ontem você passeou em mim. Aqui em Potosí. Atravessou uns três comboios de pó e pedra. Lá onde dormem lendas e deitam mitos. Você versou em mi. Você me riscou o corpo em nova América. Andança de semiáridos e pampas. Semifusas. Garimpo de Andes. Diante das acácias pós-modernas e das falácias azuis. Sol. O mesmo sol de antes. Algarismos, pré AL Qaeda, pré Colômbia farta de farcs, pré-sal, mineiros chilenos, pomares, mais ou menos cogumelos.
Ontem você me arranhou o lombo. Lá em Nova Délhi. Aqui em minha epiderme. Zomba-me teu espírito juvenil. Cheirando a pimenta, amônia e anis, lacônia vil.
Ontem você desenhou sexo em meu peito. Foram begônias a mil. An affair sem vergonha. Seu nécessaire com maconha. Ontem era Guatemala e República Dominicana. Você passou por mim, sábado sete sustenidos. Potosí.

ÔNUS MUNDUS

O BEM E O BEM DE ARISTIDES BOCAMORTA

“Não fazer mal a si próprio
Nem a ninguém
Encher de alegria a todos
E a si também
Eis o bem”
Bertolt Brecht

O centro. Precisava saber do centro. A quanto tempo do centro? Há quanto tempo estive lá? Estas visões opacas da cidade. Desvirginadas de suas suavidades. Os himens rompidos de seus bucólicos lagos com marrecos. Sabia que era no centro que ficavam os lagos artificiais.
Patos, marrecos, donzelas, cortesãs. Ah este centro nevrálgico por onde, talvez, eu nunca estive.
As explosões do concreto armado e as ilhas de calor. Os equívocos desta argamassa desejosa. Este centro que nunca esteve em mim, agora me chama como se eu precisasse estar lá.
O senhor sabe como chegar ao centro? Sabe como faço? Não responde. O que há no centro que ninguém parece saber o que é, mas me arrasta pela lama?
Este lamaçal de memória pouca. Este manguezal verde de meu esquecimento. Este esquecimento verde de canavial e lodo.
Um lodaçal que quer irromper da treva. Nadar na água morna e qualquer lembrança. Por favor, onde é o centro? Acaso a senhorita sabe onde é o centro?
O senhor tem cara de nunca ter pisado lá… Pegue o ônibus amarelo, que para na esquina à esquerda, após a tabacaria… Obrigado!
O que haverá após o sonho? O devaneio? Sofia voltando da mansão dos mortos. Desta vez não para me furar os ouvidos como em outro pesadelo, mas para me amar derradeira.
É um vulto. Um vulto feminino suponho. Passando pela viela e parando perto da banca de jornais. De costas para mim, esguia. Lembrara-me dela, Sofia, esbelta, com predileção por vestidos recatados. E uma vocação para mistério e desleixo, passa a condução.
Devo descer neste edifício amarelo. Que para na esquina a esquerda. É aqui que devo descer! Um homem de óculos e cabelos e barba grisalhos exala sua incompetência gaga: senhor Aristides, deixaram isto ao senhor… Como sabe meu nome? Seu incompetente!
Sou Juvenal, trabalho aqui há doze anos, está tudo bem com o senhor seu Aristides? Quem deixou a encomenda? Perdoe-me seu Aristides, mas me foge a lembrança… Era um rapaz… Veja o quanto é incompetente hein!
Ayres! Isso! Era Ayres! O sobrinho de Adamastor. O que ele disse? O que ele quer?
Se ele quisesse já o fazia bem cedo. Quem recolhera o embrulho foi o porteiro da noite, no final do seu expediente já de manhãzinha. Devo confiar em você? Ora estou um pouco confuso, isto é o que me traz até aqui? Venho sonhando até isto? Não confio em você, senhor Juvenal, mas é a ti que devo endereçar a pergunta: onde estou residindo atualmente? Acaso tem informação? Sim, pois se trabalha há dozes anos no prédio no qual trabalhei toda a vida…
Seu amigo Antônio alugou-lhe um quarto de hotel. Fica há umas três quadras daqui… E antes que eu me esqueça, seu Aristides, percebo que é vítima de uma pequena confusão mental que espero que passe logo, em todo caso, lhe dou o cartão de visita que é seu que o senhor mesmo me confiara, olha:

ARISTIDES BOCAMORTA

Corretor de Imóveis

Rua da consolação 701 – 32

Hotel Mirimpejipe- Mar de Graças.

É! Sou eu mesmo! Obrigado, meu bom Juvenal, dê cá o embrulho! Agora algumas coisas começam a aprumar! Antônio é meu patrão num escritório deste prédio. Como ele deve estar? Deve estar bem, não é mesmo? Mas não se preocupe tampouco perturbe seus pensamentos vá descansar primeiro!
Sabe o que aconteceu comigo? Soube que desaparecera. Por quanto tempo? Três dias.
Ora! Preciso falar com Antônio! Ele não está. Ou você para de mentir ou eu lhe enfio esta bengala! Nesse caso vou ligar para a equipe médica que está de plantão a fim de que te socorresse quando fosse o caso de chegares aqui, assim como chegou.

Só me lembro de dois seguranças me agarrando e depois os enfermeiros me sedarem.
Foi só um coma alcoólico seu Aristides, não deve ficar abusando mais assim… Bom, em todo caso teve sorte, não lhe roubaram dinheiro ou documentos. Estes medicamentos que prescrevo são para recobrar a memória quão breve e também tranquilizantes, agora devemos ir, até logo. Até logo!

O quarto de hotel que me arranjaram até que é bom, mas, nenhum sinal de cartão ou catálogo telefônico para tentar achar o Antônio e saber por qual razão me deixou aqui como quem conhecesse o meu desconhecimento com meu verdadeiro endereço, além de constrangedora é também preocupante esta situação.

Voltei do hospital com o intuito de abrir o embrulho que Juvenal dissera ser de Ayres. Precisava saber dele. Agora me lembro, Ayres, sobrinho de Adamastor, me deixara muito preocupado em nossa última conversa. Se não engano me reclamava de Antônio.

Bem Posta, 24 de Janeiro de 1993.

“Enoja-me a apatia de minha geração. Enoja-me, também, minha própria apatia”.
Kurt Cobain

Prezado Aristides Bocamorta,

É no desejo que seus estudos de alquimia e psicanálise encontrem seu unus mundus, mas, além disso, devo-lhe dizer, ou melhor, comentar: a respeito do que fez o senhor Cobain nas câmeras de TV em horário nobre para todo o país ontem à noite.
Pobre do Ayres! Não entendeu nada do espetáculo de horrores… Sua mente adolescente e um tanto quanto pueril ruminará estes acontecidos durante meses.
Já nós, podemos afirmar que existem outras formas de contestar o estabelecido sem que tampouco consternemos nossos algozes.
O que me preocupa na acidez destes jovens é eles pensarem que não somos de nada. E isto não é apenas rerferir-se ao mero clichê de choque de gerações. Somos moralistas ao temermos por eles? Ou, ao dizermos a eles que, deste jeito não se consegue nada além do suicídio?
E já lhe adianto que o pavor de Ayres pelo suicídio do senhor Cobain se confirmará brevemente. Escreva o que eu digo!
Fora isto, como pudera, segue muito alheio o nosso Ayres meu sobrinho. Desde que os pais se separaram então veio passar uma temporada comigo aqui, em Bem Posta.
Já começava a aprontar demais em Ouro Branco e a decisão de trazê-lo pra cá julguei acertada.
Meu único temor é que os discos já chegam aqui rapidamente, uma loja de discos de São Martinho das Penas Largas logo consegue as novidades saxônicas como em São Paulo, por exemplo.
Levando em consideração a atuação do grupo de Sebastião Cabeleira, por exemplo, passa a ser uma temeridade a jovem mente ansiosa de meu sobrinho, apesar de confiar muito em sua índole.
Vou levá-lo a Belmiro, este que você conhece pelo caráter estoico de um rochedo. Vamos ver no que dá! Tenho esperanças! Talvez, brevemente, nosso Ayres esteja ouvindo Elomar… Ou pelo menos Crosby Stills and Nash.
Penso que em seus estudos não deve abandonar nem a cabala nem a teoria quântica.
Envio duas séries de cinco poemas curtos cada. São de Nicodemos Primavera e Sebastiana, também chamada: “Flor de Sexta Feira”, não me pergunte por qual motivo!
Devo chegar aí em duas semanas, a fim de apressar um novo equipamento para Rosa.
Seguem os poemas.
Como sempre,
Adamastor.

NICODEMOS PRIMAVERA

É uma noite obsequiosa de nossos langores
Que vem luas e sonares distantes
A nos envolver em nudez e às sonatas
Ah aquele antigo espírito de Cartago!
Trazendo a embriaguez a este céu
Precoce
E calmamente vermelho de nuvens

Chamam-nos para as bodas
Será que elas virão?
Enleadas a corredores penumbradas
Como duas almas entregues
À sorte
E à multidão de cores insistindo
A opacidade
E à paixão desguarnecida dos Elfos

O céu amanhecerá o melisma
Outra liturgia
Não deste mundo
Embebedado em mausoléus
E perdulariamente equivocados entre eles
Choramos o látex
Do amor derramado
Subtraído a um arrepio
Decantando os calafrios

Dizem do novo mundo?
Nova utopia?
Por onde andam estas ideias?
Nem nos licores mais ébrios deste acalanto
Adormeceria em paz, querida,
A fome, as guerras, o abandono.
Ora, pois, estes címbalos me rememoram lápides
E a réstia fria dos orvalhos
Ora, pois, deixem o mundo novo,
Para quando não nos acorde mais este absinto

Sinto-te trêmula
Vento-te um gerânio
Quando a mão da noite
Passeia-te as estrelas
Como os espinhos de um algodão
Quais fossem a alvura
As flores e os frutos que desconhecemos
Virá outro mundo entre banjos e alaúdes?
Ou devemos ignorar este cântico?
Veja, parece desdobrar-se em dor,
Da charneca avisto
O velho Thompsom
Sempre a dizer o que os espíritos dizem
Ou será o sopro deste fantasma oculto
A te fazer girar pelo candelabro
Estão mortos os patriarcas, querida,
O velho Thompsom só poderia ouvi-los da bruma
Que é a mesma desta lareira, querida,
Qual matéria de calor ou inverno se diferencia às almas?
Deixai o fogo falar do frio e recolhe as orações
Para as horas mais profundas e sombrias
Recolhe-as aos seus recônditos, amada,
Pois o fogo é este emplastro de vivos e mortos
O fogo moldando novos mundos.
Tenho sede.

SEBASTIANA, FLOR DE SEXTA FEIRA

A mão em seu aceno turvara-lhe o semblante
À mesa uma xícara de chá
The Guardian e uma cigarrilha
Nem o domingo tirara-lhe a sisudez
Sorvia o chá
De maçã? Preto com limão?
Preocupava-se com o filho em Sorbonne?
Trazia da fumaça um tempo sem existir
Thatcher ensinava a diminuir impostos
Eu, minhas filhas
E aquele homem por trás das vidraças
As trufas
Minhas suposições

Transformar minhas aflições alheias
Tão minhas e às vezes nem dele
Ironicamente, talvez, nem alheias
Não são bons pensamentos para uma mulher anglicana
Casada com um tipógrafo sindicalista
E com duas filhas
Marguerite se deliciava com os balões e os zepelins
Nina esperneava querendo voltar pra casa

Os cookies e os scons esperavam o desjejum
Ele voltaria para o chá
Agora volta com uma pilha de livros
Diz querer entregar a um receptor
Da Internacional Socialista?
Da Ordem Rosa Cruz?
Ah mas os homens não conhecem o trigo!
Apenas estão a fermentar revoluções
Pelos braços e peito equivocados

Minha percepção não é plana
Admiro seu chapéu panamá
Seu mistério livro aberto
Jean Michel Basquiat?
Ou canções de Bertolt?
É muito lirismo e não há mais o que se pensar
Marguerite o deixa boquiaberto
Nina parece nunca querer descansar

Esbravejo os dias com se Nina estivesse sempre com está
Sempre a cantarolar
E Marguerite parecer sempre estar prestes a um desmaio
Sigo esperançosa fabricando um bolo de peras
A espera de uma calmaria jocosa
O culto anglicano ainda será ao final da tarde
Volto à casa de chá
Para ver se tento descobrir
Com qual homem me casei
Se ele se preocupa com seu filho
Ou se cuidam cada qual de seus orgulhos
Ou se são apenas ideias em maquinaria
Maquinação de matrimônios

Bem Posta, 8 de Janeiro de 1999

Caríssimo Aristides Bocamorta,
Ayres foi internado na Santa Casa de Mar de Garças semana passada. Você já deve ficar sabendo. Não bastasse o abuso de entorpecentes, que chegaram de vez aqui em Bem Posta, houve também uma tentativa de autoextermínio.
Seu pai cuida do resto da família em Ouro Branco, exceto dele mesmo. Sua mãe escafedeu-se no mundo, sumiu na vida.
Antes fossem, como no começo, as lojas de disco de Beiranópolis.
Antônio pediu que eu te escrevesse, pois está muito ocupado com a corretora por aí. Além do mais, ele diz que você tem mais tato para estas coisas.
Peço então, encarecidamente, a você, amigo, que dê um pulo no hospital. Veja como está nosso jovem Ayres, pergunte se precisa de algo (eu providenciaria).
Gostaríamos na verdade é que ele conversasse com pessoas diferentes. Sabe-se lá, às vezes até o Zequinha Bilico podia ajudar.
Aristides, não queremos ser onerosos, porém precisamos de sua ajuda. Espero que seus atuais estudos sobre a Ordem Rosa Cruz os ajude e nos ajudem também.
Não é o momento, mas, deixo-te, como havia prometido, com mais dois autores de Bem Posta:
Baltazar Meio Dia e Matias Mato Raso
Ps.:
Como anda a publicação do “Jornal Amanhã” de Mar de Garças? Ainda colabora para eles, Aristides?
Enfim, deixo-te com os poemas e com o desejo e a esperança de que possa nos ajudar novamente. Talvez possa levar o Ayres para colher pimenta (hábito seu que conheço bem). E possa fazer isto na capoeira do Padre Herculano, ainda deve estar exuberante.
Aristides, ele precisa se ajudado!
Conto com sua compreensão,
Adamastor

BALTAZAR MEIO DIA

Pedem-me muitas explicações
Sobre o que viesse a ser
Minha fábrica de estrenhos
Sobre o que viesse a ser
Este diabo de estrenho em si
Peço licença a Zé Pretextato
Da leitoria
Peço licença a Zé Terceiro
Da cantição
Que viraram lamiúra
Que viraram maledicturas nas cancelas
De arapuca de prender tinhoso
E com pouca iluminatura
Aí vieram
Lamounier Godofredo
Coronel Epaminondas
Sob a mão de Manuel Intendente
Sob o sermão de Bispo Julião
E homilia de Zé Gominho
O leigo dos estrenhos
Os primeiros deles, em feitura ineditante
Na estrada de Godofredo Pereira
Terra de diáspora
De Luzia viúva e Maria Sá Sação

O estrenho
Vem a ser
Uma ferradura de bronze
De três pontas
Viradas para baixo
Ou para trás
O certo é que tem que ser
Do jeito de contrário
Do jeito de oposto
Pra calçar curupira
Ou bestão de Balaão
Para dependurar
Na cruz
Da festa de São João
De cabeça para baixo
Estrenho é mirongueiro
Abre caminho
Espanta hipocrisia
Das blasfêmias da própria cristandade
Das trevas
Não gosta de homilia
Falatório vinho pão
Faz tudo na calada
De noite
Espanta ostentação de luxuria
E protege
Nos caminhos da opulência
Serve pão a indigente
E dá a mão para as diligências

MATIAS MATO RASO


Preto véio veio
Pra acabação das madorna
Pra cantição das mazela
E sabedicência de puxá portinhola
Batê porteira
Nas eira e nas beira das cava de exu
Exu morto consagra lamiúra
E enterra as maledictura
Pelas brenha da medrugada
Pelos emedronto do mundo
Pelos ermo dum fundo dos espelho
Pelas solidão dos agouro
Pelas caminhadura dos azougue
Pelos açoite das completitude de espírito
Quem tem ouvido que ouve
Os quebranto de fim de mundo
Que é este lugar
Preto véio veio
Pra conserto dos estrago

Era um assombro tudo isso
Que eu arresolvi terminar com essa trova
Que vende a mim
Os torto e os manso
Esses eu endireito
Que foge de nós
Os reto e os conciso
Esses eu injeito
Que assopra até a mim
Os vento daquele que é bom
E que é direito
O resto é madorna de lamiúra
E isso não tem mais jeito
Dissesse pro moço
E pra moça
Que quisesse ser perfeito
Que vende até a meu pai
Que vende até aonde o vento vai
E não volta mais
Essa é a cantição de minhas brenha
Essa é a leitoria
De minhas escritura

Meu mau no estombro
Cessa é com leitoria
E leitonação
Pros espírito que num ceia
Com tinhoso
Pras alma que nuncia
Os bem aventuroso
Dos vento de qualquer banda
Que me traz esse hortelã
Esse malte nas vista
E esse almíscar no proceder
Vou embrulhar umas brevidade
E oferecer a deus em cantição
O estombro resolvido
Em acabação
Na leitoria de São João

Larápio! Afanador de cartas! Usurpador de memórias! Ufanista de proselitismo em causa própria! Em qual gaveta das que nem me recordo ele pode ter violado o próprio passado que eu o detinha para o bem de sua família? Em qual escaninho?
Este pretérito triste. Ressentimentos não se enterram mesmo. Por qual desatino, meu deus, por qual?
Agora consigo relembrar a discussão com Antônio. Ele e Adamastor tem tido suas questões desde que seu irmão foi inteligentemente tido como morto no período de ditadura militar.
Em nome de quê? Em nome de qual revivescência lutam tios e sobrinho?
E esta fotografia? Antônio com o cabelo pintado, Adamastor ainda barbudo, Sofia, ah Sofia! Com anelos ainda vivos, amarelos e ainda ruivos, mesmo com as limitações do tempo e da celulose. Mesmo que somente nesta lembrança.
E este bebê que ela traz jovialmente no colo? Ayres? Não! Não pode ser isso que ele quer mostrar! Ele seria filho dela? Por aonde vou eu pelas constatações mais torpes desta vida em formas indignas, insólitas?
Seria filho de Arnaldo? Seu amante de adolescência que saiu de Ouro Branco escorraçado e se tornara sapateiro aqui em Mar de Garças?
Antônio e Adamastor me pagarão por este embuste!
E que, nas condições de estes fatos serem reais, colocarei novamente o sapateiro Arnaldo contra os dois.
O cheiro de morte que me invade é um presságio de que essa empáfia tenha abreviado a vida de minha amada Sofia, com todas as desventuras suas em Ouro Branco até vir pra cá em exílio involuntário e, finalmente suicidar-se. Para os desgostos do resto dos meus dias.
Vou procurar Arnaldo

Mar de Garças, 28 de agosto de 2000.

Pois bem, senhor Aristides,

Digo o que sei. Não sou pai de Ayres. Nem sequer suspeitei desta hipótese. Ele é filho de quem fosse sempre supôs que fosse. Antes deste devaneio, devo esclarecer-lhe para que retorne às realidades anteriores.
Conheço seus escárnios e posso prever como deve estar se sentindo agora. Conheço a fotografia a qual você menciona, o bebê é mesmo Ayres. E não são nada além de primos, a mais velha trazendo a criança no colo, nada mais.
O que você talvez você não saiba, senhor Aristides é que depois que Antônio me expulsou de Ouro Branco. E antes que Sofia viesse inesperadamente parar aqui, não teria sido para vir atrás de mim, mas, para começar a te amar. E começar a te amar até a morte, até o suicídio.
O que você talvez não saiba, senhor Aristides, é que Sofia, neste meio tempo, teve um romance tórrido com seu primo trinta anos mais jovem: Ayres.
O que você talvez não saiba, Aristides, é que Sofia foi a primeira mulher dele se não me engano tinha apenas catorze anos de vida. O jovem nunca se recuperou da visão aterrorizante da culpa.
Tenho em mãos, não sei por qual obra do destino, os últimos escritos de Sofia…
Por qual razão você acha que Ayres foi mandado para Bem Posta na mesma época em que Sofia para cá veio sem mais precisar retornar?
Por qual motivo imagina o senhor que Antônio me expulsou de Ouro Branco? O senhor conhece a alma deste homem?
Acha que ele não sabia que sua sobrinha não passava de uma carola ninfomaníaca que ameaçava a reputação da família?
Isto não explica todas as internações de Sofia em asilos e hospitais psiquiátricos?
Deixemos os mortos!
E você, senhor Aristides, não me aborreça mais.

Arnaldo .

Foi encontrado ao final da tarde o corpo do empresário e corretor de imóveis Antônio Buendia, em seu escritório. Antônio teria levado dois tiros à queima roupa e todas as suspeitas recaem sobre seu sobrinho Ayres Buendia que já estava sendo procurado por ter ateado fogo a casa na qual vivia como hóspede. A casa pertencia a Aristides Bocamorta, um amigo da família.
Aristides recusou a proteção policial e informou que ia visitar Adamastor Buendia, irmão da vítima.

ÂNUS MUNDUS

A ESTÓRIA DE ROSA LOUCA, O SANTO

I
Eu me chamo de Ayres Mirabela
Sou eu mesmo, sou Ayres
Ayres o rosa louca
Sou eu mesmo, o Ayres
Sou o rosa louca, o santo
O exu, o anjo, o rei
Desbravador de escárnios alheios
Escavador e colecionador de escrachos
Chupador de anseios
Sou eu hoje,
De cabelos desgrenhados
De anelos brancos e desdenhados
Na cela de uma cadeia
Sou Ayres o rosa louca
E uma mulher veio me dar um beijo
Veio-me esta mulher com um beijo desgraçado
Eu sou o rosa louca, o santo
E venho praticar minha estória

Eu amei a ela
Eu, Ayres Mirabela
Em lagos artificiais
De patos marrecos gansos
A observarem nosso encantamento
Nossa insônia adormecida
Nosso suor decantado em juras de amor
Nosso torpor maldizendo
Estas ilhas de calor
No vértice das pernas
O fogo profanado
Como que dum incesto
Eu amei a ela
Eu, Ayres Mirabela
Em fados seminais
De tristes e afogados ais
Nos cântaros da melancolia
De todos os outros casais

É neste jazigo que eu
Instauro a minha cópula
E é o jazigo de meu pai
E qual homem do mundo
Não fora pai a menos que de ideia?
E o meu pensamento
Era construir um baile em seu corpo
Fazer salão de dança de sua cava
De seu delta vertiginoso brotam ais
Dos mais corajosos
Os covardes se vestem
E nos chamam para uma alcova
Eu estou a delatar esta seiva
Estou a deleitar-me de ti

Estamos amanhecendo, meu bem.
Nos sobra esta réstia de Vênus
Trás os montes
Abençoa nosso amor
Nosso cântico desvairado
De saliva e preces
Tece de nosso leite uma resina para os dias
Vem meu bem, que amanhece.

Este monte de Vênus
Amontoando meu sêmen
Esta cava mucosa estalando meu grito gutural
De uma besta de primórdios
Infernal
Quero açoitar todos os meninos desembestados
Mostra-lhes a desfortuna da vida
Dar-lhes pão e leite
Provisões de nossa refazenda
Brevidades
E ambrosia
Estas duas pombas róseas no peito
Estes grãos de bico
Alimentariam sete gerações, minha querida.

Mas a vida é uma desventura
Escolhe os desregrados como reis
E conclamam os concisos à forca
Ou à guilhotina
Eu tenho para mim que devemos gozar,
Da existência eu só trago um frasco curto de absinto
E você me traz um cânhamo duvidoso
O fumo da babilônia espera pelos sábios, minha querida.
Vamos!

Amor, vamos ao encontro do prazer.
Que mais, de pouco a pouco.
Pouco esta vida pode nos fazer
Façamo-nos nós, amor.
O pouco que esta vida pode nos trazer
Ao ler as páginas de Sartre
Quase enlouqueci
Mas venha, tentarei Florbela Espanca para ti.

É Catulo que me cantas? Amor?
Não cesse!
Não pare que tenho olhos de chorar
Três dias e nenhuma noite
Algures me dizem
Que tenho a noite a desposar-me de ti
Minha tardia donzela de seios fartos
Minha querida mazela de olhos firmes
Não
A vida não nos dará
A tragédia
Deus dará

Tenho um tomo dos cânticos, gazela.
Tenho um gomo de tangerina, jovial donzela.
Tenho desastres nos bolsos
E venturas na mão
O que irá querer abocanhar primeiro
Terá que escolher
Pois o destino se não escolhe
Já nos escolheu
Em desvario

Oh minha bailarina
Entendo seu gesto
Sei seu gesto
Apanhando as folhas no chão
Este chão mar de pomares e lápides
Raízes de vida nova prometida
Recolhe as folhas do chão
A flor e o fruto apodrecido
Que não nos prometeram nada
Oh minha bailarina

Se não nos prometemos ainda o amor
Façamos já, e o façamos com rapidez.
Não nos preocupemos com a destreza dos sábios
Estes, se prometem, tem o zelo do erro
O mesmo erro dos amantes, minha bailarina,
O que a providência ainda quer nos ensinar, bailarina?
Se já ignoramos tanto vinho à sorte da cópula
Saiba! Sempre profanam o trigo nas tavernas.

De que nos valeria somente a mão apolínea, minha amada?
As mãos parecem ter duas faces
Uma é a que recolhe a uva das parreiras
Outra é a que segura os charutos de Havana
Uma é aquela que deita em seu anelo
Outra é a que te arranca suspiros por baixo da anágua
Precisas partir, amante?
Serei o candelabro de tua noite
E minha noite será para todos
Um disparate
Não conseguem ver, são tolos.
Não podem conceber nosso coito
Vá minha amante que são todos malditosos
Quando voltares, terei estrelas nas mãos.
E você as tornará novamente brilhantes
Apedrejaremos os comuns com estrelas quentes
E com a mão quente das pérolas aos poucos

Minhas joias são apenas bijuterias
Falso brilhante de pastor odiado e sem cajado
Mas, perdido da mesma maneira, como outrora,
Tivera se encontrado
É lantejoula
É madrepérola
É ouro de tolo
Meu amor cajado desencontrado de outros pastores
Provavelmente abandonado
Num quarto de ex-votos
Num quarto de penúrias
Na cela de uma cadeia
Este pobre diabo conta suas crônicas de amor e desleixo

Veio-me um homem de longa barba e cabelo
Ainda ruivos
Mas ainda me parecera um ancião, tal figura.
Que quando se fez falar aparentava-se ao inferno
Minha amada bailarina
Havia engravidado
E havia partido, pois havia engravidado.
Pus-me a atacar este algoz pequeno diabo
Arranquei lhe os olhos
Saiu como um desgraçado a vaticinar meus males
Que era pai de Sofia
Ah velho endiabrado vai-te embora!
Ou corto-te a língua para não ouvir tamanha tragédia

Vieram os guardas da polícia
E ainda me arruinaram a dizer o que não sabiam
Que o velho não era pai de Sofia
E que ela estava de volta
Com o rebento sadio nas entranhas
Fiz me enganar
E confessei o crime
Ah lei, oh meu deus, lei!
Que fizera de mim rei e amado
Agora me faz destronado
Na clausura do cárcere
Espero notícias do filho de Sofia
Do neto do cego
Que como um Tirésias me faz vaticínios
Em meu sono de criminoso
Sou Ayres Mirabela,
O rosa louca,
O santo desterrado dos amores.

Sofia partiu para um mar de desgraças
Tirou a água
Tirou a pedra
Tirou o rio
E passou para dentro do mar
E roubou estes versos de Gilson Fernandes
Vestiu as imagens da enchente
E partiu-se embora
Para um oceano de tragédias
Ressuscitada
Andando sobre o mar morto
E repetindo as metáforas

Por onde foi Sofia
Ter nosso filho?
Será provida de qual trigo
De qual cevada?
Que nome terá
Meu filho no mundo deus dará?
Um deus varão me visitará
Um arcanjo de nome Misael
Me anunciará
Meu advento de paternidade
E eu serei cego do mundo
Assim como ceguei meu sogro
Aquele velho sortilégio

Meu deus!
É este inferno a masmorra?
Alimentam-me de medo
Alimentam-me de culpa
De remorso
Ora, doravante, furei meus ouvidos.
Para não escutar o algoz que me acerta o peito
E me alimenta o ódio
E o ressentimento
Oh velho cego, Tirésias de misérias!
Deixai me dormir

É mesmo pai de Sofia
Mãe de meu filho
Aquele homem
Aquele velho que ceguei
Dizendo ser arauto de minha amada
Antes de me revelar sua chaga de pai?
Pai cego
Destronado de qualquer benção
Amaldiçoado por mim
Tira de mim o tormento
Que lhe darei sete pagas de trigo e de joio
Sete novos pares de Iris e olhos
Sete damas para que se deite
Por sete anos
Darei sete trovas
De sete alcovas
Para setenta e sete males

O velho se chamava Antonio
E não era o pai de meu amor
E ficou cego por inveja
Ficou cego por justiça
Pois que inveja se paga com justiça
Escreveu-me num pergaminho
Pois que eu não podia mais ouvir
E fez isto senhor Anaílson
Meu companheiro de cárcere
Avisado por Andrade
Soldado raso

Jurei a morte de Antônio
Jurei a morte lenta e dolorosa de um covarde
Esbravejei palavras que não se diz,
E as esbravejei em superlativo,
Pois, nunca,
Em nenhum outro momento,
Quis ouvir minha própria voz,
E não podia.
Algum homem pode descrever a sensação de não
Poder ouvir a própria voz
Ao jurar a morte de alguém?

Assim o ódio me alimentou os infernos
E isso assim me respondeu Anaílson com seu semblante jubiloso
E tentando me agarrar pela masmorra
E assim me respondeu soldado Andrade
Ao me colocar na solitária da masmorra
Nem na torre
Nem no porão
Nem em lugar algum eu ouvia alguma coisa
Estava numa cela escura
E nem em lugar algum eu via alguém ou qualquer coisa
A menos que a mão que trazia a matula diária
E assim o demônio invadia meus pensamentos

Soldado Andrade deixara um bilhete
Por baixo do gradil
Animei-me, pois a hora era chegada.
De meu rebento com Sofia ganhar a vida
Maldição
O bebê nascera morto
E era uma linda menina
Que Sofia destinou ao limbo, com o nome de Rebeca.
Gritei seu nome e o de sua mãe
Soldado Andrade
Libertou-me da solitária
Por um ato de comiseração

Num momento de distração,
Dominei soldado Andrade
E tomei-lhe o punhal
Pensaram que eu queria fugir
Que eu queria começar uma rebelião
Nunca quis nada disso
Cortei-me de mim minha língua
Com o punhal de soldado Andrade
Para que ninguém mais ouvisse minha lamúria,
Mesmo que merecesse
Mais penado dos homens
Até mais que isso!
Devolvi a arma ao soldado Andrade

Levaram-me a uma espécie de enfermaria
Estancaram meu sangue
Fizeram-me um curativo
E por lá fiquei por três dias
Depois disto, voltei para cela solitária
E me foi dado de conhecer Satanás

Era alvo
E loiro
Tinha asas de anjo
Tinha túnicas de cristos
E perfume manjericão
Pude ouvi-lo
Com sua voz de muitas águas caudalosas
Dizia me ser ele o messias
E eu fiquei tranquilo, pois, nem o demônio me enganara.
Mostrei-lhe um sorriso desdenhoso
E o diabo foi-se embora com ares de bom moço
Ah façam-me o favor!

Queria poder dizer ao Anaílson
Que o demônio me viera em sonho
E que eu o enjeitei
E que eu debochei de seu embuste
Mas não falo
Mas não ouço
Minha bravura com o tinhoso tinha me deixado melhor
Mas vi Anaílson chorando muito

Anaílson escreveu num pergaminho
Que Sofia tinha suicidado num lago, em San Miramar,
E que estava num sanatório
Soldado Andrade poderia ter me amarrado
Me algemado
Mas não
Soldado Andrade me libertou
E hoje sou um errante

E fiquei conhecido
Como o Rosa Louca,
O Santo de Sofia
Por Ayres Mirabela
Fui esquecido
Por Ayres Mirabela
Não existo mais
E fiquei conhecido
Como o Rosa Louca
O Santo de Sofia
Ou apenas
O errante destes sofismas.

POEMA DE SOFIA

Eu rezo
Rezo para que o mundo não tenha fim
Rezo para que o fim do mundo
Seja mesmo este inferno
Não de chamas subterrâneas
E de Judas abocanhados
Por imagens satânicas
Rezo por ter em mim
Dantes memórias subcutâneas
Dali com Cervantes saem germinados
De apocalipses apaixonados
Eu rezo para os detestáveis
Homens de bem
Homeros devaneios de himens rompidos
Quimera languidão de madames
Satãs, saddams
Esta petúnia
Esta begônia
Esta vergonha
Roxa
Esta lacônia
Esta maconha
Em frente à loja maçônica
Goma Lacan
Com sumo de hortelã
Esta porra saxônica
Pedindo-me a gosma da maçã
Entre a boca
O beijo
E o sexo oral
Eu rezo
Eu ajoelho e rezo
E chupo a laranja mecânica
Esta oratória de físicos quânticos
Esta moratória de tísicos cânticos
Oratório
Ofertório
Falatório
Cântaro quebrado
Sândalo derramado
Leite derramado
Bálsamo masturbado
Exegese furtiva
Homilia de palavrão
Eu rezo
Eu peço um badulaque
E me vem Ayres de fraque
De cravo no bolso e descalço
Eu solto uma traque
Eu solto o rabo
Eu largo o osso
Eu salto de banda
E dou a bunda
Depois rezo
E viro nômade
Vou à igreja
Vou à missa
Depois vou ao asilo
Vou ao hospício
E ao puteiro
Eu escrevo e leio
E o pau come
Em meu lombo
Meu pombo girando
Trancando a rua
Para que possa vir Arnaldo
Disse que ia ficar
E que depois ia embora
Eu chamo preto velho
Mirongueiro
Para que possa vir Aristides
Abstrair da compreensão
E fugir
Sem teogonia
Ou cavalo que trote a galope
Eu rezo
Eu rezo, mas leio Trotski e Truman Capote
Eu não valho o dote
Que tio Antônio quer
Eu quero navalhar seu culote
Com minha marca de má sorte
Macunaíma Macondo Macabeia
MacBeth, em sumo, má fé
Em suma, eu rezo
Oh! Luar tão cândido
Eu rezo nove helenas
Eu rezo treze troias
E sete descalabros
Eu calo a besta de Balaão
Eu falo na festa de São João
Que rezo trinta e três apocalipses
E um rosário de Pentateuco
Pentagrama hermético
Hermeneutas
Terapeutas
Psicoterapia
Psicoterapia
Terapia ocupacional
Putaria
Bacanal
Eu rezo
Eu ajoelho
E rezo
E faço sexo anal
Nos anais deste embornal
Eu não aconselho
Cabala e alquimia
Eu aconselho
Candombe e quiromancia
Também catira e catopé
Também maracatu
Maracutaia
Salamandra
Saramandaia
Oh Mestre Salustiano
Oh Mestre Zé Côco
Desfaz a embolada
Eu acordo molhada
De clitóris arranhado
Eu rezo
Eu levanto a saia, mas eu rezo
Manhã tão
Bonita manhã
Manhã sã
Manhatã
Leviatã
E Nova Iorque inundada
Novo Iraque conclamado
Eu rezo
Rezo o visgo negro
Dos estadistas
E a resina viscosa dos monumentos
Dos soldados rasos mortos desconhecidos
Ah minha mucosa
Eu rezo esta usina
De fabricação de lápides
Lépidas linhas de produção
De heróis e cocaína
Eu rezo
Para as mulheres violentadas
Para as crianças órfãs desmamadas
Eu rezo
Eu ajoelho
E rezo

08- 05- 1994
CARTAS DE SOFIA

Mar de Garças, 12 de Outubro de 1995.

A vida há muito não me agrada nem um pouco. Inclusive pelo fato de os prováveis interlocutores de meus últimos escritos não corroborarem nem um pouco para que não seja assim.
Não me apetece fazer prognósticos sobre o futuro, pois já os fiz e não foram nada animadores, penso que em uns cinco anos devemos até mesmo pagar pedágio por passear na rua, no passeio público.
Não profetizo nada, deduzo. Em todo caso, as previsões são horrendas.
Já há algum tempo deixei as prescrições médicas de psicotrópicos para quem precise delas na fila imensa de nossos desafortunados da saúde pública.
Ademais, desgraça por desgraça, eu prefiro a minha. Tragédia por tragédia, desculpem-me os gregos, mas, eu vivo a minha.
Primeiro foi tio Adamastor com sua prosa safada me colocando no colo e debochando de minha cabeleira, o que mais queria aquele cafajeste?
Depois foi Alberto meu irmão que me abusava diariamente no pé da figueira. Mais tarde foi ter um relacionamento estável com Asdrúbal. Com quem me relacionei também no começo. Levantei a saia para ele e no começo até que gostava, depois o insano me pegava à força.
Asdrúbal era insaciável, depois que amava a mim e a meu irmão, trepava também com Alana, outra amiga do Alberto, meu irmão surubeiro.
Alana também tentou me agarrar e só conseguiu depois que Asdrúbal veio ajudar.
Indecentes desgraçados!
Entrei para a Igreja Católica. Obtive progresso. Depois incompreensão. Se eu rezasse na missa, a família maldizia. Se eu rezasse na procissão os vizinhos maldiziam. Sofri muito. Rezei muito. Fui internada em sanatórios.
Depois disso, passei a rezar com os loucos, com as putas, os mendigos, com os pobres e os mirongueiros. O povo dizia que eu me prostituía, mas eu só pregava a palavra de deus. Sofri muito. Rezei muito. Aprendi resignação. Tornei-me uma nômade de minha própria vontade que vagava em intermináveis circunlóquios do julgamento alheio.
Conheci Arnaldo. Engravidei-me de Arnaldo. Fui roubada e mais uma vez abusada por Arnaldo. Abortei o filho de Arnaldo. Ninguém queria um filho dele na família, mas, também ninguém nem na igreja me perdoava.
Aborreci-me profundamente. Procurei o curandeirismo.
Encontrei Ayres, no terreiro de tia Maria, com o fogo nos olhos, jovem, com o fogo no vértice das pernas.
Fui feliz. Enlouqueci-o. Fui infeliz. Enlouqueci-o. Enlouqueci-me por ele. Fui feliz. Enlouqueci-me por ele. Fui infeliz. Mandaram-me para cá, exilada, grávida, pela segunda vez. Desta vez rezei muito para que a criança nascesse, seria uma vingança. Rezei muito. Nasceu morto. Rezei muito. Castigo? Culpa? Não! Não havia nada em mim implorando piedade de qualquer ser vivo. Não! Não havia nada em mim que não fosse, em contrapartida, um pedido de clemência.
Aristides Bocamorta também me agarrou a força, mas, desde o princípio, passei a amá-lo, pois, desde o princípio, ele já me amava.
Minhas orações, minha vida romanesca, minha estrada de errante os afastou de mim.
Pobre de mim, que depois disso tudo, ainda veio tio Antônio, me propondo que eu compreendesse seu sexo e fosse complacente com seu celibato de cinco anos.
Foi melhorando com os tempos, mas tive que ter paciência, era repetitivo, mas me acostumei. Culpa? Rezei muito. Culpa! Rezei muito.
Passei a amar os homens da rua, os homens do albergue, do abrigo e finalmente, passei a amar os homens do hospício. Rezava muito. E só vinha amor. Amor sempre foi e sempre será incompreendido. Dei todo o meu amor e o que sou depois de ter rezado tanto: uma puta louca, uma carola depravada, é isto que sobra de tudo que ofereci em seu nome meu deus! Não o quero mais! Quero a morte, um possível descanso… Não quero mais este deus que nunca foi meu, pois nada me dera em troco de tanta entrega. Não quero este paraíso de virtuosas senhoras numa querela eterna, quero o inferno. Quero o demônio, quero levantar a saia para ele. Eu quero morrer. Eu quero morrer.
Eu quero…

San Miramar, 13 de fevereiro de 1996.

Sou Sofia. Estou há três meses e alguns dias no Sanatório San Miramar. Que toma o nome da cidade que mal pude observar. Aqui o regime é de internato, mas, tem uma área externa com um lago e uns gansos a esmo. O bairro onde se situa o hospital se chama Mirante Central. Belo nome para alguém que como eu mirou muitas coisas e agora quer mirar para algo irresolutamente definitivo. Estou tísica. Decidi fingir que estou me tratando. Dou o remédio aos gansos do lago. Os médicos já devem desconfiar que não me tratasse. Insistem nos psicotrópicos. Muitos já disseram que sou louca. E hoje chego até a acreditar. Mas os psicotrópicos eu rejeito com a aquiescência dos médicos.
Estou perdendo os rancores, estou perdendo o ressentimento. Meus tios e tias, meu irmão, seus amigos malucos e os desafortunados dos Arnaldo e Ayres, estão todos velhos, bem velhos. E devem fazer este exercício abnegadamente também. Se não o estiverem fazendo, recomendo-lhes. Mas acredito que estão. Ninguém consegue viver com os fatos que vivemos nossas vidas sem querermos nos desfazer de todos eles, há certo tempo.
Meu tempo chegou.
Aristides quando soube que eu viria encomendou a Sônia, uma sobrinha dele, que viesse até aqui me entregar uma biografia de Lacan. O livro continha uma dedicatória que era uma epígrafe de outro livro:

“Só as pessoas realmente fortes podem viver
Na realidade definitiva das coisas;
Quase todo mundo vaga numa atmosfera morna
De fantasia.”
Lúcio Cardoso (diário do terror)

Uma dedicatória forte de um homem forte. Aristides de princípio estudava Jung, Unus Mundus, porém, admitiu encontrar respostas que moram mais no âmago em Lacan.
Vim a concordar contigo, Aristides.
Tomei por conclusão que quando a estrutura da psique adquire um grau elevado de construção simbólica e de linguagem, os terrores do vazio do inconsciente e dos desejos que só gozam o gozo ao destruírem o objeto dos mesmos, são aplacados, abrandados.
Não se precisa mais desejar. Nirvana? Não se precisa mais pensar em desejo, ou, inventar necessidades.
Se ainda houvesse as repetições e compulsões para entreter a loucura e o desejo e a libido de, arbitrariamente, destruírem o objeto de próprio desejo, de própria libido. Mas não há mais nada.
É esta estrutura simbólica, frágil, no entanto inatingível quando não se objeta? Este é o mistério Aristides?
É este o fim da viagem que não quisera me contar no passado e agora me sopra em sua ausência?
Devo-me despreocupar?
A propósito, lembro-me agora que a epígrafe de Lúcio Cardoso, que me enviou como quem quisesse encorajar a minha viagem, a minha ida. É a mesma epígrafe de outro livro dele: “Crônica da Casa Assassinada”…
Por qual razão um tórrido romance de incesto, Aristides?
Veio me salvar ou me provocar?
Digo-lhe, encontro-me salva, encontro-me a salvo e salvei-me de tudo.
Ao final de escrever isto, anexarei a primeira e incompleta carta, ainda de Mar de Garças, colocarei as duas debaixo de um pequeno rochedo, e me afogarei no lago dos gansos.
Minha morte será tranquila e eu serei salva. Por não sei qual arcanjo, mas sei que será um arcanjo.
A última lembrança que lhes deixo é a de Maria Risca Pedra. Que durante este tempo sempre a encontrei, tranquila e calma. Sentada à beira dos meios-fios, com pequenos gravetos na mão. Riscando as bordas de terra dos paralelepípedos dos pátios.
Sempre levantando a saia para o Pedro Aleixo assim que o capricho dele quisesse.
Simplicidade.
É o que desejo a todos ao deixar com vocês minha vida e minha memória.

Eu sou um atravessador de cartas. Eu, um escarafunchador de escárnios em várias estórias desinteressantes. Compro-as no mercado negro numa feira na cidade de Fez, na parte baixa, antigamente, Marrocos.
Vendo-as no mercado central com o troco de duas rosas brancas, ou eu as troco por petúnias, ou eu as subverto pelas minhas próprias calúnias. O alheio sempre me perfurou o fato de eu não ser ninguém.
Sendo assim, eu roubo as estórias. E as faço minhas estas estórias, depois as vendo. As vendo num futuro escambo da rua do ouvidor. Melhor dizendo, depois que estas estórias morrem em mim vendidas adquiro outras e as escrevo secretamente.
Participo-lhes de uma eternidade secreta de minhas estórias, roubadas, vendidas. Eu submeto as estórias como se não fosse crível o próprio crivo a que estão submetidas: a realidade, a tão imensa realidade.
E é assim que estórias parecem não ser ficção
Fiquem sãos, meus caros,
São como mentiras para o nosso sono, são como um estranho acalanto com sons de objetos conhecidos apenas pelo adormecimento, hipnose, entorpecimento, langor, psicose ou teor apoteótico ou ignorância mesmo.
Eu anexo textos às cartas e ao leitor eu gostaria que não se interessasse com veracidade de qualquer fato.
Acaso preocupamos com a veracidade de qualquer notícia nestes tempos, serão notícias, teríamos este direito?
Deixemos adocicar as mentiras que partilhamos, com sorte, supô-las-emos como de outros tempos que nem precisassem ter tido existência, terem pegado jeito de estória para se contar.
Acaso temos clareza do que pega jeito de estória do mundo exceto neste juízo arbitrário de lermos o que nem é de nossa propriedade?
Deve haver um modo de pegar jeito de estória no mundo, por isso as vendo, por isso as prostituo por pão e por cama mesa e banho.
Ponho-as à venda no crediário que calcula juros enganados. Derrubo muros. Enganado.
Pois que eu vendo estórias e só obterei desengano no câncer.
Esta que segue é apenas uma. Entre tantas outras. Entre tantos outros.
Mas a contaram e isto é o que importa, e eu a reproduzo sem certezas e isto também deve importar.

“Jaz aqui, na pequena praia extrema
O capitão do fim. Dobrado o assombro

Atlas, mostra alto o mundo no seu ombro.”
Fernando Pessoa

San Miramar, 9 de Janeiro de 1993
Não sei por que em mim necessito todo o líquido do mundo para saciar a sede dos homens que passam, pois que passam dentro.
Mas não deixo de trazer na mão a ventura de tornar boa esperança todo o tormento, como um descobridor de possibilidades alheias me refaço, e esta deve ser a maior virtude de um psiquiatra.
Para amenizar a leitura de sufrágio nos semblantes desta gente de América, preciso observar a cidade. Seu relevo e topografia. Sua arquitetura, seu comércio e sua estória pregressa e inequívoca de condição de dominada.
Cito Camões:
“Aqui espero tomar, se não me engano
De quem me descobriu suma vingança”
Perversa ironia esta passagem de lira onde o próprio explorador é descoberto sob a forma nefasta e vitoriosa do revide, senão da natureza pela própria força do braço torpe.
O que te narro eu não descobri. E estou pela primeira vez descoberto e talvez de forma última, pois o que ocorre ao espírito já é todo o mundo.
Organizei com Roberto esta viagem. A ele coube a tarefa de apenas dirigir, a mim outras coisas, pois era longa a travessia. Gerenciei provisões para todo o trajeto além de estudar um pouco mais a fundo nossa cartografia, e confesso que me enganei algumas vezes pelas bifurcações do caminho.
Tratei também de me sociabilizar com os ribeirinhos durante a jornada, Roberto ainda possui uma veia fortemente antissocial.
Chegamos a San Miramar, capital da província de Queceaba em Itapacorã com meu raciocínio e pelos pés e mãos de Roberto Velásquez que dirigia um Chevette 87.
O congresso médico começará em uma semana, estamos ansiosos.
Mesmo que nos encontrasse a desgraça em terras argentinas sinto que estamos em todo continente num processo doloroso de mudanças agudas onde todas as tragédias pessoais se justificariam em nome da mudança do curso de nossa estória, os loucos precisam se emancipar. Temos esta dívida com este anonimato do sofrimento que advém da crueldade com a qual se formam nossas sociedades e moldam a cultura incorporando a ela qualquer sentimento de vingança reacionária.
A beira do riacho que corta o sul me vejo um homem novo, livre do degredo e dos temores pueris, qualquer evento que cruzasse meu corpo poderia me matar, mas hoje me individuei com qualquer destino que me viesse em frente.
Penso em escrever uma série de poemas de viagem nesta estada, penso em estar calmo e quieto como quando estou ao riacho no sul.
No sacerdócio da descoberta estão todos logrados à mesma morte. O perdão está para os vivos assim como a força para a morte.
Ao ribeirão descia uma canoa de nativos que cortesmente me saudaram, por um momento, pensei que meu aceno, meu sorriso e olhar sincero de comunhão e comoção, fizessem deles anfitriões de minhas expectativas.
Talvez me convidassem a pescar ou me levassem a um culto local onde me recompusesse com fervorosa aceitação, mas eles apenas passavam. Como tudo no rio e tudo na vida. Embora considere que passagem de um ser não pudesse ser impune e por isso mesmo trazer em si a letra da incomunicabilidade, por mais que sejamos seres falantes. Por agora, o que concluo é que a palavra deixou de ser nosso trunfo e linguagem não poderia deixar de carregar um signo de loucura.
Mesmo assim me intrigava tanto o fato de os ribeirinhos estarem tranquilos e eu também estar tranquilo que poderíamos perfeitamente conversar. Por que é isto que a humanidade precisa, talvez apenas um aceno de mão de águas estrangeiras?
Voltei ao quarto 23 do hotel San Miramar por volta das 15 horas e sob um langor como que se tivesse ingerido um lorazepan, adormeci um sono delirante de onde me vieram imagens de cores exorbitantes e exotizaram meu sono como quem exortasse a uma divindade certa agonia pagã que exacerbavam sentidos e a própria experiência como épica ao sabor de um ópio idílico.
A ótica do sonho me sucumbiu os sabores etílicos como na ética dos exorcismos.
Avistei perto do ribeirão ervas – daninhas como rabos de elefante e pela manhã as aves comiam vísceras de suas raízes venenosas. Eu tinha um chapéu de vaqueiro e troquei-o por penas do pássaro com uma Valquíria parda e avermelhada.
O nariz da amazona era torneado como uma nova genitália amarela e vermelha, com três rosários azuis no pescoço e o guizo da noite e o gozo e a morte.
Acordei dali daquele surrealismo suando e decidi não pensar mais nos ribeirinhos e sequer perguntar o nome daquele fio d’água que cruzava meu cérebro como no meu leito de misérias cegamente, leite de Tirésias.
Como colonizamos a nós mesmos e aos nossos desejos mais sinceros, que são os menores, sob a égide do consenso! Como esquecemos que os consensos são guerras encobertas. Felizmente, o que vejo aqui, hoje, não é simples rebelião. É um esboço de libertários que, portanto, merece ser descrito.
É uma cidade eminentemente de vendedores ambulantes, San Miramar. À noite voltam não sei bem para onde, mas parecem ter na garganta já acostumado o cântico de seu ofertório diário: a labuta pelo pão. Talvez seja aquele que o diabo amassou em noites de insônia e já saíssem da fornada dos panificadores destinados a alimentarem desgraças.
Uma economia deste porte não poderia sobreviver exceto ao caos, posto que qualquer tentativa de ordem soaria como um disparate. E quando o dia acaba não sobra outra coisa a não ser a aflição para beber café, jantar e deitar apressadamente as derrotas. Pois vencer qualquer coisa, qual coisa?
Tinha casas e prédios que não se compreendiam no espaço, mas pareciam evocar estórias viscosas. Mais uma vez o ranço de derrota parecia ali nos ganhar em tragos a respiração, mas de qual redenção muito aproximadamente à cristã se faz nosso continente? Que negação é esta que se derruba por se reconstruir que o capitalismo não capturou como uma ave selvagem na arapuca? O quê em arte ou arquitetura se faz hoje com unidade em seu conceito?
Vejo interferências bem vindas, violentas, mas bem vindas ao que a cidade produziu nos últimos anos. Não é o homem quem diretamente a destrói? Devemos, por certo, destruir cidades aparentemente descartáveis, mas não conhecemos bem os instrumentos de nossa barbárie.
Da livraria mais charmosa que encontrei em San Miramar, ao entrar pude reparar que era um sebo, detive ali um pouco do meu sopro e me confundi nas prateleiras: os anarquistas, os budistas, os trotskistas, meus companheiros de incompreensão… Levei para Roberto um exemplar de querelas trovadorescas e uma tradução da teoria da relatividade que apesar de tudo, apenas me agradeceu e disse estar ocupado lendo algumas entrevistas de Cildo Meirelles que, aliás, dizia o deixarem muito preocupado com a situação de nosso mercado estar em pé de guerra com a arte contemporânea a classificando como arte conceitual. E que não poderia se deter agora às discussões medievais do diabolus in música tampouco com a suposição da verdade do universo.
Roberto Velásquez tem umas obviedades espirituosas, mas, não era ele quem queria ir a uma livraria? Por sorte fui também a um café e a uma tabacaria, ambos também muito aprazes considerando o fato de que para muitos estamos em pleno inferno dantesco e a esta obviedade atribua a mim mesmo, Alfredo Montezuma.
Quanto a ti, ao me perguntar sobre as paisagens de Itapacorã, lhe respondo através da passagem da fronteira através de Mirimpejipe, o interior de Queceaba e o seu litoral até chegarmos em San Miramar, com uma só frase aqui do quarto de hotel: é tudo aterrorizantemente o mesmo onde também não se vê em absoluto a tênue desigualdade entre opulência e miséria, além unicamente em perceber o visgo do querer.
Um abraço na mãe.

Eu sou um atravessador de cartas. Eu, um escarafunchador de escárnios em várias estórias desinteressantes. Compro-as no mercado negro numa feira na cidade de Fez, na parte baixa, antigamente, Marrocos.
Vendo-as no mercado central com o troco de duas rosas brancas, ou eu as troco por petúnias, ou eu as subverto pelas minhas próprias calúnias. O alheio sempre me perfurou o fato de eu não ser ninguém.
Sendo assim, eu roubo as estórias. E as faço minhas estas estórias, depois as vendo. As vendo num futuro escambo da rua do ouvidor. Melhor dizendo, depois que estas estórias morrem em mim vendidas adquiro outras e as escrevo secretamente.
Participo-lhes de uma eternidade secreta de minhas estórias, roubadas, vendidas. Eu submeto as estórias como se não fosse crível o próprio crivo a que estão submetidas: a realidade, a tão imensa realidade.
E é assim que estórias parecem não ser ficção
Fiquem sãos, meus caros,
São como mentiras para o nosso sono, são como um estranho acalanto com sons de objetos conhecidos apenas pelo adormecimento, hipnose, entorpecimento, langor, psicose ou teor apoteótico ou ignorância mesmo.
Eu anexo textos às cartas e ao leitor eu gostaria que não se interessasse com veracidade de qualquer fato.
Acaso preocupamos com a veracidade de qualquer notícia nestes tempos, serão notícias, teríamos este direito?
Deixemos adocicar as mentiras que partilhamos, com sorte, supô-las-emos como de outros tempos que nem precisassem ter tido existência, terem pegado jeito de estória para se contar.
Acaso temos clareza do que pega jeito de estória do mundo exceto neste juízo arbitrário de lermos o que nem é de nossa propriedade?
Deve haver um modo de pegar jeito de estória no mundo, por isso as vendo, por isso as prostituo por pão e por cama mesa e banho.
Ponho-as à venda no crediário que calcula juros enganados. Derrubo muros. Enganado.
Pois que eu vendo estórias e só obterei desengano no câncer.
Esta que segue é apenas uma. Entre tantas outras. Entre tantos outros.
Mas a contaram e isto é o que importa, e eu a reproduzo sem certezas e isto também deve importar.

San Miramar, a qualquer data do começo de 1993

Tudo em Itapacorã especialmente ao estender dos dormitórios cheira a alvejada sorte, tudo bem quite com os tempos presentes, múltiplos em pretérito e porvir, temos uma premissa séria em fazer justiça ao continente como um novo florão de possibilidades especificamente ao contrapormos tudo que o senhor Burroughs disse ou mal disse da América do sul em sua infame viagem na metade do século corrente.
Caso quisessem nos colonizar isto deve ter sido há no mínimo uns trezentos anos, mas o capitalismo… O que querem mais de Itapacorã? Fazê-la uma ilha de novas Nicaráguas?
Depois de beber todo o vale do Niágara nos vem novamente querendo a floresta? Ora também produzimos pensamentos e nem queremos derrubar patentes alopáticas!
O que vemos em Itapacorã poderia ser em Xapuri como também no delta do Sena, não queríamos assim como requeremos a condição de jovem península construirmos pilares contraditórios de civilização, no entanto, é o vosso hemisfério quem dita as regras deste ministério mentiroso.
Faremos aqui um oportuno congresso onde esperamos mostrar como o sentido produzido invariavelmente escapa a qualquer crivo e encerra o signo de certo tipo de escapulário. E a vazão do capital não menciona seu consumo vazando por vasos sanitários.
O que persiste é esta vazante de arquétipos que se repete e permite o preconceito no clichê dos padrões de uma sociedade falaciosa que insiste em querer representar a todo o globo sem respeitar as especificidades e principalmente o que elas trazem de universal a qualquer cultura, a qualquer povo.
Prometemos aqui em Itapacorã reinaugurar do subsolo a subjetividade nem um pouco apocalíptica da loucura e sim bela e singular como não querem saber aqueles que nos tomam por simples socialistas ou marxistas.
A loucura nos mostra o lado da necessidade de maior logística na produção dos bens humanos sim, e vocês não tem a solução como pensam que tem.
Digo que qualquer bocado de desorganização é muito bem-vindo para esta palavra de nome logística, para o bem dela mesma e, para que finalmente constatem todos que. o sensitivo é mais que o bom-senso e que este é mais que leitura, é interpretação, e que esta é mais que livre, é pensamento.
Podemos dizer que o pensamento não é um patrimônio aceito ou negado por quem quer que seja ou não seja ou queira ou não queira. Flui nas mentes como algo liberto das amarras do corpo e quando não se aparta o mutila. Assim o corpo dissocia-se de sua condição liberta e fragmenta-se em espaços sublocados por seus próprios métodos de condicionamento e assim tece um jogo tácito com o que lhe é externo, sabe poder possuí-lo, mas refuga e triunfa o fracasso da ideia.
Entretanto o pensar quando muito se frustra explode e esta é a ciência que os outros continentes mais temem que possamos abandonar.
Digo que muitos de nós já abandonamos.
Como nos preceitos da mitologia eram oferecidos sacrifícios aos deuses, devemos comparar o tormento de um espírito invadido dentro de seu próprio corpo, por si mesmo e por representações das mais variadas, não podendo mais estabelecer relações de divindade, que faça sim associações à comparação com martírio. A furtiva analogia à santidade não cabe mais no mundo onde se nomeia apenas demônios e a filosofia nos rouba o cristianismo.
Evidentemente não ressurgiremos da mansão dos mortos, apesar de o propósito parecer ser este, de que a vida seja a morte ainda em vida, posto que a gênese da moralidade contivesse todos os impulsos de gozo, em nome do mesmo cristo que agora negam.
Depois dos franceses passaram a negar até a república, vejam que Platão falha mais uma vez, mas o nosso século não aproveita a rebarba e começa já semeando bombas pelos ares, toda divindade aí está exortada?
No rodízio da órbita terrestre é a vez de Itapacorã propor a civilização, nem Gengis Khan, nem Sun Tzu ou Napoleão, temos que fazer alguma coisa, pois o novo milênio provavelmente se destinou à China.
Como tudo que é dualístico: os adjetivos, o sexo ou a virtude; devemos oferecer um neologismo de terceiro mundo.

Roberto Velásquez

Toda ideia que é passível, mundana; compartilhada como mero temor ou assombro e encantamento por ser, demasiada humana; deve pertencer ao mundo e não a nenhuma instituição.

Alfredo Montezuma

Eu sou um atravessador de cartas. Eu, um escarafunchador de escárnios em várias estórias desinteressantes. Compro-as no mercado negro numa feira na cidade de Fez, na parte baixa, antigamente, Marrocos.
Vendo-as no mercado central com o troco de duas rosas brancas, ou eu as troco por petúnias, ou eu as subverto pelas minhas próprias calúnias. O alheio sempre me perfurou o fato de eu não ser ninguém.
Sendo assim, eu roubo as estórias. E as faço minhas estas estórias, depois as vendo. As vendo num futuro escambo da rua do ouvidor. Melhor dizendo, depois que estas estórias morrem em mim vendidas adquiro outras e as escrevo secretamente.
Participo-lhes de uma eternidade secreta de minhas estórias, roubadas, vendidas. Eu submeto as estórias como se não fosse crível o próprio crivo a que estão submetidas: a realidade, a tão imensa realidade.
E é assim que estórias parecem não ser ficção
Fiquem sãos, meus caros,
São como mentiras para o nosso sono, são como um estranho acalanto com sons de objetos conhecidos apenas pelo adormecimento, hipnose, entorpecimento, langor, psicose ou teor apoteótico ou ignorância mesmo.
Eu anexo textos às cartas e ao leitor eu gostaria que não se interessasse com veracidade de qualquer fato.
Acaso preocupamos com a veracidade de qualquer notícia nestes tempos, serão notícias, teríamos este direito?
Deixemos adocicar as mentiras que partilhamos, com sorte, supô-las-emos como de outros tempos que nem precisassem ter tido existência, terem pegado jeito de estória para se contar.
Acaso temos clareza do que pega jeito de estória do mundo exceto neste juízo arbitrário de lermos o que nem é de nossa propriedade?
Deve haver um modo de pegar jeito de estória no mundo, por isso as vendo, por isso as prostituo por pão e por cama mesa e banho.
Ponho-as à venda no crediário que calcula juros enganados. Derrubo muros. Enganado.
Pois que eu vendo estórias e só obterei desengano no câncer.
Esta que segue é apenas uma. Entre tantas outras. Entre tantos outros.
Mas a contaram e isto é o que importa, e eu a reproduzo sem certezas e isto também deve importar.

Amado Senhor Vieira,

Já havia dito por inúmeras vezes do meu desejo de conhecer sua cidade de La Paz apenas pelas imagens poéticas pelas quais me trazem uma ideia de América possível.
Ironicamente, a aduaneira onde trabalho quer me enviar a Guadalupe.
Presumo uma cidade em síntese como todas de nosso continente. Imagino entre nós algo partilhável por nossas cidades serem únicas em forma e conteúdo, silhueta e substância, topografia e força. Peleja pujança e cores.
É uma pena nossos cronistas diários, às vezes e recorrentemente, usarem do termo sincretismo; uma palavra apenas para nomear todas as dores e todas as alegrias do ocidente sul.
Estou ansioso para conhecer melhor este visgo e qual divindade se subtraiu assim como Patchamama dos andinos em nome da mãe de Cristo, que assim como o filho, tem muitos nomes (não por causa dos jesuítas, mas pela resistência de nosso povo que na dominação ainda encontrou se em seus subterfúgios para criar uma cultura de cores inéditas e, de fato, sincréticas.)

De quais cores e águas se veste esta virgem de Guadalupe que com a face anônima dos romeiros se faz também a irresoluta virgem do imaginário e do desconhecido?

Queria lhe dizer também que as ideias comuns de nos desfazermos de nossas bibliotecas devem se abrandar, assim penso por hoje e também atualmente ( Manuel Puig é um autor muito citado por ti que penso por isso não merecer meu desprezo, tampouco o teu)

Envio- lhe, em anexo, um ensaio de Octavio Paz. Este que em sua obra acerca da cultura hispano-americana muito me aproxima de ti.

Já eu, depois de tanto modernismo, precisei me refazer com o Lúcio Cardoso, o João Rosa, o Palmério e o Autran.

No Brasil parece ser tudo inédito e único depois de Euclides da Cunha que seria mesmo sensato esta volta ao interior pós-tropicália de modernismos exacerbados e a Guerra do Vietnam.

E penso ser, em Minas Gerais, estar este dentro que o Brasil possui e não necessita de antropofagia ou de gêneros híbridos (ou vencemo-los ou nossas bibliotecas caminham para a perdição).

O capitalismo nunca usou de maneira tão nefasta os elementos da cultura popular como nos tempos de agora. Ou ela resiste ou torna-se algo manipulável por nossas novas repúblicas.

Não desanime amigo. Em Guadalupe certamente verei semblantes cansados de luta, mas às vezes inabaláveis na fé desta mãe tardia que agora nos mostra ser a mãe de uma multidão de mutilados e não mais a mãe da nobreza feudal ou da ganância navegante.

Todas as ideias que se encontram na confusão de seus livros hão de te vaticinar que tenho razão;
Vender livros pessoais é um parto abortado que fazemos seu sepultamento não de apenas um natimorto, e sim de uma multidão de vozes que quiseram a vida.
Dá-los a outrem é sempre discordar de quem os recebeu.
Tomei a decisão de não abrir mão de meus livros e lançar mão de minha ambição intelectual justamente para que eu me torne um homem melhor. E é justamente isto que lhe desejo Senhor Vieira;
Posso me imaginar, desaparecido, em milhares no santuário mexicano lhe desejando isto a você, na quietude de sua La Paz que me espera, assim suponho.

Como sempre,

Então este fui eu que ainda sou qualquer coisa, querendo. Desejando e não sabendo mais sequer de si.
Que direi da constituição das coisas e do mundo? Que direi da realidade? Sinto que eu, este atravessador de estórias, não tenho direito de falar da realidade. A não ser que para meu próprio senso de decência, a realidade é algo tão inverossímil quanto a tudo que ela me tem roubado pelo preço de eu construir minha memória, e ter ansiado que boa parte dela não fosse o que fora, como tivesse sempre sido narrada pelo meu universo próprio de algozes.
Pois sim, inventemos!
Eu saio pela tangente de uma circunferência que só faz enlouquecer, porém volto aos circunlóquios por questões de desequilíbrio.
Aí eu vejo a fortuna: estes semblantes esquecidos pelo tempo que os construiu e depois os absorveu a um estado de completo aniquilamento.
Aí eu os guardo em esquinas não menos ingratas com referência ao que suponho que eles sejam.
Seria também ingratidão escrever que a forma indigna destes sopros é o fato de eles não terem mais compleição para gritos ou para verdades. Terem um lugar no mundo apenas para serem a ficção que já são e o suspiro derradeiro depois das badaladas do relógio ou ao fim de uma viagem longa?
Se o tempo for mesmo esta distração torpe para o que flui em pensamentos nossos, que são ao mesmo tempo renúncia e resistência, ao que deveremos justificar a vinda do ladrão ou ao triplo chamado dos galos que sempre quis negar que conhecemos a vida, e que temos a consciência que as coisas amanhecem.
O que são estas estórias senão uma tentativa de burlar esta vigília tão incerta quanto as suas próprias vontades de vingar e de romper o tempo com o gume dos oceanos e seu duplo: este grande céu, já sem nuvens ou chuva? Este grande céu que por nossa discordância parece ser um anteparo nesta sala de espera entre o medo, o escárnio dos deuses ignorados e animais alados a relincharem a nossa desventura.
Mas o que são estas coisas? Estórias? Engodo? O que é isto que me tira o sono e me faz mentir descaradamente o que realmente sou e o que sempre desejei para a ideia da realidade e, no entanto, sou coagido a acreditar?
Ora, somos! Ora cosmos ora qualquer outra abstração sem garantia de ganhar forma.
Existe uma máquina engendrando soluços e me cooptaram para narrar isto.
Eu escolhi entender o engenho do mundo devolvendo a ele esta desfaçatez. Eu escolhi jogar aos monjolos minha estória de algo que parecemos desvelar como se fosse imperdoável o fato de velar o zelo com o qual somos tolhidos de uma estória que não podemos tentar ser, ou tentar vivê-la.
Qual é esta habilidade dos espíritos do tempo que nos entorpecem com eternidades, promessas, e a imensa força do que não podemos mudar, mas a boicotamos? Persuadimo-nos pelo fato de que nós mesmos que a boicotamos.
Pois sim, eu conto estórias na tentativa de não me esquecê-las delas, com a probabilidade nefasta de me tornar também uma estória, esquecida. E de até desejar isto. E de até pensar que é vã a tentativa de pensar nisso quão brevemente! Quão brevemente!

CANTO FINAL

Acaso fôlego em falta me tivesse algum cheiro é que a brisa me vinha do fígado. Prendi-me a estas palavras por um momento. Depois, saltou-me da própria mão a vontade e assim espatifei na parede mais um cântaro de mulher louca.
Tudo soprou turvo entre a tarde e o esvair de minha seiva de excessos. O pranto é uma necessidade menor pelos tênues descaminhos de tudo que poderia tanto ser coragem e covardia.

Fiz desde sempre minha caminhada uma travessia de engodo a engodo, foi sim uma tarde o resto é abstração de espírito e isto não convém ao mundo.
Pareceu-me que os embustes estavam todos impecavelmente destinados a uma tragédia passional, mas, sim foi uma tarde e não me deparei com mais nada.
Acordei meio interessada em discutir questões teóricas a respeito de coisas geométricas.
A forma é meu desejo de gesto e o desejo de forma alguma conseguira digerir sem chumbinho.

Sempre era subir. Por todas as direções do verbo vir há que se subir. Ir já não tinha tanto sentido. Pois que subir já era estar satisfeita, pois que subir assim terminava. Arrastar as intenções em outro modo era romper com alguma ordem natural.
Sair não era descer era subir um caminho mais duvidoso que chegar.
Dúvida sem fatos não adquire convencimentos mesmo sendo que, chegando era o gerúndio mais alto possível, adquiri fatos e alicerces viscosos.
Meu pulso ofegante e a incomunicabilidade dos correios. Era como se tivessem tirado férias todos os carteiros, ou tivessem tido todos, problemas com a previdência e entrassem em greve de me contar estórias.

Às vezes era sempre Ronaldo, o porteiro que sempre se enganara com a correspondência, era sempre. Às vezes dizia que os moleques poderiam ter roubado as cartas de novo.
Antes lessem coisas sobre meus dados cadastrais do que me vasculhassem os sentidos. Isto que carteiros perderam de suas insígnias, eram meninos insanos, moleques e carteiros, carregando entropia em celulose pelas ladeiras próximas a mim. Eram meninos insanos. Eu mantinha aparências e refugava meus perdigotos, evitava refluxo e gostava de sexo anal. Eu fazia pergaminhos para aquele homem que me dizia nomes em língua estrangeira. Que me trazia algo alfazema pela casa toda.
Sim foi uma tarde que escorreguei de delírios funestos.

Este alumbramento me adormecera novamente por um metabolismo congênito às questões da alma, era como tivera retirado a creolina de todos os meninos embestados.
Tinham depositado a naftalina das gerações em meu armário. Um destinatário subida que me evocava das entranhas.
Um ai de quentura visitava-me a desolação, aquelas senhoras em vigília decantando a parafina em ex-votos. Sua única virtude era terem da chama sua consumação.
Não havia candura ou alvará para acontecermos impunes. O que havia era uma capela ao lado e os homens metódicos vigiando moscas, tratando do fisco e do protocolo.
Outrora o sono fosse mesmo um subterfúgio, mas, vem sempre ao corriqueiro especialmente nisto que se chama solidão.
Pudera borrifar a alquimia da aguarrás nos azulejos e veja, estou com um satanás entre a parede e o ralo, não há solução barata.
As coisas como os prognósticos são nefastas. Sobem dos esgotos pelos sifões e entopem a pia do lavabo. Cifram-me as escovações dentárias depois de sua culinária glande e sêmen. Toda libido de sua origem sírio-libanesa e este Iêmen de sempre explodir, sempre ejacular rebeliões.
É isto que carregas de tuas terras: o ressentimento. Não faço censura apenas ressalva: tudo que carregamos de origem é sempre ressentimento.
Para seus devidos fins, a estivaria te acalmou a revolução, você sentir braço levando grão em toneladas e ocidente em transações que te devem fazer orgulhoso por desconhecê-las

Decerto desconhecer tem sido bom argumento para verdade, digna ou não. O que nos importa aqui é que ao conhecer algo, acaba-se tendo que comprá-lo pelo preço inflacionado da boa reputação.
Não quero te conhecer estivador. Para mim, é bom que tenha outra linguagem e que não adquira os vícios do meu conjugar.
Em todo caso, não se preocupe: as urgências não são mais urgentes. Tome isto como ensinamento a cada vez que subir uma ladeira onde os carteiros e moleques são insanos ladrões de fatos, e ao que eu saiba fatos não são estórias.

Tenho para mim que suas mãos volumosas terem me passeado as costas são algo semelhante a uma estória budista do século III AC, veja como isto é tão etéreo: suas lendas não ficarão em meu corpo, mas, na estivaria sim… Eu serei algo como brisa ou onda. E assim eu gosto de ser. Para tanto, precisamos nos despedir.

Há algum tempo subo ladeiras como prolactina explode colorida em meu céu da boca. As devassas são mais imunes à necessidade de antidepressivos. Minha metonímia de éden é o tabaco que Ronaldo me traz esporadicamente, e nada quis de mim além de me dar tabaco às vezes, mas sempre. Eu quis além do seu fumo saber se ele tinha filhos. Mas isso é coisa besta de perguntar ante a qualidade de éden que ele me traz.
Ronaldo me acerta sem me perfurar o clímax.

Na veia sempre me veio uma fluoxetina natural, era tipo Bob Marley.

Trouxe um unguento de arnica da Padre Belchior, afastei-me deste negócio rima e cansanção; o azeite das raízes é mesmo o muco da terra. Muito se pode fazer e há que se ocultar do óleo que a noite fabrica um delírio dendê e uma compota de figo. Arruda aroeira e manjericão, própolis. É verdade, não recitam Quental nas praças públicas.
Foi embora o tempo das fogueiras agora são foguetes russos e boletos bancários atrasados.

A aguardente deposita fermentação em muitas inércias, quantos dias existem numa fermentação de aguardente e quantos vazios existem dentro de um dia só, é uma curva que fugiu-nos de sua compreensão. Justamente este traçado anti-oblíquo tão facilmente apto ao leme e ao vento. Este que fecha ciclos quando começa a abri-los e que não nos torna obtuso o verso. Em suma tequila de desfazer consensos. Em sumo cachaça mesmo.
Não seriam escadas estes degraus não fossem meus passos ébrios. Não seriam portais estas entradas não fossem breves meus soluços. Seria jaula este elevador não fosse precedido por ladeiras por todos os lados. Seria lar este lugar não fosse estar completamente dentro dele.

Ogiva casulo pólvora e bomba. Há muito tempo é assim Guerra e guerra santa. Foice, enxada e cruz, há muito tempo é assim. Terra e terra santa.
Minha avó desfiou rosários e debulhava milho, pilava tapioca, fumo de rolo. Minha avó viu homem estado atual, estado democrático de direito, belzebu de direita.

Eu moro em território narrativa pós-moderna, mas é como faixa de gaza.

Lá onde os homens estão é a estivaria. Lá é onde os braços pensam a produção. Os outros lugares eu penso que não sabem desfazer-se de seus desejos. O resto do mundo é minha casa, paixão mal resolvida. O dia de são nunca e a liquefação nas pedras fazem parte do meu repertório doente de imagens.
( imageticamente é preferível mesmo estar longe da estivaria )
Lá, onde som e peso tem matéria, meu devaneio não alcança. Este relato é como um excerto da estivaria onde meu universo não encontra absurdo. Existe uma insistência na delicadeza destes últimos insultos: não! Os homens gritam.

O dia dilui o atentado em postas no intervalo do almoço. E eu o suponho aqui em casa, ao mesmo tempo em que penso na destinação das formigas. Estas que deveriam sempre usurpar um vinho do despacho. Que é o espírito o que mais se ignora, portanto, algo precisa de uma determinação material, posto que sexo e trabalho findem em sopro suspirado, já sua matéria seiva em desvario tenta alucinadamente reencontrar o estado morno das coisas. Assim como a cortiça estanca a bebida. E as almas voltam ao limbo

O soluço é um estado alterado da eternidade porque nada precisa do equilíbrio que ele tenta em segundos e depois fracassa, silêncio é a fase mais abrandada da agonia.
Minhas endorfinas me sublimam a falta de potássio.

É como me infectar por seus subterrâneos, meus paraísos subcutâneos, minha massagem masturbação enquanto os homens enriquecem urânio, os motivos do crânio perfurado de Kurt Cobain. Eu tenho alguns espasmos parecidos com isto às vezes.
Vida e morte são uma única carta que trago na manga, meu ilusionismo falhou ante a banca de jurados agora estou exilada em minha casa de morte e ressurreição sem morte, não foi feito para compreender mesmo não.

Acalmem-se, por exemplo, nuvens sempre retornam a alvura e o negrume provoca vislumbrar o verde, a dor no verde, o verde vagar, entre a chuva e o brilho e depois o sol em opacidade. Depois o sol na armadura da clave terceiro acidente, terceiro mundo e terceiro sexo. Três cores primárias, três segredos em Fátima e santíssima trindade, netuno e tridente brotando da enxurrada
Acalmem-se, por exemplo, a histeria alcança os cristais da insanidade, mas, nunca os partiu.

Inaceitavelmente e inapelavelmente, a alma tem seu recanto intocável raiz de muitos desditos entre amor e morte. Ao escolhermos esta sorte precisamos contar com o humor dos deuses. Partilhar loucuras torna-se então algo interessante na negociação com demônios, o enxofre deles é uma usina em regime ferro gusa. Patrulhando nossa deturpada visão de vida, pavimentando as ruas com as mentiras que contamos. Sim foi só uma tarde, mas que pisamos em nossas próprias mentiras isto é certo.

Então ladeiras são mentir em excesso, estado de exceção, engenharia de minas perfurando consciências principalmente em seu processo noite, processo transmatéria transfusão de superfícies em literatura. Transcrição de desacertos em poemas alegres. Transfiguração de gemas neste signo subir. Subir e mais que subir apenas chegar.
Chegar a uma das inverdades mais deleitosas. Perfurando a língua e o espinho da flor.
Persistindo no visgo do muco, sim, foi uma tarde em que eu observava o muro em lodo.
Subia um pequeno caramujo alheio em minha predileção por pequenezas.

Estou anoitecida de muitos jasmineiros na praça de uma memória triste, um olor que atravessa a vida em realidades distintas de sua compleição arvore e flor. Cá com meus botões desabotoados à sua lira ofegante de noite descompassada, folia de noite só.
Solitária, estou seguindo, subindo novamente até algum lugar que é minha casa. Desabrochada de um parto de invernos de um raio que aparta de mim sua constituição fim de tarde sim foi uma tarde, eu subia e cavava uma pedra debaixo de um rio que corria ao contrário. Era uma impressão que eu tinha em ônix.

Inverti a ordem das coisas em Ronaldo. Trouxe-lhe um fumo que ele não gostou, mas, também não tossiu. Notei que seu pigarro era diferente como se fosse verter uma enchente de asmas. Então retornei aos miasmas onde improvisava biombos funcionando como partituras. Dona de mim mesma e ladra de imagens, lavando ladrilhos bioma de alvejantes e microorganismos resistentes. Incandescente indecência azul. Afogado na máquina de lavar. Um bioma dos perfumes frios. Foi uma tarde que eu subia no frio.

Vesti o sol tímido de março, sim, era um março de friezas, era um maço de cigarros abandonado coisa que era boa se voltasse, uma vontade de sugar o sumo da fagulha. Arte fato agulha de bordado. Um desenho triste no movimento das pernas espera inconclusa,
Dormia na leveza de esticar a seda do vestido, a transparência em tesão abortado. O risco era a loucura numa linha ocre, um medo enferrujado no verbo e o peito pulsando uma argila barrenta, na espessura líquida ausente de corpo.

Era um homem de degredos cuja cavidade nasal foi cocaína e algodão, foi um homem de descumprir os silêncios e a ele coube a cova e o equívoco. Era homem que durante trinta anos que me escarafunchou as gavetas e a vida em décadas. Veio morrer de novo nesta tarde de março, a qual já era tarde para conclusões.
Da minha parte, o tive como desleixo. Durante a tarde revisitei sua quentura escondida na cortina que ventava. E me rebentara a cândida face de seu encontro com o que não poderia mais subir. A gravidade me atingira a consciência e era um fato consumado.
Era um homem de ler Beckett em minha labuta. Pudera finalmente isentar-me em salvos-condutos, segredos inatingíveis em gritar mais uma vez.
Atingir brandura.

Sim, foi uma tarde fosso de amálgamas no lastro das essências mais rudes. O ser mais apertado em confusões. Por cânhamos e para visões tempos distorcidos no dia cru. Lá fora o cortejo descia. O cortejo já desce por cinco anos. Eu prefiro escalar outros: em enganos o barro em resina. O óleo dos dias o azeite das páginas e o leite derramado.
E também o açoite da poesia me entrando por baixo da saia. A dança dos espíritos iluminados. E a marcha nupcial depravando as rosas. Alguma evidência farta no véu e no desvelar. Algum prumo que faltou.
Eu ganhava câimbra como uma arquitetura Pablo Picasso, tinha esta ventura quando as tardes amanheciam. Houvera só uma tarde no mundo: Picasso fase azul. O cubismo das ideias era este.

Ronaldo me trouxe bombons. Era o que eu precisava. Tempo é desnecessário e não me justifico mais.

A farsa era um bom jogo, a arquitetura da escalada não mais tinha estas surpresas. Tudo virou langor das pernas ao sopro fumegante da garganta. As línguas de um Cérbero no alto dos infernos em Dante não. De antemão, masturbo-me ao ler Sylvia cujos carontes me eram regras claras de perdição. Desci. Águas eu desci, como do púbis me descessem anáguas puídas. E como se a todo prostíbulo fosse necessário a descida. Decaí estes alaridos em meio aos álamos versão pau Brasil. O resto eu resolvia com soníferos alopáticos.

Nunca seduzi ninguém! Vá embora! O que quer alguém que me vem de tarde supondo que possuo seduções. Ora! Nunca prestei este papel, nunca encenei vontades. Estas me foram absolutamente naturais quase como tudo fosse um cio. Não quero te cheirar as virilhas em busca do licor que deliras no discurso, olha, basta ver a lista telefônica além é claro de encontrar putas, todo o resto será obsceno.
Minha criança… Não tenho mais furor para suas excentricidades… Não sou a louca a tirar leite de suas pedras!

Sim foi uma tarde que você me dissera ejacular pedras. Naturalmente aceitei o argumento porque estamos no confim da civilização. A lua poderia ter sido menos inóspita, rochas constituindo pó é tudo que depura no seu poro. Deveras me fizeste sentir uma lunática. Mas as pedras chovem para todos os hemisférios, coloca um som aí na vitrola, me exagera na sua vitrina de descalabros e me cale esta latrina.

Ronaldo hoje fez um comentário a respeito do tempo. Aí o tempo passou a me importar somente nele.

Hoje tinha sido sempre. Tudo no gosto amargo vidro e corte na garganta, o passado veio me visitar na penteadeira. Aqui no cume da ribanceira foi quando liberdade manifestou-me seu calor de masmorra. Um torpor apocalíptico me beija o seio da face. Uma apoteose me brinda lá fora carnavais e odisseias, bacanais e epopeias. Olímpico esteve comigo, o senhor das Macabeias. Todo saciado de suas outras Ofélias.

Tarde passou para dia inteiro, dia inteiro passou a ser noite e infinito nela, tarde passou para a vida toda depois passou a se chamar tempo. O mesmo que Ronaldo praguejou ainda hoje em outro lugar por subir. Só sua atemporalidade lhe permitira fazer o que fez. Tudo o que se passa não tirou do lugar sua cadeira enquanto o doce azeda e os místicos plantam o perdão nas rochas.

Os homens todos se ergueram do ocidente, pois o resto passou a doer os ossos.
A vitalidade daquela mulher me vinha por suas narinas expulsando nicotina em dióxido de alguma coisa fruto de sua fúria com o som de mundo, incessantemente mais hostil que seu vernáculo de bruxa e seu oráculo de totens. Pré Colômbia América dos gemidos. As tumbas soluçam os séculos que nos sucederão no desastre de agora, nas catástrofes pontuais de outros tempos que sempre foram presentes, sempre serão, amém aos pobres diabos. Em nome do retorno do califado. Tirem-me esta mulher da sala que me foi a visão do inferno.

Os homens todos se calaram e se curvaram sentido Meca. Ramadan de velórios apaixonados.

Ronaldo me viu passar aflita e manteve silêncio.

É do hospício que produzo esta fala, a partir de agora terá sido sempre de dentro do hospício, a partir de agora rompo com todos os pactos. E também a partir de agora estarei aqui porque mijava nas ruas e tudo foi uma tarde, tarde surto tardio, arde o susto.
Eles vem porque Ronaldo me viu passar aflita. E a partir de agora será mais uma sessão de eletro choque.

Oriente-se melhor em relação às violações das democracias do mundo de noites ímpares. Há de haver uma mulher que espera tecendo e depois… Um Bispo. O resto não hei de confundir com totalitarismo, com bombas homem as mais perversas formas de violência… As que se atam ao peito e as que pulsam na paixão.
A perversão da bomba é a paixão que ela consegue movimentar no globo os fantasmas.
Ah! As possessões humanas e seu autoritarismo… Estão me injetando uma seiva de sono estéril. Oriente-se melhor.

Os arquétipos dormiam em meus braços antes da sua chuva de espermas, foi tudo violência de maresia e apetite nos seios. Mas não… Nunca tive problemas com isto. Por dentro realmente não é o quê as pessoas dizem. Vai pode gozar, mas não me defenda instituições.

Tirem-me esta mulher da sala seu perfume barato de alcoviteira de desgraças me provoca náusea. Tirem-na daqui antes que eu vomite. Este senhor também parece não ter noção do ridículo de sua calvície, miopia e bigodes brancos. Soam assim tão incompetentemente piedosos ora façam-me o favor… Tragam-me aquele que parece querer sair e parece sentir por mim a mesma ojeriza que sinto por tudo o mais.

Tenho sessenta e dois anos: suja e reclusa. Não me venham com este pudor jaleco branco que eu não engulo mais nada a não ser o pavor que sinto.

Era Ronaldo novamente calado.

Foi uma tarde. A única coisa que me vem à cabeça agora é que foi de tarde. Deram-me uma muda de roupas que há muito não as reconhecia como minhas, mas, que iriam me vestir instantes depois. Até esta clausura este silêncio mórbido que minha boca termina agora de romper as vergonhas e as culpas de uma mazela que sou fim e meio, mas, que introduziram bem cedo o que agora não pratico: a mudez e a parcimônia ao ato de proferir o pecado praticado. Acredito que não há outros males no mundo, este mundinho cristão de província.
Ao final do corredor trancafiado estava me esperando Ronaldo com alguns objetos pessoais que estavam anteriormente retidos.

SEGUNDA PARTE

INVENTÁRIO DA LOUCURA

“… Que fazes, me despedes? Não, eu não vou a nenhum lado. Foi mentira esse pedido que eu fiz a Deus. Aldrabei Lhe bem. Eu não quero subir para lá, para as eternidades. Eu quero ser pássaro é para voar a vida. Eu quero viajar é neste mundo. E este mundo, meu filho, é coisa para não se deixar por nada desse mundo.”
Mia Couto

Este livro é essencialmente um livro de contos que se propõe a burlar seus próprios códigos, podendo ser visto também como um conto apenas e sem muitas regras de alteração das vozes narrativas (acaso escrevemos livros apenas para leituras dispersas ou não poderíamos também propositalmente dispersar a narrativa a fim de exigirmos o contrário, ou seja, a atenção do leitor?)
Por vezes, o texto em prosa, cria em sua forma de narrar, uma ambientação propícia ao leitor (esta ambientação é meramente um recurso que o texto cria para iludir-se juntamente com o leitor de que aquilo que é contado não é descrito para o leitor exclusivamente, pelo menos a princípio.)
Estas representações, apenas corroboram para que o texto se afirme como ficção, desta forma. Perdemos, totalmente, um melhor senso para discernirmos estas coisas de nossas realidades (se é que ainda precisaríamos disto.)
Portanto alguns textos aqui que possuem maiores atribuições sobre algumas realidades acerca da loucura, são embutidos, sem nenhuma cerimônia, a outros que, pelo menos, pretensamente, são diferentes.
O resultado pode ser mesmo um alfarrábio de esquisitices, mas, destinadas a denunciar o estado da realidade entre as ficções como o maior dos absurdos, a maior das loucuras.

Conto: S. m. 1. Liter. Narrativa pouco extensa, concisa, breve. 2. Narrativa falada ou escrita. 3. Conto da carochinha…

Narrar: v.t.d., t.d. e. i., e. t., 1. Expor minuciosamente. 2. Expor, contar, relatar; referir. 3. Pôr em memória; registrar; historiar.

Fonte: Dicionário Aurélio.

CANTO INICIAL

Acaso fôlego em falta me tivesse algum cheiro é que a brisa me vinha do fígado. Prendi-me a estas palavras por um momento. Depois, saltou-me da própria mão a vontade e assim espatifei na parede mais um cântaro de mulher louca.
Tudo soprou turvo entre a tarde e o esvair de minha seiva de excessos. O pranto é uma necessidade menor pelos tênues descaminhos de tudo que poderia tanto ser coragem e covardia.

Fiz desde sempre minha caminhada uma travessia de engodo a engodo, foi sim uma tarde o resto é abstração de espírito e isto não convém ao mundo.
Pareceu-me que os embustes estavam todos impecavelmente destinados a uma tragédia passional, mas, sim foi uma tarde e não me deparei com mais nada.
Acordei meio interessada em discutir questões teóricas a respeito de coisas geométricas.
A forma é meu desejo de gesto e o desejo de forma alguma conseguira digerir sem chumbinho.

Sempre era subir. Por todas as direções do verbo vir há que se subir. Ir já não tinha tanto sentido. Pois que subir já era estar satisfeita, pois que subir assim terminava. Arrastar as intenções em outro modo era romper com alguma ordem natural.
Sair não era descer era subir um caminho mais duvidoso que chegar.
Dúvida sem fatos não adquire convencimentos mesmo sendo que, chegando era o gerúndio mais alto possível, adquiri fatos e alicerces viscosos.
Meu pulso ofegante e a incomunicabilidade dos correios. Era como se tivessem tirado férias todos os carteiros, ou tivessem tido todos, problemas com a previdência e entrassem em greve de me contar estórias.

Às vezes era sempre José, o porteiro que sempre se enganara com a correspondência, era sempre. Às vezes dizia que os moleques poderiam ter roubado as cartas de novo.
Antes lessem coisas sobre meus dados cadastrais do que me vasculhassem os sentidos. Isto que carteiros perderam de suas insígnias, eram meninos insanos, moleques e carteiros, carregando entropia em celulose pelas ladeiras próximas a mim. Eram meninos insanos. Eu mantinha aparências e refugava meus perdigotos, evitava refluxo e gostava de sexo anal. Eu fazia pergaminhos para aquele homem que me dizia nomes em língua estrangeira. Que me trazia algo alfazema pela casa toda.
Sim foi uma tarde que escorreguei de delírios funestos.

Este alumbramento me adormecera novamente por um metabolismo congênito às questões da alma, era como tivera retirado a creolina de todos os meninos embestados.
Tinham depositado a naftalina das gerações em meu armário. Um destinatário subida que me evocava das entranhas.
Um ai de quentura visitava-me a desolação, aquelas senhoras em vigília decantando a parafina em ex-votos. Sua única virtude era terem da chama sua consumação.
Não havia candura ou alvará para acontecermos impunes. O que havia era uma capela ao lado e os homens metódicos vigiando moscas, tratando do fisco e do protocolo.
Outrora o sono fosse mesmo um subterfúgio, mas, vem sempre ao corriqueiro especialmente nisto que se chama solidão.
Pudera borrifar a alquimia da aguarrás nos azulejos e veja, estou com um satanás entre a parede e o ralo, não há solução barata.
As coisas como os prognósticos são nefastas. Sobem dos esgotos pelos sifões e entopem a pia do lavabo. Cifram-me as escovações dentárias depois de sua culinária glande e sêmen. Toda libido de sua origem sírio-libanesa e este Iêmen de sempre explodir, sempre ejacular rebeliões.
É isto que carregas de tuas terras: o ressentimento. Não faço censura apenas ressalva: tudo que carregamos de origem é sempre ressentimento.
Para seus devidos fins, a estivaria te acalmou a revolução, você sentir braço levando grão em toneladas e ocidente em transações que te devem fazer orgulhoso por desconhecê-las

Decerto desconhecer tem sido bom argumento para verdade, digna ou não. O que nos importa aqui é que ao conhecer algo, acaba-se tendo que comprá-lo pelo preço inflacionado da boa reputação.
Não quero te conhecer estivador. Para mim, é bom que tenha outra linguagem e que não adquira os vícios do meu conjugar.
Em todo caso, não se preocupe: as urgências não são mais urgentes. Tome isto como ensinamento a cada vez que subir uma ladeira onde os carteiros e moleques são insanos ladrões de fatos, e ao que eu saiba fatos não são estórias.

Tenho para mim que suas mãos volumosas terem me passeado as costas são algo semelhante a uma estória budista do século III AC, veja como isto é tão etéreo: suas lendas não ficarão em meu corpo, mas, na estivaria sim… Eu serei algo como brisa ou onda. E assim eu gosto de ser. Para tanto, precisamos nos despedir.

Há algum tempo subo ladeiras como prolactina explode colorida em meu céu da boca. As devassas são mais imunes à necessidade de antidepressivos. Minha metonímia de éden é o tabaco que José me traz esporadicamente, e nada quis de mim além de me dar tabaco às vezes, mas sempre. Eu quis além do seu fumo saber se ele tinha filhos. Mas isso é coisa besta de perguntar ante a qualidade de éden que ele me traz.
José me acerta sem me perfurar o clímax.

Na veia sempre me veio uma fluoxetina natural, era tipo Bob Marley.

Trouxe um unguento de arnica da Padre Belchior, afastei-me deste negócio rima e cansanção; o azeite das raízes é mesmo o muco da terra. Muito se pode fazer e há que se ocultar do óleo que a noite fabrica um delírio dendê e uma compota de figo. Arruda aroeira e manjericão, própolis. É verdade, não recitam Quental nas praças públicas.
Foi embora o tempo das fogueiras agora são foguetes russos e boletos bancários atrasados.

A aguardente deposita fermentação em muitas inércias, quantos dias existem numa fermentação de aguardente e quantos vazios existem dentro de um dia só, é uma curva que fugiu-nos de sua compreensão. Justamente este traçado anti-oblíquo tão facilmente apto ao leme e ao vento. Este que fecha ciclos quando começa a abri-los e que não nos torna obtuso o verso. Em suma tequila de desfazer consensos. Em sumo cachaça mesmo.
Não seriam escadas estes degraus não fossem meus passos ébrios. Não seriam portais estas entradas não fossem breves meus soluços. Seria jaula este elevador não fosse precedido por ladeiras por todos os lados. Seria lar este lugar não fosse estar completamente dentro dele.

Ogiva casulo pólvora e bomba. Há muito tempo é assim Guerra e guerra santa. Foice, enxada e cruz, há muito tempo é assim. Terra e terra santa.
Minha avó desfiou rosários e debulhava milho, pilava tapioca, fumo de rolo. Minha avó viu homem estado atual, estado democrático de direito, belzebu de direita.

Eu moro em território narrativa pós-moderna, mas é como faixa de gaza.

Lá onde os homens estão é a estivaria. Lá é onde os braços pensam a produção. Os outros lugares eu penso que não sabem desfazer-se de seus desejos. O resto do mundo é minha casa, paixão mal resolvida. O dia de são nunca e a liquefação nas pedras fazem parte do meu repertório doente de imagens.
( imageticamente é preferível mesmo estar longe da estivaria )
Lá, onde som e peso tem matéria, meu devaneio não alcança. Este relato é como um excerto da estivaria onde meu universo não encontra absurdo. Existe uma insistência na delicadeza destes últimos insultos: não! Os homens gritam.

O dia dilui o atentado em postas no intervalo do almoço. E eu o suponho aqui em casa, ao mesmo tempo em que penso na destinação das formigas. Estas que deveriam sempre usurpar um vinho do despacho. Que é o espírito o que mais se ignora, portanto, algo precisa de uma determinação material, posto que sexo e trabalho findem em sopro suspirado, já sua matéria seiva em desvario tenta alucinadamente reencontrar o estado morno das coisas. Assim como a cortiça estanca a bebida. E as almas voltam ao limbo

O soluço é um estado alterado da eternidade porque nada precisa do equilíbrio que ele tenta em segundos e depois fracassa, silêncio é a fase mais abrandada da agonia.
Minhas endorfinas me sublimam a falta de potássio.

É como me infectar por seus subterrâneos, meus paraísos subcutâneos, minha massagem masturbação enquanto os homens enriquecem urânio, os motivos do crânio perfurado de um suicida. Eu tenho alguns espasmos parecidos com isto às vezes.
Vida e morte são uma única carta que trago na manga, meu ilusionismo falhou ante a banca de jurados agora estou exilada em minha casa de morte e ressurreição sem morte, não foi feito para compreender mesmo não.

Acalmem-se, por exemplo, nuvens sempre retornam a alvura e o negrume provoca vislumbrar o verde, a dor no verde, o verde vagar, entre a chuva e o brilho e depois o sol em opacidade. Depois o sol na armadura da clave terceiro acidente, terceiro mundo e terceiro sexo. Três cores primárias, três segredos em Fátima e santíssima trindade, netuno e tridente brotando da enxurrada.
Acalmem-se, por exemplo, a histeria alcança os cristais da insanidade, mas, nunca os partiu.

Inaceitavelmente e inapelavelmente, a alma tem seu recanto intocável raiz de muitos desditos entre amor e morte. Ao escolhermos esta sorte precisamos contar com o humor dos deuses. Partilhar loucuras torna-se então algo interessante na negociação com demônios, o enxofre deles é uma usina em regime ferro gusa. Patrulhando nossa deturpada visão de vida, pavimentando as ruas com as mentiras que contamos. Sim foi só uma tarde, mas que pisamos em nossas próprias mentiras isto é certo.

Então ladeiras são mentir em excesso, estado de exceção, engenharia de minas perfurando consciências principalmente em seu processo noite, processo transmatéria transfusão de superfícies em literatura. Transcrição de desacertos em poemas alegres. Transfiguração de gemas neste signo subir. Subir e mais que subir apenas chegar.
Chegar a uma das inverdades mais deleitosas. Perfurando a língua e o espinho da flor.
Persistindo no visgo do muco, sim, foi uma tarde em que eu observava o muro em lodo.
Subia um pequeno caramujo alheio em minha predileção por pequenezas.

Estou anoitecida de muitos jasmineiros na praça de uma memória triste, um olor que atravessa a vida em realidades distintas de sua compleição arvore e flor. Cá com meus botões desabotoados à sua lira ofegante de noite descompassada, folia de noite só.
Solitária, estou seguindo, subindo novamente até algum lugar que é minha casa. Desabrochada de um parto de invernos de um raio que aparta de mim sua constituição fim de tarde sim foi uma tarde, eu subia e cavava uma pedra debaixo de um rio que corria ao contrário. Era uma impressão que eu tinha em ônix.

Inverti a ordem das coisas em José. Trouxe-lhe um fumo que ele não gostou, mas, também não tossiu. Notei que seu pigarro era diferente como se fosse verter uma enchente de asmas. Então retornei aos miasmas onde improvisava biombos funcionando como partituras. Dona de mim mesma e ladra de imagens, lavando ladrilhos bioma de alvejantes e micro-organismos resistentes. Incandescente indecência azul. Afogado na máquina de lavar. Um bioma dos perfumes frios. Foi uma tarde que eu subia no frio.

Vesti o sol tímido de março, sim, era um março de friezas, era um maço de cigarros abandonado coisa que era boa se voltasse, uma vontade de sugar o sumo da fagulha. Arte fato agulha de bordado. Um desenho triste no movimento das pernas espera nunca desfeita
Dormia na leveza de esticar a seda do vestido, a transparência em tesão abortado. O risco era a loucura numa linha ocre, um medo enferrujado no verbo e o peito pulsando uma argila barrenta, na espessura líquida ausente de corpo.

Era um homem de degredos cuja cavidade nasal foi cocaína e algodão, foi um homem de descumprir os silêncios e a ele coube a cova e o equívoco. Era homem que durante trinta anos que me escarafunchou as gavetas e a vida em décadas. Veio morrer de novo nesta tarde de março, a qual já era tarde para conclusões.
Da minha parte, o tive como desleixo. Durante a tarde revisitei sua quentura escondida na cortina que ventava. E me rebentara a cândida face de seu encontro com o que não poderia mais subir. A gravidade me atingira a consciência e era um fato consumado.
Era um homem de ler Beckett em minha labuta. Pudera finalmente isentar-me em salvos-condutos, segredos inatingíveis em gritar mais uma vez.
Atingir brandura.

Sim, foi uma tarde fosso de amálgamas no lastro das essências mais rudes. O ser mais apertado em confusões. Por cânhamos e para visões tempos distorcidos no dia cru. Lá fora o cortejo descia. O cortejo já desce por cinco anos. Eu prefiro escalar outros: em enganos o barro em resina. O óleo dos dias o azeite das páginas e o leite derramado.
E também o açoite da poesia me entrando por baixo da saia. A dança dos espíritos iluminados. E a marcha nupcial depravando as rosas. Alguma evidência farta no véu e no desvelar. Algum prumo que faltou.
Eu ganhava câimbra como uma arquitetura Pablo Picasso, tinha esta ventura quando as tardes amanheciam. Houvera só uma tarde no mundo: Picasso fase azul. O cubismo das ideias era este.

José me trouxe bombons. Era o que eu precisava. Tempo é desnecessário e não me justifico mais.

A farsa era um bom jogo, a arquitetura da escalada não mais tinha estas surpresas. Tudo virou langor das pernas ao sopro fumegante da garganta. As línguas de um Cérbero no alto dos infernos em Dante não. De antemão, masturbo-me ao ler Sylvia cujos carontes me eram regras claras de perdição. Desci. Águas eu desci, como do púbis me descessem anáguas puídas. E como se a todo prostíbulo fosse necessário a descida. Decaí estes alaridos em meio aos álamos versão pau Brasil. O resto eu resolvia com soníferos alopáticos.

Nunca seduzi ninguém! Vá embora! O que quer alguém que me vem de tarde supondo que possuo seduções. Ora! Nunca prestei este papel, nunca encenei vontades. Estas me foram absolutamente naturais quase como tudo fosse um cio. Não quero te cheirar as virilhas em busca do licor que deliras no discurso, olha, basta ver a lista telefônica além é claro de encontrar putas, todo o resto será obsceno.
Minha criança… Não tenho mais furor para suas excentricidades… Não sou a louca a tirar leite de suas pedras!

Sim foi uma tarde que você me dissera ejacular pedras. Naturalmente aceitei o argumento porque estamos no confim da civilização. A lua poderia ter sido menos inóspita, rochas constituindo pó é tudo que depura no seu poro. Deveras me fizeste sentir uma lunática. Mas as pedras chovem para todos os hemisférios, coloca um som aí na vitrola, me exagera na sua vitrina de descalabros e me cale esta latrina.

José hoje fez um comentário a respeito do tempo. Aí o tempo passou a me importar somente nele.

Hoje tinha sido sempre. Tudo no gosto amargo vidro e corte na garganta, o passado veio me visitar na penteadeira. Aqui no cume da ribanceira foi quando liberdade manifestou-me seu calor de masmorra. Um torpor apocalíptico me beija o seio da face. Uma apoteose me brinda lá fora carnavais e odisseias, bacanais e epopeias. Olímpico esteve comigo, o senhor das Macabeias. Todo saciado de suas outras Ofélias.

Tarde passou para dia inteiro, dia inteiro passou a ser noite e infinito nela, tarde passou para a vida toda depois passou a se chamar tempo. O mesmo que José praguejou ainda hoje em outro lugar por subir. Só sua atemporalidade lhe permitira fazer o que fez. Tudo o que se passa não tirou do lugar sua cadeira enquanto o doce azeda e os místicos plantam o perdão nas rochas.

Os homens todos se ergueram do ocidente, pois o resto passou a doer os ossos.
A vitalidade daquela mulher me vinha por suas narinas expulsando nicotina em dióxido de alguma coisa fruto de sua fúria com o som de mundo, incessantemente mais hostil que seu vernáculo de bruxa e seu oráculo de totens. Pre-Colômbia América dos gemidos. As tumbas soluçam os séculos que nos sucederão no desastre de agora, nas catástrofes pontuais de outros tempos que sempre foram presentes, sempre serão, amém aos pobres diabos. Em nome do retorno do califado. Tirem-me esta mulher da sala que me foi a visão do inferno.

Os homens todos se calaram e se curvaram sentido Meca. Ramadan de velórios apaixonados.

José me viu passar aflita e manteve silêncio.

É do hospício que produzo esta fala, a partir de agora terá sido sempre de dentro do hospício, a partir de agora rompo com todos os pactos. E também a partir de agora estarei aqui porque mijava nas ruas e tudo foi uma tarde, tarde surto tardio, arde o susto.
Eles vêm porque José me viu passar aflita. E a partir de agora será mais uma sessão de eletro choque.

Oriente-se melhor em relação às violações das democracias do mundo de noites ímpares. Há de haver uma mulher que espera tecendo e depois… Um Bispo. O resto não hei de confundir com totalitarismo, com bombas homem as mais perversas formas de violência… As que se atam ao peito e as que pulsam na paixão.
A perversão da bomba é a paixão que ela consegue movimentar no globo os fantasmas.
Ah! As possessões humanas e seu autoritarismo… Estão me injetando uma seiva de sono estéril. Oriente-se melhor.

Os arquétipos dormiam em meus braços antes da sua chuva de espermas, foi tudo violência de maresia e apetite nos seios. Mas não… Nunca tive problemas com isto. Por dentro realmente não é o quê as pessoas dizem. Vai pode gozar, mas não me defenda instituições.

Tirem-me esta mulher da sala seu perfume barato de alcoviteira de desgraças me provoca náusea. Tirem-na daqui antes que eu vomite. Este senhor também parece não ter noção do ridículo de sua calvície, miopia e bigodes brancos. Soam assim tão incompetentemente piedosos ora façam-me o favor… Tragam-me aquele que parece querer sair e parece sentir por mim a mesma ojeriza que sinto por tudo o mais.

Tenho sessenta e dois anos: suja e reclusa. Não me venham com este pudor jaleco branco que eu não engulo mais nada a não ser o pavor que sinto.

Era José novamente calado.

Foi uma tarde. A única coisa que me vem à cabeça agora é que foi de tarde. Deram-me uma muda de roupas que há muito não as reconhecia como minhas, mas, que iriam me vestir instantes depois. Até esta clausura este silêncio mórbido que minha boca termina agora de romper as vergonhas e as culpas de uma mazela que sou fim e meio, mas, que introduziram bem cedo o que agora não pratico: a mudez e a parcimônia ao ato de proferir o pecado praticado. Acredito que não há outros males no mundo, este mundinho cristão de província.
Ao final do corredor trancafiado estava me esperando José com alguns objetos pessoais que estavam anteriormente retidos.

III

Trabalho na fábrica de sapatos já faz algum tempo. Aprendi a fazer sapatos e gosto disto. Tudo que foi antes não voltará no meu depois. Tenho uma ânsia em fazer sapatos cada vez melhores e é isto que me move.
Para onde estou me movendo, paradoxalmente, é uma questão de para onde meus sapatos estão me levando.
Aprendi a oferecer cigarros aos colegas de trabalho, pois suponho ser muito difícil descobrir onde está o sentido em fabricar sapatos. Embora seja muito importante, tenho para mim que todas as árduas tarefas não vêm com sua concepção. Portanto, é preciso ter muita paciência com os fabricantes. Toda indústria está a seus pés. Em destino manufaturado.
Compreender estas coisas sem cigarros, ou álcool, ou tranquilizantes é uma temeridade.

Por causa disso, discorrerei sobre a fábrica onde trabalho, para que não haja dúvidas sobre o que faço e, por consequência, sobre o que penso.
O setor do solamento é vital. Pense na generosidade destes homens que depois de desenharem o relevo da sola do sapato, através das suposições conhecidas das hostilidades do chão, estudam matéria mais apropriada para suportar uma longa caminhada. Às vezes, é preciso correr, às vezes, é preciso saltar.
Para tanto o molde precisa aferir minuciosamente o material e a forma. Há que se pensar a forma em matéria e moldura.
Posteriormente, os elementos da sola do sapato passam por um teste de resistência. Há que se prevenir que os sapatos suportem a dor da pisada. São dobrados e esticados em várias simulações onde os pés estejam em alguma dificuldade.
Há que se prever que pisar é difícil.
Após estes testes, os moldes são incorporados uns aos outros, formando assim um conjunto de proteção através de uma cola resistente.
As peças coladas necessitam estar compactas, pois pisar não é um ato que se espalha.

O setor das palmilhas, penso eu, deve ser o setor de maior sensibilidade na fábrica. Por várias vezes vi operários fazendo palmilhas ao som de música erudita.
Trocando em miúdos, a palmilha é a erudição dos sapatos e dos pés.
É necessário saber a suavidade dos pés. O chão nos regurgita a violência, mas os pés inventam os passos e a dança. Os pés inventam o baile.
Palmilhas têm que dispor da maciez da música, esta maciez é a justa forma! A sensação de andar sobre música nos ajuda a caminhar nas pedras.
Quem procura por nossos sapatos macios busca também fazer música das rochas, fazer som dos pedregulhos.
A orientação do caminhar então torna-se organizar sons. Sentir o andar em música.

O setor da confecção tem sido injustiçado pelos humanistas. Eles dizem que confeccionamos para a publicidade vender mentiras e que o capitalismo não tem jeito.
Ora, pois que se façam sapatos uniformes e quero ver… A estampa é algo que o povo procura como quem procurasse por cheiros e como quem intuitivamente agradasse deles. O desenho que agrada o comprador é algo que agradou primeiro quem o desenhou, e quem cortou seu molde e montou-o na estrutura que se conhece por sapato.
Os humanistas não seriam tão insensatos em dizer que o que agrada a maioria não é consumido a esmo.
Desenhar a confecção, cortá-la em molde, montá-la em sapato é, antes de mais nada, um divertimento. Pois que criações são, assim, divertimentos.
O setor dos cadarços é o mais mecânico. Fazem-se cadarços apenas para amarrar os laços. Pudera também não pensar calçar qualquer coisa sem a firmeza do nó para atar os laços.
Eles têm duas pontas, cada qual trabalhada em modelagem para que entrem nos furos do calçado sem transtornos. Este é o mistério dos cadarços.

Não obstante, amarrar os cadarços e fazer os laços pode ser deveras um transtorno.
Há espíritos que querem abster-se deste fazer. Para eles, pisar é irrelevante.

Conhecer os caminhos talvez seja mesmo irrelevante.
Existem erros inevitáveis de qualquer desvio, por mais ágil que seja a manobra.

II

Eles não supõem as baratas, os contágios, mazelas gerais e a violência do cárcere, em restaurantes, lanchonetes, motéis e afins. Acham que o lixo está extirpado deles. Quando não, está no mínimo na sola de seus sapatos, ou então em seus corpos doentes e infeccionados.
Este lugar é uma representação fidedigna da doença venérea do mundo. Todo cancro não está senão no mundo.
E o que é confinamento a não ser a incompetência do mundo para consigo mesmo.

Quanta sabedoria poderia estar escamoteada nos porões do ocidente. As gentilezas terminam quando se descobre a realidade hipócrita de banhar os arquétipos com águas de cheiro.
Os gestos não precisam de comiseração, sua força em torno de si já pressupõe verdades.
Verdades precisam se isentar de representações e encenação.

Quando os homens passarão a comer à distância dos ratos, não sei, mas, estamos longe disso. Esquecer os ratos é esquecer o esgoto, esquecer o esgoto é esquecer as fezes, esquecer as fezes significa esquecer e comer.
No entanto, sabemos que esquecer é uma virtude dos homens de boa vontade (assim como não esquecemos genocídios).
Contudo, esquecer é a alma do negócio.

Colocam algo em nosso feijão. Não temos libido. O fermento do mundo é uma libido castrada cometendo enganos imperdoáveis.
Os domingos cantam o perdão. Afinal de contas, deus descansou.
Enfim deus descansa, e os homens também acham que repousam, quando pensam que aquilo que estão a obedecer é justo e necessário.

Quantas doenças não poderiam ter fim não fosse a indústria e seus servidores cegos. Parece que só adquirimos visão quando a dignidade nos bate à porta diante desta farsa. Querem a democracia e explodem morteiros, então aí está a democracia. Querem a guerra e dizem ser de paz, então aí está a guerra.
Um líquido negro e viscoso corrompe o homem. Ele está na profundeza, está a rodar fortuna jorrando do subterrâneo. Da casa de máquinas, da máquina do mundo.

Para se enganar, é preciso ser comum. E nos enganam vendendo comum como algo bom, como se tudo o mais fosse comum. Para enganar de verdade, é preciso esperteza e covardia, o dinheiro faz o resto.
Este vírus está no mundo, assim como filósofos, padres e poetas sempre estiveram.

É muita arrogância achar-se isento. Não estamos imunes. Todos sujeitos a tudo. Todos sujos da mesma sujeira. A vida se fez carne e podridão. O verbo se fez justo e se fez confusão. Cantem inutilmente os trovadores, boêmios e apaixonados.
É pena não virem aqui, poderíamos profetizar a eles o fim…

Mas as pérolas do mundo estão justamente na angústia. Pena que muitos achem isto algo sofisticado como música para concerto. A angústia dos loucos e perdulários está condenada a esta balança mensurando mentira que vingará se não como o grunhido de uma besta fera de primórdios infernais.

Não há primórdio, passado, não há futuro senão o hoje. Este é todo o tempo em que vivemos. Não há narrativas. Existe um caminho ao retorno. Todas as coisas devem repousar em seu fim. E não há redenção. As pérolas do mundo são sim angústia, pois precisam do juízo.
Estamos aquém de qualquer juízo que se invente.

Não entendo mais. Chamam-nos puritanos neste lugar imundo. Temos coragem de dizer que nossa força é negar esta condição poluída, contaminada, sem deixarmos de sermos homens em verdade conosco.

O senhor amarre esta corda no teto depois de fumarmos e derruba-me deste parapeito. Se somos culpados pela vida, a morte também há de nos cobrar seu quinhão.

Contarei agora com a segunda morte.

O corpo dela precisa da morte naquele ambiente. Não roubarei de si seu próprio morrer. Deixarei que as paredes suguem o mau cheiro de sua dissolução.
Vagarei pela noite buscando os sinais do éter de seu esvair.
Não voltarei ao lugar que joguei minha sorte derradeira. Toda a decomposição necessária será natural. Não adulterarei a cena de seu desejo, a cena do crime. Seu entorpecimento ganhará ataúde ao acaso. Não farei movimentos neste sentido.

Está frio! O senhor parece estar quente. Sua febre advém de solidão forjada. Eu leio sua mão por três contos. E de antemão aviso que passará a noite na rua, nunca fez isto, mas suportará.
Tudo bem que ache uma besteira, mas faço outros serviços por três contos…

Três contos eram a minha conta. Não precisei desembolsá-los. Procediam as informações de noite ao relento, ao tempo livre de telhados. Preso ao mistério de saber sem outra coisa como corpo de vida.
A morte veio a ela e ao feno. Assim percebi meus sapatos.

Verdadeiramente, a cabana tinha feno. Destituí do sapato o peso do cadarço em nó.

O laço que prendia a manhã desatinou com sol implacável e fabricantes de sapato ocupando um espaço que se encenava diariamente, eles não entrariam em enredo algum se não estivessem à procura de reconciliação, buscando reparação.
Seus movimentos previsíveis resgatavam o intuito de que qualquer movimento bruscamente diferente ser de impunes precedentes.
Tudo caminhava ao itinerário da fábrica. Nada livra, no entanto, o operário de ser estrangulado na avenida central.

Está frio! O senhor parece estar quente. Sua febre advém de solidão forjada. Faço cinquenta sapatos por dia e já me acostumei a não esquentar o corpo. Às vezes sinto frio em pleno galpão fechado, com os motores ligados. É como uma lareira, mas sinto frio!

Dei-lhe um cigarro, pois fiquei imaginando que, quando morresse, nem o inferno o aqueceria. A compaixão é sim um sentimento maldoso, só se tem quando se ignora.

O senhor está preso!

Um dos sapateiros vizinhos chamou a polícia. Acharam-me a três quadras de casa. Dois dias após o acontecido. Eu vagava pela vizinhança, eu era outra coisa que não participava. Eles…
Antes de ir para a cela revistaram meus sapatos.

I

O senhor volte amanhã. Percebo o olhar amargurado de longe e à distância. Volta pra casa… Mas eu aceito o seu cigarro. Outro dia a gente conversa. Agora eu vou dormir. Preciso dormir antes de suas novidades. Sua mulher deve estar te esperando. A noite é estranha. Mire, estão conversando ali, parecem muito apaixonados. Devemos lembrar-nos destas coisas.

A ventania deste e de todos os verbos reunidos numa marquise sem relógios engolia o tempo da memória em suposta reconciliação. Estes provérbios tragados a seco, obrigado, estou melhorando.
Vou depurando a noite que te habita em narinas enfumaçadas e esquinas de mais naufrágios.

Olha, não vá beber! Temos aquecido as provisões tão calmamente neste inverno! Tão caladamente roça-me tua barba sem espumas e vapor sem álcool. É uma fumaça de dar inveja às confeiteiras que vão, de esquina em esquina, laborando o pão da manhã num itinerário de madrugadas.
Não viram, tais desgraçadas, seu ímpeto que é uma usina obscena. Alimenta-me no ébrio de qualquer errante que perdeu sua poesia e faro romântico de pássaros e frutas.

De quais feituras respirava aquela vontade praticamente insensata! Aquele sopro de disparates proferido de gargantas e ranhuras na cava do espírito: a porta aberta do corpo. O corpo desejando fogo e abrandar fogo. As agruras de mais uma noite morna, sem escândalos ou negligências comuns. A paixão vinha de uma fossa de palavras impronunciáveis. Algo próprio do recolhimento dos delírios. Compartilhá-los no leito de secretas injúrias.

Eles passam muito indiferentes! Ainda nos cobram presença depois! Estou cansada de participar. Meu mundo seria perfeitamente nossa cama. Tramemos revoluções silenciosas entre nossas virilhas. No calmo recôndito acorde dos alaúdes em sua orelha que profiro inutilidades. Nossas idiotices aladas neste licor de securas que dormem em nosso desejo.
Nossa vaidade há de vingar ante os tolos do porto e do mar do céu e do chão do rio e da rua. Estão apenas preocupados com as notícias dos tipógrafos. Felizmente, não se deleitam ao convite do nosso amor.

Recolher o feno e não recolher ofensas, a não ser as que não estavam fora antes. Meu palheiro já possui muitas agulhas. O fio dos dias se tecia com as cores dos fenos. Meus feudos, minhas possessões em pequenas finitudes. Minhas opiniões se recolhiam ao gesto do braço contendo desatino da carne. Desejo de polpas que se vai apalpando com fúria.
O liquido proveniente da loucura lava minha razão destinada a executar golpes de contrassenso. Superpondo paisagens em fruição. Luz era contraponto ao sacrifício

Estão indo à fábrica de novo, fabricam sapatos além da própria morte. Este ofício não lhes fornece interrogações. Dizem então que sou presunçosa. Sim, o machado que cravo é em puro sândalo. Esta foice me desfaz quebrantos, minha tão afortunada ventura.
A quentura de meus abismos não tece as teias para pisarem meus sapatos. Estão equivocados e embriagados. Nenhum destes homens, meu guardador de fenos, tem o mel de minha candura. Nenhum deles, meu guardador de fenos, tem a seiva que doravante ofereço a ti.
Gerencia os elfos em minha tez. Financia minha libido com moedas Del Rey e destitua-me da Vênus que te apresento.
Traga-me o rebanho de seus versos e trovas, sua obra em prosa. Não quero mais ver estes fabricantes de sapatos!

Em suma, este é o sumo! Nau sem rumo, parede sem prumo. Não estarei mais afoito e aceitarei todas as conjurações. Edificarei minha barca ao alto mar e ao inferno. Cruzarei a noite dos oceanos como arauto da luz seminal de meus próprios versos.
Repousarei minhas penúrias nos séculos que viessem ventar as velas. Dormirão todos insanos à luz de minha cela. Candeia de ideias que hei de libertar seus confins. Ah! Dores periféricas! Farei voo de seu ensaio, haja enjoo ou desmaio.

Desnudei de minha mucosa esta querela, fiz deste capucho de algodão seu manto de quimeras. Trouxe de volta à tona o azedume dos homens tolos para que me distinga das outras, meu senhor guardador de fenos. Se sua noite se fizer distante, serei sua oração e sua doutrina. Serei fiel à sua igreja, mas não deixarei de ser seu amor bastardo.
Os monjolos farão seu trabalho cego. Moerão nossos grãos, mas colherei apenas seu leite.

Estamos semeando seivas de veneno no chão. Este comichão que te alcança as pernas é o desdito pelo qual desejarei morrer, desejarei matar. Meu estilismo tornou-se uma faca entre os dentes. Entre o sorriso de cabelos vermelhos, sou sua homilia para os doentes. Montanhas serão niveladas ao meu sermão.

Cantarei ao mundo seu deleite e não estarei saciado, nem mesmo com pedras no estômago e nem ruminando tempestades.

Vá embora, homem do mundo! Preciso da salmoura na sola de meus pés, preciso hidratar os veios de minha luxúria. Houve a água de suas lamúrias, agora ouça a lamúria de um fagote ao fundo. É o sinal de sua partida, homem sujo. Deve ir. Deve voltar a sua mulher.
Ah! Estou vendo ela com seus decotes de vestimentas vulgares, estou vendo seu perfume por todos os lugares. Precisa desbravar novamente aqueles densos pelos pubianos.
Não se esconda profanando abismos que não são seus. Homem indigno!

Preciso voltar àquela vontade oriunda, àquele corte profundo. Estou desprovido do sangue que me aquece a noite. O sangue, artefato, demônio portador de luz naquela escuridão viscosa, onde eu plantava todos os ópios de minha tragédia.
Seus circunlóquios calmos inundam minha cama de sereno. Geme o orvalho na imprecisão rarefeita, nas bolhas de orgasmos. Preciso maldizer as cantorias eucarísticas, introduzir a ceia por outros orifícios. Estou ejaculando o cantochão das liturgias.

Decantei a poesia do mundo em meu seio, oh guardador de fenos. No entanto, os fabricantes de sapatos pisavam nosso chão.
Estive no solo de nossas juras e com os pés descalços, esperando que assim me nutrisse de sua presença em vertigens indeléveis. Estive exangue enquanto procurava seu sumo nas sementes que presumia estarem dentro.
Sua volta foi como cantador e bandolim cantarem mim seu cancioneiro de elegias, sua lavra de orquídeas e sua lavoura de minérios e enganos.
Estive em seus enfados, seus burburinhos antigos.
Seus fados, cantigas de bolero e cantigas de amigo. Amor e morte em minhas entranhas, ao som de sapatos, sem pisar meus delírios, sem deixar rastro.

Arte ofícios, artifícios de engodo. Voltei depois da chuva a meu torpor. Obtive uma coloração do tempo que se esvaiu entre dedos e tabaco, vinho e vinagre. Confundiu-se o todo por gosto em fermentações. Estive na espera por tangos seminais, gemendo obtusos em ais. Sais reidratantes e banhos reparadores.
Recuperei a boa oratória para seus ouvidos, oratórios de meu langor.
Minha retórica e minha lira bêbada alcançaram os tonéis da adega entre fungos e cantos findos, cantos antigos.

Uma prosa confusa, um pensar turvo me atinge em solidão depois de suas explanações acerca de nossa deriva, meu senhor! Penso que esteve vacilando em pocilgas, bodegas. Penso que esteve em tabernas de morte e paixão.
Não me empurre o amoníaco de seu fôlego. Minhas imagens possuem o chumbo de sua ressurreição. Meus lábios tremem este devaneio. Boia uma cortina de dúvidas em sua noite de tempestade. Boia uma cortiça em seu oceano etílico, seu suor idílico. Decupa o absinto em seu semblante.

Estanho e amianto nas minas que perfurei em meus pleonasmos. Persegui a sílica em meus pulmões no ócio das profundezas. O Hades não foi tão lânguido. Percorri uma lira de Ulysses digna de Dante, sete infernos e Judas abocanhado em sua vulva. Sete céus e meu sêmen em sua vagina (antes que chovessem as ogivas).
Atabaques e ataduras. Girou uma pomba sobre todo o meu juízo. Meu proceder em discurso desatinou. Meu trotar agalopado desandou nos vértices de outras pernas. Andei em outras direções. Terminei em círculo, em suas tranças.

Tua casa de ferramentas é hoje uma casa de corvos e corujas profanando o feno que recolheste. Afinal, nunca me disseste senhor, por que recolhes fenos. Contanto, parece ser indiferente, por mais que descrevas teu caminho circunferente. Não há em teus cabelos os mesmos males que habitam hoje a sua casa de fenos.
Acaso feno tivesse para ti alguma divindade ou sublimação, não mais as tem!
Estou uma erupção de conflitos. Um mantra tem sido minha eternidade nesta noite de escárnio. Meu exagero é o teu desprezo. Estou apunhalada pelo desleixo no espírito, pela mazela na alma.

Provei do ácido da rosa mística dos sonâmbulos e andei empreendendo estudos anárquicos (que não preveem aplicações ao feno). Por ora organizo o carnaval e sortilégios, desvendo personas e desvelo o esboço de sua arquitetura. Disseco a tentativa das engenharias. Isto não são mais poemas. Isto é escrituração de infinitos.

Amado meu, examine o método, mas examine também o hibisco. Conseguirá do errante o menor e mais precioso frasco, purgante de suas convalescências.
Estou no resguardo de mais manhãs libidinosas de seu sexo. Estou neste limbo. Sua cópula tinha o betume que envelhecia as maldades, um azeite de me trazer seu fluxo em banhos de alecrim. Um óleo que ajuntava seu barro reminiscente às argilas de meu peito, sangrando a costela. Um júbilo ofegante que clama harpas e arpões, carpas e canhões. Untando corpo morto untava corpo vivo, celeste de petiscos de avelã.
Um verniz de terebintina e um acrílico ocre em seu trabalho terroso.

Meu trabalho em molde não cabe em nossa estrutura de espasmos soltos à brisa dos poemas ao crivo de sapateiros que vêm e vão sem pisar territórios que construímos para flutuar. A moldura contém o lustrar de seu prazer. Mas, meu sêmen não tem mais a pintura, o trabalho tinta a óleo.
Meu esperma abstraiu das rochas uma cólica raivosa que estremece nosso horizonte.
Agora, o gume da lâmina separa nossa carne em partes fora de encaixe. Nossa circunferência é um somatório de incertezas inexoravelmente desatadas.
Desnatadas, desnaturadas em pasteurização e em liquefação de densidades.

Nosso círculo finda em desentendimentos! Amansei suas feras, apascentei seu rebanho de feno, esquentei sua sopa, fizemos e desfizemos indecências, amamentei sua boca de sal e néctar, apuramos saturação nos poros. Estou em apuros, traga-me uma aguardente.

Você borrifou pimenta em nossas begônias de plástico. Formou-se gás letal em nossa órbita. Continuam fabricando sapatos.

Apurei estes fatos já com o seu pescoço asfixiado, seu corpo estirado em nossos desastres. Uma bromélia poderia brotar de seu sonho morto. Inevitavelmente matamos nosso ninho. O mantra ineficaz da tarde aquece meu ressentimento.
As águas de suas anáguas puídas, chorosas, permanecem em mim chagas e arrependimento.
Precisei sair. Precisava deixar aquele corpo descansar seu calor e suas chamas. Seu sangue precisa coagular e calmamente esfriar.
A noite. Mais uma vez, a noite. Nossa companheira insólita há de acompanhar sua morte até os caminhos que já não poderei guardar.
Foi minha a morte. Preciso desfazer-me daquele corpo que é morte. Que é meu e que sou eu.

Estava frio. A noite não tem fabricantes de sapatos. Mas meus passos são autóctones
Alguém tentava dormir e interrompi seu sono (que também parecia requisitar eternidades). Ofereci cigarro e pedi diálogo.

O senhor volte amanhã. Percebo o olhar amargurado de longe e de distância. Volta pra casa… Mas eu aceito o seu cigarro. Outro dia a gente conversa. Agora eu vou dormir. Preciso dormir antes de suas novidades. Sua mulher deve estar te esperando. A noite é estranha. Mire, estão conversando ali, parecem tão apaixonados! Devemos lembrar-nos destas coisas.

IV
SAN MIRAMAR

…Estes tempos, não se deteve a contratempos ou algo superposto a contrapontos. Sentava numa mesa do café, constipada. A lição do filho mais velho. Algo precisava começo meio e fim como a vida dos vírus… Café fumegante e a lida com anticorpos.
A espera aflita não se traduzia em vácuos de candura.
É de piano a partitura que o filho estuda enquanto um homem sem estórias se refaz para vê-la
A lição de descobrir a mutação do vírus adulterando citoplasmas era esperar o solfejo final das oito horas.
Ela espirrava e concluía que não era lá algo bom escrever lições para filhos (tão elegantemente sentada, esperando a lição e desaprendendo a escola entre cepas diferentes de gripe). Ela agora tosse…
Aprendi gripes em sua garganta quando inventei uma ficção adequada. Tudo tinha influenza na apostila do filho,
Perdigotos e esporos, capsídeos e nucleotídeos.
O piano soa ofegante como uma crise asmática, ela estudava o ambiente como se fosse propício a contágios.
O filho não a prevenira de nada, a respeito de vírus musicalmente sensíveis ao mofo e inverno de violoncelos.
Ali. Enfim terminaria a lição de éter nos fungos e outra friagem, ela estava constelada. Revisando os linfócitos. E descobrindo a maceração, inalando calefações.
A caligrafia, os esboços pescoços e gargantas.
Gargantilhas contaminadas ao…

O fato de ela não ter mais seu nome nunca me indagou questões mais filosóficas antes de San Miramar. Antes, aliás, muito tempo antes, quando nem suposições alimentavam-me o desejo por coisas que sufocam e nos libertam pelo estômago, interessavam-me coisas acerca do rock inglês. Depois, brevemente, passei a dar minhas dedicações em me preocupar com a América Latina e mais tarde, finalmente, sobre como as soluções do futuro podem realmente diluir nossa polifonia periférica em nortes hemisfério e arquitetura repetida.
De fato, em San Miramar tudo se uniformizava, mas de uma maneira nem tão nociva, pois os tempos que me engoliram não mais se manifestavam como algo maior que apenas aflições.
Minhas lembranças estavam em exorcismo permanente assim como os cachorros soltos pela orla.
Havia um banco improvisado perto de telefones públicos e uma tenda de chás. Passei a observá-la qual fosse este observatório um oráculo de venturas suspensas entre as tardes que caíam fugindo de minha visão por trás das edificações que não me diziam nada além de encobrir estas coisas.
Eu era um burguês sem dinheiro, mas, cheio de palavras atrás do alcatrão nos dentes, da nicotina nos lábios, minha barbearia falida turvou-me a face contida numa barba emaranhada entre a comichão e o desejo de espumantes.
Passei repentinamente a dizer coisas doces a ela e estes vocábulos passaram a convir com a paisagem mesmo sabendo que esta necessariamente não tinha a obrigação em aceitá-los. Detive-me em conter convicções duvidosas, em dizer arbitrariedades.
A orla me detinha das imaginações do fundo de uma aparente morbidez que se exaurira por falta de plateia para o mau gosto de meu humor de advérbios exacerbados.
Ela passou a fazer as repetições do itinerário uma doce infância revisitada. O bucólico em mim já sufocado foi morar em seu pescoço que parecia se alongar apenas pelos meus caprichos.
As crianças tinham uma avenida inteira para correr e rirem desembestadamente, livremente. Penso em mim que estas crianças desembestaram os cheiros do trajeto como uma lembrança leve, quis, pois então deliberar a mim mesmo a liberdade.
Passei a observar e isto se tornou o sinônimo de minha invenção em amá-la com a mão nos bolsos e as narinas em rios.
O seu dorso em movimento parecia nunca desatinar os cardumes da estampa que eu a recobria, eram como águas calmas os desejos que ela vestia. E a noite vinha com o betume a decretar um silêncio do interior dos fôlegos que nunca retiravam da imagem um suspiro.
De repente, eu chorava lágrimas quentes e era uma calefação para rochas, uma compleição para um vento antigo.
Estas são as razões mais idílicas para amar esta alameda de arvores que se estendem por conversas interrompidas nas curvas de seus troncos, por impressões de um porvir inominável, mas que das vontades se fez imperativo.
Meu pai era um escriturário que nunca vira o mar e minha mãe uma dançarina, apenas. Cresci entre o desleixo das avós, entre a mistura incompreensível dos novelos, meu pai não voltou de sua viagem “ninguém haverá de voltar”. E tudo foi para o fundo das gavetas de minha mãe que se permitiu dançar como se os salões fossem lagos quietos nas vargens, mas com o perfume de minha província.
Suas crianças estavam ali, também na província, pois não queriam sequer supor que houvera dia após dia, noite após noite, existia a vida, apenas a vida, simples e clara.
Esta mulher me tirou o véu de San Miramar em cores de espantar netunos, diabos aquáticos e sorrir o éter no seu cansaço. Ela merecia dormir num tempo que eu insisto em melhorar.
Os métodos e sua orientação gastronômica me diziam algo lânguido, era como não me preocupar com laboração natural dos condimentos, a vida era a paz temperada por sua mão com os doces com a pimenta e com o sal dos dias e cinza das noites.
As crianças e sua seiva de inícios me deslizavam por San Miramar esta galeria de lembranças que nunca existiriam tão boas, não fosse sua presença provisória e aparentemente inocente.
A lealdade com a qual o tempo nos modela mostrou-me sua face boa e alegre veio uma chuva risonha.
San Miramar era um nome que eu não tivera nos planos, mas era mais que uma cidade mais que uma rua, era uma península de beijos, um hiato quase definitivo entre qualquer outro caminho. Eu já não me fazia mais órfão de compartilhar vontades com facilidades desavergonhadas. Sim, as folhas se dão ao vento e os amarelos ao brilho e os azuis orvalhos me evitam o mormaço. Esta é uma translucidez de se guardar em conchas, se possível.
Um prisma se revela no silêncio que ela rege, inclusive, ela rege as cores onde jazem sons numa lavra de orquídeas e nesta lavoura de me desatar os enganos com sua tranquilidade de sopro que pede o sono, assim os séculos dormem e nós passávamos a esperar. Lua, sol, esperar.
Nenhuma manhã viúva pousou neste chão, exclusivamente pássaros. As flores tinham pólipos em San Miramar hoje elas me são o estoicismo desta mulher forte como os afagos após longo caminhar.

San Miramar é uma origem que tem o destino de sempre retornar, existe um dia em que ela rompe a lógica de seu andar e que ela encontre sua casa na outra ponta do passeio sem estarrecer nenhum ponto cardeal, sem desandar nenhuma rosa ou ventos.
Pois que o caminho sem volta não é um caminho espelhado, simétrico, coragem mulher! Os caminhos que descobrimos hoje não precisam se inverter, e como uma elipse errante chegamos enfim ao começo.
Espaços em eclipses, espasmos eclampses e a vertigem sincera.
Pudéramos um dia descobrir estes nomes nas curvas, distantes de urgências. Em ciclos que não se ignoram os pretéritos podem ser chegada, podem ser conclusão, achar soluções no erro e tinhorões num ermo. A morada das ideias se repete. Não há contrários ou contrariedades, é justamente o mesmo lar onde se depositam os afetos o mesmo fazer e refazer das crianças, nossas garantias de infinito, nossas promessas não são imposições à arquitetura. Tempo e espaço são água e pedra a modelar as paredes que nos protegerão ignorando a volta e, antes da volta, a ida. Estes devem ser os nomes, a chaves, amalgamar fechar e abrir, caminhar e guardar a caminhada.

Zé Nosso entendia tanto de maledicturas que ninguém ousava. Ninguém atentava ousar com ele. Nem mesmo com lamiúra nenhuma. Nem nunca precisou desarmar estrenho que boa fé não precisava. Zé Nosso foi para o mar de eufônios, o mar salgado da cegueira e da tremedeira. Um mar de água parada e mar de garças, de ouro branco, san miramar. Este foi Zé Nosso que também escrevia sem medo de atravancar estrenhos.

V

Sergio Endrigo entendeu por fim que tinha que riscar o pano. Tinha passado a noite à espreita de borboletas e outros insetos. Estirava-se em espasmos pontuais de seu enfado habitual naquele carpete. Ele parecia conviver bem com ácaros, afinal eles existem para não serem vistos. E se não querem ser vistos, deixemo-los.
Suas unhas riscavam o tecido de modo sujo, assim como se lambia em desleixos.
Ele parecia ter dormido para depois observar a casa flutuando. Mas Sergio Endrigo sabia que eu tinha deixado o algodão ali, para que ele trabalhasse de madrugada. Seu ímpeto contemplativo era o fazer alheio de justificar-se senão por jogos de chantagem e sedução.
Sua orientação noturna não me convinha muito aos pulmões, mas se mostrava melhor que samambaias em fotossíntese.

Os pombos convivem com ela no parapeito dos balaústres do sétimo andar. Emitiam sons primários aos farelos de pão ao final da tarde.
Seus pescoços irritadiços a mantinham em observância àquele fenômeno de a cidade querer descansar.
As cidades não têm motivo para o cansaço e não descobrem isto, quando os homens a dão trégua. Pelo menos os pombos interrompem este ciclo de não considerar os hiatos do fôlego.

O armarinho não fechará antes das cinco. Preciso ainda de dois metros de largura daquele algodão. Para os vestidos, nada melhor que a espera do tecer. Encomendar um tecido de algodão como aquele é uma ânsia de despir os vestidos da primeira lavagem.

Os moldes agradam meus olhos e meu faro sentindo as linhas se desprenderem na borda do corte e emitirem sentidos de feitura.
É como se tudo que descansa ganhasse uma aura de suspensão. E esperassem, simplesmente, pelo ofício de esperar.

Artesanato! Acho que ele seria um bom artesão, examina bem a matéria de seu trabalho.
Instaura no fazer uma prática sem explicar-se senão por necessidades.
Para Sergio Endrigo, capricho são necessidades.

Para os homens, necessidades são capricho, ela tem razão. Mulheres são perigosas quando têm razão e vontade, assim são capazes de suas ambições.

Preciso de uma linha verde e espessa, já tenho agulha nova. O armarinho não fechará antes das cinco. Vou comprar aquele americano cru de tom terroso. O ocre sempre foi próprio às estampas mais claras. Gosto muito destes jogos de cor num vestido, sempre terminam com uma mão volumosa entrando por baixo e com fúria.

Não sei se ela entende tanto de cores. Ela parece apenas examinar intuições e fazer delas discurso. O bordado é uma narrativa linear. Não possui noite depois de noite ou dia depois de dia. O resto eu imagino que teria sido Pablo Picasso.
Arthur Bispo introduziu o iluminismo nos panos, mas ela não quer estórias. Ela quer apenas traços.

Um traço alegre é o que eu penso de bordar para amigas tão bonitas, o charme está no desenho também da superfície que o desejo descobre e encobre.
Rita Pavonne virá provar o vestido para seu aniversário. O armarinho não fechará antes das cinco. Vou sugerir a ela que venha comigo para casa para tirar as medidas. Sua secretária garantiu dar o recado.

Rita Pavonne era uma mulher interessante, realmente tinha um porte para usar vestidos bordados. Especialmente os de cor ocre com linha verde e grossa, seus traços eram de mulher firme em carregar levezas.
São quinze para as cinco.

Rita! Que bom que veio! Não foi tão difícil achar o armarinho! Sergio está em casa, vamos ver linha e pano… Pensei aqui com este desenho… E aqui com outra linha… Ah Rita… Aqui! Toca meu clitóris aqui! Vamos subir, estou me molhando com sua chuva masturbada.
Já estou como os pombos no meu sétimo andar.
Quero voar com teu pão! E comer em teu voo! Lamber-te o dentro dos vestidos.
Varrer-te o dentro dos sentidos! Quero escorrer-te a alma em orgasmos pelos meus dedos.

Fique! Fique o tempo que for meu amor! Sergio riscará o pano e nós nos riscaremos corpo e alma sem resquícios de culpa. Esqueça seu marido e venha. Sergio Endrigo riscará o pano!

O armarinho não fechará antes de cinco. Deu no que deu! Morar em casa de bordadeira de vestidos em vez de lavadeira de rio! Elas voltarão tarde, e está cada vez mais difícil achar um trapo qualquer cheirando a alvejante para dormir.
Acho que riscarei mais um pano. Ela gosta de minhas unhas e minha língua.
Lavo-me com ela por mais este engano. Mais um vestido que ela borda. Mais uma investida de amor com o aprendizado de minhas unhas com o exercício de minha língua.

Estou cansado de panos e linhas. Minha sintaxe será esgueirar-me na libido dela, espreguiçar-me na libido dela. Minha semântica será esquivar-me do risco de seu bordado traço solto.

VI

Charles Azznavour gostava de grãos selecionados, mas não falava nada. Pensei que ele tivesse nascido com algum problema, mas mesmo assim tentei ensiná-lo a falar. Não consegui. Passei a tentar fazê-lo aprender através de música.

Boemia, aqui me tens de regresso. E suplicante lhe peço a minha nova inscrição…

Assim Charles aprendeu. Foi quando minha amiga Edith apareceu para provar um vestido meu.

Nosso amor que eu não me esqueço e que teve seu começo numa festa de são João…

Ela achou Charles muito romântico e confesso que fiquei com ciúmes.

Venha Edith, quero te mostrar a cozinha… Enfiei-lhe a mão por entre as pernas.

Eu sei que vou te amar. Desesperadamente eu vou te amar…

Beijei Edith com lábios de sorriso sem que Charles visse qualquer coisa e ela logo me encomendou três vestidos. Dava sugestões nos riscos, nas linhas e cores, no tecido… E a cada peça pronta, tirava-me ainda mais o fôlego, tirava-me a roupa ainda mais indecentemente, enquanto Charles cantava na sala sem saber de nada.

Uma vez fomos ao armarinho e seu Aníbal perguntou-me por Sergio Endrigo. Eu respondi que ele tinha desaparecido com Rita Pavonne.
Edith parece ter tido algum ciúme, mas achou a história no mínimo engraçada.

Tu és divina graciosa estátua majestosa…

Com esta cantiga Edith não se conteve e, enquanto eu tomava banho, raptou Charles Azznavour.

Da próxima, compre uma fêmea! Disse exasperado e apaixonado seu Aníbal do armarinho.

O armarinho não fechará antes das cinco! Disse exasperado e apaixonado seu Aníbal.
Por que a senhorita não tenta ver uns botões para meus ternos… Pago-lhe com os melhores vestidos!

Foi assim que aprendi a arte da alfaiataria, e um dia, deixo de bordar escondida.

VII

Agamenon tentava o desejo da argila. As formas consumiam-lhe a abstração em domingos. Tinha o privilégio da luz solar entrando pelas paredes claras de seu módulo intimista. Ele achava um disparate o discurso minimalista.
Era como se enxergasse onde findavam os veios fundos de sua mão. Era como se procurasse o veludo na alquimia da cerâmica.
Os dedos e o contato com o barro eram um contato de antiguidades. Suas formas eram Juliette Beltrão.

Aquela mulher que se consumia em vinho branco e parecia ter amônia no olhar tomou-me hipotecados os anos de desatinar.
Os princípios terminavam e começavam, em seus alpendres de música barroca, nas costas da Matriz de São Bento. Era uma quermesse polifônica!
Pontes são soluções arquitetônicas, mas Juliette aparecia-me nelas com vestidos escuros e bebidas destiladas.
O vento na noite das edificações resolvia-me em suas mãos retocando o cabelo em nossos desvarios.

O líquido que permeia os dias mina as ausências até o éter da noite em eterna vacância.
Era a massa dos delírios. Eram os gases compondo soluços do fundo do sopro espiral e caótico de vagar ébrio.
As projeções eram catastróficas: transportar aos domínios apolíneos os esboços de Dionísio em Juliette.
O exagero dos contornos da argila era o clamor pela nostalgia que sugava de Agamenon o sopro vital.
As nuances esculpidas iam ao forno para um fogo de consumações.

Aquela mulher tragava o sopro de minhas eternidades em sua cava abissal de contradições, era um desleixo com o óbvio em detrimento da topografia adulterada de seus olhos e o relevo sabotado de sua íris.
O cânhamo e a pupila. O entorpecimento dos pontos de vista.
Tudo era Juliette Beltrão em seu ponto de fuga.

Mata-borrões compõem uma cena insólita dependurada na sala da Agamenon, não era expressionismo, não era realismo.
Cubismo às avessas, surrealismo acordado.
Enfim aquela argila, aquele ar dor, aquela querela e o zelo com os andores, um desastre multicolor, aquele torpor em aquarela.
Todos inviáveis à massa com o trigo de minérios, à massa com o leite das águas, aos ovos e gemas brutas dos sedimentos atemporais.
Um sentimento orientado por música tonal.

Juliette roubava-me o sal em suas narinas ansiosas em vencer a umidade da orla em seu comprometimento com as atmosferas lunares.
Algo em Juliette queria se desfazer depressa, seu respirar não poderia demorar, ela tinha sido passeio, ela tinha sido passagem…

Os moldes já são cerâmicos e entronizam a dor pungente desta labuta com o formato. Mas esta peleja não me fez ultimatos.
As molduras recebem as noites em lua nova, desenhando joias, gargantilhas e pingentes de lantejoulas.
As texturas recebem o veludo noturno de qualquer Chopin exalando perfumes dióxidos nesta pujança solitária.

O veneno de Juliette depura até hoje o látex de meu estagnar. Recolhi o pó dos dias numa ampulheta que não opera o tempo de meu espírito. Apenas transita outono e inverno.
Trafega em minha árvore nua e em minha noite de mercúrio.
Trafica o orvalho que lubrifica a cegueira dos hominídeos do espaço.
Estou em engenharia dilatada, em espaço-tempo ameaçado. Implodi as intervenções e morri as palavras.
Estou conforme esquecimento, esqueço-me em ser o café da manhã, seu perfume. Existo sumindo. Estou por uma conveniência, por um triz, por um suspiro.
Não perco costume.

Agamenon convertia o mel de suas formigas em estanho. Não lhe importava o aço do novo mundo. Ele queria viver das ligas de suas massas arcaicas. E seu mistério chama as entranhas da usina de seus fornos, que vão parindo o calor menstruado das estátuas como fetiche.
Não sustentam a perda de Juliette.

Foi um beijo, único. A carne de seus lábios me anestesiou os dentes, senti as fibras de sua língua furarem- me a boca, senti o desespero vocal de suas cordas que até hoje formam um alaúde velho em meus ouvidos.
Ela me lambia o suor frio no pescoço e entrava por mucosas com a luz das trevas.
Eu via a luz das trovas de uma fossa que me empurrava até a noite e ao dia verde de seu suicídio.
Foi um único beijo. Morto nas águas do rio que abraçou derradeiramente seu corpo insatisfeito e mostrou-lhe a face doce da morte.
Os seios de sua face não sentiram nada exceto cocaína.

A argila traz o desenho das juras e o traço do beijo.

VIII

Esta maresia me inaugura uma névoa de equívocos. Uma imagem densa e interpenetrada por fuligem por todos os lados, esta paisagem de enganos seus. Verdes vestidos de azul emaranhado de redemoinhos, águas passadas. Oliva ondulada de topázios ao longe.
Vago pelo cais entre estrelas e sal, este vendaval nos monjolos. Moendo meus tímpanos ao teu clarinete distante e inerte de intercorrências, exceto minhas calúnias sussurradas em latitude vinte e três.
A linha paralela da orla é curva fugindo da compreensão.
Estes meus excertos não são para entendimento.

Esta foi a última vez que delirei em pássaro.

Quero entender algas marinhas com algo de tempero de trópicos. O ponteiro maior se posicionava em seu local mais austero. O menor compunha um ângulo de noventa graus.
José não volta mais nesta febre. Tenho relevâncias suficientes para seu retorno logo ao crepúsculo. Tenho um alarido farfalhando seu nome em maré cheia. Tenho o alto-relevo necessário à intuição da superfície das ondas em meus ombros largos.
A luz opaca dilui o litoral em distrações de A Hora da Estrela, as escavações e extrações de sendas subterrâneas são próprias a constelações que justificariam Macabeia e a mim.

Estive na orla para nadar a areia de ampulhetas.

José e eu somos secretos na estrada de Santos. Posso respirar sua brisa em langores, lugares de cantos antigos. Antiquários submersos de verniz me orientam o leme.
Miro o horizonte rente à proa. Cavalos marinhos me retiram o néctar dos seios.
José não veio. Presumo-o em montanhas (ele, um homem de dentro).

Deve ter sido em pedras, receio.

Meu escritório são as cartas que te escrevo, José. Sou sua mulher, sua filha, seu incesto. No convívio com a areia branca te rogo estas palavras, estas pragas para os gafanhotos de sua botânica, suas ervas daninhas, seu chá de erva doce.
É como se minhas entranhas te evocassem para cultivar flores de canela.
Deixe-me fazer do fumo de seu cachimbo o sumo de um mel dos meus escândalos.
O sândalo brotando de seu bigode tingido de nicotina deixe que ele se impregne de meus fluidos.

Este alarido que me lembra o vibrar em outono.

José, tenho saudades. Fecho o livro na hora do ângelus e tenho premonições de ventania. Águas vivas, galáxias mortas, estrelas do mar. São devaneios todos em seu tórax, são libidos em Havana, escondidos em sete golfos sete mares.

Ele foi terça-feira extirpar-me os delírios.

IX

Eu lavo roupa senhor. Tem tubulação lá dentro. Trilho trouxe o trem. O trem não vem mais de novo. O trilho me afastou da vida do rio. Aí eu trouxe a primeira trouxa. Agora só trago trouxa. Tem uma torneira ali ó o senhor tem desejo de água, eu conheço quem anda de trilho agora. Nunca conheci quem andou de trem. Este trem estava no rio sem locomotiva, mas era cimento, era carvão e era minério também de balsa.
Bebe água senhor!
Aqui mato cresce devagar porque ninguém capina, é por isso que nasce do trilho, embaixo.
Olha senhor, aqui já deve ter sido com encarregado responsável. Agora sou eu e a torneira, também tem o menino. Ele também me ajuda, mas menino também voa com pipa de vez em quando. E às vezes rola na grama se lavar nada, agora lava.
A mãe traz o marido sendo que nunca foi sempre, o senhor sabe, casal tem época, menino é que parece ser sempre. Não porque lava ou porque brinca. É pois que não precisa lembrar.
Lembrar foi de quem já pegou compromisso no mundo. Dever é só assim, lembrar o trem, lembrar a letra.
Menino ganha letra em pedaço de madeira ou bola, às vezes ganha letra quando lava comigo, mas não pega compromisso assim pega o jeito.
Jeito de criança é assim, é isso mesmo que pega nele, de vez em quando dorme na brincadeira.
Olha senhor aqui passava trem e agora o mundo não para de passar, a morte do mundo enterrou aqui. Aqui é a linha de trem.
Essa vida não muda não. É dona Maria mercês, seu Joaquim acaba mundo.
Parece que o povo fica mudo para falar com trem e com ventania.
Jogo de carrapeta era Severino meu irmão depois ficou mudo.
Brincar de pião era com José Inácio, mas ficou mudo. Antônio de Anchieta era outro.
Agora, outro que era outro é o menino, esse que me ajuda, aquele fala!
Só que só que falar pra pedra, falar pra flor, até pro passarinho.
Pensa direito quem vai falar pro menino.
Gosta muito do sabão, aí eu falo pra ele que ensaboa direito.
O senhor vê isso! Só falo pro menino, ele me tem em confiança. No final só faz juízo, só faz direiteza.
Gente é que entorta os menino, bobo!
Mas agora se tivesse trem, ninguém entortava não. Ia endireitando tudo que é gente.
Senhor, foi o trem que levou a gente.
Daqui ninguém sai mais, só sai menino e eu.
Eu lavo roupa aqui e durmo aqui também
Nunca cobrei serviço pro povo.
Lavar roupa desfaz minhas descrenças. É de fazer feitura com a gente mesmo!
É apanhar um jeito de dignitude, altidade de alma.
Haja torneira no mundo que é mais perto que rio, agora trem não tem não.
Haja trem no mundo que eu fico sozinha. Mãe e marido some. Menino é que vai
Menino vai no mundo, ele não acaba pra menino não.
Pra mim já é findo, só num pode acabar é roupa e sabão.
O senhor agora sabe eu lavo é roupa, a gente é que fica lavado no mundo de distância.
Mundo é um trem que apanha cada vez distância.

X

José Pretextato é que gostava de leitorias, leitorava à noite por dentro da gente, era uma coisa que subia e rodava. Era uma brasa soltando da fogueira e tinha qualidades diferentes, tinha sortimento de leitonação.

Era uma noite de mais de mil. A gente chegava a andar vinte léguas só de ruminar.
Se desse jeito em caminho certo ia dar na fazenda de Manoel Esteves.

Era légua de leitoração, podia ser bica ou podia rio, podia ser árvore com vento, gritava tudo: de verônica a belzebu.

Às vezes, saía leitorando um livro antigo pela estrada, mostrando lugar de acontecimento nas estórias. Mostrava tudo, bem leitorado!

O lugar era sempre a cancela, e da cancela ia campeando estórias até que a gente morasse na campina dele.

Gostava muito do outro José, o terceiro.
José Terceiro tinha sanfona de quatro baixos e às vezes acompanhava a leitoria. Ele tinha redondilha de lua cheia e abria os prefácios do outro José, o Pretextato.

O povo falava que os dois tinham irmandade. Pai deles tinha mandado construir arapuca de prender tinhoso. Pai deles soprava fogo na leitoria. Pai deles passava debaixo do rio e debaixo do pé de aroeira.

O bispo começou de desgostar deste jeito, ordenou que fosse coisa colocada e pôs cruz na cancela. Naquele tempo, ninguém pôs cara de fora de janela.

E leitonações que eram cantação passou pra ser lamiúra de dois Josés.

Lamiúra passou pra ser um negócio tipo gemido, na cruz da cancela.
De leitoria e lamiúra foi a cruz da cancela.

Chegou aqui Manoel Intendente. Passou a dizer dições e cantições que ia encontrar arapuca de tinhoso. Tudo que achou foi contrair matrimônio com a Rosa moça Flor.

Gostava de leitoria e de cantição. Pois que Manoel Intendente só pensava nela pra moer fubá e cuidar de ordenha.

Rosa moça Flor definhou o ócio de Manoel Intendente e foi passar pra fazer outras lamiúras.

De tanta lamiuração, Rosa moça Flor cantou pra Pai Inácio e Mãezinha Sação. Acabou em brenha de escrituração ter de encontro a arapuca de tinhoso onde estavam os dois irmãos José tomando chágaras amargosas.

E o sertão não foi mais sem lamiúras.

XI

Ananias tinha razão ao esconder seus charutos, mesmo que sua esposa não deixasse de perceber o tabaco em suas unhas, cabelos e roupas. Trata-se de uma questão de confiança! Sua mulher não queria vê-lo fumando, portanto Ananias a poupava do ato consumado encenando-o em sua frente. O problema era dela!

Desconfia-se que Marguerite encontrou o fumo num buraco do assoalho

Ele poderia ter sido mais viril. Quem fuma tem o direito de fumar. Ademais, Marguerite sabia que ele sugava tabaco. Pode alguém cheirar tabaco sem que o consuma!
Porém acho que não devíamos nos pronunciar sobre o ocorrido. Ele deve agora tomar uma posição mais rígida acerca dos acontecimentos

Andam falando que Ananias fumava por desgosto

Ananias não poderia negar seu vício. É bíblico! Se ele fumasse em frente à esposa as coisas não poderiam ser melhores para ele. Ninguém triunfa na mentira, isto é próprio dos covardes. Eu não vejo mal algum em fumar charutos de vez em quando.
Ele poderá parar de fumar agora e isto não é tão ruim assim.

Dizem que Marguerite não queria que seus vestidos se impregnassem com o cheiro de cigarros

Marguerite não podia privar seu marido de qualquer hábito. Afinal de contas, não era contra a lei. Privar alguém de sua vontade própria é pecaminoso. Mesmo que esta vontade for contra a saúde. Porém desde que nascemos não fazemos outra coisa a não ser atentar contra a nossa saúde.

Acredita-se que depois disto Ananias não a amará mais

Sou contrário à ideia do narrador onipresente.
Por essas e outras que estabeleci esta didática.
Pois bem sei que não sei bem maiores detalhes do caso.
Quero explicitar aqui minha completa ignorância, mas darei meu veredicto.
Ananias está perdido, pois fumar é muito bom. Ter uma mulher melhor ainda. Sinceramente, não sei o que ele pode fazer.
Por sua vez, Marguerite também está perdida, pois casar-se com um homem não é muito confiável, especialmente com um que fume.
Sinceramente, não sei o que ela pode fazer.
Sou mesmo um cafajeste e por isso não darei meu voto de minerva para elucidar a questão.
Desculpem-me a parcimônia exagerada.

Como uma ampulheta funciona não posso explicar. Mas que são dois lados simetricamente elípticos e de desdobramentos correspondentes é algo louvável de afirmação.
XII

O compadre B tem razão. Foi na revolução de trinta, o tenentismo ganhou força com a coluna Prestes.
E como ia dizendo o compadre A, foi quando do suicídio de Getúlio. Depois veio o estado novo…
Isso mesmo compadre B, o Integralismo… Só foi possível com Getúlio nos braços do povo.
E o compadre A sabe que ele foi o pai dos pobres, acabou com este negócio de CLT…
Pois bem, compadre B, falemos da revolução constitucionalista…
Não podemos esquecer também, compadre A, dos dezoito do forte, em Copacabana!
O compadre B sabe que existe uma gruta rei do mato em Minas Gerais onde viveu um deportado para a Alemanha nazista.
Sei bem compadre A, sei bem era a época em que Hitler bombardeou Hiroshima e Nagasaki.
Foi o dia D, compadre B!
Mussolini caía, compadre A!
Veja bem, compadre B, a Espanha já tinha produzido outro fascista, Napoleão Bonaparte.
É, compadre A! Discípulo de Gengis Khan…
Foi mais ou menos na época do desaparecimento trágico de Dom Sebastião, Com padre B.
Mas seu filho, compadre A…
Vai bem, obrigado!
Não! Eu digo Dom João VI, filho de Dom Sebastião, compadre A!
Ah é, compadre B! Pois é! Veio para cá fugindo dos ingleses com a escolta portuguesa.
Isso explica, compadre A, o mercantilismo europeu e a criação do Banco do Brasil.
Tenho a impressão, compadre B, que isso tem a ver com a Revolução Industrial na França.
Caro compadre A, falemos um pouco do império romano! Suponho que gostaria.

Senhora Maria ( é mesmo uma santa ): trouxe chá e bolinhos de chuva para os senhores.
Saiu pela galeria do alpendre e voltou a cuidar dos gatos. Estes que são mais ariscos.

XIII

Aquela mobília. A verde pátina. É! Ela mesma!
Sei eu que todos sabem que sou um bom jardineiro. Mas não posso ficar só com a Praça Dom José Medeiros Leite no currículo. Todos dizem que ela está linda e que parece até Europa.
O crédito vai pro prefeito que ainda por cima me faz trabalhar à noite.
Trabalhar podando à noite não é uma coisa muito fácil… Mas acho que terminei com o imbróglio.
Descobri que podia podar orvalhos. Passei então a fazê-lo com assídua frequência.
Descobri que podar orvalhos também não era lá coisa fácil. Mas tornou-se uma coisa que eu gostei de fazer, especificamente à noite.

De início, não sabia o que fazer com os orvalhos amputados. Passei a observá-los ao amanhecerem topázios, turmalinas e águas marinhas.
Ninguém nunca desconfiou que eu amputasse o orvalho da clorofila da praça, os escondia no bolso e levava tudo para casa.
Quando era no máximo meio-dia o lume deles fenecia, seu sumo almiscarado esvaía.
E em meio a outras miudezas sem importância, os orvalhos morriam.
Aqueles objetos mortos, pedra vidro e luz os enterrava no jardim do vizinho.

No princípio, pensei que poderiam brotar pés de orvalho lá. Queria só ver a cara do Altamiro quando visse uma muda de orvalho crescendo e invadindo seu alpendre.
Nada cresceu naquele lugar, aprendi que orvalhos não ressuscitam.
Fiquei pesaroso, pois aquilo me dava um trabalho grande, esta tarefa.
Tinha que pular o portão de Altamiro ainda na madrugada e semear aquele líquido gás sem que ninguém me notasse.
Depois ainda tinha que ficar ali, rodeando, despistadamente perambulando o jardim de Altamiro para tentar ver algum resultado.
Nada!

Como os orvalhos morriam cedo demais, é que tomei esta decisão de guardá-los na mobília verde. Tive então que adotar o procedimento de andar com as chaves pra onde eu ia para que minhas irmãs e meu pai não desconfiassem.
Eu sabia que ninguém ia dar falta da mobília sem chaves.
À noitinha, antes de ir trabalhar, abria o armário silenciosamente. Com cautela digna do orvalho.
Era um comichão em querer saber se eles estavam ali, ainda bem acomodados.
O que se sucedeu nas primeiras noites foi até satisfatório, os orvalhos começaram a ganhar consistência de avelã.

De todo jeito não demorou muito, os esporos de avelã principiaram a se diluir com naftalina (esta que é própria das mobílias, assim como seu mofo habitualmente).

Foi quando tive outra ideia, decidi forrar as prateleiras com folhas de clorofila. Imaginei que os orvalhos pudessem novamente adquirir raiz através do verde azul que ele necessita.
Procurei também dormir com as janelas abertas para que as brumas serenas do breu lhes alimentassem as seivas.
As folhas, concluí que deveria pedir ao João, vulgo Tarzan das Bananeiras, que era da congada e do estandarte.
Ele me arranjou umas folhas de bananeira.
A experiência deu certo. Os orvalhos ficavam intactos sobre a folha de bananeira dentro do armário aberto, que comungava seu mofo à umidade serena das noites.
De manhãzinha, quando voltava do trabalho, tinha que depositar novos orvalhos no armário verde e logo fechá-lo novamente durante todo o dia, todo o sol.

Assim, desta feita, aprendi estas coisas, foi como saber que o orvalho é um relicário fabricado todas as noites, e se eles se vão ao dia, nada melhor que trancafiá-los.
E depois desta experiência de casulo em pátina, poderiam novamente respirar o sereno.
Aí seu metabolismo progredia…

O sumo da noite, para o dia, é apenas vestígio.
Os que acordam ao dia não merecem vestígios.
Sacralizei estes vestígios.
Hoje, tenho uma dúvida: se a mobília de pátina verde (este armário de folhas de bananeira) ou é um memorial de orvalhos, ou é um museu de orvalhos, ou é um inventário de orvalhos, ou é um oratório de orvalhos.
Passei então a catalogar orvalhos e conferir a eles poderes de milagre.

Zé pintadinho era uma figura excêntrica!

XIV

O mundo tem muitas guerras, muitas cidades. As cidades têm muitos homens, muitos hospícios. A cidade queima dinheiro e gasolina em regime siderurgia.
As usinas têm muita fome e a noite tem muita fumaça. A noite tem o óleo viscoso que vela a miséria do orgulho e da cegueira.
A avenida tem muitos semáforos, é preciso concatenar as cores; a cidade, suas dores e automóveis.
Os soldados e as ogivas, o incêndio nos olhos. Corações e sangue turvo, vertendo fluoxetina, vendendo cocaína.
As cidades se entopem de diesel e cafeína, entopem o meio fio de campanha eleitoral.
E as libidos continuam carnaval, as mazelas dos pequenos jornais, e o poder instituído…

Desde sempre quis fotografar ventos e sempre fui motivo de pilhérias por isso, o fato é que eu sabia que um dia eu ia fotografar ventos.
Meu pai dizia que eu podia fotografar como jornalista ou algo parecido. Já minha mãe era mais modesta, falava que eu tinha que começar por casamentos e festas.
Minha irmã me incentivava a ser fotografo de arte.

A vontade de fotografar ventos foi maior. Já fiz fotos de ventos verdes, azuis e até amarelos. Fotografei ventos em praias, castelos e fui aos prédios, repartições públicas e museus.
Fui fazer este ofício embaixo de viadutos, em intervenções urbanas. Fui também fotografar vento ao campo. Serras, pedras grandes, rios e mares.

Sempre o vento me guiou. Sempre o vento foi meu pão. Meu fermento, meu sustento, meu cimento e às vezes minha tormenta.

Uma senhora um dia me disse que se eu quisesse mesmo encontrar esta arte, eu deveria fotografar tudo.

Se eu fosse tirar uma foto de uma montanha, ela ia ser com vento.
Se fosse flor, ia ser com vento.
Se fosse uma criança ou um animal, também ia ser com vento.
Aí vi que o vento estava em tudo, até mesmo no hábito.

Tenho comigo fotografias de muitos ventos. Mas, confesso que não tenho uma predileção por algum deles.

Até que eu um dia viesse a encontrar um vento mulher, um vento bacante.
Vento deus e vento demônio são muito comuns. Estes eu evito retratar.
Ultimamente, tenho me dedicado ao vento África e ao vento loucura, também aos ventos indigentes.

Mas, se virem um vento mulher…

Zé pintadinho era uma figura excêntrica!

XV

Meu nome é Vitória da Cruz. Chamam-me Sá Vitória. Vim denunciar desrespeito.
Zé Catirina foi e ainda é muito injustiçado. Sim, foi meu homem durante muitas noites.
Foi meu homem de estrelas sem ter sido meu amante.
Era uma candura sua prosa, aquela quentura jocosa. Zé Catirina tinha jeito de palavra.
E sua palavra tinha jeito de pedra, sua pedra tinha jeito de rio, seu rio tinha jeito demais, sua flor tinha jeito árvore.

Sentia tudo dentro

Fora era só cuidar do ipê branco de santa Tereza. Zé Catirina passou a vida amamentando um ipê branco em santa Tereza ( a vida e três décadas ).
Ficou lá em casa uma tarde, uma noite e meses a fio.
Tinha gosto pra falar do ipê branco de santa Tereza, dava paixão de olhar.

Eu, Sá Vitória da Cruz, venho por meio desta escrever seu nome na eternidade.

Se houve alguém merecedor de eternidade, foi Zé Catirina, na sua época ipê branco.
Sua época florida. Sua neve em primavera, em primazia.

Ele rezava, rezava muito e dizia que o milagre não vinha. Justo ele, Zé Catirina, que tinha o milagre mais alvo de santa Tereza.

Depois de sua morte (coitado, ouviu muito clarinete), fizeram homenagem ao contrário, porque disseram que flor de ataúde ser branca não era certo.
Mas flor roxa é o que ele nem viu. Velado por três ou quatro gentes sem importância.

Sá Vitória, que também não sou importante, não tive coragem.
Ambiguidade deste homem que era uma flor, um perfume, sem nome no mundo, Zé Catirina!

Este nome devoto a uma copa de árvore que Luzia branca seu mistério alvura altiva.
Um nome que sozinho conheceu árvore de ipê, sem pai nem mãe, mas floria com ele santa Tereza abençoada.

Não fizeram praça, nem fizeram coreto.
Não fizeram busto ou marcha fúnebre.

Em Santa Tereza nunca fizeram ipê branco sair da roxidão. Aquele coração lhe carregava as nuvens de imenso e parco nome.

Ai que paixão que dá! Seu velho missal correto de ortografia em minha caixa de memórias.

Vou forçar sintaxe porque lembrara deste descalabro. Vou sim, porque mandava rezar culto em oração para Zé Catirina.

Deus que louvado não seja que não fosse também ipê branco de Santa Tereza.
Jesus cristo que louvado não fosse também através de Zé Catirina!
XVI

Um dia o circo chegou aqui. Aqui parece que circo precisa ser sem nome.
O sertão tem tudo que está sem nominação. O circo chegou inaugurando a gramática dos doces de leite. O palhaço Ildelfônsio da Macaxeira e o seu séquito de crianças descalças inventavam novidades que não careciam do tempo. As bordadeiras riam, as rezadeiras se maravilhavam, os cães enlouqueciam. Cessava o planar das pipas. E lá ia Ildelfônsio da Macaxeira.
Desaparecer que ninguém reparava. Dormir sono de nuvens. Completar com madrepérola a parte que faltava para poder encher.

Estes fatos aconteceram quando era criança, o mundo brincava acontecendo notícias na esquina de minha casa (canto afastado da América).
As vielas tinham uma novidade distante. Naquele tempo, Ildelfônsio comprou um burrico e desmanchou a tinta da cara e parou de usar velha roupa colorida.

Passou a ser um homem de entendimento, passou para crente neste mundo de abismo.
Alguns cresciam em concreto e outro que era Ildelfônsio crescia em profundidezas e solidães. Passou a ser profeta de apocalipses.
Passou a praguejar a risada que ele tinha no rosto, passou a pregar cristo na cruz.

Aí eu me lembro que tinha esquecido do carrinho de rolimã que riscava o passeio.
Passei a ter que esquecer passar passado em vista grossa.
Observar o descanso do domingo com lupa de ler escritura.

Foi quando fiquei míope do chão. Aí que eu comecei a esquecer de lembrar.

Porém coisa certa que não hei de negar:
Ildelfônsio havera de nascer palhaço e morrer um diabo pequeno.
Diabo de calvário pedra e livro.
Diabo de cruz e vela torta.
Quando morreu nele a palhaçada, morria o homem e bendições,

Ainda hoje falam de lobisomem em monociclo no lugar que é Capão da Magnólia.
No meio de Quatro Bicas, que é lugar de circo, novena, rama de congonha e congada.

“ treis virge imaculada
treis hóstia consagrada
treis visão enevoada
treis vela apagada
quatro bica apagou tudo
fiquei sem podê seguí jornada”

Ildelfônsio da Macaxeira, palhaço profeta do ermo da medrugada.

XVII

Marilda Manguezal, estou sem fôlego em sua monocultura, seu mar de garças em um marasmo, seu mar de Espanha em mormaços, seu espumante e orgasmo, seu oceano sarcástico, minha lira antártica, seu sugar maconha, seu doce deletério.
Estou sem fôlego em meus mares nunca dantes navegados, Marilda Manguezal, meu Algarves, alga marinha, algo algodão, burburinho.
O sal nas conchas todo o sal nas garrafas e em caramujo. Todo o atlântico sul em navios negreiros. O negrume do ébano, um beijo agridoce, tormenta e chorume.
Todos os remos, todas as velas, águas seminais, ah Marilda Manguezal.
Seu perfume de absinto, seu sumo de águas vivas.
Arrebentação, arrebol, estou ao leme de seus descasos, longe de seus ocasos.
Lânguida lira, Ulysses, Calypso e líquidos.
Areias virgens e cegas ampulhetas em sua vertigem, ah Marilda Manguezal!
Estou sem palavras, estas que manufaturo, um séquito de poetas repousa em seu seio.
Um lume lunar tem sua liquefação abrigada em ti.
Um ar rarefeito se dissolve e se consome em sua espuma.
Uma orla de desejos na órbita do teu desleixo, Marilda Manguezal.

Seus senhores de engenho tem o mel de seus cardumes e o néctar de suas estrelas.
Seus fabricantes de monjolos o pó de suas venturas marítimas.
Marilda Manguezal, como foi tão bela despedida vestida de ondas.

A água de meu naufrágio tem a trêmula carne dos versos e densa teia da poesia.
São um poema minhas narinas alagadas. Ouço-te nestes vácuos de crosta, nesta ausência de chão.
Nesta cor que diz outra gama, outro espectro, nesta cor propícia aos prismas.
Vesti-me de Adriático e Mediterrâneo, adornei-me com Pacífico e Índico.
Sou sua cidade submersa cujo texto aguarda aquiescência, alimento aquedutos antigos.
Sou um fóssil de frutos do mar entranhando em sua caixa de tórax.
Inscrevo-me em suas camadas de carbono.
Sou Marilda Manguezal e venho de uma paisagem onde cardumes desesperam-se.

Venho qual estrela, Vênus inundada, iluminar seu caminho findo, qual rocha que desfere golpe derradeiro em seu barco. Seu casco antigo ganha meu canto molhado de bolhas e indecências. Sou seu oráculo de obscenidades.

Vieste ao meu encontro, José!

XVIII

Aquela prosa de lacônias que prosseguia nos vácuos em homilias mudas da noite acerca da Matriz de São Bento.
Aquele módulo de espasmos em seu rochedo lateral, à margem esquerda da Matriz de São Bento.
Os homens daquela infância sentavam quietos numa ideia de sentir melhor os ventos da Praça São Bento.
As ideias que não requisitavam lembrança, aquelas que se justificam em suspiros e tragos de cachimbo.
Estes eram como sermões à porta do templo fechada, adiando o rosário para outra hora.

Meroveu e Didi dispunham-se a ficar ali em silêncio para que a brisa lhes trouxesse um pouco de novidades. Ou apenas pequenas necessidades, brevidades.
Ideias a esmo, fumaça a granel, parecia sempre quaresma, salmouras a depurar o salmo na feitura do queijo.
Litanias e aguardente consomem os dias. Mas naquele rochedo, havia silêncio de Meroveu e Didi que sabiam que pés eram quase raízes. E era uma liturgia de bocas caladas e semblante de compleição para andorinhas.

Em uma só tarde este poema repete-se eternamente

O som natural sem buzinas ou sirenes, sem caixas de som exceto sinos (um signo de óbitos e uma tempestade nos hábitos). Parece que estavam a dizer imparcialidades de carne, de cor. Era como se o tempo esperasse por eles.
Ali, na pedra lateral da igreja de São Bento, Meroveu e Didi eram eternos, tinham a rosa da salvação em bocejos e contas de lágrimas. Suas argumentações amanheciam orvalhos.
Restauravam o canto da cigarra, nas horas infalíveis do relógio da torre que farfalhavam os ofícios (no seu labutar calmo).

Não se prestavam ao ébrio e às cartas. Meroveu e Didi tinham a resina dos dias como areia em suas lentes míopes. Era uma ciência de decupar os costumes para as horas mais certas.
Indubitavelmente, os sinos um dia os chamariam para eternidades. Mas isto era outro assunto a ser tratado com a mesma retidão.

O feitio da morte era sua calma. Na infância ao lado da Igreja Matriz de São Bento.
Não livrava nem Meroveu nem Didi de lenços e sapatos, o brim ao alvejante e sapato ao polimento; recolhimento e coletes de lã faziam do recato doutrina.

Um dia não terão mais o teor mudo dos embates em suas narinas e o vento nos chapéus.
Não terão mais os sinos. Mas estarão sempre distantes das urgências do mundo.

XIX

Mané Cerqueira tinha um eufônio. Principalmente, Mané Cerqueira gostava de tocar eufônio. Antigamente, tocava na corporação musical e nos motetos do Setenário das Dores de Maria, aqui em Mar de Garças.

Fiquei cego de partituras, mas reconheço os timbres de eufônio com o faro do sabor de seus óleos fluidos e a saliva que os compõem.
Decorei dobrados da corporação e não tinha dificuldades com marchas festivas.
A marcha “morte do justo”, eu tremia os lábios (um efeito de antigamente).
Minha cegueira não evitava alcançar os acidentes de qualquer tonalidade, qualquer modalidade.
Tinha um gosto por procissões. Solava nelas minhas lamúrias. Sim! Eu fui Mané Cerqueira, tocador de eufônios. Tocava eufônios como quem tocasse aboios tristes.
Boiada triste de fim de tarde era procissão, mas era também rebanho de bois.

A corporação musical tinha clarinetes engasgados que pareciam mesmo carro de bois.
Uma antiga predileção por claves de sol, um gosto antigo de lua como naftalina.

Ah o jasmineiro que se foi junto com Tarcísio, irmão de Carolina.

Tocava para os cachorros do Tarcísio, às vezes, eram mansos, próprios à cantilena na lua daquele jasmineiro.
Lua cheia de antigamentes, nos pingentes cristãos de Carolina, nos sermões apaixonados de nosso irmão alfaiate do linho e do brim que veste as imagens do largo do são Francisco.
Tarcísio e seus cães indecisos. Sim! Eu fui Mané Cerqueira, tocador de eufônios.

Os passinhos compassos compostos, haja compostura de lábio que tremia (teimosia estética, estilismo).

Em minha garganta, comungando os fluidos metais de eufônio, via minha paisagem musical. Ranulfo Mendes me chama da janela de seu sobrado. Vejo meu instrumento como o pigarro de quase um século de Ranulfo Mendes, procurando o próximo comprimido da noite.

Conheço as sertanias de perto. A causa foi a música. Conheço as sertanias de longe.
Fiquei cego de partituras, mas enxergo o som do poente aqui em Mar de Garças.
Fiquei cego de eufônios. Eu fui Mané Cerqueira, agora sou o betume nas vistas. Betume em fá ou em dó são as resinas que escorrem do meu olhar tristonho. Clave de sol ou de dó me fazem variar um pouco o solo, a solidão. Estas são minhas memórias.

XX

A capoeira de padre Herculano permanece (a despeito da narrativa pós-moderna). Intacta de barro, maciça. É uma estória levantada do chão. Um itinerário de pedra lisa.
Fornece adjetivo para quando a cor muda. Transforma o bucólico em solfejo.
É assim que pássaros escorregam de seu contorno. Lá foram, esconder o voo em aprendizado.
Musical: a dor no verde, o verde vagar, é a capoeira de padre Herculano.
É onde as carpideiras foram puir seus lenços, seus enganos.
É onde as cerzideiras foram engomar seus engodos, seus agouros engenhosos.
Onde está o manto que aquecia padre Herculano. Capoeira feita de mais de mil noites.
Longos tecidos, longos idos nos bordados.
Anos de esperar…

Podia ser Hermógenes falando maldições, mas apenas brenha verde no azul suspenso. Onde os vultos têm aura de palavras nesta memória inventada. Inventariada em lavras de amantes.

Desce então esta penumbra sem nome, anonimato escuro. Soluço neste fosso lama.
Um esforço de liquefação de desejosa alma, masturbada.

Amiúde amianto alcançou pulmões, pólvora chumbo e clorofila de padre Herculano.
Era um tempo de sonhos anis, um sono verde, oliva, magenta, uníssono.

As dinamites continuam abrindo galeria, as damas e seus pingentes. Do fundo da fossa, operários indigentes burilam gemas.
Terra de minério, minas, sílica e ipês roxos, terra de ourives e jardineiros.

Estas abominações seriam depois escritas em manifesto de Aristides Bocamorta que acabaria com seus silêncios de óculos fundos. Este continente sempre doeu.

Aristides Bocamorta recolheu-se em sua casa ao lado do cemitério que compunha a paisagem da capoeira de padre Herculano com seu chapéu e sapatos inequívocos.

Ia à capoeira em sábados tatear grãos e escolher pimenta lentamente.
Os outros gestos a palavra inventou, a intuição foi areia, hoje é árvore de capoeira.

Repousa em nenhures, padre Herculano.
Sua mata fechada, algures ensolarava.

XXI

Tia Maria já dizia que ia fazer chá de congonha pra tirar quebranto, tirar demência.
Ungir os pecaminados com folha de erva de congonha, da margem do rio vermelho. Rio de ouro e outra premência pra bendizer coisa divina.
Tia Maria era outra que passou debaixo do rio pra ver qual fio d’água que era de deus.
Fio de ouro no dente é que era do mundo, menino é que era de deus.
Foi com azougue que tia Maria viu loucura do mundo e resolveu enlouquecer de brincar, mas fazia chá de congonha.
Eram os meninos tirando ouro do rio, sangue de Jesus que fosse meu unguento, dizia tia Maria, cantando tudo em ode e lamento, cruz e fermento, fubá de munho e arruda no punho.
Cerrado feio e rio vermelho, fios de ouro no menino de deus, foi lá que rolou ribanceira, foi lá que subiu caixa d’água, adquirir conhecimento com luz de infância e monjolo pai e mãe.
Tia Maria punha-se a falar de seu pai, dos tijolos que ergueu e formou em olaria e tirou da fornalha do inferno a miséria dos idólatras.
Menino de deus, ah tia Maria, tirasse sua desventura também com querosene e aguarrás, limpasse seu futuro também.
Ela durou pouco sua iluminatura, curou muita hitiriça ainda mesmo assim. Chá de picão.
Rezava pra são Bento que evitasse os ferrão peçonhento. Dos mal agoro e dos mal de esquecimento, era uma elegia, era uma eucaristia, madrigal de tia Maria.
Debaixo das águas vive tia Maria em romaria, rendas e anáguas, mandalas bordadas na quaresmeira no quintal do rio vermelho, quintal de menino de deus, seu sobrinho.
Junto com as libélula, as mariposa do brejo e outro som que era coaxar de noite.
Grilos e torneiras tecendo o fio daquelas noites em rede.

Menino sobrinho de tia Maria foi morar debaixo das águas também. Foi lá que viveu a benção dos mangue, e nutriu minhas folhas de congonha. Até mesmo eufônio de Mané Cerqueira apanhou a poesia daquele tempo que tinha sido do outro lado das águas.

Cantiga desesperada de ouro no leito do rio, cantoria desalmada que pede congonha, tem piedade, tia Maria, desfaz loucura no mundo! Depois volta com o menino pra água, faz o cardume doar luz pro mundo! Tira o ouro do rio pra curar este malfeito, tia Maria! Depois volta pras águas com o menino!

Menino precisa de sua guia, tia Maria, para cumprir-se seu destino de água. Meu desatino neste mundo desvariado precisou de água de congonha sua, de rio verde, azul e vermelho. Este rio que é fio de ouro. Este trilho de água que é filho de outro.

Riacho de curva ligeira que farfala manjericão de sexta-feira. Boldo, cansanção e macaxeira.

Menino foi me chamar do fundo do ribeirão, água entrou em ebulição, tia Maria, rama de congonha e rima de alegria.

XXII

Zilda Quenturão tinha um cantochão de querelas. Quer ela divagando, quer ela banhando suas quimeras de frescor.
Zilda Quenturão e seus baldes em passeata, em procissão de fé. Pias batismais não tinham maior redenção. Águas seminais não tinham maior alívio.
A menos que chovesse.

Zilda Quenturão andando de sol a sol, balde na cabeça, escárnio na garganta. Um óleo precioso lhe fazia gemer as litanias, praguejações ao calor, ruminações ao calar em água.
O fogo de suas profecias ao banhar-se fora de água benta era cantoria desvairada.
A menos que chovesse.

Quando chovia. Eucaristia. Liturgia. Descia a hóstia e o vinho branco deste lado do rio, o lado mais seco, um vinho seco vinha até Zilda Quenturão. Blasfemando ingenuamente, desmentindo que nuvem fosse água seca e de vez em quando molhasse.

Partia dessa ignorãça e passou a ficar sabendo sabedoria em lado de contrário.

Nhá Santa lubrificava sua garganta de cachaça e outra candura para a voz, um veludo aguardente. Um veludo aguardando ela regente.
Ela regente de motetos com batuta que esperava que verônicas atravessadas chegassem atrasadas, ao culto do sacrifício sexta-feira e crucifixos.

Nhá Santa regia estes óleos que compunham as cordas da sua voz em poesia que fumava desde oito anos. Ela era o quadro vivo do azougue em regência ou outros nomes.

Tinha pronomes de tratamento arcaicos e os usava de maneira romanesca.

Um dia, Nhá Santa regia os motetos e eles eram lamentos de secura. Zilda Quenturão atravessou o cortejo e clamou por água.

Quando o bispo recriminava sua loucura em público, algum moleque jogou-lhe um balde d’água na cabeça do terceiro andar do salão paroquial.

E Zilda Quenturão olhou para Nhá Santa, dizendo que o milagre tinha errado a pontaria.

A rigor não me lembro de procissões com chuva por estes caminhos.
Mas Zilda Quenturão e Nhá Santa conhecem cheiro de terra molhada e os cultos à fertilidade.

Não tinham filhos, mas suas obras serão revisitadas nestas esquinas de secura e rito.

XXIII

Decantar uma frase musical em lodo é um trabalho de rios pequenos. Estes que não alcançaram volúpia diversos. Borbulhar que não para. Na vida dos peixes são canção submersa. Cansanção na compressa da benzedeira. Rio riacho de oráculo.
Itinerário ancestral de curvas, as pedras tentam sê-lo. Adquirem raízes no leito dentro.
O rio pleiteia os sons noturnos em descaso com margens. É como se ele sempre argumentasse o desconhecido em repetições. Seu trajeto ondulado de vagações, suas pontes de banzo, seus poentes em banzo.
Milenar feitura de sua carne fluida, sua narrativa infindável, nascente foz e lua nova.

A dama da noite e sua reminiscência bucólica têm sempre que estar do outro lado. Lado nosso tem automóvel e metonímias de efeito.

Boa poesia pede riacho limpo.

Água parece alheia ao desejo e a dúvida de quem sempre senta à beira. Ela diz um mantra. É um espírito antigo. Begônias, lacônias e Lacan; algures inúteis à vida do rio.

Ribeirão parece que precisa só de Geraldo Berrante, levar seu animal pastar ao lado. Pangaré conhece o atravessar. Em linhas gerais, Geraldo sabe que ele atravessa de contrário e de novo.

Este pasto é próprio das seivas do rio, seu sumo fica no verde arrodeado, assim a poesia habita ali. Acaba servindo à sede de cavalos e andarilhos. Vida de rio é resumida de generosidade.

Flor tem sua gestação deste mesmo início. O mundo quando começou pedra começou também flor e rio. Depois as árvores quiseram esta companhia. Foi quando os insetos se sentiram bem. E foi principiada a superfície.

Depois dos sapatos cheguei à conclusão de que o melhor é ser descalço. Aí subi a paisagem com pés nus, anus pretos, anus brancos, a sorte da cor é maravilha às margens.
Não sei se Geraldo Berrante também pensa assim (acho que ele pode pastar ali também).
Este rio corre mesmo é para pegar a fantasia, água não tem função quando não é sedenta.
Dizia Geraldo em sua ruminação contemplativa.
Ele começou adquirindo oratória relinchante, suas trovas eram doces onomatopeias.
Era o jeito de evitar metonímias de efeito. Quase passou a ser um cardume. Era reflexão e foi comungar de água e lama.

Retórica foi desfeita no batismo de Geraldo Berrante que conheceu Geralda Amarante, que lhe negou de ser sua esposa.
Ele pegou um fio de barbante e começou a costurar as margens. A água brotou-lhe de uma pintura Petrônio Bax.
Mas continuou sentir caminho. Barbante era trilho para terminar vestido de São Francisco. Com as chagas da ribeira.
XXIV

José é uma pedra que ganhou aprendizagem. Deixou de ser e hoje é só desejo. José tem sido uma pedra com muita vontade de ensinamento. Deixou o torpor das companheiras do rio. Isto foi depois de uma cheia, na sétima lua do ano corrente.

Mora no largo São Francisco e julga ter boas amizades (os Rocha tem faro para isto).
Deixa que seus amigos ancorem canoas a ele.
José não tem pretensões de navegar, mas voar…

Foi no alto do rosário que José descobriu tudo. Não poderia evitar seu destino de pedra. Testemunhou muitos fatos, mas tinha preferência pelas ideologias que nasceram à sua margem. Contudo, não podia emitir juízo.

Pois que aos rochedos é dada uma atribuição apocalíptica que destitui dos verbos suas flores.

É um pouco diferente de árvores (a estas é dada a faculdade de respirar e morrer).

José tem primazia em mudanças, foi dito que observando sol e lua poderia virar solo. Para tanto tinha que concordar com a ação dos séculos. Sob esta égide, José poderia virar parede ou virar igreja.
José poderia ter virado um busto em alguma praça.

Mas José rolou dos Ingás faz tempos, ele era do tempo de montanhas, tempo de minas.
José era do tempo de amantes, era precioso seu penar entre britadeiras. Não gostava destes excessos.

Tentou abstrair palavras destas loucuras, mas ninguém tem ouvidos a uma rocha salvo as corujas. E estes signos de luz serem noites.

Como uma boa pedra, José era uma pessoa que tinha medos. Ficou sabendo de homens e mulheres, com pulseiras de brilhantes, anéis vistosos e pingentes… José preferiu os ermitões.

Foi aí que conheceu Sebastião Cabeleira, um andarilho que jurou segredo aos pedregulhos. José, que era um pedregulho de oito pontas e gozava de posição privilegiada como um polígono natural ouviu juramento de Sebastião Cabeleira.

Sebastião Cabeleira lhe deu o apelido de tabelião de juramentos.
Assim José passou a lavrar em cartório o juramento das loucuras e das luminescências.
O mundo passava por maçãs e guerras, enquanto José crescia em fortaleza.

Sebastião diz ter ouvido de José uma gramática inteira para pedintes e borboletas. Além de uma lira de sonetos para líquens. A pedra, por sua vez, obteve estes entendimentos com as nuvens.

José, este homem de sedimentos!

XXV

Eu estive num desenho de carvão, desenharam as árvores que eu plantava. Depois fumaram maconha e acenderam velas. Era um mata-borrão nos mata-burros que mandei colocar. Acho mesmo que foi coisa colocada. Aqueles traços monocromáticos de árvores como se os galhos voassem de mim para outro lugar.

Eu estive no rosário do terço e do reinado, estive no reino dos pés de manga. Meus mortos comiam manga antes que apodrecessem no cemitério. Eu estive no presépio e depois na taverna com o vinho e o manjericão.

Eu era mesmo um homem de estrenhezas, fabricava estrenhos para as cruzes, agora o faço para as nuvens. Nuvens estrenhas chovem alfazema na terra de meu patriarca.
Este homem que colhia girassóis num solo de enxofre, solo pagão de violinos e tristeza.

Feiura sempre esteve no mundo desde meu revés, à revelia dos pastores apascentando rebanhos de epiléticos. Prometi lavrar escrituras para covas, arar a terra dos famintos.
Prometi terreiro prometido e prometi oração de nova Jerusalém.

Entoei cantições para os espíritos de benquereção, de manhãzinha nascia minha flor desnaturada. Coloria querela no cabelo vermelho de Maria Sá Sação, que era mulher de minha ventura. Era mulher que também fosse espasmo cândido, fosse doce pau de mamão, fosse rama de boldo que rimasse as trovas remasse na barca da perdição.

Outro destino desatinei para ela, que havera correr nações de mendicância em salvadoria de cantição. Tinha notícia de Maria Sá Sação, de sua inocência mundo afora, sua clemência para desalmação das sertanias, seus melhoramentos em terras de pedra e cansanção.

Já eu, nunca esgotei lamento de lamiúra, no afundamento de meus olhos de paixão sem conserto, era uma trama descaminhada que eu profundava em minha fábrica de estrenhos.

Veio um dia Zé Gominho encomendar um estrenho de leitoria evangeliósa. Era para o viúvo de Maria Sá Sação. Foi aí que descobri cantição em mais fundidade que eu achava.

Jesus que permite eu cunhar belzebu no estrenho do viúvo, pois que de Maria só me dava notícia de tristeza.
Jesus que permite que eu voasse com as árvores desenhadas.

XXVI

Zé Roxim era outro nome que eu tinha na época das revelações, quando eu bebia água limpa. O mundo tinha o livro dos nomes. Até que vieram gafanhotos na minha lavoura de feijão. O céu ficou uma coisa sem nome. E o rio conheceu sua secura. Tempo conheceu noite e a flor chamou chuva. Chuva choveu chumbo.
Marilda Manguezal tirou os nomes da terra porque foi tudo enchente, ela refletiu lua minguando o sal e a seiva para o leite. Só besta fera tinha leite, eu era Zé Roxim chorando sangue derramado na cava da Boa Viagem. Meu gado ficou com hecatombias ruminando areia.
Empoçou um lago verde oliva arrodeando as aroeiras e ramas de arruda. Marilda Manguezal deixou jejum em minha criação, minha plantação de nenhures, minha monção e minha colheita desvassada tempo de revelações.

Jorge jardineiro não tinha mais o que podar. Francisco leiteiro não tinha mais o que ordenhar. Dindica não tinha mais deus pra xingar, e tia Benedita não tinha mais deus pra orar.

Marilda Manguezal tirou deus do mundo, dizia o Bispo Julião.

A mim restou cativeiro, fiquei assim cativo de mundo novo. Por que tudo antes Marilda levou pro mar, por que pomar que era antes agora deu-se com veneno.
Semeei na pedra da lajinha e aconteceram eucaliptos. Ungi o seu corpo com sumo de eucalipto. Eu ainda queria estar no mundo.

Depois que Marilda foi ao mar com peverseções, comecei de vagar cantições e cessei lamiúras neste continente que ainda alcançava. Godofredo Pereira me dera possessões, então eu cuidei desta terra nova. Com perseverancia lidei na terra com as bendições do bispo Julião e com as chuvas que choravam por Maria Sá Sação.

Espalhei estrenhos pela estrada de Godofredo Pereira em água parada de Mar de Garças O estrenho espantou as lamiúras de quando eu fui Zé Roxim.

Rosa moça Flor viveu no mundo sua vida pra louvar a volta de deus, estava tudo confirmamento. José Pretextato e José Terceiro desgouraram as cancelas e Mané Cerqueira cegou-se com luz de tanto eufônio. Com solo tão tristonho, eu, Zé Roxim labutei estas semeaduras.

Vieram a mim brotos de canduras.
Tia Benedita voltou a orar pra deus,
Dindica voltou a xingar deus,
Nas homilias de bispo Julião,
Nas profecias de Maria Sá Sação e de Ildelfônsio da Macaxeira.

Tarzan das Bananeiras voltou para o reinado dos rosários.
Jorge jardineiro voltou a podar.
Francisco leiteiro voltou a ordenhar.
Manoel intendente comprou estrenhos e afugentou Marilda.
Manguezal sorriu.
Maledicturas é não conseguir se acabar.
XXVII

Zé Borracha foi designado para ler o testamento de Tia Maria. Meroveu e Didi foram as testemunhas:

Dissesse que o mundo fosse melhor sem lamiúra era verdade de fidedignas virtudes, dissesse também pro meu sobrinho, menino de deus, que ficasse longe das possessões de Godofredo Pereira e honrasse o nome de Zé Catirina esteja então, livre neste mundo.

Dissesse que respeitasse Sá Vitória da Cruz quando seu ipê esbranquecesse que levasse ela do carro de boi longe de Santa Tereza que aí mistério era findado.

Dissesse pro menino que rezesse toda vez que fosse entre as árvores da capoeira, tirasse peçonha do mato. Dissesse que brincasse no largo São Francisco e Matriz de São Bento.
Dissesse que ignorasse tudo que é maledictura em respeito às cantições de Marilda Manguezal.

Dissesse que Rosa moça Flor era pra ser de Manoel Intendente, e Maria Sá Sação era de libertar o mundo.
Dissesse pro menino também que comprasse três estrenhos na mão de Zé Gominho, que aliviasse então a quentura que vai em chegança.

Tivesse também meu menino sobrinho muita perseverancia até que Zé Terceiro e Zé Pretextato parasse de gemer lamentação.
Nhá santa vai reger motetos para que crescesse meu menino no meio dos cães do Tarcísio e sua irmã Carolina.

Meu sobrinho que não chore pela minha ida e nem pela ida do tio Ranulfo Mendes, lembrasse seu Chiquinho e seu Agostinho. Lembrasse também Inácio. E também Dindica e Geraldo berrante.

Que meu sobrinho sempre desse bom dia para Aristides Bocamorta, para o velho Aníbal, não deixasse de admirar eufônio de Mané Cerqueira.

Eu vou me embora, menino sobrinho que é de deus, pois eu que vim da água, pois eu que volto pra água.
Peço menino que num esquecesse as folhas do chá de congonha.

Um dia, menino, se quisesse, viesse pra água comigo. Debaixo do rio que é fio de ouro, conhecer destino de bendição e louvação.
E aos que ficasse, ficavam debaixo dos seus olhos, menino!
E aos que fossem, ficasse no seu coração de benquerença.
A todos os nascidos que tivesse um quebranto me chamasse. Pra tirar demência do mundo. Pra tirar penitência.

Eu vou me embora para as águas do meu batismo.

Testamento de Theresa de Maria (TANGOS SEMINAIS)

Fico muito preocupada com minha prole. Extraordinariamente que estou em vias de leito de morte. Vias opostas de vida sem desgraça. O principal motivo foi notícia que o pai de minhas cinco filhas morrera antes de mim. Foi de morte sem muita explicação, assim como deverá ser a minha.
Este homem me deu cinco rebentos em seis anos e depois cessou sua atividade usina indo para o estrangeiro que é São Paulo. Nunca estive lá e ele também nunca mais esteve em mim.
Pois então, em vias de regra, deixo meu testamento para o meu rebanho de cinco bordadeiras rezando novenas que não acabam nunca…
Altemar Tanhendé é de minha confiança, assim como não Aristides Bocamorta, por exemplo.
Desejo que Tanhendé seja o tutor de minhas filhas, ele que foi maçom apesar de ter expulsado desta nobilíssima seita sua extravacância possui atributos para a empreitada que lhe designo também de sorte, e que, se case com a mais velha.
Já Zequinha Bilico poderá lhes ensinar o Graciliano e a Raquel de Queiroz, mas não mais que isso. Pois temo muito suas ligações com o Aristides que de muito tempo tornara um perdulário.
Rita fora d’água e Maria risca pedra poderiam ampliar o horizonte provinciano de quermesse de minhas queridas, muitas vezes o delírio é absolutamente necessário; só peço que risca pedra não envolva o ex deputado Gouvêa que é este sim um insano inviável.
Desejo que minhas meninas conheçam Raquel Benevides que parece estar apta a ajudá-las a cuidarem de Maria minha mãe.
Já a Dolores Rodamunho decreto a ela outro mundo depois de carpir meu corpo.
Ass.: Theresa de Maria. Num tempo de agonias.

Esta alvorada
Trouxe a cor do chumbo
E o cheiro do gasoduto
A voz carpideira
De mentiras verdadeiras
Carbono e amianto
Invadem os orifícios
Daquele que jaz em esteira fria
E músculos enrijecidos inutilmente
O corpo já é um arte fato sem sopro
Sua sobriedade defunta
É o que requer esta despedida
Adjetivos ficam banais
E nunca se disse tanto deles
Ora
Estas palavras não os levantam
Não levantam suspeitas
E as qualidades dos mortos
São inquestionáveis
Até que caiam no esquecimento
São remédios entorpecentes
Combatendo cólicas
Auxiliando calmantes
Num temporal de sílica
Ou estanho

XXVIII

Coronel Epaminondas era homem de sabedicências. Tinha leitorias em modificar desinências (estas ocultidades da alma lhe eram inerentes), obteve ciencitude de muita modalidade diferente, era livre de semântica e não tinha ambiguições.
Tinha provisão de plantar café em proveniência divina. E misericórdia profana.

Não era gente de excessos, cultivava tinhorões e observava o látex do veneno. Aprimorava o soro de sua escrita. E admirava prudente e oblíquo. Inclinava para positivismo e declinava infinitudes. Precisava ser pássaro, às vezes, mas não era de bucolismos.

Eu adquiri as terras da fazenda Estrela por que acredito que os grãos farão este país uma terra vindoura, prometida de algures.
Expulsei poceiros, Sebastião Cabeleira era meu advogado (depois jurou segredo às pedras, alienou-se.)
Não posso admitir estes langores apaixonados face ao progresso que labutamos debaixo do sol.
A posse laboriosa da terra dignifica a obra, do latifúndio faço engenho afortunado.

Este homem visionário perdeu sua mulher com precocimento. Maria Sá Sação teve desgosto de espírito. Já o coronel desgostou com gafanhotos. Sua lavoura não vingou.
Mas, não teve descendimento de caráter. Passou sempre a aplicar as leis de sua rosacruz.
Não demorava muito em conclusões, absorvia pragmatística com facilidades de homem contábil, não considerava fracassos. Seu engenho começa no desejo. Seu desejo começa na certeza. Coronel Epaminondas era estoico, sua rocha Luzia veio em viuvez.

Depois que deixei viuvez, comprei fazenda Palestina. Construí engenho de garapas, moenda de munho, fubá e cana. Fiz lago artificial que Luzia e eu maravilhava tudo.
Carpas ao lago e corpos ao relento era nosso amor de funduras.
Veios espessos nos nutriam um orgasmo de árvores em outono, árvores gritantes.
A moenda fazia o mel que o mundo queria e precisava. E o monjolo pilava o fubá para outra sustança dos homens.

Foi quando coronel Epaminondas mudou suas virtudes, jurei às pedras o rompimento com ele. Foi quando me veio José, o tabelião de juramentos, chorando as águas de tia Maria.

Tive terras, tive gado, hoje sou Coronel Epaminondas, morto de todas as fraquezas. Dediquei-me a conhecer ofício dos filhos de Adão sob o sol, e concluí que tudo é vaidade. Vanitas vanitatum ad libitum!
Sou hoje um perdulário e a luz que a mim Luzia é uma penumbra em meu ataúde.

Tenho hoje, em meu velório, neste signo de morte, lembranças de terra de nascimento. Em Mar de Garças eu era apenas uma criança suja. Depois minha vida foi apenas travar conhecimento com homens sujos.

E foi ao colo de Luzia obscurecida que Coronel Epaminondas suspirou em derradeiro.
Eu, Sebastião Cabeleira, fui ser homem de barba e canoa.
XXIX

Zé da Ladeira e Zé da Ribanceira tinham um programa semanal na Rádio Pioneira de Mar de Garças. Certa vez, inventaram uma cidade e a chamaram de Água Parada.
Era uma crítica à cidade natal e seus idiotas populares.

Um escritor nativo veio a escrever esta crônica. E outras também.

Os dois Josés se denominavam Compadre A e Compadre B, e endemonizavam com duras críticas às pessoas que julgavam saber muitas sabedicências. E não sabiam mais que maledicturas.

Os dois compadres não queriam estar distantes das urgências do mundo, mas estavam na premência de seu próprio ineditismo.
Relativismo do que não é novidade e do que é.

Criticavam todos idiotas exceto Ildelfônsio da Macaxeira e Zé Pintadinho. Estes que mereciam sim ineditismo.

Zé da Ladeira e Zé da Ribanceira tinham um programa semanal na Radio Pioneira de Água Parada.

A comunicação a serviço de escrachos e escárnios, a comunicação a serviço de estrenhos. Assim, Josés, sem cavalo que fuja a galope e sem cantar a valsa vienense.

Tocavam cantições de Zé Terceiro e recitavam lamiúras de Zé Pretextato.
Leitoravam juramentos de Sebastião Cabeleira.

Incendiavam bispo Julião e Manoel Intendente com estrenhos.
Zé da Ladeira e Zé da Ribanceira tinham um programa semanal nesta cidade, os compadres A e B de Sá Vitória e Sá Sação.

Padrinhos do casamento de Rosa moça Flor e amigos de comadre Tia Maria.
Contavam histórias de Zé Catirina, Zilda Quenturão e Marilda Manguezal.

Iam até Marilândia pescar na ribeira do Bela Vista, voltavam com cardumes e poesia.
Nunca mais outra cidade precisava de tanta poesia como as de Zé da Ladeira. Nunca mais outra cidade precisava de tanta profecia como as de Zé da Ribanceira.

No Peão e no Cafofo e nem em Godofredo Pereira com tanto estrenho nos mata-burros eram de dificuldade para os dois. Todo sábado na hora marcada. Encontro marcado com os compadres do morro do Calado e da serra da Andreza.
Demonizados como Zé da Ladeira e Zé da Ribanceira, fazmigerados.

Este é o aboio derradeiro de cantições.

XXX

Luzia que foste viúva duas vezes e, dubiamente castigada, apaixonou-se por Lamounier Godofredo. Que era capitão mor da guarda de congado.
Irmandade do rosário desgostou de casório. Bispo Julião e padre Herculano casaram os dois em cerimônia de mistério. Celebração de segredos.

Zé Pintadinho da liga operária que atendia na paróquia de Senhora do Rosário descobriu e considerou desacato.

Luzia fez promessa de batizar sete pagãos e Lamounier Godofredo deu almoço pra sete inocentes.

A irmandade do congado não perdoou nunca o homem Godofredo que casava com Luzia viúva de latifúndio.
Bispo Julião obteve uma ideia e pediu que o casal mudasse da cidade.

Fosse constituir família em terra desconhecida. Novamente, Luzia prometeu estrenhos acaso desse certo.
Foram pelas medrugadas, Luzia e Lamounier Godofredo. Agora com os nomes de Ananias e Marguerite.
Foram embora inventar congada em outras bandas, lavrar as terras de outros lugares, outras possessões, outros engenhos de nenhures.

Fundaram comunidade de Godofredo Pereira, que tinha estrada e estrela cheia de estrenho.
Lá vivia Zé Roxim que deu notícia dos dois em Mar de Garças, quando a mulher obteve a notícia de sua morte findando agonia de terceira viuvez.

Zé Roxim deu notícia a Zé Gominho que Ananias era um velho desventurado de nenhuma esperança.
Em Godofredo Pereira só se ouvia lamiúra de Ananias de cachimbo verso e prosa. Uma elegia laboriosa, uma cantição de labuta e desespero, pujança e peleja.

Zé Pintadinho ficou sabendo das penúrias de homem Ananias e resolveu conhecer a comunidade de Godofredo Pereira e aquele ser de penumbra em meio dia.

Deparou com muitos estrenhos no caminho e rezou pai nosso.

Chegara com a face da morte em Ananias que tinha semblante de capitão-mor Lamounier. O segredo Luzia de uma fronte apavorada com langor de morte e medrugadas. Lugar de sorte embriagada.

Sol nasceu em Godofredo Pereira, sob as faces da vergonha, este homem que fugia de viuvez e de outras terras.
Tarzan das Bananeiras conta esta história como profecia entre seus charutos. Godofredo Pereira e Zé Pintadinho ganhavam ali maledicturas em seus estrenhos e em seus eufônios.

Luzia à noite. Seus ex-votos expurgavam.
XXXI

Foi em uma tarde de agosto que Tarcísio recebia Zé da Ribanceira e Zé da Ladeira. Sua casa de irmã costureira e irmão alfaiate de almas tinha cães rodeando a prosa.
Aqueles animais não tinham perambular tão a esmo quanto se intuía de cachorros. Eles gostavam daquele desleixo do velho Tarcísio.
Tinham espírito de errantes entre o torresmo que caía ao chão em uma distração de azougue do seu dono alienado.

Aquela casa antiga entre cetins, brins e bosta de cachorro velho. Aquela mobília do tempo do monsenhor e dos patriarcas de bigode.
Naquela cidade, devia-se muito aos Mendes, era o que se dizia. Mas, logo Tarcísio tão absorto de seus ermos! Via-se que ele não queria este quinhão.
Sentia-se satisfeito quando Josés traziam-lhe fumo de rolo.
Carolina coava café com rapadura na observância dos cães, o resto era ignorância.
Calavam-se os três irmãos naquela mesa de réstia de sol e os cachorros sempre às rés do chão.

Tarcísio e os compadres Josés examinavam letras de tipografias passadas. Aquelas notícias que pareciam ser de outro mundo morriam em silêncios e suspiros de fechar tarde com tramelas de cedro, desde cedo.

A noite vinha com o perfume do jasmineiro e com as rosas da Praça São Bento, o cão recolhe-se ao langor entre moscas. Carolina deixava o trigo descansar e ia cerzir, depois deixava o pano para descansar e ia cozer. Assim revezavam noites e dias.
Tarcísio lia a bíblia e excomungava desditos, fumava, dormia e olhava seus cães.
Seu irmão, alfaiate de almas, riscava seus sermões do linho mais macio e cortava em moldes suas homilias, tecia túnicas e calças, paletós entre valsas. Esta era sua obra.
Tinha um alpendre naquela casa, lago artificial com filhotes de carpa. Tinha gaiolas dependuradas na parede do cômodo que dava para o alpendre, ali se abria alfaiataria.
E silêncio ao ouvir a marcha “cidade das rosas” que era outro nome do lugar existindo em fantasias e em tumbas de bispos.

Este tempo narrado enlouqueceu de tal forma que não mais a ouço, “cidade das rosas”, não mais os ouço, três irmãos com legado dos Mendes, não os ouço, três compadres da tipografia, não os ouço, cães de Tarcísio… Não vejo mais cândido Tarcísio, seu compêndio de cachimbos. Seu jasmineiro lateral jaz em mim litania, ladainha do linho, querela de cetim.

A morte da Praça São Bento vive em meu fantasma, minha quimera, teimosia de cachorro sem dono.

XXXII

Tarzan das Bananeiras quietou seu bumbo. Seu batuque morava na sangria do tempo novo. Seu novo advento em zabumba paralisou naquele badalo a Matriz de São Bento. Não tinha provimento de farinha, broa de fubá e rapadura. Não tinha mais cabimento.

Calou seu tamborão ao lado da catingueira de tinhorão, bem nas planuras de Bem Posta, aquela lonjura.

Distanciou da batucada a relevância do estandarte, senhora de Boa Morte, contas de rosários que coloria fita de cravelha em viola muda.

Violaram seu barracão atrás de feitiço. Encontraram bandoneon e cachaça.
Acalmava-se tudo naquela esquina, algodão entrou nos lugares onde o medo respirava nele, Tarzan das Bananeiras.

Ainda hoje sem história indigente de pendão. Maledicente do brasão de Mendes e Cerqueira. Tinha umbuzeiro em sua horta, plantou alienação.

Viu graça e desgraça no mundo, fez a conta certa: três luas minguando três sextas-feiras, treze rosários e sete nascimentos de orquídea. Tomou alecrim, cheirou manjericão. Transformou nuvem inteiriça em cantição, em voz maciça de maledictura, depois voz candura de benquerença. Sumiu com estandarte de boa morte, foi com tambor rezar pelas perdições que o mundo lançava em estrenhos de desconjuras.

Não era dado a lamiúras e não era sem tempo se não fosse na hora derradeira.
Cansou-se da brincadeira, o jogo do baralho e a sorte na mão, cansou-se de conhaque.
Destinou sua vida por inteiro à viola, ao amor de deus e à carecença do mundo.

Foi entoar poesia de rima contada em fava de mel, no céu dos vagabundos.
Cheirou uma rosa delirante de quem tem suficiente pra deixar a vida do mundo.
Abraçou uma árvore, sentou numa pedra, ouviu um rio e ouviu Rei Salomão.

Nhá Santa não entoou melisma, nem moteto e nem cantição. Tragou aguardente de Verônica. Chorou carpir ao cerzir seu terno riscado guardado para a ocasião.

Nhá Santa não praguejou maledicturas, tirou o chapéu dele e pôs-lhe um cravo no peito. Não foi lamiúra, Nhá Santa soltou os estrenhos e arriscou seu latim embebedado.
Foi lamento bem engendrado.

Tarzan das Bananeiras foi pro quilombo do Rei Congo, com quinhão de boa morte. E aos viventes desejou melhor destino. Este que foi um homem de destino congo, destino jongo, destino breu e luz.

XXXIII

A cidade e seu fluxo nunca param de pulsar solidão. Esta que parece sempre ter estado a fazer sentido. Paralelepípedos iluminados pela luz difusa da noite, sua consistência molhada de garoa que premedita o crime na garganta.
Sapatos escorregam lisos a chuva no chão e o sangue nos gestos parece ter sido sempre assim. Estes fluidos na calada da madrugada, o prazer e o açoite.

As praças projetadas para o convívio. Os bustos na praça projetados para a memória, Este aço frio dos gumes. Este orvalho que se esconde como se fossem dele todos os pecados de corroer os dias em um alaúde fúnebre alarido funesto: os sinos e as mortes, as sinas e as sortes, todos jogados ao jugo.

A cidade e suas vielas, sua visão entrecortada por desencontros, deleite pelos seus duplos, suas pontes que unem a dispersão de seus alheios. Seus meios, seus fins, seus princípios com vocações democráticas (estas que o ocidente corrompe).

O ocidente é um porão cheio de ratos, nós somos a sobremesa, mas não era para ter dado errado, não era para ter dado tão certo: esta multidão atrás do benefício da previdência, num caminhão que trazia esperança em prato frio.

Igrejas parecem colher todos os desesperos, mas coletam dízimos para a seara do senhor, financiamento de nuvem na planta e de planta na nuvem. Com sorte financiam piscinas.

Eles na cidade vêm trazer o alarde das matracas e da vigília, aleluia sexta virou sábado: ressurreição de descanso eterno, ressurreição sem receio.
Não há segredos na lua insuficientes da poesia nesta cidade, não há nada de novo sob o céu desta cidade.

Sempre tudo foi escárnio, tudo foi escracho, foi abuso de ex-votos e algum aboio triste.
Cantilena apaixonada, cantochão de liturgia, cantoria eucarística, cantador banjo, bandolim, alaúde. Aos fungos do meu túmulo este éter das terras. Esta terra ébria de velórios.

Todo este falatório, esta oratória miúda no silêncio das paredes e no leite das pedras.
No leito do rio, no látex das litanias, no cântico das heresias, este oratório de elegias.
Ladainha constante de jurisprudência de homilias. Sermões apaixonados, sertões.

Assim a vida prossegue no ofício de vento e ócio, um ópio nas vistas cansadas dos míopes. Também outros circunlóquios, verônicas e melismas de querela, entoadas na semana das quimeras, ah nossa democracia inspirada em mártires, não seriam homens comuns!
Nossa aflição e nosso gozo, alfazema aspergida nos turíbulos. O manjericão dos senhores mortos, o algodão que lhes cobre o sopro.

O alecrim, o alecrim e o azeite, um óleo que escorre a alvorada por galos e cães, o vinho, o azedume, o trigo e os pães.
Todas as cores, Corporação Musical Nossa Senhora das Dores, seus finados Cesários.
Salmoura de peixes e pescadores de infortúnios. A congonha, o almíscar e o mofo entre os jornais de Lourenço.
A cidade tem cantos obscuros onde cabe o século vinte.

O tempo não deixou vingar quase nada, apenas a certeza do fim. Agiu com implacável parcimônia e poesia de morte. Os afrescos, os arabescos, nada permaneceu vivo, as aquarelas à tinta a óleo e também à bebida destilada.
Os vultos ganham força quando sinto medo, há um perigo que vagueia perdido numa noite que não terminou. A noite de todo o calar-se, e emudecer a terebintina e a lira.

A mocidade vem inalando sua própria amônia, seu próprio absinto. E a velhice se perdeu entardecida em tardes.

O tempo estragou as violas, os violoncelos. Deixou a carne branca em seus anelos.
As mulheres ficaram próprias às lãs e ao bordar, enquanto os homens à pesca e às cartas. Tudo ficou perto de terminar, contudo parece ter ganhado mórbida eternidade.

Todos os viventes nascidos reproduziriam isto sem escolhas, até que a sorte trouxesse apocalipses. Não há mais diferença entre uma margem e sua oposta.
Jogos de interesse fizeram a margem e seu duplo um espelho editorial.

É esta a razão da loucura ser messiânica e tão atrativa aos estudiosos (os escribas da antiguidade fazem inventário da loucura como fazem escrituração).

Quem conhece estes interesses não pode dizer que não são obscuros.
O tempo em que vivemos torna tudo em obscuridades: do unguento a erva daninha, do veneno ao soro e do vinho ao vinagre.

Pílulas trazem euforia à angústia, assim o tempo nos consome a obra.
Sem deus, sem sonho e sem nascimento, sem provimento, sem cabimento. Sem corrimento nas cavidades.

Pássaros movimentam estas agruras. Flores nascem siamesas. Somos, assim como elas, apenas acidentes. Incidentes de imperfeita genética e maravilha doente. Tempos passam de tempos em tempos urgentemente.

A noite precisa fabricar o orvalho e a usina precisa produzir o aço, enquanto o ar precisa de um fôlego.

Foram tempestades, ventanias e furacões. Alpendres e varandas continuaram imunes às doenças infectocontagiosas e às enchentes.

Este ritmo tem se mostrado cruel às faces e suas rugas. Apenas traças em sua estante de livros parecem ganhar cada vez mais agilidade.

O tempo há de enterrar as personagens e deixar a ficção aflita, vagando incerta entre arquiteturas inúteis, símbolo de vontades mortas.

A cidade parece resistir aos homens, e isto é uma história antiga.

XXXIV

A mulher que lavava roupa na estação de trem abandonada vestiu-se da fantasia com as águas da loucura e desatinou seu mundo.
O menino que lá ficava e lavava e brincava vestiu-se das asas das palavras e foi correr mundo desembestado.
Portanto, risco de besta e apocalipses levaram embora.
Mas o lugar ficou com o destino de pedir benquerença eterna.
Mato passou a crescer e algumas paredes caíram. Torneira é que continuou a pingar o tempo do mundo, o tempo do lugar, passou a vazar os desvarios.
É que todos são surdos.
É que estão todos surdos.
Absortos em outros absurdos.
Água vai embora, não lava nem mais a memória, nem mais os sapatos.
Pisam o mundo com sapatos sujos.
Água corre correnteza em memória dos descalços.
Desprovidos de sapatos na labuta com o chão dos credos, comichão das cruzes.
Por isso mesmo água é quase silenciosa. Tecnicamente, pode-se dizer isto depois que trem abandonou a vida, depois que menino abandonou o lugar e depois que lavadeira abandonou a água.
Mundo há de continuar seus nenhures, há de resistir até outras agruras.
Ruínas são impunidades ainda de pé, os homens imunes ao lavar são sujos de algures na alma.
Quem houvera veredicto não está no mundo.
Quem houvera voto de minerva também não está no mundo.
Contudo não esteve também quando estiveram mulher e menino.
Não esteve ninguém digno de estória com mulher e menino, nem roupa nem sapato.
Não esteve ninguém digno de estória com mulher e menino, exceto água e tempo.

APÊNDICE

O Tarcísio só entra nesta estória por causa do Reginaldo Miraflores, que jogava bola no espraiado da Matriz de São Bento de Mar de Garças; o resto era lolota.
Reginaldo Miraflores só chutava a bola para dentro do terreiro do Tarcísio, que era cercado do muro de caco de vidro do Tarcísio.
Já o zé, dondoca da tivinha, só entra nesta estória pois era apaixonado por Dona Nigrinha. Como tudo arranja um jeito de jeito arranjado nesta estória de outras estórias todas juntas, Dona Nigrinha nunca soubera de mancebo José, dondaca de tivinha, o qual lhe tinha devoção. Dona Nigrinha só entrou para a estória para cheirar manjerona do terreiro do Tarcísio, que era adornado por Jorge Jardineiro o também podador de orvalhos, que era vizinho do Zé, dondoca e tivinha, que laborava na missa do irmao do Tarcísio, que de alfaiate do linho passou para ser alfaiate das almas, que de pescador de peixes passou para crente.
Justamente na Matriz de São Bento de Mar de Garças onde no espraiado o Reginaldo Miraflores jogava bola para dentor do terreiro do Tarcísio, que furava no meio da manjerona que Dona Nigrinha cheirava, que apaixonava Zé Dondoca da Tivinha.
Vinha Jorge Jardineiro, podador de arbustos. Vinham José e Tarcísio, na praça, de bustos indecísios e de sustos indecentes. Dona Nigrinha uma donzela indulgente. Das manjerona e dos alfaiate e de todoeste povo insolente.
Geleia melhor teve Dona Dulica, era incelente.

XXXV

Aníbal permaneceu com seu armarinho à Rua Necésio Tavares, fechando-o sempre às cinco. Nunca se confundira entre fitas métricas, carretéis, botões, agulhas e elásticos.
Aos poucos, foi desfazendo sua alma de miudezas. Assim, conseguiu organizar-se um pouco mais diante destas brevidades.
Coisas pequenas ele não as menosprezava, pelo contrário, estava sempre atento a pequenos sinais de diferenças. Certa feita, os vizinhos da Rua Necésio Tavares lhe foram generosos quando ele estocava quinquilharias maiores em outro espaço que não fosse sua sala no edifício Dona Zoca.
Havia moldes cortados com Zé Catirina, havia metros de tecido com Zé Gominho, tesouras com Zé da Ladeira, novelos e mais novelos com Zé da Ribanceira, havia também bijuterias com Zé Pintadinho e pequenos broxes com Zé Roxim.
Aníbal tinha tempo para escrever lamiúras para Zé Pretextato e cantições para Zé Terceiro.
Havia sempre um tempo de ouvir o relógio da torre da matriz badalar dezessete horas. Sempre houve esta espera.
Aquela mulher, no entanto chegava para lhe responder sobre ajudar com alfaiatarias sob encomendas.
Veio uma mulher desiludida com sumiço de Sergio Endrigo com Rita Pavonne, Charles Aznavour com Edith e decidia ali mudar sua vida.
Ela entrava no estabelecimento com confidências de ter amado Rita e esta ter lhe abandonado com seu gato e de ter amado Edith e a mesma lhe ter roubado o papagaio.

Aníbal nunca admitiu ter sido neste momento de fragilidade que aproveitara para conquistar uma esposa. Para tanto, valeu-se sempre do argumento que ela lhe traía com Betânia, nem por isso deixou de amá-la e nem por isso deixou de treiná-la no ofício de alfaiate.
Mas foi sim naquela tarde que Aníbal ganhou sua esposa, entre os avessos do risco de seu bordado.
Depois daquele dia, o armarinho nunca mais teve hora para fechar, costumavam ouvir rádio até mais tarde.
O casal se deu conta do que estava acontecendo quando a matriz tocou seis horas.
Os dois Josés, de ladeira em ribanceira, despediam-se dos ouvintes para a hora do ângelus.
Ficaram felizes até às sete e meia.
Foi o suficiente.

Todos os vizinhos devolveram as brevidades que não cabiam em Aníbal. Seu armarinho dali em diante tornou-se um ninho de amor e confusão. Nenhum objeto caberia mais em seu lugar exato.

Foi o tempo de o relógio badalar inócuo.
Foi o suficiente.

O deputado Honório Gouvêa nunca soubera
Mas Maria Tolentino surtou por seu amor
Escrevia lhe cartas cívicas sobre a emancipação dos sonhos
Em ritmo valsa e pétala desidratada
Palavras de ordem novo mundo nova manhã
Mas Maria Risca Pedra nunca acordou sã
Recolheu-se ao bordado novela novena
E a um sono nove helenas
Sete Troias sem cavalo que fugisse trotando
Nem nouvelle vague nem novelo de lã
Sem treze estrelos passou a contar os estrenhos
Nos seixos da pedra da turqueza
Passou a viver sem aspirações nobres
Passou como Sofia a mijar na rua
E levantava a saia para os andarilhos
Novo mundo nunca houvera na retórica perdida
Do honorário parlamentar
Da indumentária do homem Gouvêa
Que nunca soubera de Maria
Que surta e risca pedra
E os homens rebelaram e a sorte não veio
Veio o tempo
E a pedra riscada
Maria Tolentino
E suas cartas extraviadas
No sanatório de San Miramar

Honório Gouvêa cheirou buganvília e miosótis
Nas palavras de Maria Tolentino
No perfume de suas ideias amorosas
Depois veio a revolução
E ninguém se anistia deste fastio humano
E o deputado passou a riscar pedra em seus dias
E a fabricar estrenhos de exílio voluntário
Datando poemas e a cantar
Ditando as ditas cartas
De San Miramar
Que só restara Maria Risca Pedra
A fitar o sal a areia
E as palavras líquidas
Deste tempo que veio náufrago

XXXVI

Agamenon decidiu desistir da argila de seus dias, e desse modo esqueceu seus dias. Foi morar no edifício Dona Zoca. Foi ser vizinho de Zé Borracha e do Aníbal com sua mulher alfaiate. Demorou-se um pouco a se habituar às badaladas do relógio da igreja. Principalmente pelo fato de não ser afeito às quermesses e afins.

Seu endereço, Rua Necésio Tavares, precisava mesmo fazer esquina com a Avenida Vigário Antunes. Era bom que a Rua Necésio Tavares fizesse esquina com Avenida Vigário Antunes.

Lá conheceu Mané Cerqueira e apreciou Mané Cerqueira. Lá conheceu Maria Sá Sação e apaixonou-se por Maria Sá Sação… Mais um amor inútil para Agamenon, que sabia que ela era de deus e antes tinha sido de João, o escrivão de polícia.

Fez amizade com Benedito da Padaria e com a Tia Lia.
Uma vez, inventaram de ir ao Rio de Janeiro ver o Flamengo jogar no Maracanã.

Que eu saiba esta foi a última aventura de Agamenon, logo depois suicidou.
Prefiro falar que ele voltara a tentar o desejo da argila. Acredito assim, pois que não podia amputar nenhuma de suas costelas, nem mesmo as mais donzelas.
Agamenon precisava esculpir sua volta. Pois que esculpiu sua ida.

Espero um formato de pássaro. Zé Borracha imagina outro ser alado, já Aníbal confeccionou o terno para sua iniciação argila. E aos barros de outras tabatingas.

Pode ser mesmo lama de nuvens, gama de luzes, leme de lume, arco-íris.
Agamenon, sua coloração Osíris!
Vigário Antunes com Necésio Tavares, ensinamento parco de homem sem posses ou possessões. Solitário em seu coração que era uma multidão contida.
Aos amigos, sempre o rapé, às injúrias, sempre a paciência.

Penso nele com argila de ébano e marfim em divindades antigas. Era um homem antigo. Da água do açude que nutre sua matéria, imagino o verniz para sua madeira, o betume para sua cera, e fogo para seu forno de cerâmicas, o fole para o fôlego de homens novos. Um novo sopro nos moldes.

Sou Reginaldo Miraflores
Cantador de arremedos
Perdoem-me se lhes furtasse o poente
É só poesia
Sou Reginaldo Miraflores
Encolhedor de rios
Eu e meu séquito de desalmados
Passearemos em sua rua
A fim de fazer cortejo solene
E engolir o horizonte em verso
E regurgitar o verso em voo
Voar o horizonte
Perdoem-me se lhes tirássemos as certezas
É só delírio
Sou Reginaldo Miraflores
E eis que estou no seu jardim de begônias
Eis que estou no canteiro central
Com minha viola e meu desarranjo
Pois que não sou poeta de arcanjos
Nem cantor de benfeitorias
Estou passando meu chapéu em sua freguesia
De Panamá e ambrosia
Perdoem-me se não lhes faço
Elogios ou elegias
Perdoem-me se lhes reconheço
Apenas as madalenas
Perdoem-me
Se bem me lembro
Helena e seus novelos
Novelas e novenas
Não nos perdoariam as marias
Sou Reginaldo Miraflores
E esta é minha confraria
De desgraçados e cães com berne
No cerne, famintos
Na certa, poetas

XXXVII

O CASAMENTO DE MARIA RISCA PEDRA COM REGINALDO MIRAFLORES

- Um dia eu vi uma gazela donzela ouvindo uma querela.
- Um dia eu vi um mancebo subindo num pau de sebo.
- Ai a bandeirola.
- Cai a bandeirola.
- Ai. E vem a patrola.
- Não cai que eu sou da patrulha de são Jorge.
- Não vai que eu sou princesa da congada.
- Sabia a senhorita que louvação é cantição dos bem-aventuroso?
- Sabia não.
Sabia o rapazote que cantição é louvação dos bem-aventuroso?
- Sabia.
- Sabia não!
- Sabia não.
- Então pega na minha mão.
Sabia o rapazote que lamiúra é maledictura?
- Sabia não.
Sabia a rapariga que maledictura é lamiúra?
- Sabia.
- Sabia não!
- Sabia não.
- Então me pega pela fita do rosário e do vilão.
Sabia a senhorita que é tudo bem querência e bem-aventurânsia?
- E é perseverânsia.
- Qual é o nome da donzela?
- Eu sou Maria Risca Pedra e venho do manicômio.
Qual é o nome do mancebo?
- Eu sou Reginaldo Miraflores, cantador de arremedos, venho da bodega.
Casa comigo?
- Caso não. Sou prometida de são Sebastião.
Peleja comigo na oração?
-Pelejo não. Sou prometido para acabação
Mas se vier comigo no cortejo…
- Então eu caso então. Por Sebastião.
- Então eu caso também então. Por duas rama de boldo e cansanção.
- Então nós casa então. Por causa de três rima com manjericão.

XXXVIII

Zé Dindica, meio a esmo e meio sem jeito, assim, meio à toa mesmo, iniciou uma coleção, por própria conta e risco, de calotas de rodas de fusca. Sem que esta atividade não descumprisse a premissa dele de no ofício não roubar. Concluiu que roubar calotas de fusca seria pesaroso e custaria caro. Principiou então a vigiar estes automóveis até que as peças se desprendessem, pois achado não é roubado. Logo depois, iniciou negociação, pedia aos proprietários de fusca que o avisassem quando fossem trocar suas calotas que ele ia em casa pegar, dependendo do estado do material, ele até pagava uma gorjeta, ou também dependendo, era ele quem recebia por retirar objeto tão indesejável.
Todos se perguntavam do porque da empreitada de Zé Dindica, que só Zé Barbuda o único que pensou que as calotas já estavam passando a valer bem mais dinheiro, pois não se achava mais delas. Zé Barbuda pegou Zé Dindica na tocaia, e levou todas as suas calotas de fusca para Bem Posta.
Palavra de Zé Risada.

XXXIX

Meu nome neste mundo de solidães é Zé Sossego. Mas verdadeiro nome é descabido de conhecimento, pois que eu sou da ordem dos anjo de acabação bem ajambrada. Comigo junto e de perto acompanhante ninguém se aprenha de solidães. Isto é desagouro é desalogrado e vertiginoso na visão dos horizonte cumprido.
Adonde eu passei ligeiro eu apolpei a mão duma criança pra coloca intenção de perseverânsia nestes vilarejo da acabação no meu patrimônio de desterrar manjerona nas terra do capitólio de São João.
Solidães é com boldo e funcho o melhoramento quase em totalmentes. Agora, totalidade já é só sabedicência de senhor de terreiro grande. Com louvação propriada na intenção de abrir portinhola pros arcanjo e é também que precisa de trovação de doze verso que invoca acabação das solidães do vilarejo que estiver em mandorna, só assim é conseguido o alogramento bem venturoso das portinhola aberta. Passa tudo quanto é bemquerença na aventuração do lugar, mesmo que alguém tivesse desfiado rosário adiante do estrenho da portinhola. Não tira mais do mundo a venturação que termina a maledictura em cantição e leitoria. Não tira mais do mundo lamiúro de agouramento de quem trouxer nos provimento cansanção no meio de três embrulho de estrenho. Que deixa então nos crucifixo da casa que de contrário vem solidães
Eu descerro as trinca das janela por onde vai entrá as bendição. É lugar visto de momento e não escolhe com precocimento. Recolhe aos andamento das nação de preto véio. As que viero bemventurosa na oração de São Raimundo, que tira as peçonha dos homem que é de fé e de bem procedimenação. Quem foi pra mironga perdeu caminho justo que ele finda no estrenho meledicturado desconjura dos anjo da acabação, da ordem sagrada de São Romão.
Um dia eu vi jumenta de damastor proceder verbalizar empacada qual feita como fosse besta de Balaão, pronunciando caminho sem destinamento de voltar.
Damastor arrastou como gigante até estas terá erma como se fosse vê em observância, sua própria iluminatura, como quem pega a esmo caco de vidro e suspeita o espelho.
Que fique bem ajambrado por acabação perante toda a ordem e as outras legião, foi que os arcanjo não teve concessão de perdoar damastor e sua jumenta. Os dois veve agora vida de solidães os dois bebe agora a mesma água dos mal ladrães.
Assim falou Zé Sossego pela homenage e honratura de Absalão que é hoje quem senta, em mandato de trovação, na cadeira do reino das sabedicência e louvaria pelas infinitude iniqua desse cercado de alma, que prossegue persistir em alento.
Absalão eu vim na sua plaga orienta suas novilha e seus garrote, a fim de que num caminhasse a esmo, por jurisprudência de seu reino divino, eles pede acalanto pra embalar a noite dos choroso mais pequeno e laborar com os pesaroso mais ancião um pouco. Um pouco mais ou menos eu canto acalanto e volto pra acabação pra cessa essa invocação, que eu vou descer serra, e a gleba reza em outras noite.
Que nunca havera mais alogramento e desagouração de solidães. Em nome da virgíssima fala Zé Sossego.

XL

Meu nome no mundo é Zé Lourenço. No mundo eu estudo o besouro das chágaras. Em espiritualismo eu venho é louvar quebranto em desfeição eu volto os quebranto pra feitio de atingir seus contrário. Que é os de oposto. Os salafrário dos mandatário de rivilizar com a irmandade da Rosa Místico, cuja oriundicia eu fui um dos afundadores. E ainda zelo pelos pendão dela e também bem como pra todos os brasão dos desagouro que lutasse labutando contra qualquer específico de desagouro e alogramente lamurioso ou de cantição ou de leitoira.
Eu sou evocado é das brenha aquelas esturricada e feia no cerrado tiro peçonha e mal olhado pois que eu ajambro os estrenho das estrada pros caminhante noturno passa pelas portinhola com três ave maria e passar pelas cancela com um pai nosso.
Essa é minha benzedura pros caminhante a pé ou em trote mesmo que me deselegância por cansaços.
Com o besouro das chágaras eu ajambro minha botica eu tenho a cânfora nos cântaro de Salomão. Nas chagaras o aprendizar e decurar o sândalo de São Pio Jerônimo e decampar o bálsamo de São Caio dos Mártires. Depois é feita a misturação pro melhoramento do receituário.
E de difícil tragar se tiver acompanhamento, o meu sugerimento é alfazema do campo e mel da abelha miúda e própole da abelha graúda, ajuntando com um avelã e três pingo aguarrás e querosene protege espírito da embriaguez. Com pitada de almíscar e caroço de pinhão verde do reino tira paixão como quando for doença nos peito.
Tem serventia pra donzela recém desposada em convalecênça e eu também bem como arrecomendo se arremedo pras parteira que suaviza o trabalho parição.
Se botá sete gota de azeite de dendê faz carro de boi cantar em busca das outra cabeça de gado desgarrada da curraleira e fecha as portinhola quando for de pedir cessar os sacramento e as iluminatura.
Eu não passo ensinamento das botica onde tiver de três pra menos quilometro de qualquer estrenho, a não ser que pra menos de sete errante ou pra menos de sete inocente, pois aí a maledictura é finda pelas conjuração da leitoria em lamiúra.
Eu obtive insinamento e passo em adiante, mas num fico sem louvação e estas são minhas observância que eu ponho na irmandade da Rosa Mística e eu ponho pra rodar quando tiver terminação de cancela e portinhola. Quando o homem e a mulher andar livre, que é por isso a feitura da irmandade. Que é por isso que minha botica ajuda.

XLI

Meu nome no mundo é Zé Perereca, eu lido é com a terebintina dos afresco da Matriz de São Bento, eu rogo a São Bento. Eu lido é com a aguarrás de limpar os vitral da Matriz de São Bento, eu rogo a São Bento que os vitral brilha quando o céu consente com as homilia. Eu lido é com a goma laca pra passar nos santo das parede lateral da Matriz de São Bento. Já obtive de poucas a gente, mas, já obtive quem acensurasse eu envernizar os santo, que eu não podia apolpar a imagem do santo se eu viesse da leitoria e aí eu tinha que rezar duas Salve Raínha.
Todos padroeiro deste templo segue nas minha iluminatura, pois que eu labuto com solidães de capelão bem como também. A sim que me venha os provimento da necessidade e algum deleite de graça se for de merecimento que eu pago com penitência pra São Sebastião que tem nome de rei no mundo dos homens. Rei não figura no presépio, pastor vai.
Eu tenho a pretenciosidade de ser rei das ovelha desgarrada e trazê de volta pra curraleira do senhor nosso deus e depois fechar todas as portinhola e cessar com as cancela no mundo e findar com os estrenho de maledictura. Eu acostumo a plantar uma muda de boldo em cada lugar adonde eu arretiro um estrenho e rezo por quem veve em nossas banda botando estrenho nas portinhola que senhor nosso senhor deve obter de conceder perdoarias e benfeitorias.
Este é o verniz dos benfazejo nas iluminatura de um homem e de uma mulher é o betume dos menino receoso e choroso recém nascido de nascimento breve. É o selador das alma no reino do mundo que é de deus que agarante o reino de outro mundo que é divinitude eterna e num acaba com nenhuma mandorna nem desalogramento tão pouco enalgouro.
Ah quantas maledictura eu já deixei pra trais que bom jesus nem louvado seja em vão que já não carece, só tem necessidade minha em estar de agradecimento ao grande deus espírito bem aventuroso e de toda a sabedicência desses mundo e dos mundo de além que deus provinha me de conhecer suas trilha pela iluminatura dos mundo dele.
E se eu topar com tinhoso que eu o tenha em enganação para ele três estrenho envenenado de funcho pra cura de recém nascido com louvação e chá de picão que mata os tinhoso.

E esses são os três anjos da acabação que segue os vivente odonde todos vão. É em vão busca suplício com estrenho e sufrágio com lamiúra cantição e leitoria que esse sujeito cai em maledictura e estas são palavras de sabedicência. Eles persegue os vivente e julga suas iluminatura.

XLII

Isto tudo são memórias quão preciosas como me chamo José. Meu passado em linha cronológica é que ouvi e inventei Josés. Não há mais deles, pelo menos por aqui.
Josés são futuro que desperdiçamos em cruz e marcha que não se sabe para onde.
Josés são estes passados recriados.

Já o presente, é esta fábrica de sapatos com funcionários de nomes estranhos. A fábrica não tem poetas nem presépios (já mencionei algumas vezes como ela funciona, pois é interessante que eu construa argumentos sobre ela, que é tudo que tenho).

Eu, José dos outros, trabalho na fábrica de sapatos, crio calçados e às vezes devaneios.
Eu, José de todos, perco o sono, pois há momentos em que os Josés não voltam mais.
Eu, José para os outros, sinto estórias com cheiro do lodo orvalhado da cidade, este mangue de caramujos.
Eu, José, nunca fui para todos… Simplesmente aceitei o mundo, aceitei meu futuro de sapateiro.
Eu, José que era de Sofia.
Sofia que era para mim, era também para todos. Todos sempre foram minha perdição e minha perda de tempo.

Sofia se foi. Provavelmente, todas as culpas por ela ter partido fria e pálida, foram minhas. Estive expurgando remorso e expiando mortes. Estive à sorte excomungada de cárceres ao sortimento de torturas e automutilação do espírito.

Hoje faço sapatos com consciência turva e se não os fizesse teria enlouquecido. Estou tecnicamente prestes a um infarto. Meus cigarros são o sumo dos esquecimentos.
Faço sapatos e mesmo assim suponho que enlouqueço.

Aí busco sentido na estória dos Josés. Foi uma distração em meu leito de misérias escrever estes mistérios homônimos, estes significados ébrios e etéreos, em suma, ópios
de meu crime.

Estive preso e de lá vi o mundo em Josés, exilado de fortuna. Vi eles dizendo de vida e de morte como eu. Comunguei de Marias e Madalenas, compus um estratagema.
Nas mandalas do meu caminhar ermo e esmo em circunlóquio, circunscrevi narrativas.
Os Josés não me trazem Sofia, mas me trazem papoulas.

Bispo Julião propôs-me trabalhar para que saísse do cativeiro. No início fiquei triste, pois sabia que a fábrica sufocava a mim e a ela.

Depois vi que precisaria ter com o que pisar neste solo móvel de lamiúras, cantições, ambiguições, maledicturas e estrenhos.
Benquerença no mundo quase que são somente as lembranças.

MARILDA MAGUEZAL

José, você não vem
José não veio
Quantos homens eu tenho em você?
Que se esvai em maresia, você
Meu homem de sal e de areia
Você não vem me extirpar os devaneios
Você não veio
E o relógio decantou a lavanda
Dos lençois
Você, meu homem de sol
E centelha
De asseio e pão de centeio
A me lavar manhãs
Mas você não veio
Você não vem e eu sentei-o
Em minha cadeira predileta
Senti-o cio
Depois examinei meu frio e meu calor
Ao torpor de sua carne
Exangue
Farta e retraída
Fatigada e fatiada
Nestas minhas fagulhas de amor
No dínamo de minhas horas
Você não vem no dízimo de minhas preces
Nas dízimas de minhas réstias de lua
Na fração corpórea
Das estrelas que carrego
A esperar
A semear
Meu desejo recôndito
Nas cavas de germinar gerânios
Nas covas de profanar crânios
Nos cânhamos castos
Em sua pele bruta de cravos
Canela
E sementes de bromélia
José
Você não veio
Você não vem
Você não tem
O direito de besuntar poesia
E vagar errante sem meu júbilo
E ofegante sem meus óleos
Seus azeites moram em mim
Seus ópios e ócios
Seus ódios
José não veio
Afanar-me um jasmim
E eu farfalho o alpendre
Desdenho meu seio sem o leite
Que te sacia
Que me perde em exegeses
E me torna a vadiar
Por um jardim de hibiscos enxertados
De matizes e matisses
Numa colônia de cores
Que eu torno opacidades
Que eu torno cortina de obscuros
E eu escureço a rosa louca
No meu compêndio de cousa pouca
Em tristes psicotrópicos
Em chistes utópicos
Delirantes de minha solidão
A tarde vagueia prozac
E eu prosaica
A te tecer um agasalho
Este assoalho rangendo em desvario
Você não veio
José
Meu meio meu fim
Meu começo arrancado de mim
Verdade adorada
Jaz
Traz-me um acalanto
Faz-me um fumo nas ideias
Cessa esse canto de sereias
Esse banto de medeias
José
Minha ventura desventurada
Minha cor descolorida
Minha dor mais dolorosa
Mais jocosa
Meu mistério mais mucoso
Mais idoso
Mais bondoso
José não vem
José, você não veio
José
Marchando
Lustroso
Pelas lendas do caminho
Pelas sendas dum pergaminho
Com rama de murta
Com sumo de hortelã
Poções de boldo alecrim
Monções de manjerona
Cansanção e funcho
José,
Eu sou a erva daninha de sua obra
O quebranto que te faz voltar
Foi cândida macumba
Macondo de orações furtivas
Foi uma homilia
De subterfúgios
Foi um sermão
Tão quente quão morno
Oxalá fosses frio
Como um cão morto
Em comum acordo
Caminhando no mar ressuscitado
Entre uma treva da fenda
E uma trova mais funda
Falo calo
Halo
Rosa cálida
E findo
Peço meço
Prosa fálica
E cesso
Estou árida de seu açoite
Afoitou-me à noite
Um desejo azougado
Malogrado
Estou a chorar no tear
Num longo bordado
Eu teço os dias
Que te compõem prismas
Que te superpõem topázios
Turquesas e turmalinas
Que te põem reto e conciso
Em usina de amianto
Em resina de silício
Vem José
Calcular-me as auroras
Subtrair-me os crepúsculos
José não veio
Não veio nosso filho
De fio teia e profecias
Eu professava minha descrença
De José não vir
Não rir
José não vem
José não vá
Irei à ira
De meus saravás
Meu satanás
Minhas pajelanças
E curandeirismos
Iemanjá me traz
As águas de meu naufrágio
Os abismos de meu sufrágio
O chão do meu apanágio
E o clarão deste adágio
Valsa triste
E o maldizer de meu vernáculo
Eu pedinte
José não vem
Abrandar a mendicância do espírito
Eu
Moribunda de almas
Vagabunda de lamas
Eu errática
José não vem
Tenho premonição de ventania
E a tempestade é só minha perdição
Eu sou Marilda manguezal
Doravante
Sou doída da dor
Que deveras nem sinto
Mas sinto o vendaval
Parece-me o oceano
A vir morrer
Em meus pés
A vir descansar em meus poros
Pó de pedra e lua
Rocha e caminho
Descaminho
José não veio
Entregar-me embornais
E ais desaforados
Desafortunado mal
É você a vaticinar minha tumba
Você não veio
Você não vem
José
Acalma o cântaro
De mulher doida
Esse cântico de guernicas
Esse bálsamo de arnicas
Esse sândalo aquela tâmara dama da noite
Sem ir ou porvir
Sem devir o polvilho de sua massa
Sem seu chumbo
Seu estanho desfeito
Sua argamassa e minha má feição
Minha afeição por pães
De outras alvoradas
De três galos em não
De sete anjos no chão
Sete anjos no trigo
Sete anos
No jogo e no jugo
Subjugada pelo sol dum Salomão
Pelo salmo dum pai Serapião
José
Você não veio
José
Não vem mais
Exploro de seu vocábulo
O almíscar
E o malte e avelã
Oh perfídia perfeita!
Numa liturgia de desgraças
Numa eucaristia de tragédias
Numa litania de verdade
Oh verdades perfeitas, José!
Sua catadupa seu cadafalso
O alheio em ti
No cantochão dos monges
Os terapeutas os hermeneutas
Não te evocam do fosso
De minha entranha
Minhas reentrâncias
Em oníricos entrechos
Do tutano viscoso
De sua seara de visgo
Do delta de suas vontades
A catarata de minha agonia, José!
O escrutínio de seus caprichos
As cartas
A quiromancia
Minha sorte em suas mãos
Meu pranto a seus pés
O assombro, José.
A penúria
A penumbra
De minha alma
José vem, venha e não volte.
Com seu sêmen
Escalando a fissura ébria
Do sopro
Com seu Iêmen
Subindo por revoluções
Etéreas
Do céu da minha boca evanescendo
O sono da ranhura
Você, dono de minhas hachuras.
Dono de minha alcova
Cantoria e cantilena
Aboio lânguido
Quimera querela paixão
Receio de morte
Morte de estrelas sujas entre nuvens.
E a noite cai na Guanabara
Como um império etrusco.

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